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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos os principais conflitos e pontos de tensão na geopolítica mundial. Na edição desta noite contamos com a análise de Nuno Gouveia, especialista em política americana. Boa noite. Vamos começar pelo encontro trilateral entre a Ucrânia, Rússia e os Estados Unidos, que está marcado para 10 e 11 de novembro em Abu Dhabi. Que soluções podemos esperar que saiam deste encontro?

Olá, muito boa noite. Na verdade, eu não estou muito otimista em relação àquilo que poderá sair deste acordo. A única boa notícia é que as partes vão voltar a sentar-se. A última vez que se sentaram, recordo, foi em fevereiro, antes do ataque ao Irão dos Estados Unidos. Desde então, a Rússia e a Ucrânia não têm estado à mesa nas negociações. Agora, o que nós sabemos, sobretudo do lado russo, visto que do lado ucraniano tem havido algumas manifestações de alguma boa vontade por parte do presidente Zelensky em negociar um cessar-fogo, mas do lado russo as exigências continuam a ser as mesmas, continuam a exigir território que não conquistaram por via militar, continuam a exigir que a Ucrânia tenha menos capacidade militar, que a Ucrânia tenha menos condições de segurança e isso parece-me inaceitável. E a menos que do lado russo surgissem novidades, que atualmente não vemos, não me parece que irá sair muito mais do que alguns gestos de boa vontade, alguma troca de prisioneiros de ambas as partes, mas honestamente, pouco mais do que isso há de se esperar deste encontro.

A primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump, vai receber na Casa Branca representantes da Rússia e da Ucrânia na próxima quinta-feira, numa iniciativa diplomática relacionada com o cessar-fogo acordado para a cidade de Oleshky, na região ucraniana de Kherson. Este papel que a primeira-dama tem assumido nos últimos tempos é algo comum na política dos Estados Unidos?

No passado, vimos primeiras-damas ter grandes papéis políticos, não só em política interna, como em política externa. Podemos recordar, por exemplo, Hillary Clinton, que enquanto foi primeira-dama, teve um papel muito ativo na política interna. Foi ela, por exemplo, que negociou um plano de saúde que por acaso depois viria a não ser aprovado e tivemos uma série de primeiras-damas, de facto, muito ativas. Melania Trump, pelo contrário, tem sido uma primeira-dama quase ausente. No primeiro mandato já não tinha sido muito presente, neste segundo mandato ela praticamente não tem aparecido. Apareceu neste cessar-fogo parcial para patrocinar este cessar-fogo humanitário numa cidade em particular. Sabemos também que o próprio Papa tinha feito uma intervenção nesta matéria e saíram notícias que este cessar-fogo até teria sido negociado entre as partes, entre a Ucrânia e a Rússia, de facto, um cessar-fogo humanitário. Mas como também sabemos que ambas as partes, a Ucrânia, mas também a Rússia, desejam agradar aos Estados Unidos e ao presidente americano, no fundo cederam este papel à Melania Trump, para ela aparecer como patrocinadora deste cessar-fogo humanitário. No entanto, também é importante dizer que este cessar-fogo foi importante. Sabemos que permitiu a retirada de entre 700 a 800 pessoas de uma zona de conflito onde estavam em sofrimento, estavam em grande perda de qualidade, e foi importante. Agora, honestamente, não é expectável que Melania Trump venha a ter mais algum papel neste conflito, a não ser este tipo de ofertas que os países lhe poderão ter atribuído, como terá sido o caso neste cessar-fogo humanitário.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse hoje que o papel dos Estados Unidos como garante da segurança global chegou ao fim e que o facto de esta realidade ter sido admitida pelo próprio enviado especial de Donald Trump ao Médio Oriente, no Fórum de Segurança Global de Doha, em outubro, é algo especialmente revelador. Concorda que o papel dos Estados Unidos como garante da segurança global terminou ou acha que estas declarações de Zelensky refletem algum tipo de ressentimento face à posição que Trump tem assumido em relação à Rússia?

Em primeiro lugar, eu acho que Zelensky tem razão. O que tem acontecido neste segundo mandato por parte dos Estados Unidos é o fim do papel de liderança mundial que os Estados Unidos desempenhou, eventualmente desde a Segunda Guerra Mundial. O que nós temos vindo a assistir por parte da administração Trump, não só em relação à Ucrânia, mas também noutras zonas do globo, a relação conflituosa que tem tido com os aliados da NATO, a relação muito conflituosa que tem tido com o Canadá. Ainda recentemente vimos a guerra tarifária que Donald Trump declarou em relação ao Canadá, a própria relação que os Estados Unidos têm tido com um dos seus principais aliados na Ásia, a Coreia do Sul. Os Estados Unidos, de facto, desde que Donald Trump é presidente neste segundo mandato, têm assumido posições muitas vezes de hostilidade em relação aos seus aliados. Esta declaração de Zelensky denota também que Zelensky percebeu que não vale a pena ceder em termos retóricos em toda a linha em relação a Donald Trump. Nós vimos desde o início desta segunda administração de Trump, muitas vezes, Zelensky foi muito mal tratado. Foram vários os episódios onde o presidente americano e os responsáveis americanos trataram ostensivamente mal a Ucrânia. No terreno, os Estados Unidos reduziram, e muito, o seu apoio à Ucrânia. Neste momento, praticamente o apoio que os Estados Unidos têm é vender armas pagas pelos aliados europeus e numa outra matéria, têm continuado a ajudar a Ucrânia nos serviços de inteligência, mas há uma grande desilusão por parte da Ucrânia. A proximidade também que Trump e os seus enviados têm tido com a Rússia e ainda recentemente vimos a compra de diesel por parte dos Estados Unidos, o levantamento de sanções à Rússia que tinham sido aprovadas no Senado americano e no Congresso. Há uma série de situações que levaram a permitir que Zelensky possa falar de forma mais aberta sobre os Estados Unidos Mas no fundo e no âmago da questão, parece-me que ele tem razão.

