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Agradeço ao Presidente da República vir iniciar esta série de podcasts, mas hoje é com Marcel Rebelo de Sousa que eu vou falar sobre o pré 25 de Abril. E se me permite, vou lhe dar alguns marcos. O lançamento do Expresso a 6 de janeiro de 73, dirigido por Francisco Balsemão, o abandono da Ala Liberal por Sá Carneiro, desiludido com o que não fora a Primavera Marcelista, a realização do Congresso da Oposição Democrática em abril de 73. Saltando um bocadinho pra frente, a publicação do livro do General Spínola, em fevereiro de 74, o falhado Golpe Militar das Caldas em 16 de março, a chuva de aplausos que trovejou sobre o Estádio José Alvalade num Sporting x Benfica, dias depois, com a presença de Marcelo Caetano, a homenagem de alguns generais a Marcelo Caetano, em desagravo pelo Golpe das Caldas. E relendo a edição do Expresso de 20 de abril de 73, dias antes do 25 de abril, via-se que pelo menos havia uma coisa que funcionava e estava viva, que era a atividade econômica. Jean Palimo ia investir em Angola e Moçambique e Miguel Kina em estaleiros no país. Isto tudo, quer começar por onde?
Eu começo por dizer o seguinte: quando Marcelo Caetano entrou, havia três desafios que tinha. Um era mudar economicamente o país, abri-lo à Europa, liberalizá-lo, se quiser. O segundo era liberalizar politicamente o regime. Não era democratizar, era liberalizar o regime. Era um meio-termo lógico quanto à democracia. Terceiro era abrir caminho para o que depois nós chamamos de colonização, mas que ele via como autonomia progressiva dos territórios ou províncias ultramarinas, para uma coisa que ele sonhava no início que pudessem ser novos Brasis.
Novos Brasis.
Três fases. A primeira fase é 68, 69, dois anos, em que a esperança dominava o ceticismo, o pessimismo. As pessoas acreditaram que sim, que ia ser.
Mário Soares acreditou um bocadinho.
Todos acreditaram um bocadinho. "Isto vai mudar". E mudou alguma coisa. O que é que mudou nesse primeiro período? No que respeita à parte econômica, mudou. Marcelo Caetano vai buscar os tecnocratas, vai buscar Rogério Martins, Xavier Pintado, João Salgueiro, Vasco Leonel e mete-os a trabalhar no desenvolvimento econômico e social do país. Vai buscar um embaixador muito prestigiado, Calvet de Magalhães, pra negociar o acordo comercial com as comunidades europeias, que é celebrado depois em 72, que é um primeiro passo para a integração europeia de Portugal. Liberaliza, de facto, a economia e há mais grupos econômicos a mexerem-se. Uns que às tantas entram em desavença com ele, ou ele, governo de Marcelo Caetano, com esse grupo econômico, que foi Champalimaud. Outros não, outros emergiram. Jorge Brito aparece como um grupo próprio, Miguel Kina aparece com grupo próprio, concorrem às autoestradas, é lançado o concurso de autoestradas. Há uma liberalização econômica no país. O país já vinha atrás, com um crescimento econômico apreciável.
É verdade.
E, portanto, o que acontece? Há uma nova classe média que emerge, e já voltamos a isso, porque isso é muito importante na transformação do regime.
Exatamente.
Depois, nesses primeiros dois anos, em termos de liberalização política, ele dá passos. Forma-se a Ala Liberal. À frente da União Nacional estava Mário Castro, um homem aberto, diríamos hoje democrata cristão. Entram nomes como Pintelha, que era o líder da Ala Liberal, Francisco Sá Carneiro, Miller Guerra, Francisco Pinto Balsemão.
Mota Amaral.
Mota Amaral e outros.
Miller Guerra.
Ao mesmo tempo, realiza-se o primeiro congresso, naquela época, da Oposição Democrática, em 69, em Aveiro.
Abril de 73.
Não, esse é o segundo.
Desculpe.
69. Depois, ele ainda nessa primeira fase, deixa regressar Mário Soares, deixa regressar o bispo do Porto, Dom António Ferreira Gomes, e avança para, entre aspas, as eleições de 69, onde há várias listas. Lista CDE, a esquerda PCP, mais extrema-esquerda, mais a esquerda independente à esquerda do PS, PS. Em Lisboa, monárquicos independentes, anti-regime, mas independentes. E depois, uma mistura, que é a União Nacional, que vai desde Franco Nogueira a Sá Carneiro. Portanto, mete tudo o que é possível no quadro de uns mais conservadores, outros mais pela abertura também.
