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Este ano não é exceção, o país volta a confrontar-se com o flagelo dos incêndios. Hoje tem sido um dia particularmente difícil para os bombeiros, que essencialmente no norte e centro do país, têm estado empenhados no combate às chamas em diversos pontos do território. De acordo com a Proteção Civil, entre o início de segunda-feira e as 11h da manhã de hoje, registraram-se 175 incêndios, quase 60% começaram durante o período da noite. É um dos dados para abordar com o presidente da Liga dos Bombeiros, António Nunes. Uma conversa moderada pela Judite França e pelo Miguel Videira.
Bem-vindo, António Nunes. Obrigado pela sua disponibilidade. Já vamos falar deste dado que aponta para o início de mais de metade dos incêndios durante o período da noite. Mas deixe-nos começar por uma afirmação feita ao início da tarde pela Ministra da Administração Interna. Disse Maria Lúcia Amaral, em relação aos grandes incêndios em curso, que é irrelevante o número de meios aéreos envolvidos no combate às chamas, já que a grande dificuldade que enfrentam os operacionais é o caráter extremamente acidental do terreno. Pergunto-lhe, é de facto assim, nestas circunstâncias, o número de meios aéreos não é relevante?
Muito boa tarde. Permita-me que discorde da primeira afirmação ou da segunda afirmação da senhora ministra e concorde com uma delas, que é a questão dos acessos. Mas uma gestão articulada de meios aéreos é essencial para ajudar ao combate aos incêndios. Todos nós, que combatemos incêndios, sabemos que não são os meios aéreos que conseguem resolver o problema da extinção dos incêndios. Mas também sabemos que os meios aéreos são fundamentais e essenciais para que os bombeiros depois possam consolidar aquilo que é a extinção das chamas. E por isso, eu não seria tão perentório sobre essa afirmação, se são ou não são necessários. Eu diria que há teatros de operações em que são absolutamente imprescindíveis para que o sucesso seja mais rápido, e haverá outros que, eventualmente, não haverá essa necessidade. Portanto, o balanceamento dos meios deve competir a um centro de coordenação estratégica dos meios disponíveis e não tanto àquilo que, porventura, num local ou noutro, nós gostaríamos de ver implementado.
Face ao número de incêndios em curso, justifica-se a ativação do Mecanismo Europeu de Proteção Civil, ou seja, no fundo, pedir ajuda aos nossos parceiros europeus para nos ajudarem a apagar fogos ou ainda é prematuro?
Eu diria que é necessário. É necessário por quê? Porque quando nós dizemos em Portugal que temos 72 meios aéreos em atividade, eles não estão todos em simultaneidade. Isto é, os meios aéreos têm um limite de operação que varia entre uma hora e meia e quatro horas, e ao final dessas horas é necessário fazerem reabastecimentos e paragens técnicas. O que quer dizer que não temos permanentemente 72 meios aéreos. Há alguns territórios que face à complexidade dos incêndios e daquilo que nos tem perturbado ainda mais, que é o vento e a irregularidade ao longo do dia, não só da sua velocidade, mas também criando depois o próprio fogo, condições meteorológicas locais adversas, que é natural que seja necessário um empenhamento mais forte dos meios aéreos em determinados teatros de operações, permitindo com isso uma extinção mais rápida das chamas e libertando logo mais equipas de bombeiros para poderem ocorrer a outras situações. Porque nós estamos a falar fundamentalmente de bombeiros. A maior parte dos combatentes destes incêndios são bombeiros e nós precisamos dos bombeiros disponíveis para ocorrer às situações mais complexas que podem a qualquer momento ocorrer.
As necessidades passam exclusivamente pelos meios aéreos ou também homens para estarem no terreno a ajudarem os bombeiros portugueses a combater estes incêndios?
Não me parece que sejam necessários meios terrestres. Portugal tem 28 mil bombeiros voluntários, tem número adequado de caminhões para combate aos incêndios. Nós temos essa capacidade. Por outro lado, ainda temos uma reserva que não foi utilizada por enquanto, ou pelo menos não foi anunciada a sua utilização com uma maior profundidade, que é a questão das Forças Armadas. Por isso, eu diria que neste momento, a ajuda internacional com meios aéreos, especialmente até em teatros de operações muito próximos da fronteira, permitiria inclusivamente que no caso do país vizinho, Espanha, poder ajudar, ou através do mecanismo europeu ou do acordo bilateral, como penso que em Ponta Barca já tiveram alguns meios espanhóis a ajudar esse combate, é absolutamente indispensável, porque nós temos que resolver rapidamente estes incêndios que estão a devorar floresta e a pôr em perigo algumas das aldeias, e para nós também conseguirmos ter aqui alguma capacidade de descanso intelectual para pensar melhor como é que envolvemos os nossos bombeiros em todos estes teatros de operações.
Hoje ficámos a saber este dado a que já fizemos referência no início deste explicador. Entre o início de segunda-feira e as 11h da manhã de hoje, registraram-se 175 incêndios, mais de metade durante o período da noite. Isto é sinal de fogo posto?
Não necessariamente. Temos que distinguir aquilo que é a eclosão de um incêndio da sua própria hora. É evidente que nós não negamos a existência de fogo posto. É verdade em Portugal, é verdade noutros países, e é verdade porque o número de indivíduos detidos pela Polícia Judiciária e até condenados justificam essa afirmação. Todavia, nós sabemos que há, por vezes, muita negligência que, face às temperaturas, vai desenvolvendo, a pouco e pouco, aquilo que se traduz numa chama que, em locais onde muitas das vezes o mato é rasteiro, em contacto com essa fonte de ignição, pode provocar um incêndio, até com uma situação que muitas das vezes não se deteta de imediato, se não for uma zona onde haja um controlo de videovigilância ou não haja um circuito de passagem. E, portanto, quando se verifica que há incêndio, já é um incêndio com alguma dimensão. Eu não afirmaria que todos são fogo posto, alguns serão, outros serão negligência.
Está a funcionar a prevenção deste tipo de crime, o fogo posto, estão as forças de segurança especialmente atentas a este fenómeno ou há trabalho a fazer neste capítulo?
Na nossa opinião, a Polícia Judiciária tem feito um excelente trabalho. A Guarda Nacional Republicana tem feito um excelente trabalho. Se há área onde houve um progresso significativo nos últimos anos, foi na área da vigilância dos incêndios e na deteção de eventuais incendiários e alguns condenados. Eu julgo que se recolhermos estatisticamente os vários números ao longo dos anos, verificamos um empenhamento muito forte por parte da Polícia Judiciária, sendo certo que a investigação deste tipo de crime, por vezes, é um pouco complexa, porque a maior parte das vezes temos uma desconfiança sobre o autor do crime, mas não temos a prova do crime e temos que encontrar a prova do crime para poder fazer esse relacionamento. E muitas vezes a prova do crime é ela própria destruída pelo incêndio. É um crime que é preciso alguma particularidade de intervenção, mas a Polícia Judiciária e a Guarda Nacional Republicana, particularmente estas duas forças, que são aquelas que detêm a maior parte do território nacional, têm feito um papel que eu diria que é exemplar.
As autoridades estão a investigar a possibilidade de terem sido usados drones para atear os fogos em Ponte da Barca. É uma novidade, tem conhecimento de caso onde se tenha recorrido a esta tecnologia?
Os drones estão hoje, eu diria, na moda. Nós, uns anos atrás, quando se falava em drones, tínhamos como se fosse alguma coisa que não pudesse existir. E hoje, o drone é utilizado para videovigilância, para aconselhamento estratégico das operações de combate, para vigilância policial, para a guerra e, portanto, se ele é utilizado para tudo, provavelmente também pode ser utilizado para uma situação dessas.
Tem conhecimento de casos destes?
Não, não tenho conhecimento. Não há, pelo menos até agora, que nós saibamos, nenhuma prova concreta, mas admito, em tese, que isso possa acontecer.