Vamos mudar de tema. Donald Trump anunciou hoje a intenção de acabar com a ajuda militar anual dos Estados Unidos a Israel. O ministro das Finanças israelita diz que foi apanhado de surpresa. Estamos a falar de uma ajuda avaliada em oito mil milhões de dólares. Que efeito é que este corte, se vier a acontecer, pode ter em Israel, sobretudo na economia?

Certamente que Israel conta com este apoio. É preciso recordar que este foi um acordo que foi assinado por Barack Obama e que tem uma duração de 10 anos, que está previsto terminar apenas no final de 2028. É um acordo que obviamente é uma ajuda a Israel, mas também é preciso dizer que grande parte desta ajuda financeira fica nos Estados Unidos, pois destina-se à compra de armamento militar norte-americano. E, por outro lado, o primeiro-ministro israelita já tinha assumido que a tendência para esta ajuda era terminar, mas era numa fase faseada. Donald Trump, ao anunciar isto hoje e como percebemos, sem ter avisado, mais uma vez, os seus aliados israelitas, ou pelo menos a acreditar na informação que tem sido veiculada em Israel. No fundo, o Donald Trump diz algo mais uma vez para prejudicar um aliado próximo, que também neste momento está em formação de governo. Diz aquilo que se calhar uma parte considerável da opinião pública americana deseja. Nós sabemos que sobretudo nestes últimos dois anos, Israel tem perdido muito apoio popular nos Estados Unidos e este mesmo apoio dos Estados Unidos a Israel tornou-se uma questão política debatida no Partido Democrata, mas também em partes do Partido Republicano. Portanto, deixou de ter o consenso que tinha quando Barack Obama aprovou este acordo, mas, por outro lado, demonstra também uma grande falta de verticalidade por parte do presidente Trump. Este acordo está em vigor por mais um ano, foi aprovado no Congresso e, portanto, também não sei se será permitido a Donald Trump terminar com o acordo que está em vigor e que foi aprovado pelo Congresso. Portanto, poderá ser mais uma vez uma declaração de Donald Trump que depois não tenha adesão à realidade. E nós nestes últimos dois anos já assistimos a este tipo de declarações, mas, por outro lado, também diz muito da forma como Donald Trump considera os seus aliados, mesmo os aliados mais próximos, como Israel.

Entretanto, o Irão exige que os Estados Unidos respondam de forma completa e explícita às sete condições apresentadas pelo Teerão antes de o Estreito de Hormuz poder ser totalmente reaberto. Tantos meses depois, estas negociações continuam no mesmo impasse?

Sim, aliás, o Irão ao exigir as mesmas condições que na altura foram consideradas inaceitáveis por parte dos Estados Unidos, no fundo está a dizer que continuamos num impasse e estará à espera de um desenvolvimento, que eventualmente poderá passar por um regresso às operações militares por parte dos Estados Unidos. Porque repare, se os Estados Unidos aceitassem algumas destas condições, e sabe-se que ao longo das negociações houve alguma cedência por parte dos Estados Unidos, mas, por exemplo, será inaceitável para os Estados Unidos pagarem indeminizações de guerra ao Irão, será inaceitável para os Estados Unidos retirarem todas as bases militares perto do Irão, portanto, do Médio Oriente. Há ali umas condições que são inaceitáveis e que nenhum presidente americano, republicano ou democrata, algum dia aceitará. Portanto, parece-me que vamos continuar neste impasse. Tem havido notícias recentes que Donald Trump e Israel falaram em voltar às operações militares, precisamente depois das eleições intercalares que se realizam hoje nos Estados Unidos. Sabemos também que não há um grande consenso ou sequer uma grande vontade entre os militares americanos que um novo ataque irá conseguir vergar o regime iraniano a ceder. E, portanto, também há uma grande indecisão por parte de Israel. Nós neste momento temos um governo israelita que venceu as eleições, mas não de forma a poder formar novo governo. Portanto, há uma grande indefinição por parte dos Estados Unidos. Não sabemos também como é que vai ficar as eleições norte-americanas que se realizam hoje, embora nos Estados Unidos o governo vai continuar a ser o mesmo, disso não há dúvidas. E portanto, parece-me que não sabemos muito bem por onde isto vai caminhar. Sabemos apenas que as posições a manterem-se iguais dos dois lados, não haverá decisão, ou seja, não haverá nenhum acordo de paz e portanto vamos ter que esperar para perceber se os Estados Unidos vão voltar a atacar o Irão ou então vão manter a situação atual, que também é uma possibilidade que tem sido muito discutida, que é manter a pressão económica tentando esmagar de forma económica o regime e forçá-lo a ceder, sem ser através da via militar.

Nuno Gouveia, muito obrigada pela sua análise.

Muito boa noite.

O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã.