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A caminho de Belém, na Rádio Observador, os candidatos à presidência mantêm a campanha condicionada pela catástrofe que se abateu na região Centro e a estratégia de ambos os candidatos continua a ser diferente. Até que ponto as consequências do mau tempo podem favorecer ou combater a abstenção no próximo domingo? Eu sou o Ricardo Conceição e neste A Caminho de Belém está comigo a Judite França.

E conosco estão Álvaro Beleza, apoiante de António José Seguro, e Luís Paulo Fernandes, apoiante de André Ventura. Bem-vindos, obrigada por terem aceitado o nosso convite. Eu começo por si, Álvaro Beleza. A campanha está centrada na destruição da tempestade. Isto beneficia algum dos candidatos?

Boa tarde. Não, a campanha agora é ajudar as pessoas que estão em dificuldades e, portanto, o foco principal, obviamente, é esse.

Não faltará mensagem política?

Vamos lá ver, a política é tratar da vida das pessoas e, portanto, o prioritário agora é este problema. O António José Seguro fez aquilo que devia e que deve fazer. Obviamente, aproveita a sua voz para chamar a atenção para os problemas e dizer que, se merecer a confiança dos portugueses no próximo domingo, esta será a primeira prioridade de todas, estar atento se realmente os apoios estão a chegar a tempo e horas às pessoas, porque esse é o problema e tudo o resto é menos. Claro que a democracia vive-se do voto e ainda por cima parece que temos indicação que no domingo o tempo será mau e, portanto, haverá condições adversas. Mas é fundamental que os portugueses participem, que votem. Estou convicto que o vão fazer. Os portugueses são adultos, estão informados e obviamente que para tempestade já chegam a estas tempestades. Não tenho grandes dúvidas que vão votar pelo Seguro, no sentido verdadeiramente do termo. E, portanto, é preciso fazer o que se tem feito e o António José Seguro está a dizer aquilo que sempre disse, com o tom que sempre disse.

Álvaro Beleza, vamos ouvir também o Luís Paulo Fernandes sobre esta matéria. Em que medida acha que isto pode condicionar o resultado das eleições no próximo domingo, mesmo a fluência às urnas, como olha para isto?

Antes de mais, agradecer o convite, cumprimentar o Álvaro e também enviar condolências às famílias, porque sendo eleito deputado pelo distrito de Leiria, é uma oportunidade também pública e dar uma mensagem de muita esperança e de muita coragem a todos que atravessam muitas dificuldades. Claro, quem atravessa dificuldades, quem perdeu pessoas, quem não sabe onde dormir, quem dorme a pingar-lhe água nos pés ou na cabeça, ou não sabe onde levar os filhos à escola, não tem condições de ter um dia normal para ir votar. Acredito, e não quero com isto dizer que não há condições, mas quero com isto dizer que tenho quase a certeza que no distrito de Leiria e no distrito de Coimbra, os números falarão por si. Acho que não há motivação, acho que há uma desilusão. E candidatos à parte, é uma realidade que não se consegue motivar as pessoas a irem votar. Talvez vão votar por desilusão, por revolta.

E isso acha que pode beneficiar André Ventura?

Se pode beneficiar ou não...

Tem sido o porta-voz de uma indignação constante. Muito diferente do que tem feito António José Seguro. Estão sendo muito diferentes na forma como estão em campo, se me permitem a expressão nesta altura.

Todas as pressões perante esta realidade são válidas, mesmo as minhas, dizer-lhe. Tem estado, e tem estado muito bem, porque nós acompanhámos o presidente. Em 48 horas visitou a cidade de Leiria e as freguesias duas vezes. Eu, enquanto mandatário distrital e enquanto presidente distrital do meu partido, fiz o meu trabalho com sete deputados do partido Chega. Nós estivemos nos locais, nós estivemos no terreno. E como disse, e bem, o senhor presidente da República atual admitiu que só teve a real perceção quando visitou o território. E estas visitas não se fazem pela calada da noite. Estas visitas fazem-se olhos nos olhos, mesmo que as pessoas critiquem, porque há outras que choram e há outras que nos querem ver. E aquelas que querem conversar conosco, nós devemos ser todos ouvidos. Portanto, transformar o que é o apoio e as responsabilidades de um político, eu deixei de ser empresário para ser político. E neste momento eu tenho que ter a capacidade de dedicar o meu tempo, não é à minha família, não é a quem também precisava da minha família, mas é às minhas responsabilidades. E portanto, o candidato André Ventura teve a noção exata, por mais que se transforme isto num jardim zoológico, como disse o meu adversário anterior nas autárquicas à Câmara de Leiria, está muito longe do que é a perceção dos portugueses neste momento. A perceção dos portugueses é acolhimento, é tentar perceber. E volto a reiterar, quando o senhor presidente da República, em exercício

Diz que só teve a percepção quando visitou os locais de noite, então está aqui a resposta certa que André Ventura visitou quando tinha que visitar, acompanhado pelo maior partido da oposição e por sete deputados, e fizemos o nosso trabalho de cabeça bem levantada e bem preparados. Não sabemos para o que vem, mas estamos mais bem preparados.

