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Vários humoristas cancelaram a participação na primeira edição do Festival de Humor Comédia à la Carte, que irá decorrer no final de outubro em Lisboa. O cabeça de cartaz é Jerry Seinfeld, o humorista norte-americano, cocriador e protagonista da série homônima Seinfeld. Entre os nomes que cancelaram a presença estão Pedro Touchas, Eduardo Madeira, Vils ou Inês Aires Pereira, que escreveu no Instagram, e vamos citar o que escreveu Inês Aires Pereira: "Um festival inclui muitos artistas e, neste caso, um dos nomes defende insistentemente ideias e atos que considero indefensáveis. Não podemos relativizar ou normalizar um genocídio", escreveu Inês Aires Pereira na sua conta de Instagram. Esta é uma referência clara a Jerry Seinfeld, judeu de Nova York, que reagiu de forma emocionada ao ataque sem precedentes lançado pelo Hamas a 7 de outubro de 2023, um ataque que massacrou mais de 1200 pessoas e fez mais de 250 reféns. Desde esse momento, algumas atuações de Seinfeld e aparições públicas ficaram marcadas por protestos. O humorista, que viveu num kibbutz em Israel quando tinha 16 anos, assume-se como um defensor de Israel. Depois dos ataques, esteve no kibbutz de Be'eri, onde 108 pessoas foram violentamente assassinadas. Esteve lá com a família e recentemente, com a ironia que o caracteriza, que caracteriza Jerry Seinfeld, comparou o movimento Free Palestine, Palestina Livre, ao Ku Klux Klan, dizendo que o Klan é mais honesto ao dizer abertamente que odeia negros e judeus, enquanto os defensores da causa palestiniana disfarçam o que ele diz ser o ódio aos judeus. Pede que digam abertamente que não gostam de judeus. E é sobre tudo isto que vamos falar. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite França.
Conosco está Nuno Amaral Jerónimo, sociólogo, docente e investigador na área de Sociologia do Humor e da Cultura na Universidade da Beira Interior. Bem-vindo, obrigada pela disponibilidade.
Olá, boa tarde.
Boa tarde. Na perspectiva da sociologia da cultura, como é que se explica que declarações políticas de um comediante de stand up provoquem reações de boicote e mobilização tão intensas como aquelas que temos observado com Jerry Seinfeld?
Obrigado pelo convite e pela oportunidade de falar sobre isto com vocês. E também obrigado por terem introduzido isso a partir da sociologia da cultura, porque um dos pontos que me parece importante para essa análise é uma velha questão da sociologia da cultura, que é o lugar dos artistas até como intelectuais públicos. É uma questão que o Raymond Aron, por exemplo, discutiu bastante. E é isso, isto mostra que os outros humoristas, os humorista que estão a fazer, e já lá vamos a isso, mas os humoristas que estão a cancelar os seus próprios espetáculos por causa da presença do Seinfeld, olham pra isso e têm, eu vou dizer objetivamente, no sentido sociológico, não é não, mas que o consideram mais do que um bobo da corte que diz umas palhaçadas. Portanto, estão a elevar também o nível do discurso e daquilo que são as intervenções públicas do Seinfeld, porque o Seinfeld também, quando defende Israel, não o faz na forma do seu espetáculo humorístico. Fá-lo, digamos assim, no seu lugar de cidadão. Mas esse reconhecimento é tido pelos outros nesse lugar do intelectual público, de alguém que está no espaço público a construir opinião e a construir um entendimento sobre a realidade, que é mais também de uma forma simplificada, mas aquilo que se entende por um intelectual público.
Aqui, Nuno Amaral Jerónimo, não temos o cancelamento do artista X ou Y. Temos o autocancelamento a participar num festival, quer dizer, nem sequer vão partilhar palco, é uma questão de partilha de cartaz. À luz do que estava a dizer agora, do que estava a explicar, o público entende este tipo de ação? Quer dizer, há aqui umas palavras, há posições públicas, mas depois há a obra, o lado artístico. Temos grandes autores que na sua vida pessoal e particular até podem ter sido grandes facínoras, mas conseguimos separar a obra, que não é aqui o caso, estamos a falar de posições públicas sobre acontecimentos devastadores que tivemos há três anos. O público como é que lê isto tudo?
Eu acho que aí o público talvez, vou fazer um pouquinho de impressionismo sociológico, é uma coisa que os meus colegas de profissão não gostam nada que se faça e com alguma razão. Mas o que eu vou dizer é: é provável que essa divisão siga mais ou menos linhas Também de concordância ideológica ou de aproximação aos artistas. Que é darem mais razão a um ou a outro, darem a entender que estão de acordo com quem agora se cancelou. Porque isso que o Ricardo disse parece fundamental. Apesar de tudo, nós podemos achar, e não me importo de fazer essa declaração, eu acho isto pouco razoável, mas é pelo menos um autocancelamento, ou seja, isto dificilmente entra na categoria de limitar a liberdade de expressão. Eles não disseram, e isso honra lhes seja feita, ninguém veio dizer: "Cancele-se o espetáculo do Seinfeld", só vieram dizer: "Eu não quero estar no mesmo espetáculo, no mesmo cartaz, na mesma organização que esta pessoa de quem eu não gosto das opiniões." Não sei se é de louvar, é pelo menos menos mau do que o que aconteceu muitas vezes, que nós fomos falando ao longo dos últimos anos, de um cancelamento puro, que seria dizer: "Façam o favor, proíbam a vinda do Jerry Seinfeld". Portanto, isso aí é menos problemático. Depois há uma outra coisa, e é isso que me perguntou, que é: como é que o público vê isto? Eu não posso fazer processos de intenção. Eu não sei o que é que leva as pessoas exatamente a cancelar o seu próprio espetáculo. Mas também pode acontecer que seja precisamente o público que faça com que as pessoas, aquilo que nós agora usamos a expressão, a tradução do sinalizar a virtude. Uma tradução da expressão inglesa. Mas sinalizar a virtude, dizer: "Vejam como eu sou tão virtuoso que não aceito estar no mesmo sítio de uma pessoa que defende Israel." E isso até poderá ter, de uma certa forma, benefícios perante o seu próprio público. No fundo, é sinalizar a virtude.
Mas compreende que tenha demorado tanto tempo? Quer dizer, já se conhece o cartaz.
Exato. Sim, pode ter havido aqui um fenômeno de arrastamento. As pessoas têm todo o direito de dizer. Repare, o que essas pessoas estão a fazer seria mais ou menos a mesma coisa que eu, cinco minutos antes de vocês me ligarem, dizer: "Afinal, pensei melhor e afinal não quero participar no programa." As pessoas têm sempre o direito de dizer, mesmo que vocês já me tinham anunciado, mas eu dizer: "Olhe, afinal, não tenho vontade de falar sobre isto."
Deixe-me dizer que o Nuno Amaral Jerónimo, conhecendo as de França e o Ricardo Conceição, era menino para isso. Estou a brincar consigo.
Certo. As pessoas estão a cancelar-se a si mesmas, a dizer: "Eu não quero participar." Isso não vejo problema no sentido da liberdade de expressão. Mas há uma coisa que me custa, que é que artistas não sejam capazes de conviver com opiniões diferentes das deles. Mas isto é uma opinião muito mais pessoal do que analítica. É uma coisa que me perturba um bocadinho. Eu tenho disciplinas onde ensino sociologia da arte, da cultura e da literatura, onde nós debatemos o lugar mesmo dos artistas no mundo e o posicionamento. E uma das coisas que nós vamos discutindo é mesmo essa, é a forma até como a arte é uma abertura de pontos de vista, de mundivisões. E o que o Ricardo estava a dizer, se nós fôssemos pela vida pessoal dos artistas, o mundo da arte e da literatura era 10% do que é.
