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Assinala-se hoje o Dia Mundial do Cancro da Próstata. É o tipo de cancro mais frequente entre os homens, responsável por mais de 100 mil mortes na Europa em 2020. Sendo um tipo de cancro tão frequente, é importante que se fale dele sem medo e sem tabus. O professor Avelino Fragas está aqui conosco. Viva, professor.

Viva, como estão? Bom dia a todos. Bom dia ao nosso auditório.

Professor, a próstata é aquela glândula do aparelho reprodutor masculino que se situa sob a bexiga e é responsável pela produção do líquido seminal. E o que é o cancro da próstata?

O cancro da próstata é uma transformação maligna das células dessa glândula, das células normais. Nós não nascemos com cancros, tirando raras exceções, portanto, isto é um cancro adquirido e, sobretudo, próprio do envelhecimento. O cancro antes dos 40, 50 anos é muito raro. A partir daí, começa a ser mais frequente, sobretudo nos homens mais idosos. É uma transformação maligna das células normais da próstata.

E a que sintomas é que devemos estar alertas, professor?

Esse é o drama do cancro da próstata, que o cancro da próstata não dá sintomas na fase inicial. Ele só vai dar sintomas numa fase muito avançada e, de certa maneira, já ultrapassada nas hipóteses de tratamentos curativos. Na fase inicial, ele é perfeitamente assintomático, porque desenvolve-se como uma pequena transformação maligna das células normais e, portanto, habitualmente é completamente assintomático.

Quando é que chega àquela altura em que nós temos que dizer a nós mesmos: "Chegou a altura de procurar um médico"?

Essa é uma boa questão, muito bem colocada. Os homens aos quais é obrigatório fazer o rastreio, são os homens que têm uma história familiar de cancro da próstata, o pai ou um irmão teve cancro da próstata, ou a mãe, um cancro da mama, também está associado ao desenvolvimento de cancro da próstata. Se houver uma história familiar de cancro, nomeadamente cancro de próstata no pai ou em irmãos, em familiares próximos, este homem é um homem de risco e deve ser vigiado a partir dos 40 anos de idade. E aí é obrigatório. É também obrigatório nos homens de raça negra, onde o cancro da próstata é mais prevalente e mais agressivo. A partir dos 40 anos, nestas duas populações, homens com história familiar e homens de raça negra. A partir dos 50 anos de idade, considera-se que os homens devem fazer, neste momento, aquilo que se defende, é a realização de um rastreio oportunístico. O que é isso? É quando o homem vai ao médico, por qualquer razão, para fazer um check-up, fazer as suas análises de rotina, ver como é que está o colesterol, o ácido úrico, essas coisas todas, tudo aquilo que for considerado necessário pelo médico de família, então deve pedir a análise da próstata, que é um marcador tumoral muito importante que se chama PSA. Essa análise, que é feita a partir dos 50 anos de idade em todos os homens, chama-se de um rastreio oportunístico, é uma questão de oportunidade. É isso que hoje em dia se defende em relação ao cancro da próstata, antes que ele dê sintomas.

Antes que ele dê sintomas. Sendo um cancro assintomático e silencioso, aplica-se, sobretudo aqui, aquela regra que se aplica aos restantes cancros, isto é, quanto mais cedo se diagnosticar, melhor?

Sim, isso é uma evidência. O cancro da próstata diagnosticado precocemente, e isso ocorreu, sobretudo, nos últimos 20, 30 anos, na Europa toda e em Portugal também, conduziu uma diminuição da mortalidade, isto é, este rastreio oportunístico, esta procura do cancro da próstata, provocou dois fenômenos muito interessantes: um aparente aumento de incidência, que não é incidência, mas sim um aumento do diagnóstico, e isso simultaneamente acompanhado por uma diminuição franca da mortalidade em toda a Europa e em Portugal também. Houve uma quebra significativa da mortalidade associada ao cancro da próstata devido ao diagnóstico precoce.

Professor Avelino Fraga, há fatores de risco, ou seja, coisas que se fazem no dia a dia que podem potenciar um cancro da próstata?

Essa é uma boa questão para esclarecimento dos nossos ouvintes, porque os únicos fatores de risco que realmente existem são aqueles que eu lhe disse há pouquinho, que é a história familiar e a raça negra. O resto, não existe nenhum fator de risco. E há muitos doentes que associam a atividade sexual ou a ingestão de determinados alimentos ou determinados hábitos, e às vezes até procuram os médicos questionando se podem andar de bicicleta, como é que é em relação à atividade sexual, etc. Isso são tudo mitos que os doentes têm, às vezes conversas de café ou de consulta, da internet, que tem, de facto, muita informação. Depende como nós lemos a informação, como é óbvio. Isto para explicar muito claramente que não existem outros fatores de risco que não sejam a idade A história familiar e a raça. E depois a idade. À medida que ficamos mais velhos, a incidência de cancro da próstata aumenta, o que não quer dizer que sejam cancros agressivos.

Pois. A detecção do cancro da próstata pode ser feita de várias formas. O professor falou há pouco do PSA. A detecção ou o diagnóstico mais comum é o toque retal. Ainda existe medo, receio, vergonha em realizar este exame, professor Avelino Fraga?

O diagnóstico é feito, de facto, o grande marcador tumoral que existe, e é considerado talvez o melhor marcador tumoral da medicina atualmente, há muitos anos, e continua a ser um marcador com falsos positivos e falsos negativos, mas muito fidedigno da doença, é a análise sanguínea chamado PSA. O PSA associado ao toque retal tem um valor de predição muito elevado. Isto é, o toque retal, a palpação da próstata, associada ao PSA, ajuda a esclarecer valores de PSA, às vezes, próximos do limiar, um pouco mais altos e, portanto, o toque retal é fundamental na observação do doente. Muitos homens têm, de facto, receio do toque retal, associam muitas vezes as queixas prostáticas ou o receio de doenças prostáticas a problemas do foro sexual. E portanto, isto é muito cultural e muito típico dos povos latinos, o receio de apalpar a próstata, de associar as queixas prostáticas ou não a problemas do foro sexual. E de facto, há alguma inibição de muitos homens em ir ao médico e com frequência até dizem que é a primeira vez que vão ao médico, é a primeira vez que vão ao urologista e às vezes vemos homens já com 70 anos de idade. E portanto, que este programa também contribua para desmistificar isso e que contribua para que os doentes recorram ao médico. E a medicina portuguesa, hoje em dia, evoluiu muito. Nos últimos 20, 30 anos, como vos disse há pouquinho, houve um aumento de diagnóstico e uma diminuição da mortalidade do cancro da próstata, fruto da fantástica evolução dos nossos cuidados médicos. Portanto, não é só dizer mal do nosso sistema de saúde, é também dizer bem quando as coisas correm bem, e muita coisa tem corrido bem ao longo destes últimos 40, 50 anos, nomeadamente os últimos 30 anos, em relação ao cancro da próstata, com o aumento do diagnóstico e uma diminuição franca da mortalidade. Os doentes aparecem muito mais precocemente e pode-lhes ser oferecido um tratamento curativo, e é oferecido o tratamento curativo a muitos destes doentes, transformando isto numa doença-

Que tipo de tratamentos?

Os tratamentos dependem da doença e da idade do doente e devem ser oferecidos, discutidos com os doentes.

Portanto, tem tratamento o cancro da próstata.

Claro que sim. Quando o diagnóstico é feito e a doença está localizada, o doente pode ser submetido a uma cirurgia radical ou fazer radioterapia, ou até alguns tratamentos menos invasivos, e pode até, se o cancro não for muito agressivo, se for de bom prognóstico, fazer vigilância ativa. Isto é, vigiar o próprio tumor sem intervir sobre ele, até que ele venha a mudar de grau e a evoluir. Chama-se isso vigilância ativa. E pensa-se que cerca de 30% dos doentes poderão entrar em programas de vigilância ativa. Quando os tumores são mais avançados, existem hoje em dia muitos tratamentos e mesmo para tumores avançados, é lícito para muitos doentes uma esperança média de vida bem superior a 10 anos depois do diagnóstico e com qualidade de vida, que é um aspeto muito importante.

Exatamente. O que é que nos pode dizer, professor Avelino Fraga, sobre a forma como os tratamentos têm evoluído nos últimos anos? Há a esperança de que possa surgir nos próximos tempos uma cura?

Eu não gosto de usar em oncologia, quando se falar em oncologia, a palavra cura, porque o que acontece no cancro é uma transformação. Não existe cancro, nenhum cancro da próstata, ou seja ele qual for, sem mutações. Portanto, o que acontece quando nós adquirimos um cancro é que há mutações no nosso DNA e as mutações ficam para sempre. E portanto, nós, os médicos e todos os profissionais de saúde envolvidos no tratamento destes doentes, o que fazemos é transformamos esta doença numa doença crônica, como se fosse a hipertensão, a diabetes, o colesterol elevado, e vamos tratando. Em relação aos tratamentos, a evolução tem sido absolutamente extraordinária. Desde os tempos em que eu era interno e quase que não havia tratamento, o tratamento era só a castração química ou castração até cirúrgica. Hoje em dia temos cirurgia radical, temos radioterapia, temos braquiterapia, temos tratamentos focais dirigidos à doença localizada. Depois temos hormonoterapia, temos hormonoterapia de segunda geração, fármacos que nos últimos 10 anos têm sido desenvolvidos. Depois temos quimioterapia, temos imunoterapia. A evolução farmacológica na O desenvolvimento farmacológico para o cancro da próstata tem sido absolutamente extraordinário. Doentes que nós antigamente tínhamos com metástases e com doença avançada, hoje conseguimos transformar essa doença numa doença crónica e prolongamos a vida dos doentes com qualidade de vida durante vários anos. Portanto, tem havido uma evolução absolutamente extraordinária e que nós, no nosso sistema público e privado, em Portugal, temos completa possibilidade de tratar, de oferecer estes tratamentos a todos os doentes. E é com esses tratamentos que temos conseguido a redução da mortalidade. Portanto, temos tido um diagnóstico a tempo e horas e depois temos tido um sucesso significativo nos tratamentos que hoje em dia estão disponíveis para os doentes que têm cancro da próstata.

"Diagnóstico a tempo e horas" é uma frase muito importante, não é? Quando se fala de cancro da próstata. E já ficou claro aqui na nossa conversa que a detecção precoce salva-vidas. Isso quer dizer que é preciso estar também informado e sensibilizado para o problema. Professor, há projetos de literacia em saúde relacionados com a próstata?

Sim, tem havido. Esta problemática da literacia é um projeto que recentemente, há relativamente pouco tempo, tem sido desenvolvido na área da saúde pela Direção-Geral de Saúde. Esse esforço, pelo menos no plano teórico, tem estado presente a partir da própria Direção-Geral de Saúde. Depois, as organizações científicas e associações de doentes, a Associação Portuguesa de Urologia, a Associação Portuguesa de Oncologia Urológica, as associações de doentes, também têm insistido muito neste problema da literacia, que é nada mais, nada menos do que saber interpretar a linguagem médica, porque se nós queremos discutir os assuntos com os doentes e colocar em cima da mesa as diferentes hipóteses de tratamento para que os doentes depois possam escolher e estar bem informados, evidentemente que eles têm que dominar a linguagem mínima, de maneira a perceber do que é que estamos a falar. E a literacia em saúde é muito importante, como também é na área da economia ou outras. Portanto, há, de facto, este problema de literacia em Portugal, sobretudo na área da saúde.

Que é preciso.

Que é preciso desenvolver.

E que é preciso desenvolver.

De modo que os doentes possam participar ativamente nas escolhas terapêuticas.

Claro que sim. Professor Avelino Fraga, agradeço as recomendações, também as sugestões e os alertas que aqui nos deixou. Muito obrigado.

Foi um gosto. E cuide da sua próstata também. É esta a sugestão que eu lhe deixo. Não tenha receio. Isto não é só apelar aos outros para ir ver a próstata. Fica aqui o desafio para nós os dois, para si e para mim, neste mês do homem. Portanto, vamos ver a nossa próstata de todos.

Muito bem, neste Dia Mundial do Cancro da Próstata, aquela avelã que os homens têm perto da bexiga e que adoece silenciosamente. Saiba mais sobre a doença e outros dados em prostatasemtabus.pt, uma plataforma de literacia em saúde da Astellas Pharma, que conta com o apoio da Associação de Investigação de Cuidados de Suporte em Oncologia, do Grupo Português Genito-Urinário, da Associação Portuguesa de Urologia e da Sociedade Portuguesa de Urologia Oncológica.