António José Seguro, entretanto, endureceu o tom na entrevista que deu à SIC, quando colocou André Ventura no campo ou com atitudes antidemocráticas. É uma estratégia para perseguir?

Não há aqui estratégia nenhuma, isto é genuíno. Eu fui a Vieira, passei na Marinha Grande. Isto é, de facto, uma tragédia que só vendo. Não é pela televisão, pela rádio. De facto, é preciso estar presente. E é evidente que as autoridades foram lentas a estar lá junto com as pessoas. Eu tenho falado muito nisto, aliás, como médico. Nós vivemos numa sociedade em que cada vez temos mais gente sozinha. As pessoas precisam de atenção, precisam que se olhe para elas, que se fale com elas. E quem tem responsabilidades políticas tem que o fazer. Independentemente das fações políticas e dos candidatos, eu não tenho dúvidas que o nosso adversário nesta eleição e os seus apoiantes estão obviamente preocupados com isto e querem o melhor para as suas pessoas e para as suas gentes, para as nossas gentes. E, portanto, sinceramente, acho que não estamos em tempo de divisões.

Estratégia política.

Não, porque isto é tão grave, o que nos está a acontecer, que temos, de facto, que nos juntar e nos unir. E quanto à campanha, deixe-me só dizer, eu acho que os portugueses já estão esclarecidíssimos sobre a personalidade, o perfil dos candidatos e, portanto, domingo farão a sua avaliação. Eu não entro nesta, até porque me custa imenso. Sabe que eu conheço bem a Marinha Grande. Já agora, eu tenho que fazer aqui outra coisa, desculpem. Nós também, por causa da tragédia, também por causa disto que está a afetar muitos concelhos do país e muitos portugueses, estamos com imensa falta de sangue nos hospitais em Portugal. A Associação de Dadores da Marinha Grande não só é das mais antigas de Portugal, como é das maiores associações de dadores. Todos os sábados tem colheitas, 56 semanas por ano, de muitos dadores de sangue. Muitos deles eu conheço bem, desde jovem interno, ia lá e mantive esse contato. Isto atinge as populações daquela região, mas também está a atingir, obviamente, todos os portugueses. Isto é uma coisa maior. E deixe-me também, já agora, dizer outra coisa: nós estamos a ver esta tragédia, eu estou absolutamente convencido. Claro que os portugueses vão superar isto, isto é muita dor, muito sofrimento, e é preciso exigir que as autoridades, o Estado, nos seus vários níveis, central, local, nos níveis que temos, por acaso eu acho que falta o regional, mas isso é uma conversa para depois, vão fazer o seu melhor, estão a fazer o seu melhor para acudir a esta tragédia. Mas deixe-me só lembrar outra.

Só para lhe fazer mais uma pergunta.

Mas espera, eu tenho que falar nisto. Também há pessoas que falam português como nós. Em Moçambique está-se a viver uma tragédia imensa, que os meios de comunicação não têm dado, cheias tremendas, com sofrimento para milhares de pessoas. Isto não é só Portugal. Este problema do aquecimento global está a atingir várias zonas do globo, infelizmente, e nós também temos que olhar para os outros. Nós temos um problema gigantesco, que temos.

Mas nesta altura, compreende que as atenções estejam mais viradas para cá?

Não, eu compreendo, mas Portugal tem condições para tratar deste assunto cá e também ajudar os países de expressão portuguesa.

Concorda com a ação mais discreta que António José Seguro teve depois?

Eu sou suspeito.

Exato, isso é que estava de ouvir.

Eu acho que nós precisamos de um presidente sóbrio.

Porque estávamos aqui a ouvir o Luís Paulo Fernandes falar da importância da presença de políticos no terreno, de forma visível.

E muito bem. Mas o António José Seguro esteve no terreno.

Teve duas opções aqui e gostava de ouvir sobre isso.

