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Vamos falar de espionagem e de traição. Estreou hoje o novo podcast Plus do Observador, chama-se "A Vida Dupla do Espião Traidor". Conta a história de um espião português que vendia segredos à Rússia, de Vladimir Putin. O podcast explica também como decorreu a operação internacional para apanhar este homem. Uma operação que envolveu a Polícia Judiciária, a polícia italiana e os serviços secretos norte-americanos. "A Vida Dupla do Espião Traidor" é um podcast narrado pelo ator Ivo Canelas, tem banda sonora original de Bruno Pernadas. O guião foi escrito pelo Pedro Raín, com coordenação de João Santos Duarte e sonoplastia da Mariana Aguiar. Eu sou o Miguel Cordeiro, comigo está a Judite França. Judite, vamos falar com pessoas que ajudaram a criar este podcast.

Tal e qual, Miguel. Vamos começar por falar com a Mariana Sousa Aguiar, que é a nossa sonoplasta, e com o João Santos Duarte, diretor adjunto do Observador, e vamos falar desta estreia da "Vida Dupla do Espião Traidor". Vou começar por ti, João. Conta-nos um pouco desta história. Quem é que é este espião?

Este espião chama-se Frederico Carvalhão Gil. Era um espião muito experiente no SIS. A história é muito interessante porque ele esteve nos primeiros cursos do SIS, portanto, quando isto aconteceu, ele era alguém já com praticamente 30 anos de casa. Teve uma carreira em ascensão que, a dada altura, percebemos logo no primeiro episódio também, teve um contratempo, porque ele esteve numa missão em Israel, uma ação de formação com novos espiões, e as coisas não correram muito bem, mas para perceber o que é que aconteceu, o melhor é ouvir o podcast. E aí ele recuou um pouco na carreira e a dada altura começa a ser alvo de suspeitas. Ou seja, a história é muito interessante porque, como disse o Miguel, de facto, tem aqui uma latitude internacional muito grande. Não envolve só as autoridades portuguesas. A operação para a captura dele envolveu os serviços italianos, informações dos serviços secretos eslovenos, a própria CIA, e isso é um dado muito interessante e novo que o Pedro Reino traz aqui a esta história. O Serviço de Informações de Segurança já suspeitava dele, mas a CIA veio trazer a informação e o nome dele e veio dizer: "Atenção, olhem para este homem, porque ele é suspeito, há aqui coisas suspeitas a acontecer". A partir dessa altura, há todo um processo de, como se diz, isolar a toupeira. Esta expressão da toupeira.

Deixa-me só perguntar-te, só para situarmo-nos no tempo.

Sim, é uma história muito recente, exatamente. Ele foi detido em 2016. A investigação começou um bocadinho antes. Não se sabe muito bem quando é que ele terá começado a vender segredos à Rússia. Suspeita-se que poderá ter sido alguns anos antes, mas isso não se conseguiu identificar muito bem, nem se sabe muito bem, nem se conseguiu confirmar todos os encontros que ele teve com este controlador russo. Apenas dois, um que resultou na detenção em Roma e o outro anterior que aconteceu na Eslovénia, em que existiram provas concretas, nomeadamente fotografias desse encontro. Mas é uma história bastante recente, na verdade.

Mas por envolver entidades internacionais, já falaste da CIA, temos a polícia italiana, isto dificultou o trabalho de investigação? Foi mais difícil chegar a documentação, a fontes, alguém também que pudesse falar em "on", falar com o Observador sobre todos estes casos?

Eu acho que o Pedro Reino fez aqui um trabalho incrível e muito interessante, porque nos podcast Plus o nosso objetivo é sempre contar histórias, obviamente, que tenham interesse, o interesse público, que sejam apelativas para as pessoas, mas também muitas vezes histórias que as pessoas podem até ou conhecer ou já ter ouvido falar, mas não conheçam os pormenores de tudo aquilo que aconteceu. E o Pedro, de facto, para além de todas as entrevistas que ele conseguiu gravadas em "on" com antigos responsáveis da PJ, com juízes, com pessoas que participaram na operação, falou também com muitas fontes em "off" dentro do SIS e ele conseguiu trazer para aqui uma riqueza de pormenores na forma como conta a história muito interessantes. Eu acho que a história nunca foi contada desta forma e isso, lá está, é um dos nossos objetivos. Acho que não dificultou pelo grande trabalho que ele conseguiu fazer ao longo de meses e muitas conversas, e nós íamos acompanhando sempre isso com ele, a ter conseguido todas essas informações e pormenores novos.

Sem querer fazer spoiler, estamos a falar de um espião português que trabalhou para os serviços secretos russos. Como é que uma coisa dessas acontece?

Sim, mais ou menos. Ele trabalhava para o SIS e aqui a grande questão é: dentro do SIS, ele era também o responsável pela ligação com a NATO ou pela gestão dos exercícios de crise da NATO. E isso tornou-o num alvo muito possível para a Rússia e para os serviços russos. Nós contextualizamos também isso no primeiro episódio do podcast, especialmente depois da invasão da Crimeia, cresceu também muito o interesse da Rússia e dos serviços secretos russos nos países da NATO e em tentar perceber o que é que os países da NATO andavam a fazer, que reação é que iriam ter, como é que se organizavam. E isso tornou este homem também num alvo muito interessante, porque ele tinha acesso a muitos documentos internos da NATO. E foi isso que aconteceu, na verdade. Quando ele depois é apanhado bem em flagrante, em Roma, a passar informações a esse controlador russo

Entre essas informações estavam documentos NATO.

Mariana, vamos falar da sonorização de tudo isto, porque é algo também característico dos nossos Podcast Plus desde que começámos. É algo que diferencia também muitos outros trabalhos por esse país fora, a capacidade de sonorizar todos estes trabalhos. Que dificuldades tiveste? Como é que foi também este trabalho neste Podcast Plus? E se tiveste logo ideia do que gostarias de fazer quando começaste a ler os guiões.

Quando comecei a gravar, eu tinha uma ideia. No entanto, essa ideia não foi aquele resultado final. Se fosse por mim, nós neste momento estávamos a ouvir aqui uma rocalhada eletrónica, tudo muito mais pujante daquilo que realmente é. E fazer essa diferenciação, porque estamos a falar de um podcast, estamos a contar também uma narração, e tentar ser o mais linear possível, mas também não exagerar, porque nós não temos imagens, não temos nada que possa suportar visualmente a história. Portanto, tudo o que vai para além da voz é um suporte quase para levar o ouvinte a imaginar aquilo que poderia estar a acontecer. O que houve de difícil foi mesmo não tentar exagerar, não tentar dramatizar.

Claro.

Era muito fácil cair nisso.

É muito fácil cair nisso. Por exemplo, logo no primeiro episódio, nós na altura ainda não tínhamos recebido a música do Bruno Pernal, também ainda não tinha falado muito bem com o João, e aquilo que eu coloquei foi: ele está a entrar num café, que encontrasse com o espião russo. Aquilo que eu coloquei inicialmente era um bar completamente cheio de pessoas, música lo-fi, ali fazer uns efeitos, e não foi isso que aconteceu.

Sim.

E tentar manter essa realidade com o que de fato estava presente é difícil no início, mas depois para o quinto, sexto episódio, fica tudo...

Desculpa, tu foste ver com o Pedro Rinha como é que era o café em si e, portanto, transcreveste sonoramente naquilo que era verdadeiramente o ambiente daquele café, não de um café qualquer.

Fiz com o João, neste caso. Mas sim, foi exatamente isso. Por exemplo, existem outros episódios em que ele está a passar pelas ruas de Itália e ouve-se o rio, ouve-se a capela de São Pedro. Ou seja, tem esses pormenores. Aliás, até houve um momento em que eu coloco pássaros, porque já falei no ar livre e dizem que se calhar desta altura não havia pássaros.

Àquela hora, não.

Àquela hora, não. Mas, por exemplo, existem muitos cães. Existe essa realidade.

Há que ter atenção a todos esses detalhes, e isso nota-se também no podcast, também neste novo podcast do Observador. Mas trouxeste-nos alguns excertos, queres falar aqui de algumas situações com que tiveste de lidar nesta sonorização. Qual é que queres falar primeiro?

Não sei. Toda a história é um espaço temporal e, portanto, tentar dar essa caminhada. Por exemplo, nós usamos muito o som de relógios. Mesmo para dar essa constante, mas também usar como suspense, ou seja, ele está parado, ele está a olhar. E depois existem aqui uns momentos em que temos que sonorizar objetos. Por exemplo, ele está a olhar para uma loja, mas é porque ele está a olhar o reflexo. Ou seja, tentar sonorizar esses momentos torna-se perspicaz, porque pode resultar ou não.

Então vamos ouvir.

Agora, o espião parou. Está em frente à montra de uma loja de rua. Aparentemente, está a olhar para os produtos que ali são expostos, mas os inspetores fazem uma leitura bem diferente. Carvalhão Gil não tem o mínimo interesse pelo que está no interior da loja. O foco do espião está na vitrine que tem à frente. E que está a usar como um espelho para verificar cada reflexo e analisar os movimentos nas costas dele. Quer ter a certeza de que ninguém o seguiu. Mas as equipes de vigilância também sabem o que estão a fazer. E ao que tudo indica, não foram detectadas porque passados uns minutos, Carvalhão Gil volta a arrancar.

Este é um excerto do episódio 4, portanto, é aqui um exclusivo mundial. Mas para contextualizar, isto passa-se em Roma, a investigação percebe que ele vai viajar para Roma e que muito provavelmente vai encontrar-se com o russo. E ele é seguido desde o momento em que aterra no aeroporto e vai para o hotel. E a história é muito interessante, porque ele tinha marcado um hotel, mas depois não vai para esse hotel que tinha marcado. Entra num hotel, aparentemente ao calhas, e faz uma reserva ali no momento. E todo o percurso entre ele sair do hotel e encontrar-se depois com o russo é um percurso marcado por muitas manobras de vigilância, contravigilância, ou seja, ele está sempre--

Ele está alerta, então.

Exatamente. Não só está alerta, como está a tentar despistar eventuais pessoas que o estejam a seguir. Portanto, obviamente, é um espião muito experiente. E esse é um excerto, de fato, desse episódio, no momento em que ele está a olhar para uma montra. E acho muito interessante como a Mariana representa sonoramente o vidro e a montra.

Aqueles silvos por trás.

Exatamente. Ele está interessado no reflexo, não está interessado na montra, mas está a tentar perceber se há movimentos estranhos por trás dele. Mariana, tens aqui mais um excerto. Do que queres falar neste caso?

Temos que falar, obviamente, da música do Bruno, dos Brunos. Ele enviou não só o tema geral, mas também enviou variantes. É uma música rica e eu recomendo toda a gente a ir ouvir a música completa, mas para mim, que tive que desconstruir para integrar ao longo dos episódios, foi possível fazer muita coisa com aquilo que ele enviou. Eu lembro que há momentos, por exemplo, em que eu uso só a mão esquerda do teclado da variante dois. E depois conjugar esses elementos, por exemplo, com outras sonoridades, com outras percussões, com outros efeitos e tudo isso junto só foi possível porque a música foi enviada.

Vamos ouvir essas variações desta banda sonora.

Em frente à porta, há o outro balcão e as mesas ficam à esquerda. Os dois espiões sentam-se na primeira mesa, logo a seguir à porta de entrada. Estão frente a frente, com o russo virado para o exterior. Serguei Pozdnyakov tem vista directa para a rua. Pedem duas cervejas, uma Nastroyazhuro para cada um. Em cima da mesa também estão três taças com aperitivos. Carvalhão Gil coloca a mochila preta sobre a cadeira à esquerda. O russo desaperta a bolsa cinzenta que trazia à tiracolo e coloca-a sobre a cadeira à direita.

De facto, temos aqui todas estas variações.

E assim a noção de espacialidade, não é, Mariana? Não sei se vocês repararam, no carro também acho que se repara bem. Quando ele coloca a mochila na cadeira à esquerda, tu ouves do lado esquerdo.

Se não estiveres com fones.

Com os fones, como nós, percebe-se muito bem.

Vai para a direita, mexe para a direita. Isso é a tendência de espaço.

E é uma forma de ouvir muito bem estes podcasts imersivos, é ouvi-los com auscultadores, não é?

É, sim.

Ajuda sempre.

Mas no carro também dá.

"A Vida Dupla do Espião Traidor" estreou hoje. Quem é assinante do Observador já pode ouvir tudo de seguida, não é assim, João?

Sim, assinantes standard e premium podem já ouvir tudo.

Quem for como eu, gosta de ouvir um episódio por semana.

Muito bem, também dá para ouvir um por semana, um podcast Plus do Observador para ouvir ao longo das próximas semanas. "A Vida Dupla do Espião Traidor" estreou hoje, é narrado por Ivo Canelas, tem banda sonora, que escutamos em fundo, de Bruno Pernadas.