Mas temos que dizer que mete Sá Carneiro porque estava na Ala Liberal, que era uma espécie de um compartimento da Ala Liberal.
Aceitaram, no Porto, como em Lisboa, como noutros sítios, vários que depois formariam a Ala Liberal. Depois acontece que, além disto, no plano ultramarino, diríamos hoje africano, ou se quiserem, colonial, há passos. Marcelo Caetano vai à Angola e Moçambique, corre muito bem essa deslocação, promete a revisão da Constituição, promete a revisão dos estatutos político-administrativos das chamadas províncias ultramarinas para dar maior autonomia. É autorizada a Intersindical, quer dizer, pela primeira vez é possível aos sindicatos terem direções eleitas não homologadas nem controladas pelo Estado, em 69. E, portanto, tudo isto dava um cheirinho de que vinha a caminho.
Parecia que não era.
Parecia que ia haver ao menos alguma liberalização política, certamente a liberalização econômica, certamente a integração europeia e possivelmente alguma autonomia em África. Acontece que tudo isto conhece um ponto de excitação a sair às chamadas eleições de 69.
E regride.
Por quê? Bom, logo aí, Marcelo Caetano reúne vários grupos de pessoas para ouvir sobre o futuro. Dez grupos. Eu fiz parte de um dos grupos que lá foi, com Miguel Relvão Telles, com João Salgueiro, com Deolinda Freitas João Marala.
O grupo tinha um nome?
Não, não tinha grupo nenhum. Foi um grupo que ele convidou, os mais novos. Foi o único que defendeu a conversão das comissões eleitorais em partidos.
Qual? Ah, o único que defendeu.
Este grupo foi o único, dos 10. Havia um grupo de militares, havia um grupo de empresários, havia um grupo de políticos mais conservadores. E no fim, Marcelo Caetano diz: "Bom, eu ouvi 10 grupos e tenho a dizer-vos que é o único grupo que defende estas ideias, em termos de não apenas liberalização, mas democratização do regime. Temos dois problemas", dizia ele. "Um chama-se Partido Comunista Português. O regime não pode aceitar facilmente, a começar no Presidente da República, a legalização do Partido Comunista Português, só no fim de um processo muito longo. Se isso for possível. E segundo, é o ultramar. Também não é possível admitir desde já um caminho com referendo, sem referendo pra independência".
Isso espantou-me.
A mim não me espantou.
Era o que estava à espera.
Era o equilíbrio do regime. Ele tinha assumido, em certas condições, o lugar de Presidente do Conselho de Ministros. Acontece que ainda faz a remodelação de janeiro de 1970. Aí vem Veiga Simão, que lança a política de renovação da educação, que vai dominar a democracia durante 20 anos.
Mas é outro marco.
Mas é outro marco.
Positivo.
Aí o meu pai entra para o trabalho e para a saúde, e são lançados os centros de saúde, portanto, os cuidados primários. Obra, aliás, não do meu pai, mas do Secretário de Estado Gonçalves Ferreira, que era um socialista utópico do grupo Seara Nova e que era diretor do Instituto Ricardo Jorge, de Saúde Pública, e ia caminhando por mais um tempo. Começa a ser cada vez maior a divergência entre, por um lado, os tecnocratas e Marcelo Caetano. Um diálogo cada vez mais difícil. Eles acabam por sair, pelo menos João Salgueiro sai do governo.
É verdade.
E Pinto Leite morre.
Num desastre de aviação.
Num desastre na Guiné. E Pinto Leite era o grande elemento de ligação da ala liberal a Marcelo Caetano. Quando ele morre, tem de ser escolhido um líder, e é Francisco Sá Carneiro. Francisco Sá Carneiro emerge, só que Sá Carneiro não tinha boas relações com o Marcelo Caetano, e Marcelo Caetano não tinha com Sá Carneiro. E portanto, Sá Carneiro era mais radical do que Pinto Leite. Entendia que não se ia esperar uma eternidade pela liberalização econômica, era preciso liberalizar e democratizar politicamente. Entretanto, ainda em 1970, que é já o fim da primeira fase, ainda nessa fase, nós encontramos a conversão da União Nacional em Ação Nacional Popular e, por outro lado, a autorização da SEDES. A SEDES vai ser o embrião do futuro PPD/PSD.
E do futuro PS.
E do futuro PS.
Exatamente.
Ou melhor, o PS já existia, havia a Ação Socialista Portuguesa, que viria a converter-se em Partido Socialista antes do 25 de abril, mas muita gente da SEDES viria a ser vários líderes do Partido Socialista no futuro. Entra-se numa segunda fase, quando, em 1971, e é a fase da desilusão.
E do peso e da sombra.
A desilusão é assim: percebeu-se que Marcelo Caetano tinha chegado tarde à idade e tarde no tempo àquele lugar. Ele perde nesse ano a mulher, depois de uma longa doença. Há quem pense que ele tem uma crise de saúde em 1970, a família entende que não, não é verdade. Mas o que é facto é que em 1970, começa a patinar a liberalização política e começa a patinar o caminho para a autonomização em África. E então o que é que se passa? Passa-se que sai João Salgueiro, os liberais estão cada vez mais desconfiados entre 70 e 71. Passa a Lei da Liberdade Religiosa, muito querida pelos liberais, mas não passa a Lei de Imprensa. Continua a censura com outro nome.
Francisco Salgado e Sá Carneiro se esforçaram tanto.
E não passa a revisão constitucional que queriam os liberais. E que era muito simples, era Marcelo Caetano aceitar aquilo que tinha defendido em 51. Em 51, tinha achado que se devia ter sufrágio direto e universal, era importante. Como sabe, naquela altura não havia isso já, desde 58, desde a campanha de Humberto Delgado, era regressar ao voto direto e universal, era ele ir pra Presidente da República e abrir caminho na chefia do governo e dar um sinal mínimo de formação dos futuros partidos políticos. Ora bem, a revisão constitucional é uma grande desilusão, os liberais ficam derrotados. Na Câmara Corporativa, aliados dos liberais ficam derrotados. Maria de Lourdes Pintasilgo fica derrotada. Deolinda Freitas João Marala fica derrotado. André Gonçalves Pereira fica derrotado. E aí percebe-se, no dia em que a revisão constitucional é chumbada, percebe-se que tinha acabado a Primavera Marcelista. Mas faltava a confirmação, e a confirmação vem em 72, quando é reconduzido o almirante Américo Tomás. Ainda há um esforço entre 71 e 72 dos liberais para ter como candidato Spínola. Ou então Venâncio dos Santos, outra hipótese À direita, há quem entenda que ele usa de arrega. Mas Marcelo Caetano, com o argumento de que tinha esse compromisso para com quem o tinha nomeado, mantém como candidato, apoiado agora pelo novo partido, Ação Nacional Popular, mantém Américo de Mais.
Só um momento. Mas era falta de uma certa coragem ou de capacidade de liderança, ou era já a soma de muita desilusão, porque ele no fim estava melancólico?
Mas ainda não era o fim. Ainda vamos em 72. Não, em 72 é a última chance que tem de inverter o processo ou de recuperar o processo, se quiser. Reúnem-se empresários. E há uma lista de empresários renovadores que pede para que ele vá para Presidente da República para desbloquear a chefia do governo. Reúnem-se os liberais, reúnem-se setores à direita da nova direita liderada por Freitas do Amaral. Isto é, há um movimento no centro, no centro-direita, na direita mais moderada. Mas Marcelo Caetano mantém essa posição. Ao manter essa posição, fecha as portas e começa aí a história do "Expresso". Arranca em 1972, tem um longo período de gestação até sair para a rua em 6 de janeiro de 73. Aí que a sede se radicaliza. Há um colóquio a que vai José Manuel de Melo, mais o embaixador que tinha negociado o acordo com as comunidades europeias, mais um líder cooperativo, o Eugénio Mota, a defender a Europa, a liberalização, a democratização. E aqui surge o aspecto mais interessante, tem a ver com a liberalização econômica, com a nova classe emergente. Vasco Polido Valente publicou, a certa altura, no "Expresso", um artigo que desapareceu e é dos mais geniais de que me recordo dele, que se chamava e teve muitas coisas geniais, que se chamava "Pássaro de Três Asas" ou uma coisa desse gênero. Quer dizer que as três grandes ruturas políticas e constitucionais portuguesas na história contemporânea têm a ver com o quê? Uma classe média que sobe, isto em 1911. Eu acho que ele põe a Revolução de 1820, Revolução Liberal, depois 1911 e depois, isto é o que nos interessa, que é 1974, o futuro 74. De repente, há uma classe média europeia que quer a abertura do país, que tem dinheiro, que tem influência, que diz que não é possível continuar num país fechado a tudo aquilo que o rodeia, que é preciso, portanto, democratizar, desenvolver e descolonizar. A tese do Vasco Polido Valente é a seguinte: isto significa que a transformação econômica ocorrida nos anos 60 e depois acelerada pelo início do marcelismo, conduz àquilo que é o regime perder a direita moderada, o centro-direita, o centro, o que restava disso. Fica acantonado na direita da direita radical do regime.
