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Começa agora mais um Explicador da Rádio Observador. Esta manhã, sobre o impacto do mau tempo e a ação do governo, é nossa convidada a ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho. A moderação é do Paulo Ferreira e do Bruno Vieira Amaral.
Muito bom dia, senhora ministra. Muito obrigado por ter aceitado o nosso convite. Qual é, neste momento, o ponto da situação das barragens, quais são as situações mais críticas e quais são os impactos que poderá haver nos próximos dias?
Muito bom dia. Muito obrigada por esta oportunidade e de explicar o que estamos a fazer e o que já começamos a fazer. Nós começamos este trabalho há cerca de três semanas. Principalmente a Agência Portuguesa do Ambiente, que recebendo dados do IPMA e em coordenação nos rios internacionais com Espanha e com as hidroelétricas, tem feito descargas preventivas e provocando pequenas cheias controladas, de modo a que quando chegasse a grande zona de chuva, que começou no último fim de semana e que se vai prolongar, nós temos informação, até o dia 10. Vai chover muito, é o máximo de chuva que se soma a um dezembro, que foi o máximo de todos os tempos, e um janeiro, que foi 150% acima do normal. Portanto, precisamos mesmo de fazer descargas preventivas, e fizemo-lo. E portanto, neste momento, temos a situação controlada. De qualquer modo, o caso que temos mais preocupação é o rio Mondego e por isso houve uma descarga muito grande na barragem da Aguieira. A barragem da Aguieira tem uma cota máxima de 124 metros, neste momento tem 114, portanto, tem 10 metros de folga, o que é bastante, porque ela é larga. E estamos a controlar o caudal. O caudal no açude, que é o que nos preocupa mais.
Em Coimbra.
Em Coimbra. O rio Mondego é segmentado em diques e quando há cheias, são cheias rápidas, porque a água transborda o dique. Não é como em todos os outros rios, que são cheias lentas e, portanto, dá tempo para se reagir. Portanto, no Mondego tem que se prevenir. Em todos tem que se prevenir, mas no Mondego ainda mais.
Neste momento, é a situação mais preocupante. Há riscos iminentes de cheias com as previsões meteorológicas que existem neste momento?
Riscos de cheias controladas, porque o ponto crítico é um caudal no açude, 2000 metros cúbicos por segundo, e nós estamos entre 900 e 1000. Portanto, estamos na metade. E a população pode estar segura de que quando se aproximar, porque estamos a medir a toda hora, quando se aproximar do ponto crítico, está tudo preparado para tirarmos a população das zonas baixas e mudá-los para outro sítio.
Neste momento, ainda não há avisos nesse sentido.
Não. E os períodos mais críticos são os períodos da maré cheia, porque se combina o caudal do rio com a maré do mar e, por azar, nós estamos agora num período da lua cheia, com uma amplitude de marés muito grandes, portanto, marés cheias muito altas. A zona crítica é quando há maré cheia. Esta noite foi às 04h30 da manhã, entre as 04h e as 05h, e portanto, estamos todos alertas. Durante a noite troquei mensagens com o senhor presidente da APA às 03h, às 04h e às 05h. Volta a haver, portanto, durante a manhã e depois novamente à noite.
E qual é o período mais crítico? Sabemos que as previsões nos dizem que a próxima noite, o final deste dia, desta terça-feira, já vai ser de chuva intensa. Nessa zona de Coimbra, qual vai ser o período mais crítico?
É exatamente o de maré cheia.
Portanto, hoje ao fim do dia.
Hoje ao fim do dia. Hoje temos ainda uma maré cheia durante a manhã, e depois temos ao fim do dia. O dia mais crítico, que nos é dito pelo IPMA, é de quarta pra quinta e quinta ao fim da manhã. Depois voltamos a ter um período crítico no fim de semana, entre sábado e principalmente domingo. Chamar a atenção que estas previsões vão mudando ao longo do tempo.
Vão sendo atualizadas.
Atualizadas. E portanto, nós estamos sempre em contato com o IPMA. Temos um modelo muito sofisticado da APA de cálculo e de vigilância das cheias e depois toda esta informação é passada para a Proteção Civil.
E para os municípios.
E os municípios, Proteção Civil Nacional e Municipal. E os municípios têm tudo preparado para, se for necessário, fazer a evacuação. E não é só Coimbra.
Exato. Coimbra já está sinalizado, se houver necessidade de evacuação.
É Montemor-o-Velho, é Soure e pode ser parte da Figueira, portanto, tudo a jusante até à foz do rio Mondego.
E a questão mais preocupante, nesse caso, o Mondego.
É mais preocupante, porque ela é muito rápida.
E os outros rios? O Douro.
Nós temos o rio Douro com muita água, o caudal atual na foz é Cerca de 4 mil metros cúbicos por segundo. Isto na maré baixa não é mau, mas quando for a maré alta, este caudal já é crítico e portanto, paramos as descargas quando chegamos à maré alta. A conjugação da maré alta com um grande caudal é que é complicado na foz do Douro.
Mas no caso do rio Douro, põe-se também a questão da gestão articulada com Espanha.
Sim, mas nós temos uma gestão perfeita com Espanha, tanto no Douro como no Minho, como no Tejo e no Guadiana. Quando eles fazem descargas, nós paramos. Tem sido possível, mas vai ser cada vez mais difícil fazer essa gestão, porque nos primeiros dias, a Espanha não tinha muita água. A frente entrou pelo Atlântico, choveu muito aqui e agora é que já está em Espanha. Portanto, Espanha começa a estar cheia e vai ser mais difícil pararem durante longos períodos. Mas continuamos a fazer essa gestão. Nós estamos a descarregar em muitas das albufeiras para preparar um encaixe também para o rio Douro, para que não haja problemas no rio Douro. Estamos a descarregar no Toural, na foz do Tua, no Alto Sabor, no Pocinho, no Vilar de Tabuaço e continuamos tranquilos. Não houve ainda problemas, se não temos feito estas descargas preventivas, já tinha havido problemas, nomeadamente na madrugada de domingo para segunda, mas conseguimos que fossem cheias muito controladas e tem sido aqui um rendilhado e uma gestão das barragens, das albufeiras, muito minuciosa, muito ao detalhe, que tem prevenido as cheias. São cheias controladas. Agora, tudo vamos fazer para que nos próximos dias, até dia nove, continue assim. Nada nos garante que se consiga.
Que se consiga evitar a cheia e a deslocação de populações, é isso?
Sim, vamos fazer tudo. Porque nós libertámos, e isso já foi dito pelo senhor presidente da APA, nos últimos dias, o equivalente a um ano de consumo de Portugal inteiro.
Para arranjar espaço nas albufeiras, para acumular mais.
Têm todas espaço. Mas deixe-me dizer os outros rios em que há problemas. Rio Douro, e eu estou a dizer por ordem de preocupação. Primeiro é o Mondego, depois o Douro, depois o Cávado, que já tem algumas cheias na cidade de Águeda, mas que são cheias muito habituais. Eles sabem lidar com isso. Ali há um problema do Cávado e do rio Omen. O rio Omen não consegue entrar no rio Cávado e quando isso acontece, a Vila do Prado e parte de Vila Verde, sofrem algumas cheias.
Mas isso pode significar que as zonas em que a situação pode ser mais complexa sejam zonas onde habitualmente não há cheias. Por exemplo, no Algarve podemos estar perante uma situação dessa?
Estou a lhe dizer por ordem de preocupação. Mondego, Douro, Cávado, Lima, e por isso tem havido cheias, mas controladas em Ponte de Lima e Ponte da Barca. Rio Minho, a barragem que controla é uma barragem espanhola, que tem estado a fazer tudo o que é preciso para controlar, que é a barragem de Frieira. Depois o rio Vouga e o rio Águeda, que temos uma cheia, mas de certo modo está controlada na cidade de Águeda, numa das margens da cidade de Águeda. O rio Tejo, estamos com muita água no rio Tejo.
E a preocupação é o ribatejo?
A preocupação é todas as lezírias, o ribatejo, mas está controlado nos níveis que são habituais. Não é uma grande cheia. E isto por quê? Porque temos encaixe em Castelo de Bode, reduzimos. Nós estávamos a fazer imensas descargas em Castelo de Bode, quando começou a aumentar o volume, que já estava uma cheia que já nos preocupava um pouco, diminuímos as descargas de Castelo de Bode. E começou a aumentar o caudal, muito porque a Espanha começou em Cedilho, também começou a descarregar. Depois temos o Sado. O Sado tem uma série de barragens, mas que são barragens de uso agrícola, hidroagrícola.
Mas aí ainda estamos numa zona de preocupação que pode levar, eventualmente, à saída de pessoas.
Alcácer, sim, já saiu.
Sim, isso já, nos últimos dias.
Eu estive lá e já estavam a sair e recomendei que saíssem e estava tudo planeado. Toda aquela parte baixa da avenida principal, a câmara mudou e de uma forma muito organizada e com muita ajuda.
Isso pode repetir-se?
Neste momento as pessoas saíram.
Ainda não voltaram.
Ainda não voltaram, porque nós sabíamos que no fim de semana podia acontecer, no dia de um para dois, agora durante o meio da semana voltar a acontecer e no próximo fim de semana voltar a acontecer. Por exemplo, ali há muitas lojas, há muitos pequenos comércios e a nossa recomendação foi retirar tudo. Eu estive no sábado em Alcácer e estavam os bombeiros a ajudar a fazer toda a retirada e não vale a pena voltar e depois na quarta-feira voltar a tirar. Aliás, já tiveram esta noite, juntamente quando houve a maré alta, que foi um pouco mais tarde do que no Norte, tipo às 5, 6 da manhã, tiveram novamente, subiu quase ao nível do que tinha subido na semana passada.
Senhora ministra, e para concluirmos esse ponto de situação das barragens.
Falta-me só dizer o Algarve.
Exatamente, relativamente ao Algarve.
O Algarve, temos as barragens cheias, a própria Bravura, que é aquela barragem que estava sempre nos 10% e que nos preocupava muito.
E que agora já ultrapassou os 96%.
Tem 96,4%, vai descarregar. Estão a descarregar, mas está controlado. Houve uma cheia Relativamente controlado em Silves e não nos parece que vá haver grandes problemas. Mas estamos a controlar. E depois o rio Guadiana descarregou, o Alqueva descarregou, parou, quando começou a haver cheias, ele parou, mas neste momento tem que descarregar outra vez. Portanto, já avisámos que Mértola, Vila Real de Santo António e do lado de Espanha poderá haver algumas cheias. De qualquer maneira, estamos a controlar para que não sejam cheias descontroladas.
O que está previsto, caso seja necessária, de facto, a retirada de populações, o que é que está previsto para o alojamento delas? Que articulação é que existe?
A senhora presidente da Câmara de Coimbra explicou muito bem, isto é uma responsabilidade da Proteção Civil, mas ajudada pelo governo central. A Proteção Civil e os militares estão naquela zona desde há vários dias. