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Na tarde em direto falamos de desporto hoje com a Mariana Fernandes no Euromilhões. Olá, Mariana, boa tarde.

Olá, boa tarde.

Está conosco também o Bruno Vieira Amaral para os habituais comentários e vamos ao tema do dia que escolheste para hoje: Cristiano Ronaldo na conferência de imprensa da seleção. Já ontem falamos, foi de Vitinha. Estás bastante atenta às conferências de imprensa da seleção.

Estou. Devo dizer que este é um tema quentinho, que eu tinha escolhido aqui outra coisa, porque o Ronaldo acabou de falar há coisa de 20 minutos. Mas a verdade é que mudei de ideias, porque estava ali a olhar para o Cristiano Ronaldo e vi-o fazer uma coisa que já não o via fazer há algum tempo com a camisola da seleção nacional, que é sorrir. E não deixa de ser engraçado, o Cristiano Ronaldo apareceu bastante bem-disposto nesta conferência de imprensa e até foi surpreendente o fato de aparecer aqui numa quarta-feira. Normalmente, o Cristiano aparece nas conferências de imprensa nas últimas antes dos jogos. À partida, surgiria amanhã, sendo que o jogo é sexta-feira, e aparece aqui quarta-feira, quando ninguém estava muito à espera, a dar uma conferência de imprensa bem-disposta. Acho que o grande exemplo disso é a forma como se despede com os dois polegares no ar a dizer: "Obrigado, pessoal, hoje as perguntas não foram assim tão más", com um sorriso bastante irônico, é verdade. Mas estava bastante bem-disposto, bastante sorridente, muito aberto a comentar e a falar sobre todos os temas sobre os quais foi questionado. A verdade é que vincou, como tem feito desde que foi para o Al-Nassr, esta questão da Arábia Saudita, de que foi o pioneiro para mudar a cultura de um país.

É por isso que ele é pago.

Exatamente, a cultura de um país. Diz que não foi maluquinho, que o maluquinho agora já é menos maluquinho. Eu aqui estou a dizer maluquinho, porque foi o que ele disse. Que o maluquinho já é menos maluquinho, porque agora já é normal os principais jogadores que estão a jogar na Europa irem para a Arábia Saudita. Diz que a questão da perceção do futebol mundial em relação à Arábia Saudita é normal, porque todas as ligas têm problemas, todos os países têm problemas e a Arábia Saudita não é exceção. Foi também questionado, como tem acontecido com todos os jogadores que têm passado por estas conferências de imprensa, sobre o momento do futebol português, toda esta questão das críticas do futebol clube Porto ao VAR, desta troca de galhardetes desde o fim de semana. Diz que o que se está a passar é um circo e que este é um dos motivos pelos quais a Liga Portuguesa, nos próximos tempos, não será de top cinco. Diz que passa canais e que existem 40 canais com pessoas a discutir sobre tudo isto, menos sobre o futebol. Diz que abriu um jornal hoje e que as primeiras três notícias não eram sobre o futebol, mas sim sobre questões exteriores, portanto, faz aqui também uma crítica. Diz que a rivalidade com o Lionel Messi acabou, que é uma coisa do passado, que não é isso que o motiva atualmente, que os 850 gols a que acabou de chegar nos últimos dias é bom, mas quer mais. Portanto, continua com esta ideia muito à Cristiano Ronaldo, que o que interessa é o futuro e não aquilo que já alcançou. Deixa uma garantia praticamente certa de que vai estar no Europeu do próximo ano, portanto, que vai jogar até ao próximo ano para ainda estar no próximo campeonato do mundo.

E sobre o mundial, diz que a vida é dinâmica.

Exatamente. Diz que já não consegue pensar a longo prazo, que nos últimos dois anos aconteceram coisas que o fizeram ver que a vida não pode ser programada. Diz que é preciso enjoy the moment, e usou a expressão em inglês, e não dá então certezas sobre o Campeonato do Mundo. Não diz se vai continuar a jogar até 2026, altura onde já terá 41 anos.

Muito bem, Bruno Vieira Amaral, não conseguiste ouvir aqui as declarações de Cristiano Ronaldo. Fomos lendo aqui alguns rodapés. Como é que te pareceu? Porque, de facto, ele parecia mais sorridente que o normal.

Sim, deve estar satisfeito com esta onda que levou outros jogadores de qualidade e não só estrelas já em decadência para a Arábia Saudita. E eu acho que ele tem uma certa razão, não quando diz da questão do maluquinho. Ninguém lhe chamou maluquinho. Ele foi pra Arábia Saudita por razões perfeitamente compreensíveis pra todos nós, porque lhe pagaram muito dinheiro e ninguém lhe chamou maluquinho por isso. Agora, dizer que a Liga da Arábia Saudita era uma grande liga ou que ele foi pra lá por ser uma liga muito importante, quer dizer, aí é que lhe poderiam chamar maluquinho. E é verdade que ao ir pra lá, pode ter também motivado outros jogadores, perante propostas muito significativas financeiramente, a irem pra lá também. Isso não há a mínima dúvida. E se nós olharmos pros jogadores que estão lá, é inegável que nos últimos meses, inevitavelmente, o nível desportivo, competitivo da Liga da Arábia Saudita aumentou. E não há dúvida, o facto dele ter ido para lá primeiro, pode ter também ajudado ali um bocadinho na balança da decisão de alguns jogadores. Agora, a maior parte deles foram pra lá, não foi a pensar: "O Ronaldo agora está lá, eu também posso ir." Foi porque lhes fizeram propostas financeiramente muito vantajosas. Agora, em relação à questão da Liga Portuguesa, a Liga Portuguesa não vai ser top cinco, mas o Ronaldo descobriu isso agora. As polêmicas são agora, é agora que existem polêmicas no futebol português. É isso que tem impedido ou que está a impedir agora o futebol português de dar o salto e tornar-se uma das cinco ligas mais importantes. Isso não vai acontecer, mas não é pelas polêmicas de que se tem até falado nos últimos dias. Não acontece pela dimensão do nosso país. Sim, por alguns problemas estruturais da organização do país, porque continuamos a ser uma liga exportadora de talento e não uma liga importadora de talento e que mantém com capacidade financeira para manter esse talento. Também achei um pouco desajustadas essas críticas, parecendo um pouco acintosas.

Quase sobranceiro, não é?

Sim, em relação à Liga Portuguesa, porque nada disto é novidade. Em relação ao lugar que a Liga Portuguesa ocupa no futebol, no contexto europeu, nada disto é novidade. E ele estava a falar, até comparou com a Liga Espanhola e com a Premier League. Se há uma liga diferente na Europa nesse aspecto, é mesmo a liga inglesa. Agora, polêmicas nos jornais, extra futebol, fora daquilo que se passa no campo, isso é o que acontece mais em Espanha.

Exato, é o que tem acontecido nas últimas semanas.

E sim, e não é só de agora. Polêmicas de arbitragem, o caso Negreira, outros casos de polêmicas várias no futebol espanhol. E o Ronaldo esteve lá muitos anos, sabe perfeitamente que é assim. Não é exclusivo do futebol.

E jogou na Juventus

Sim. Eu acho que ele se excedeu um pouco nestas críticas.

Estava agora a falhar-me a memória de umas declarações que ele fez que eu retive, que tinha a ver com o futebol português, mas eu já vou recuperar essas declarações que ele teve e também gostava de ouvir o vosso comentário. Mas temos que passar à frente, porque temos que ir ao futuro e a Mariana Fernandes pôs aqui no futuro Ben Shelton, a nova coqueluche do ténis está a brilhar no US Open. Quem é Ben Shelton?

É uma ótima pergunta e andamos todos, obviamente, apaixonados por Carlos Alcaraz. Eu diria que daqui a uns anos, daqui a uns meses, talvez, se calhar, vamos andar todos apaixonados por Ben Shelton. É, como dizias, a nova coqueluche do ténis internacional, está nas meias-finais do US Open, depois de ter eliminado o Frances Tiafoe nos quartos de final, o que significa que vai agora defrontar o Novak Djokovic, na luta por uma presença na final do último Grande Slam do ano. O Ben Shelton tem apenas 20 anos, nasceu em 2002 em Atlanta, nos Estados Unidos, mas viveu e cresceu na Flórida. É filho de pai tenista, o Bryan Shelton, que chegou a ser profissional, competiu nos quatro Grand Slams, sendo que a mãe também jogou enquanto era adolescente e que a irmã mais velha também competiu na universidade. Ele, apesar de tudo, começou por escolher o futebol americano. Foi quarterback, tanto na escola preparatória como depois no ensino secundário, e foi aí que adquiriu aquela que é hoje em dia a sua maior característica, que é o serviço. Nos oitavos de final do US Open, fez dois serviços a quase 240 km/h, ficando muito perto do serviço mais rápido de sempre do torneio, que pertence ainda a Andy Roddick, em 2004, com 244 km/h.

E que foi o último americano a ganhar.

Exatamente. Parece que está tudo um pouco alinhado. Foi campeão universitário no ano passado. Ele na altura começou por dizer que ia completar o curso de Finanças antes de se tornar profissional, mas mudou de ideias depois do Masters de Cincinnati do ano passado, onde eliminou Casper Ruud, na altura número cinco mundial e um dos principais tenistas nesta altura do ranking ATP, e percebeu que podia competir com os melhores, apesar de ser ainda muito novo e de não ter qualquer tipo de experiência internacional, porque o pai quis sempre que ele se tornasse o melhor dos Estados Unidos antes de sair do país. E a verdade é que ele, a primeira vez que sai dos Estados Unidos, foi apenas no Open da Austrália do ano passado. Ele esteve ainda no US Open de 2022, caiu logo na primeira ronda, curiosamente contra o português Nuno Borges, assinou na altura pela agência que representa o Roger Federer, saiu pela primeira vez dos Estados Unidos para disputar esse Open da Austrália em janeiro e passou por Portugal em abril, no Estoril Open, sendo eliminado por Dominic Thiem logo na segunda ronda. No US Open está a ser um dos verdadeiros protagonistas, não só por ser a grande esperança de um público que ainda espera pelo herdeiro de Agassi, de Sampras, de Roddick, mas também pelo carisma que tem, que não esconde. Ele conquista as bancadas com uma rebeldia polida, digamos assim, que é cada vez mais a sua imagem de marca. Eu estava no Estoril Open no dia em que ele perde com o Dominic Thiem e teve muita graça, porque ele conquistou completamente as bancadas, começou toda a gente a torcer pelo Thiem, porque era o principal nome daquele jogo, e acabou tudo completamente rendido a este miúdo, com cara de miúdo, claramente, mas que está nas meias-finais do US Open.

Tens acompanhado o US Open, Bruno Vieira Amaral?

Tenho acompanhado, mas não vi ainda nenhum jogo do Ben Shelton. Li algumas coisas antes do jogo com o Frances Tiafoe. Após a vitória de Shelton, já se antecipa uma rivalidade entre Shelton e Alcaraz para os próximos anos. Eu diria, vamos com calma, porque estamos a falar do Open dos Estados Unidos. Tem muitos norte-americanos nesta última fase, já não acontecia há algum tempo. Existe esse desejo de que um americano volte a vencer o Open dos Estados Unidos, mas eu lembro o que aconteceu com a Emma Raducanu há dois anos, que conquistou o Open dos Estados Unidos, teve um desempenho extraordinário e depois desapareceu. É muito cedo ainda para dizer o que vai ser de Ben Shelton. Para já está a surpreender ou confirmar algumas das potencialidades que lhe eram apontadas, mas ainda falta muito caminho e agora vai ter uma montanha à frente dele para tentar chegar à final e tentar conquistar o Open dos Estados Unidos. Mas seria interessante, sim, já projetar essa rivalidade que seria para durar mais de uma década entre dois tenistas, um que já é um dos melhores tenistas da atualidade, Alcaraz, e outro que pode vir a ser.

Vamos ao passado. Há 48 anos, Martina Navratilova desertou da Checoslováquia. Foi em 1975.

Exatamente. Faz hoje 48 anos que Martina Navratilova pediu oficialmente asilo político, na altura, aos Estados Unidos, desertando da Checoslováquia, que era liderada por um regime comunista com que ela não concordava. Foi a 6 de setembro de 1975, que aconteceu logo depois de a tenista ser eliminada nas meias-finais do US Open por Chris Evert, a sua grande rival ao longo de toda a carreira. Navratilova tinha apenas 18 anos. Nessa mesma temporada, tinha perdido a final do Open da Austrália e de Roland Garros, e assim que perdeu na meia-final com Chris Evert em Nova Iorque, dirigiu-se aos escritórios dos Serviços de Imigração e Naturalização para pedir asilo político e ficar a viver nos Estados Unidos. A conferência de imprensa em que Martina Navratilova anuncia que iria renunciar à cidadania checoslovaca é histórica, não só por ser o marco político de alguém que não quer representar um país liderado por ideais com que não concorda, mas também pela certeza que a tenista apresentava. Ela tinha apenas 18 anos, mas estava completamente segura do que estava a dizer, isso notava-se. Recebeu um green card para ficar no país um mês depois. Em 1981, tornou-se oficialmente cidadã norte-americana, acabando por ter uma carreira em que conquistou 18 Grand Slams, incluindo umas impressionantes nove vitórias em Wimbledon. Foi sempre uma ativista contra o comunismo, principalmente contra o regime da União Soviética, mas acabou por pedir a recuperação da cidadania checa já em 2008, garantindo que não estava a renunciar aos Estados Unidos e que se considerava alguém com dupla nacionalidade, nesta altura, norte-americana e checa também.

Esta é uma questão que a Mariana falava aqui, que é estas duplas, como falavas do Shelton e do Alcaraz. A dupla também Navratilova, Chris Evert, marcou uma era.

Sim, aliás, para mim, na altura era miúdo, o ténis começou por ser dois rostos, o de Martina Navratilova com os seus óculos e o de John McEnroe. Para mim o ténis era isso quando eu tinha uns sete, oito anos e víamos alguns resumos na televisão, mas tinha uma importância e teve um impacto no ténis. Até àquela altura eu creio que nenhuma outra tenista tinha tido. E depois potenciado também por essa rivalidade com Chris Evert Lloyd, que teve momentos muito altos no Open dos Estados Unidos, e não só. Depois veio toda uma geração liderada por Steffi Graf, que suplantou os feitos de Martina Navratilova. Ainda que eu ache que Martina Navratilova continua a ter o recorde de Grand Slams, incluindo os pares, porque ela teve uma carreira muito longa, porque continuou a jogar também muito tempo a variante pares e a conquistar títulos. É um dos símbolos da modalidade. Teve uma grande importância também política, com muito mais impacto do que aconteceu com o seu compatriota Ivan Lendl, que também adquiriu a nacionalidade norte-americana em meados dos anos 80, também ele nascido na antiga Checoslováquia. Mas ela era um símbolo que eu creio que extravasou muito os cortes e ainda hoje continua a ter esse impacto sempre que intervém.

Muito bem, está feito o Euromilhões hoje com edição da Mariana Fernandes. Obrigado, Mariana. Até amanhã.

Até amanhã.

Rádio Observador, Santa Maria da Feira