E só.
Só. E o "Expresso" é o sintoma disso. A sede é o sintoma disso. Os movimentos que se geram são o sintoma disso. Entretanto, o PCP, que liderava a oposição clássica, lança a luta armada. O PCP até então não tinha recorrido à luta armada e constitui a ARA. E a ARA começa a fazer os primeiros atentados bombistas. A extrema-esquerda, nomeadamente o PRP-BR, começa com atentados bombistas, que começam no final deste período e vão até 74. Radicalizam a oposição. Entretanto, o Partido Socialista começa a radicalizar a oposição, depois de recusada a formação de partidos. Acabará por se constituir, um ano mais tarde, em partido, Partido Socialista. Isto quer dizer que há uma aceleração em 72 e essa aceleração conduz ao período da queda a pique de Marcelo Caetano, que é 73, 74. Em 73 acontece: Sá Carneiro renuncia ao lugar de deputado na Assembleia. Miller Guerra renuncia ao lugar de deputado na Assembleia. Os dois dizem, no título de um livro de Sá Carneiro: "A liberalização está bloqueada". Acabou. Só resta uma maneira, a rutura. E a rutura com quem? Com os militares. Por quê? Porque o PCP tinha sempre defendido a revolução nacional popular, com apoio militar, mas popular. Fica claro que tem de ser uma rutura promovida por um pilar fundamental do salazarismo, que era os militares. A Igreja começa a separar-se, por coincidência, no início de janeiro, ao episódio da Capela do Rato.
Exatamente.
Que é a Igreja defendendo a paz e o fim da guerra colonial.
E uma vigília, sim.
E, portanto, tudo começa a acelerar a partir dessa altura. Os liberais rompem com Marcelo Caetano. No final, apenas candidata pela União Nacional, bota Amaral. Nas últimas eleições, entre aspas, de Marcelo Caetano e José da Silva, só que tinha sido o advogado do bispo do Porto. Todos os outros saem. A sede está cada vez mais crítica. O PS começa a organizar-se. O PCP e o PS começam a estabelecer ligações com militares, jovens militares. O movimento dos capitães arranca, e arranca na base de medidas do governo Que eram consideradas como inaceitáveis em termos de estatuto militar. Nomeadamente, como já não bastavam os militares do quadro, ia-se buscar milicianos e buscar estudantes universitários, o que acentua a crise que já tinha existido em 69, 70, acelera nos meios universitários, mas dando-lhes estatuto remuneratório e financeiro superior aos militares de carreira.
Ao das Forças Armadas, o que também semeou ali uma-
Começam as reuniões do movimento dos capitães, quer no continente, na altura chamado Metrópole, quer nos territórios africanos. Spínola, entretanto, sai da Guiné. Entretanto, há um agravamento da situação militar, porque Spínola sai de Guvernador da Guiné, vem para Vice-Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas. Costa Gomes sai de Angola, onde tinha conseguido dividir a UNITA do MPLA e fazer uma espécie de acordo com a UNITA, limitando o espaço do MPLA ao norte, mais a FNLA, que era sobretudo norte. Sai para Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas. Os dois, teoricamente, por escolha de Marcelo Caetano, para os ter perto de si, para o apoiarem, mas já em afastamento progressivo a Marcelo Caetano. Em Angola, a situação, apesar de tudo, não se agrava substancialmente, mas agrava-se na Guiné e a Guiné-Bissau é proclamada unilateralmente independente em setembro de 73. Em Moçambique, agrava-se a situação brutalmente com três frentes, não apenas Cabo Delgado e Inhassa, mas também a zona Tete, por causa de Cabora Bassa, que se tinha arrancado a sua construção. E portanto, quando, por exemplo, o futuro ministro do Ultramar, o último ministro do Ultramar, que é o meu pai, vai à Guiné, Angola e Moçambique no início de 74, volta a perceber que a Guiné é um caso insolúvel, que Moçambique está transformado num caso insolúvel, Angola é que teoricamente não é. E Marcelo Caetano levanta esta questão num Conselho de Defesa: é possível deixar cair a Guiné-Bissau sem isso atingir a posição de princípio do regime? Ora bem, estamos, portanto, em 73. E em 73 tudo acelera. Vamos pegar naqueles três objetivos do Marcelo Caetano. Parte económica, União Europeia. Não é a União Europeia, era Comunidades Europeias. Bom, aí a economia andou por si. Rogério Martins tinha saído, mas tinha deixado a nova política industrial virada para a Europa, já não para África. Xavier Pintado, a mesma coisa. João Salgueiro tinha deixado os bolsos das futuras regiões de planeamento e da regionalização administrativa. Tinha ido para a investigação científica e tecnológica, que era considerado um núcleo de transformação futura do país. Mas essa parte era a parte que verdadeiramente é o legado de Marcelo Caetano, que é deixado, e de transformação da sociedade portuguesa. A sociedade portuguesa é, mesmo do ponto de vista comportamental, completamente diferente em 73, relativamente ao que era em 68. O papel da mulher, a progressiva autonomização e emancipação da mulher, o papel da juventude, a mudança nas universidades. Aí Veiga Simão tem um papel fundamental, porque prepara o lançamento dos politécnicos e prepara o lançamento das novas universidades.
Um instrumento tão eficiente de educação.
E, portanto, isso transformaria de tal maneira a transição para a democracia, que depois os primeiros ministros da democracia vão ser todos discípulos do Veiga Simão, um a um. Olhamos para eles e é Roberto Carneiro, Vítor Crespo, Marcelo Grilo, o discípulo do Marcelo Grilo, Guilherme d'Oliveira Martins, um a um, Ferrosta Silva, tudo. Mas esse foi o aspecto que provocou precisamente a aceleração da transformação política. A sociedade tinha mudado. Por que a classe que tinha poder económico, a classe média, não havia ter poder político nos partidos, na democracia? Por que havia de ser uma minoria de velhinhos, vindos do passado, a continuar a dominar a política? Por quê? Quando havia uma nova geração que estava a emergir e que é que entra na revolução. A revolução é feita pela geração de então 20 anos, eu tinha 20 e poucos anos, ou 30 e poucos anos. As pessoas com 40 anos já eram semivelhinhos e, acima disso, muito velhinhos. O que é que acontece? Depois, na parte política, o ano de 73 é intenso. A oposição democrática radicaliza o seu discurso e há a radicalização da repressão em Aveiro com o congresso, agora sim, de 73. Os liberais organizam o encontro da terceira força e nesse encontro discute-se partidos sim ou não. E ganha a orientação partidos sim. Portanto, os próprios liberais dizem: "Isso já só vai com partidos". E ao dizer já só vai com partidos, era óbvio que isso implicava a legalização do Partido Comunista Português e depois de outros partidos à esquerda do Partido Comunista Português. A CEDES começa a tomar posições cada vez mais radicais. Eu faço um tour com o Francisco Sá Carneiro, com o José Carlos Meca e com o Rui Vilar pelo país, a discutir uma sondagem. Sai a primeira sondagem da norma que mostra, sai no Expresso, no primeiro número do Expresso, em que se mostra que em não sei quantos milhões de portugueses que havia, não sei se são oito, se nove, 10, só um milhão constituiu o eleitorado, tinha acesso ao direito de voto. Portanto, era o afunilamento da pirâmide, isso começava a ser discutido Às tantas é tão ridículo quanto isto, que nesta discussão o agente da PIDE que estava a tomar apontamentos, faz um relatório que está na Torre do Tombo, e que eu li, em que diz: "O revolucionário", era eu, "filho de sua excelência, o senhor ministro", porque meu pai era ministro e eu era revolucionário. Mas era imparável, já estava imparável.
Mas deixe-me só lhe dizer isto. É muito interessante, eu gosto de dizer isto porque é verdade e não mencionou. Quando diz que a classe média interrogava-se porque não tinha isto, houve uma enorme revolução nas mentalidades também.
Completa.
Isso é que é interessantíssimo. O país mudou e mudou mentalmente.
O país dos anos 60 já era diferente do país dos anos 30, 40 e mesmo 50.
E mesmo 50.
Mas eram os muito novos ainda. Agora não, são os dos anos 60, mais os anos 70, que realmente dizem: "É preciso mudar". Isto é uma pressão, o PCP acentua a sua atividade, não só política como revolucionária, e a pressão sindical. Progressivamente, começam as proibições à Intersindical, volta a homologação dos dirigentes, as perseguições às cooperativas, o controle da imprensa pelo exame prévio. Nós, por exemplo, o Expresso, passamos várias vezes por prova de página. Mas tenha a noção do que isto é absurdo nestes dias, era não só controlar os textos, controlar as imagens, controlar a publicidade, controlar os títulos, controlar as legendas, a escolha das páginas. Era paralisar o jornal.
Mas vocês faziam o Expresso também com a quase certeza, ou pelo menos com a grande intuição, que estavam a colaborar naquilo que havia de ser o...
Era pra fazer cair o regime.
Era pra fazer cair o regime.
Não era um exercício teórico. Aliás, o Expresso era constituído por futuros PPDs, PSs, maoístas, um ou dois comunistas, muito pouco. Havia muito poucos no Expresso e gente à esquerda, futuros Médiats e coisa assim do gênero. Mas havia, entretanto, ao mesmo tempo, o Diário de Lisboa, que era mais próximo da linha oposicionista clássica, havia o República, próximo dos socialistas e liberais clássicos, mas havia, por exemplo, o Comércio de Funchal, onde estava Vicente Jorge Silva, que era a extrema-esquerda.
Teve um papelazo.
Exatamente. Havia o Jornal de Fundão, por aí adiante. Isto para dizer o quê? Para dizer que o Movimento dos Capitães aparece aí como essencial. Por quê? Porque se tinha que ser pela força e na base das Forças Armadas não eram os chefes supremos. Embora os chefes supremos, a certa altura, já em 74, tenham pedido demissão. Pedem a demissão por divergência em relação a Marcelo Caetano. A pergunta que eu tinha deixado é: mas no Conselho de Defesa, quando perguntaste o que aqueles 73 tinham dito. Nas primeiras reuniões, foi dito que, verdadeiramente, a Guiné, hoje a Guiné-Bissau, era dificílimo de manter como território sob administração portuguesa, mas que Moçambique e Angola, talvez. E depois vai se tornando cada vez mais pessimista a análise do Conselho de Defesa, mas chega a um impasse, que é: nós podemos aceitar a independência da Guiné, futura Guiné-Bissau, e não Angola e Moçambique. Entretanto, pelo meio, Spínola tinha tentado negociações com o PAIGC e Marcelo Caetano hesita, parece que dá luz verde e depois não autoriza. Pelo meio, tinha havido a tentativa de ataque a Conacri, já muito antes, ainda na fase anterior, na expectativa de prender Amílcar Cabral. Nessa fase, é morto por dissidentes, mas desconfiou-se sempre como a intervenção da PIDS. Entretanto, já antes, em 69, Mondlane tinha sido morto por uma bomba, que se desconfia também provinda da PIDS, o que deu uma divisão da FRELIMO em três. Um dos chefes entrega-se a Portugal, isto é em 69, que é o período de grande divisão da FRELIMO. Outro, Muriacy Simango, afasta-se e fica Samora Machel a liderar. E com a nova liderança, a FRELIMO tem uma subida de peso e também de apoio militar, sobretudo russo e chinês. Mudam-se as lideranças. Entretanto, tinham se mudado as lideranças dos movimentos de libertação para mais próximo e, no caso da Guiné, para dentro do território sob administração portuguesa. Portanto, isto significa o quê? Significa que o Movimento dos Capitães vai acelerando, dá um salto entre o final de 73 e o começo de 74. Costa Gomes e Spínola demitem-se. Demitem-se por quê? Porque Spínola publica um livro em que defende que o caminho era o fim do regime e uma confederação e recurso a referendo para no futuro se saber, sim ou não, se mantém uma ligação a Portugal ou à independência plena dos territórios sob administração portuguesa.
Mas foi um caso sério o livro, recorda-se?
O livro foi uma bomba, publicada pela Livraria Morais, que ainda por cima era propriedade de uma instituição estatal, a Sociedade Financeira Portuguesa. Era, à altura, um escândalo monumental. Silva Cunha, ministro da Defesa na altura, tinha sido do Ultramar, mas depois teve que passar para o Ultramar Pede um parecer a Costa Gomes e Costa Gomes diz que é uma posição legítima. Ele abre vários cenários, é uma posição legítima e merece ser debatida. Na sequência disso, são demitidos. Na sequência disso, faz-se uma manifestação da velha brigada, que foi chamada a Brigada do Reumático, dos velhos generais de apoio a Marcelo Caetano. Marcelo Caetano faz a última remodelação do governo, vai buscar aqueles dos seus apoiantes dos anos 40 e 50. Dramática.
Dramática.
Tenta meter o grupo de Freitas do Amaral no governo. Entra um ou outro, mas Freitas do Amaral estava já a trabalhar numa linha de autonomização em termos políticos, seria o futuro CDS. Na sede se começa a emergir crescentemente o que viria a ser o PPD, ligado à ala liberal, hoje PSD, e o que viria a ser o PS. PS fala em 73 com o PCP. O PCP já de algum tempo que tinha uma forte presença nas Forças Armadas e, portanto, dos jovens capitães, mas também o Partido Socialista e também spinolistas. Os spinolistas tentam uma iniciativa de antecipação, que é o 16 de março. Aí Marcelo Caetano faz o seguinte: chama Costa Gomes e Spínola à MES da Força Aérea em Monsanto, e eles ficam sem espaço de manobra e de contacto com o movimento dos capitães. No 25 de abril, faz mais um erro fatal, que é fechar-se no quartel do Carmo e acreditar, como todos os governos ao longo da história acreditam, que quem vai defender é a Guarda Nacional Republicana. Todos, é uma guarda pretoriana. Falhou na monarquia, falhou na República, falhou no salazarismo, marcelismo. Falhou. Mas é um tropismo que há, achar que vão ser mais fiéis do que as Forças Armadas.
Mas é um ponto interessante isso que está a dizer.
E depois os movimentos dos capitães. Interessante e sempre atual. E depois o que acontece é que o somatório de tudo isto, pelo meio Caúza ainda é acusado por Fabião no Instituto de Altos Estudos Militares de estar a pensar num golpe que seria de resposta ou de reticência, mas Caúza não vai à homenagem a Marcelo Caetano. Não vão, obviamente, Costa Gomes, nem Spínola, nem os mais próximos deles.
Mas Caúza também não vai.
Mas Caúza também não vai. E como ele, eu acho que não vai Silvino Marques. Bom, é isso.
Marcelo, deixa-me lembrar uma coisa.
Foi assim que chegou ao fim o regime.
Não, assim está, mas antes disso. Entre uma coisa, apesar de tudo, que estremeceu o regime, embora falhado, que foi o Golpe das Caldas e a saída dos generais.
Houve o aplauso a Marcelo Caetano no Estádio Alvalade. Eu estava lá.
Ah, pronto.
Eu estava lá para ver o jogo Sporting-Benfica.
Eu sei, é a natureza humana.
Não é a natureza humana, é o seguinte: o problema é este, é que obviamente que há na sociedade portuguesa naquela altura, ainda uma zona conservadora. Ali estava, havia a classe popular, mas havia classe média, muita classe média, e que de alguma maneira está ligada ainda por inércia ao regime que existe. E por isso é que o movimento dos capitães foi fundamental. E por isso é que depois o apoio rápido de forças politicopartidárias como o PCP, como a extrema-esquerda, como socialistas, como os liberais ou o centro-direita, foi muito importante. Por quê? Porque essas ruturas são ruturas que se dão muitas vezes por iniciativa de minorias e urbanas ou metropolitanas. Agora, há por trás fenômenos operários, fenômenos sindicais, há fenômenos dispersos pelo país mais industrial ou pelo campesinato mais militante, que dão pano de fundo. Mas há um Portugal de direita no norte e no centro e nas ilhas, que até muito tarde tem uma inércia, que é uma inércia conservadora. E quando se vai a eleições, vê-se que é essa inércia que faz com que, sendo as eleições depois da revolução, de uma revolução que é uma revolução acelerada para esquerda, num condicionamento que é muito de esquerda, ainda assim, o CDS tem uma votação que não mais voltou a ter. O PSD tem uma votação razoável, depois teria muito mais. O PS tem uma votação enorme, mas muita gente de centro-direita vota PS pela primeira vez e os comícios do PS, como o da Fonte Luminosa, mostram que é Mário Soares durante a revolução a liderar não só os socialistas. Esse é o setor de esquerda.
Um país que não queria a revolução.
Mas o país à direita do Partido Socialista também.
Não, isso com certeza.
Quer dizer, para isolar a extrema-esquerda, fica otilista, e o setor militar próximo do Partido Comunista.
Mas eu queria voltar atrás. Estamos a falar no pré 25 de abril. Falou que o Partido Comunista tinha, obviamente, contactos com militares seus, como os de Spínola.
Como os de Spínola.
Todos tinham. O que é que cada um podia esperar? Acha que o Partido Comunista, no dia 25 de abril, o Partido Comunista achava que estava a ter o seu momento, o Partido Socialista achou que era o seu momento, ou o momento foi de todos?
Bom, cada um daqueles que apoiou a revolução, pensou na sua revolução. E como em todas as revoluções, não há uma revolução Há N revoluções em cada qual tem o seu sonho.
Mas a 25 de abril à noite, o que era?
Eu acho que todos achavam que tinham ganho, os que queriam o fim do regime, tinham ganho naquele dia e naquela noite. O Partido Socialista pensou que ia ser o grande ganhador e foi o grande ganhador no fim da revolução e no começo da democracia. O Partido Comunista tinha dúvidas. No Primeiro de Maio, Cunhal faz um discurso a apelar à unidade de comunistas, socialistas e liberais. É ele que fala nos liberais pra meter a ala liberal. Ele tinha a noção que havia um país conservador, que não passava de conservador pra comunista. Os liberais, é preciso ver o seguinte, eram uma realidade que se estava a constituir, que tinha emergido, mas que não ia sonhar que fosse liderar, mas acreditava que podia lutar com o PS pela liderança da nova democracia, o que aconteceu muito mais tarde.
E olhando hoje pra esse dia 25 de abril, vai fazer 50 anos dentro em pouco, como é que olhou Marcelo Rebelo de Sousa naquela noite? Sentou-se, viu a Junta de Salvação Nacional, três generais de direita, Cavaco Melo e Diogo Neto.
Eu achava que aquilo era mais dia, menos dia. Podia ser 25 de abril, podia ser dois dias mais tarde ou dois dias mais cedo. Que o império tinha acabado. Eu tinha visto em Moçambique, meu pai foi governador-geral de Moçambique, o fim do império. Não era possível, já não havia espaço pra isso. Tinha visto que a Europa ia ser o futuro, porque economicamente, a economia ia depender da Europa. Depois, como é que se chegava à democracia? Eu achava, curiosamente, o marcelismo tinha deixado um legado para além da sua vontade, que foi ao autorizar as sedes.
É verdade.
Ao permitir a ala liberal. Isto não é uma ideia original minha, o Miguel Roldão disse-me isso no dia 25 de abril, quando lhe dei boleia da faculdade de Direito, ou 26, ou 27. Ele disse-me, ironicamente, o Marcelo Caetano, não tendo pensado nisso, criou condições para, mais tarde, haver um PS muito forte no início, um PPD/PSD que virá a ser, e uma direita que será o que for. Mas enfim, verdadeiramente, o grande legado de Marcelo Caetano foi, sobretudo, a transformação econômica.
Muito bem, agradeço a Marcelo Rebelo de Sousa e agora agradeço ainda mais ao presidente da República ter vindo aqui abrir de uma forma tão viva, tão informada, tão inteligentemente analisada e recordada este primeiro podcast do Pré 25 de Abril. Muito obrigada, senhor Presidente.
Muito obrigado.