O António José Seguro, como já o disse, tem estado no terreno, vai continuar a estar, mas até para poder falar melhor com as pessoas. Sabe que em campanha eleitoral, você vai com os jornalistas, com a imprensa, com os próprios apoiantes. É muito difícil os candidatos falarem com tempo e com as pessoas e ouvirem as pessoas. A melhor maneira é, de facto, ir como ele foi e tem ido, sozinho, falar com as pessoas, ver o que é que se passa e estar próximo. Se há característica que ele tem é próximo. E já agora, quero aqui dizer, porque eu o conheço há 40 anos. Todos os presidentes da República têm as suas partes melhores e piores. Deste presidente atual que temos, há uma característica que ele tem que é muito boa, que é os afetos. Não vai parar. O António José Seguro será também um presidente de afetos. Agora, eu acho que nós precisamos de um presidente que seja sóbrio, discreto, que use a palavra menos vezes, mas para que tenha autoridade quando a usa. Esta coisa de estar sempre a falar e sempre aos berros e sempre a falar e a disparar em todas as direções, para presidente da República, não é, quanto a mim, a adequada e quanto a muita gente e ao próprio candidato. Será adequada para outras tarefas. E, portanto, o outro candidato, obviamente, que é candidato a líder da oposição, está aqui a tentar fazer uma primeira volta de umas próximas legislativas. O que é perfeitamente legítimo, é da política, faz parte da vida política. Mas, verdadeiramente, o António José Seguro, e bem, tem resistido ao imediato, ao dia a dia, ir atrás do debate diário Tem que existir, porque também humildemente, obviamente ele tem tido a modéstia e a simplicidade. Ele não é presidente da República, é candidato a presidente da República. Os portugueses é que vão decidir domingo e portanto temos que esperar o veredito dos portugueses. Mas é a maneira de ele estar. Ele tem sido como é, não mudou nada, não há aqui estratégia. Ele é assim.

André Ventura dispara com facilidade contra o governo e contra as autoridades. Como presidente também vai ser assim? Caso seja eleito, claro.

André Ventura dispara contra quem falha. Um presidente da República deve exigir ao governo, deve exigir aos ministros, aos secretários de Estado, responsabilidades dentro das suas competências. Eu comecei no Chega derivado à tragédia de Pedrógão Grande. Eu sou natural de Pedrógão Grande. O que é que aprendemos? Nada. Eu respeito que muitos antigos apoiantes do PSD, do PS, apoiem António José Seguro. Respeito imenso. Agora, respeitem também a opinião dos portugueses que querem alguém com mais firmeza, que querem alguém, se quiser utilizar a palavra disparar, que exija responsabilidades, porque no meio de tanta catástrofe, no meio de tantos incêndios, eu sou mesmo dali, vi a fotografia na vossa entrada e vieram umas lágrimas aos olhos. No meio de tantos incêndios, no meio do apagão, como deputado municipal, eu registei um dia depois do apagão. Já o tinha recomendado quando foi pelos incêndios. Os geradores são fundamentais para garantir mínimos de proteção civil, estações elevatórias de água, bombagem de água, geradores são fundamentais e o investimento que é imperativo todos os executivos municipais fazerem. Está em ata. Nós no partido Chega estamos alinhados. Apesar do presidente do partido se ter candidatado, nós estamos alinhados e estamos comprometidos com uma missão de mudar e transformar Portugal ao nível da proteção civil real. E, portanto, este disparar, o nosso disparar, é exigir responsabilidades, é agir, é verificar com os próprios olhos, é propor. E acabo de provar que propomos. Isto não é só disparar, isto é propor soluções que ficaram registadas em ata na Assembleia Municipal de Leiria. E onde um presidente, a primeira medida que decreta é limpar o estádio. Onde é que nós estamos? E onde é que está o Presidente da República para meter tino, ou o presidente da Câmara Municipal de Leiria, e os seus ministros? E onde é que está a senhora Ministra da Administração Interna? Não sabe o que aconteceu. Os portugueses não perdoam isto. E tenho a certeza que tudo pode acontecer, por quem apoia António José Seguro, volto a dizer, respeito, mas são os responsáveis políticos que nada fizeram por isto acontecer. E não, nós não estamos em Moçambique. E lamento o que esteja a acontecer em Moçambique. Não, nós não estamos na Ucrânia. E nós estamos a ajudar, como surgiram notícias, para comprar geradores na Ucrânia, quando os nossos não têm aqui para deitar os filhos, quando os nossos não têm aqui para levar os meninos à escola, nem pedir socorro. Eu não admito e eu vou lutar por Portugal e André Ventura, sem dúvidas, é o melhor presidente, tem a firmeza necessária, tem a coragem de disparar. Enquanto outros: "Vamos reunir, vamos ceder umas salas em São Bento para depois então resolver um gabinete de crise."

Luís Paulo Fernandes e Álvaro Beleza, não temos tempo para mais. Foi um ótimo debate. Ainda vamos ter mais até ao final da campanha.

Só espero é que isto se resolva e que não venham mais tempestades como esta e que possamos passar isto aprendendo as lições do que se está a passar, para corrigir os erros que foram cometidos.

E agradecer a solidariedade de tantas empresas que estão a ajudar, independentemente dos candidatos e dos partidos, são imensas. Tem que haver um registo solidário de empresas e pessoas.

Obrigado por terem estado neste Caminho Bem até o final da campanha. Aqui vamos estar neste Caminho Bem, na Rádio Observador.

E espero que os portugueses domingo votem.