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Euromilhões, mais uma edição, a última semana de agosto, que sexta-feira vai ser já dia 1. O mercado aqui, Mariana, continua a ferver, mas tem sido abafado por um outro tema que está a marcar a atualidade em grande parte do mundo, sobretudo aqui na Península Ibérica. Vamos ainda falar do escândalo que envolve Luis Rubiales.

Sim, porque isto de tema do dia passou a tema da semana. Agora já estamos num ponto, se calhar, em que pode ser tratado como tema do mês ou qualquer coisa assim, porque todos os dias existem pormenores e capítulos tão inacreditáveis que nos fazem questionar se tudo isto está mesmo a acontecer e é mesmo real. A grande história de hoje prende-se com a mãe de Luis Rubiales, que se fechou na igreja de Motril, a localidade de Granada, de onde a família é natural, e que está em greve de fome até que termine, e passo a citar: "A caça desumana e sangrenta", que diz que está a ser feita ao filho. Por volta da hora de almoço, soube-se que o Ministério Público espanhol já abriu um inquérito a toda esta questão, com base na possibilidade de crime sexual, inquérito esse que abre a porta também à hipótese de Jenni Hermoso poder apresentar queixa-crime contra Luis Rubiales. O presidente interino da Federação Espanhola, entretanto, já está em funções, chama-se Pedro Rocha, era até aqui vice-presidente adjunto e já que Luis Rubiales foi suspenso pela FIFA pelo período de 90 dias, também já foi convocada uma reunião de emergência para a tarde desta segunda-feira, sendo que ainda não são conhecidas todas as suas conclusões e ainda está tudo um bocadinho por se decidir. Entretanto, soube-se também que Andreu Camps, secretário-geral da Federação e um dos principais braços-direitos de Luis Rubiales desde 2018, desde que chegou à presidência da Federação, enviou uma carta à UEFA, onde acusou os responsáveis políticos espanhóis de ingerência, portanto, acusou diretamente tanto Pedro Sánchez, como Yolanda Díaz, também o próprio presidente do Conselho Superior dos Desportos, e pediu apoio para o presidente agora suspenso, sendo que a UEFA, à partida, terá decidido manter o silêncio numa semana em que o mercado de transferências encerra, em que também há sorteio da fase de grupos da Liga dos Campeões e onde também não dá jeito nenhum estar a comentar este tipo de casos.

E Bruno, acaba por ser uma questão que se levanta. Estávamos todos, e falámos aqui durante todo o Mundial Feminino, nas grandes atenções que para lá estavam voltadas, atenção positiva, e acaba por degenerar neste caso, que começa também já a correr mais título do que aquela que seria de esperar ou não.

Sim, já entrou no domínio do absurdo. Acho que já estamos a falar de coisas que vão muito para lá do futebol, do desporto, mesmo das razões para as críticas a Rubiales, que teve não um, mas vários comportamentos incorretos naqueles festejos após a conquista do Mundial por parte de Espanha, mas criou-se aqui, de facto, um furacão, uma tempestade de dimensões que, quanto a mim, são exageradas. Ele deveria ter pedido desculpa, desde logo, de uma forma direta, honesta, sincera. Não o fez. Entrou aqui também numa espiral de tentar defender-se.

Dá a ideia de que tentou colocar-se no papel da vítima.

Pois, e eu acho que não sei se foi bem aconselhado, mas bem aconselhado não foi. E também não teve o bom senso de fazer aquilo que era exigível na altura a um presidente da Federação Espanhola, alguém com tantas responsabilidades no mundo do futebol, que era simplesmente pedir desculpa por aquele ato. Isso não foi feito e depois gerou aqui uma tempestade, como eu dizia, que já está muito para além do desporto, mesmo da figura do Rubiales, já estamos aqui a envolver o governo e pessoas com outras responsabilidades, já se tornou uma polêmica em que se está a discutir muito mais do que a gravidade daquele ato em si, está-se a discutir coisas que quanto a mim não têm cabimento nesta polêmica. Como ele não optou pela solução mais fácil, que era na altura simplesmente pedir desculpa, era tão simples quanto isso. Agora temos aqui uma coisa, não sei, já se falou na eventual suspensão dos clubes espanhóis.

Sim, sendo que esse era um bocadinho o objetivo desta carta da Federação, ou seja, era colocar a UEFA numa posição em que poderia ameaçar o governo espanhol, ameaçar entre aspas, com a exclusão tanto da seleção do Campeonato da Europa, como das equipes espanholas das competições europeias. A UEFA nem sequer respondeu a esta carta e a verdade é que o presidente do Conselho Superior dos Desportos também já veio dizer que não está em cima da mesa qualquer tipo de exclusão.

A UEFA agora quer evitar, de facto, confusões. No fundo, neste momento, é isso que a UEFA está a tentar fazer, porque nós sabemos também que quer a UEFA, quer a FIFA, são muito sensíveis quando se trata de interferências dos governos no desporto, no futebol. E aqui, neste momento, não interessa à UEFA estar a agitar mais este vespeiro. Eu tenho muita pena que, de facto, de tudo o que de bom aconteceu durante aquele mundial, sobretudo, principalmente para a Espanha, se reduza tudo isso a este acontecimento, à figura triste que Rubiales fez naquele momento e ao facto de não ter feito aquilo que era a sua obrigação, que era ter pedido desculpa.

É o tema que tem marcado os últimos dias, mas vamos para um tema que pode vir a marcar os dias que aí vêm. Matheus Nunes quer sair do Wolves e acabou por recusar treinar, Mariana. Tem o interesse de um grande agora.

Sim, o internacional português é um dos principais alvos do Manchester City nestes últimos dias de mercado, principalmente devido à lesão que vai deixar Kevin De Bruyne afastado durante alguns meses. O City ainda olhou para o Lucas Paquetá, que entretanto também está com suspeitas de se ter metido em umas confusões com apostas e jogos combinados. Portanto, o City também não se quis meter por esses caminhos e está a olhar de forma muito séria para a contratação de Matheus Nunes, mas o Wolverhampton não está propriamente recetivo às investidas milionárias da equipe de Pep Guardiola e não quer perder um elemento importante do plantel, principalmente numa altura em que estamos a quatro dias do fecho do mercado na Europa. De acordo com o The Athletic, o Wolverhampton rejeitou a primeira proposta do City, que rondava os 55 milhões de euros, está a pedir 70 milhões por Matheus Nunes. O City, entretanto, já apresentou uma nova proposta, agora de 60 milhões. Portanto, é expectável que o Wolves volte a recusar e volte a exigir os 70. O problema é que, entretanto, Matheus Nunes já terá os termos pessoais acordados com o Manchester City e está a tentar forçar uma saída, com o The Athletic a dizer também que o jogador já se recusou hoje a treinar com o plantel do Wolverhampton e informou os responsáveis do clube de que pretende sair. Pode ser agora sujeito a medidas disciplinares e ao pagamento de uma multa, sendo que a intenção do Wolves é ficar com o jogador e reintegrá-lo assim que o mercado fechar. Portanto, Matheus Nunes, mesmo se ficar no Wolverhampton, também não sofrerá grandes consequências internas.

E Bruno Vieira Amaral, é médio para o Manchester City, à falta de Kevin De Bruyne? Tem estofo para aguentar as exigências do Guardiola?

Isso não há nenhum jogador no mundo, acho eu, que tenha essa capacidade de substituir com a mesma qualidade que Kevin De Bruyne. Aquilo que Kevin De Bruyne faz, não há nenhum outro jogador que faça. Agora, é um médio com muita qualidade e eu creio que o ano passado nós discutimos aqui muito a questão da transferência para o Wolverhampton, se era um clube à altura já do potencial de Matheus Nunes, se fazia sentido trocar um clube que em Portugal disputou os títulos, que ia estar na Liga dos Campeões por um clube do meio da tabela em Inglaterra. E eu creio que vários de nós aqui dissemos que a ideia de Matheus Nunes seria ver o Wolverhampton como um trampolim, fazer uma boa época e depois despertar o interesse de clubes como o City, como o Liverpool, como o United, eventualmente, um clube dos Big Six.

Daqueles que nós escolhemos sempre no FIFA em detrimento de outros.

Exatamente. E foi isso que aconteceu, por causa agora desta lesão do De Bruyne e desta necessidade do City de suprir esta lacuna com que ficou. Aconteceu, surgiu essa oportunidade e Matheus Nunes, legitimamente, quer aproveitar o comboio que está a passar e pode não passar assim tão depressa outra vez. Por outro lado, não pode recusar-se a treinar. Quanto a mim, lá está, estas questões acontecem muitas vezes, os jogadores sentem que têm ali uma oportunidade que provavelmente não voltarão a ter.

Isto está a acontecer em Portugal também, com o Ivan Raim no Famalicão. Se colocou completamente fora das contas até ter o futuro resolvido.

Nem sempre acontece assim. Nós vimos também outro caso como o do Ricardo Horta no ano passado, que se manteve sempre a treinar e a jogar bem. Portanto, isto é uma opção dos jogadores e de quem está à volta deles, de empresários. Eu percebo que seja muito tentador, uma oferta seja muito tentadora, uma oferta do City, porque acredito que Matheus Nunes quando foi para o Wolverhampton, era nisso que estava a pensar, dar o salto o mais depressa possível.

Até porque chegou a ser elogiado, creio, por Pep Guardiola quando de um encontro entre o Sporting e City e há de ter ficado com alguma coisa.

Pep Guardiola chegou a dizer que Matheus Nunes era o melhor do mundo a fazer aquilo que fazia na altura que o Sporting foi a Manchester jogar.

O namoro começou por aí.

Pois, e é natural que o jogador queira ir para aquela que será a melhor ou das melhores equipes do mundo. Agora, se esta é a opção correta de se recusar a treinar e se isso vai ter como resultado a transferência para o City, aí já tenho dúvidas.

Mas pra já, Matheus Nunes, pelo menos do ponto de vista da vontade, quer abandonar a alcateia, digamos assim. Vamos ao passado, Mariana Fernandes, um passado particularmente perito em maldições, diria assim, porque morreu há 42 anos Béla Guttmann. Foi em 1981, uns anos antes. Aquela tal maldição de que o Bruno deve gostar rigorosamente de nada.

Exato. Sim, faz hoje 42 anos que morreu Béla Guttmann, foi a 28 de agosto de 1981, e aproveitamos, como dizias, para recordar a história do homem que ainda é tido como o dono da maior maldição do futebol português. Tem uma história extraordinária, também já foi contada muitas vezes. Nasceu em 1899, em Budapeste, na Hungria. Era filho de dois professores de dança, sendo que ele próprio também ainda deu aulas de dança. Foi jogador de futebol, ganhou vários títulos com o MTK na Hungria e em 1922, sendo judeu, fugiu da Hungria para a Áustria para escapar ao antissemitismo que já começava a surgir naquela região da Europa. Ainda representou clubes austríacos, também jogou nos Estados Unidos. Regressou à Europa em 1932 para começar a carreira de treinador, mas quando a Segunda Guerra Mundial começou, também quando a Alemanha Nazi ocupou a Hungria em março de 1944, ainda se escondeu no sótão de um cunhado, mas depois também acabou por ser enviado para um campo de concentração perto de Budapeste, conseguindo fugir em dezembro, portanto, apenas meses depois, apenas com muitas aspas, obviamente, e acabando por perder também praticamente toda a família em Auschwitz, no campo de concentração da Polônia. Treinou depois em Itália, na Argentina, no Brasil, no Chipre e aterrou em Portugal em 1958 para treinar o Futebol Clube do Porto. Foi campeão nacional antes de se mudar para o Benfica, onde acabou por viver os momentos mais altos de toda a carreira ao conquistar a Taça dos Campeões Europeus em 61 e em 62. Pediu aumento salarial depois de ser campeão europeu em 62, foi rejeitado e acabou então por deixar o clube com essa maldição de que não voltariam a ser campeões europeus. Certo é que o Benfica voltou a cinco finais da Taça dos Campeões Europeus e não ganhou nenhuma. E podemos ainda acrescentar também as finais da Liga Europa perdidas em 2013 e 2014. Aquilo que eu pergunto ao Bruno.

E está só a UEFA.

Aquilo que eu pergunto ao Bruno, essa Youth League que conquistaram é o fim da maldição?

Há quem diga que sim, porque o Benfica também tinha finais perdidas e quando perdeu essas finais lembravam a maldição. Uma coisa que eu tenho pena é que de Béla Guttmann se fale mais, de facto, da maldição do que desse facto verdadeiramente incrível, que é ter sido bicampeão europeu.

Eu acho que há um facto mais incrível, que é o facto de depois de ele ganhar o campeonato europeu não o aumentarem, mas isso é outra conversa.

Pois, isso aí, não sei qual era o estado das finanças do Benfica nessa altura. Há uma maldição que eu posso já decretar aqui para toda a eternidade. Eu acredito que não voltará a haver um treinador bicampeão europeu, ou seja, de forma consecutiva, por um clube português. Não sei se o Benfica vai voltar a ganhar ou não a Liga dos Campeões, a Taça da Liga dos Campeões, agora duvido que haja um treinador português a sagrar-se ou um treinador de um clube português a sagrar-se bicampeão europeu por um clube português.

E essa é a benção, talvez mais do que a maldição de Béla Guttmann, que morreu há 42 anos, em 1981. Memória do dia nesta edição do Euro Milhões com Mariana Fernandes. Mariana, um grande abraço e bom descanso.

Até amanhã.

Rádio Observador.