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E hoje, no Explicador das Manhãs 360, é nosso convidado José Matias Alves, docente da Faculdade de Educação e Psicologia da Católica, no Porto, e especialista em Educação. Bom dia, muito obrigada por estar na Rádio Observador.
Olá, bom dia.
Este é um arranque de ano letivo diferente. José Matias Alves, entre a ansiedade e o reencontro com amigos e colegas, temos aqui uma mistura de sentimentos contraditórios.
Absolutamente. E é inevitável que eles coexistam. Por um lado, a esperança do reencontro, a alegria do reencontro, mas o receio, um certo medo, que eu espero que não nos invada totalmente e não limite excessivamente a nossa ação e a nossa interação. Portanto, de facto, é como diz. Temos um regresso às aulas muito contraditório, sentimentos contraditórios. Vamos ter que aprender a lidarmos com eles. Não há, a meu ver, alternativa a isso.
E, nesse sentido, sobretudo para os alunos que mudam de ciclo e de escola, como é que se podem preparar? Como é que os pais podem preparar os filhos para essas mudanças de rotinas e também para a gestão de expectativas?
Tem que haver aqui um esforço conjunto, um esforço conjugado. As famílias, os professores, as próprias estruturas, a directiva da escola, têm que tentar construir um clima de confiança, mas que seja uma confiança confiável, passe esta quase redundância. A confiança não se pode decretar, não se pode instituir de cima para baixo. As pessoas têm que ver se o quadro onde vão viver, onde vão aprender, onde vão conviver, merece confiança. E eu estou convicto que, na generalidade das escolas, merecem essa confiança, porque adoptaram procedimentos, adoptaram mecanismos, dispositivos de cuidado, de escuta, de controle. Portanto, eu creio que, de um modo geral, as famílias, os alunos e os professores podem confiar que pode não correr tudo bem, não sigo este slogan, mas penso que na generalidade dos casos irá correr bem ou quase tudo bem. Temos de acreditar que isso é possível e creio que há condições para acreditar.
Nós temos na comunidade escolar vários grupos: os alunos, os pais e famílias, os professores e funcionários das escolas, cada um deles tem as suas responsabilidades, as suas obrigações também. Quem é que acha que é mais difícil, este período está a ser mais difícil para quem, nestes grupos da comunidade escolar?
É-me difícil dizer. Talvez seja para os professores, para alguns grupos de professores, os mais fragilizados, com idade mais avançada. É natural que estejam mais receosos. Eu creio que os pais precisam que os filhos regressem à escola. Não podem mais estar presos em casa. Ninguém aguenta uma prisão durante tantos meses. Julgo que os alunos estão ansiosos por este regresso, estão ansiosos por rever os seus amigos, por rever os seus professores. Estão confiantes nesse regresso, penso, de um modo geral. Os professores, de um modo geral, também, embora admita que possa haver aqui grupos mais vulneráveis, mais frágeis, que terão algum receio. E o receio advém, em larga medida, porque, de um modo geral, se manteve um modelo escolar que não é muito amigável deste regresso, porque ao fim e ao cabo, nós queremos manter os mesmos grupos de alunos, as mesmas turmas, sem grandes reduções no número de alunos, manter a mesma carga horária. E numa circunstância como esta, seria sensato ter pensado numa certa redução do tempo, numa certa redução dos grupos, para que a aprendizagem fosse mais eficaz e o convívio fosse mais natural.
Reduzir também, se calhar, os curricula.
Exatamente, sim. Eu sempre defendi isso, desde maio, que era importante reduzir os currículos, porque menos poderia ser, nesta circunstância, mais. Nós não conseguimos manter a carga horária, manter as turmas que tínhamos.
Manter tudo igual, não é?
Exatamente, manter tudo igual, basicamente é isso. Seria aconselhável pensar uma outra organização da escola, começando por ter menos horas curriculares e, eventualmente, a presença ser complementada com dispositivos de apoio à distância. Mas isso seria uma condição quase imprescindível para que este regresso fosse um regresso mais seguro, mais confiável.
E seguramente mais adaptado também a estas circunstâncias.
Exatamente. Acho que tudo mudou, menos na escola. Mudaram as regras dos encontros, nos cafés, nos restaurantes, nos transportes. Na escola parece que, embora tenha mudado o dispositivo interno de acesso, de controle, de circulação, mas em termos de volume de alunos, mantém-se o mesmo.
E a estrutura, o essencial da estrutura das aulas.
Exatamente. Isso é muito difícil. Eu percebo que era difícil uma alternativa a este modelo.
A questão é se houve tempo para essas mudanças numa máquina que é necessariamente pesada.
Admito que sim. Aí pode haver divergência de opiniões Nem vale a pena estar a discutir, ou não havia tempo, não houve, em termos práticos, e é nessa circunstância que temos que enfrentar a realidade. Não vale a pena também estar a discutir agora cenários alternativos àquele que existe neste momento.
José Matias Alves, só uma questão aqui muito prática para os pais. Há aqui, obviamente, os alunos, as crianças ou jovens têm que cumprir também as regras sanitárias, é importante para todos, para eles também. E há aqui um equilíbrio, e nós vemos isso até nos nossos círculos mais próximos, entre amigos que têm abordagens diferentes para isso, entre um rigor, às vezes, quase paranoico, a expressão é minha, ou então alguma ligeireza no cumprimento. Como é que se gere isto, com os mais novos, de facto, entre dizer-lhes que têm que cumprir regras, mas, por outro lado, também para evitar ansiedades ou receios extremos?
É um lugar-comum que eu vou dizer, mas não há uma receita única para isto. Temos a receita que está prescrita nos manuais, que é evitar o contacto, manter a distância, uns pela direita, outros pela esquerda, recreios separados, confinamento nos espaços abertos. E é evidente que isto é sustentado, é aconselhável que exista. Agora, os comportamentos sociais e os comportamentos pessoais precisam de uma aprendizagem. É natural que nos primeiros dias, a ânsia do reencontro, o rever os amigos coloca um pouco em crise a segurança pessoal, a segurança individual. Tem que haver aqui um esforço de aprendizagem para que os riscos sejam os menores possível. Mas isso não significa que não haja risco, vai haver riscos, mas riscos há em todo lado, há na rua, há nos supermercados, há nos restaurantes, há em todo lado. Nós temos que aprender a conviver com o risco e a minimizá-lo o mais possível e aprender a conviver num cenário destes.
Ou seja, é preciso aceitar que existe um risco e só a partir daí é que é possível começar a andar para a frente. José Matias Alves, estava a falar na eventual necessidade de reduzir currículos. A verdade é que vimos isto pela experiência do terceiro período, que se acentuaram as desigualdades. A questão é como é que as escolas podem agora recuperar esse tempo, se foi ou não um tempo perdido e se não há o risco de matéria que possa ficar para trás.
Há sempre essa possibilidade de haver matéria que fique para trás, mas depende de que matérias é que ficam para trás. Eu não tenho muito problema em que algumas matérias curricularmente prescritas fiquem para trás.
Mas faz sentido que as primeiras cinco semanas deste ano letivo sejam dedicadas à matéria do ano anterior?
Faz sentido que sejam dedicadas a um diagnóstico das aprendizagens que se fizeram e não fizeram. Não diria que se comecem logo as cinco semanas com a revisão da matéria passada. Tem que se passar, nos primeiros dias, nas primeiras semanas, nos primeiros 15 dias, a fazer um diagnóstico do que é que se perdeu eventualmente, o que é que se aprendeu, e fazer o mapa das aprendizagens que importa concretizar, no caso de não terem sido concretizadas. É um tempo de diagnóstico, é um tempo de escuta, é um tempo de conhecimento mútuo do ponto onde cada um ficou. E tentar, a partir daí, definir as estratégias adequadas para que se recuperem o mais possível as aprendizagens centrais, as aprendizagens essenciais, e deixar, eventualmente, de lado aquelas matérias que não são fundamentais para o desenvolvimento pessoal, desenvolvimento social e o desenvolvimento escolar dos próprios alunos.
E que balanço é que é possível fazer do terceiro período do ano passado? Aprendeu-se alguma coisa?
O que eu vou dizer não tem base empírica. Eu não sei se alguém sabe com rigor responder a essa pergunta, eu não sei. O que eu vou dizer é uma especulação. Eu diria que, de um modo geral, pelos dados dispersos que fui reunindo, penso que não foi, para a generalidade dos alunos, um tempo perdido. Foi um tempo, de um modo geral, ganho. Não havia alternativa a não ser este ensino à distância. É evidente que este ensino à distância, os mais frágeis, os mais pobres, os mais desfavorecidos, poderão ter perdido mais, mas também há relatos de casos de alunos que se passavam de simulados nas aulas presenciais e que se revelaram no ensino à distância, no ensino online. Há certamente muitos casos. De um modo geral, eu julgo que foi um tempo ganho nas circunstâncias adversas que todos vivemos. Agora, penso que há que fazer um apuramento, e isto é o que agora as escolas farão, certamente, o apuramento dos ganhos e das perdas que cada aluno realizou para que, neste regresso, essa compensação possa também ocorrer.
José Matias Alves, era isso mesmo que agora lhe iríamos perguntar. O que as escolas, por um lado, aprenderam que podem aplicar ou que poderão aplicar se houver um novo confinamento, e que estratégias não foram postas em prática em março, porque enfim, foi tudo muito rápido e ninguém as pôde estudar, mas que poderiam agora ser aplicadas neste inverno que vem aí?
Certo. Eu acho que há uma aprendizagem muito grande que todos os atores envolvidos realizaram. Os professores, as escolas, as famílias, os pais, todos aprendemos com este confinamento, com esta escola em casa, com este ensino à distância. E aprendemos várias coisas, nomeadamente aprendemos que temos que mudar, num cenário desses, os modos de trabalho pedagógico. Temos que mudar os modos de trabalho de centro, mudar os modos de trabalho de dicente, numa lógica de apoio ao trabalho mais autónomo dos alunos. Os alunos têm que aprender mais a pesquisar, a procurar, a construir respostas, e não tanto a receber matéria que os professores visitavam. É uma aprendizagem que todos realizaram. No início do confinamento, os professores tentaram replicar o modelo tradicional, de expor a matéria, dar a matéria durante X tempo. Perceberam rapidamente que não podiam manter esse tempo, teriam que encurtar e teriam que diversificar os modos de trabalho para que os alunos pudessem aprender de uma forma mais ativa, mais participativa, mais implicada, mais à procura de respostas e não à procura de copiar respostas pré-dadas pelos professores. Isso foi, a meu ver, uma aprendizagem fundamental que agora, se eventualmente formos obrigados a um novo confinamento, os professores terão aprendido seguramente isso e que têm que falar menos, têm que sugerir mais, têm que desafiar mais os alunos para a ação, para a construção do seu próprio conhecimento, da sua própria aprendizagem e para a partilha e para um trabalho também colaborativo entre os próprios alunos. E também entre os próprios professores. E eu creio que isso foi talvez das aprendizagens mais significativas que terão ocorrido de março a junho.
José Matias Alves, docente da Faculdade de Educação e Psicologia da Católica no Porto e especialista em Educação no Explicador das manhãs 360. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. Um bom dia.
Muito obrigado.
Obrigada.
Um bom dia para vós também e para toda a audição.
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