Há duas semanas ficámos a conhecer outro indicador. Até 11 de julho, a área ardida triplicou face ao ano passado. O número de ignições passou de perto de 1900 para cerca de 3200. Encontra alguma explicação para estes números e para este aumento, se me é permitido, substancial?
Não haverá muitas explicações neste momento. Aquilo que se pode dizer é que houve a possibilidade dos bombeiros controlarem praticamente todos esses incêndios. Não houve registro de grandes incêndios, apesar do elevado número de incêndios que ocorreram. É verdade que em maio choveu. Muitos dos matos limpos acabaram por, no final de maio, já estarem a crescer, até fruto das próprias chuvas. E nós entrámos em junho com algumas áreas que noutras alturas ou noutros anos estariam ímpares e neste momento não estavam, já estavam com mato rasteiro e com a secura que houve durante duas semanas, é perfeitamente possível que as negligências, os descuidos e eventualmente algumas práticas não permitidas de consumir o fogo para acabar com os excedentes da própria floresta, possam ter levado a esse elevado número de ocorrências e à área ardida. Mas foi uma área ardida que não teve as consequências que estamos a presenciar neste momento, ou seja, são incêndios com uma maior dimensão, mas ainda assim perfeitamente controláveis e sem necessidade da movimentação de forças, nem de um empenhamento estratégico que nós estamos a seguir neste momento.
O ataque inicial é normalmente apontado como fator determinante para o sucesso do combate aos incêndios. Há meios em número suficiente para recorrer de forma sistemática a esta estratégia de alocação de um grande número de meios assim que é dado o alerta para um foco de incêndio?
Dependerá se numa determinada zona houver muitos focos de incêndio. Ou seja, há capacidade de se desenvolver um conjunto de focos de incêndio em vários municípios, se num determinado município ou numa determinada zona aparecem quatro, cinco, seis focos de incêndio Onde a probabilidade de passar de um ataque inicial a um ataque ampliado, naturalmente, essa capacidade diminui. É preciso nós entendermos o seguinte: uma viatura de combate a incêndios de bombeiros a subir uma montanha, uma serra, com 10 toneladas de água ou com cinco toneladas de água, naturalmente que demora 20 minutos, 30 minutos, às vezes, a percorrer pequenas distâncias. Portanto, depende muito da localização, depende da capacidade de detecção, depende do manto florestal que está. Ou seja, há vários fatores. O que é verdade é que a técnica da triangulação, isto é, de sair o helicóptero de primeira intervenção e depois duas ou três viaturas dos corpos de bombeiros mais próximos do local da ignição, é uma técnica boa e que tem dado bons resultados, sendo certo que em semanas como esta, com temperaturas elevadas e, acima de tudo, com ventos muito fortes, pode vir a dificultar, como está a acontecer em três ou quatro pontos do país com alguma preocupação.
Entrouca, precisamente na minha última pergunta, estamos mesmo a terminar. À hora a que falamos, há registo de pelo menos cinco grandes incêndios, a ferir pelo número de mais envolvidos no combate a esses fogos. É motivo de preocupação, tendo em conta precisamente as previsões de tempo quente para os próximos dias?
Pode ser preocupação, mas aqui eu deixaria uma recomendação. A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, que tem neste momento a tutela da informação à população, deve falar mais. Isto é, nós devemos ter mais pontos de situação para percebermos o que está a ser feito e que a informação seja fluida e que não haja motivo para se especular. E é preciso dar uma palavra de tranquilidade. Os bombeiros estão a combater os incêndios, mas nós precisamos de transmitir essa situação e permitir que haja capacidade de reação, não só dos bombeiros, mas também das entidades de Proteção Civil, em particular dos senhores presidentes de Câmara, que são os primeiros responsáveis da Proteção Civil em cada um dos seus municípios.
Fica esse apelo à melhoria da comunicação de quem está envolvido no combate aos incêndios e na coordenação do combate aos incêndios florestais. António Nunes, muito obrigado por ter vindo a este Explicador da tarde política da Rádio Observador.
Muito obrigado e bom trabalho.