Deixe-me só perguntar. Houve aqui apelos ao boicote, houve abaixo-assinados online. Estas dinâmicas nas redes sociais podem ter resultado como uma forma de pressão para estes artistas?
Podem. Mais uma vez, eu não sei o que é que está na cabeça deles. Estou a fazer processos de intenção, que não é uma coisa que eu até goste muito. Mas em um sentido mais geral, nós temos visto que esses movimentos que acontecem nas redes sociais e que se tornam uma espécie de turba que vai pressionando, isso pode pelo menos influenciar ou fazer com que as pessoas pensem duas vezes, até em um sentido contrário, que é: quais são as consequências perante o meu público, que está agora aqui nas redes sociais a gritar, quais é que podem ser as consequências para mim enquanto artista, perante o meu público? E eu acho que isso também parece legítimo, que os artistas pensem nisso. Volto a dizer que só me custa isto, é mesmo muito pessoal, para não parecer que não é o sociólogo, uma coisa muito analítica, não é dentro disso. É uma leitura mais pessoal. Eu gostava sempre que os artistas fossem capazes de conviver, toda a gente, mas os artistas particularmente, até porque os artistas, se têm uma responsabilidade social, e eu sou dos que acreditam que têm, é até de mostrar ao mundo formas diferentes de olhar para ele. Um olhar contraintuitivo, um olhar de rutura até. Eu ia até mais longe, eu que sou uma pessoa que não sou muito adepto de revoluções, mas um olhar revolucionário dentro da arte e que parecem incapazes de lidar com uma visão contrária à deles.
E isto de alguma forma condiciona também a escolha dos artistas no futuro, ou não? Porque hoje em dia já toda gente vai fazendo contas de cabeça se deve convidar esta ou aquela pessoa, porque pode causar esta ou aquela reação. Portanto, é uma espécie de cancelamento a priori.
Em termos de mercado, não sei exatamente, porque, por exemplo, o Andrew Doyle, aquele comediante americano, que é até o autor da "Titania McGrath" e que acolhe muito os humoristas que iam sendo cancelados. E houve vários humoristas cancelados, por exemplo, naquele grande espetáculo de Edimburgo, o Fringe, e eles criaram uma espécie de lugar alternativo, onde os artistas cancelados podiam ir e que era um sucesso de bilheteira. Isto eu não tenho a certeza, porque também me parece que há público suficiente para que quem é cancelado num sítio possa ir a outro. Eu não li nada sobre isso, não tenho ideia sobre isso, mas tenho ideia que as pessoas que compraram o bilhete do Sandeman não estão a devolver os bilhetes.
Aqueles conseguiram, porque os preços são exorbitantes.
E mesmo assim esgotou.
Esgotou os mais baratos, os mais caros ainda estão disponíveis.
Pois, esgotou os preços normais. O que acontecia nos Estados Unidos, por exemplo: havia pessoas ou alguns comediantes que, por causa da forma como o circuito do humor está montado, perderam capacidade de fazer qualquer espetáculo, porque foram cancelados por um circuito, por outro. E aquilo é uma espécie de ligação, eles são ligados uns com os outros e não conseguiam apresentar espetáculo em lado nenhum. Até podiam conseguir num bar ou num comedy club muito recôndito, mas quem é profissional não chega para pagar as contas. Se estivermos nesse sentido, aí sim, pode haver um cancelamento. Mas aqui, não sei, tenho mais dúvidas, porque essas pessoas continuam a ter espaços públicos de presença.
Nuno, obrigado. Nuno Amaral Jerónimo, sociólogo, docente e investigador na área de Sociologia do Humor e da Cultura da Universidade da Beira Interior, há muitos anos que investiga e acompanha estes fenómenos de cancelamentos e wokeismo.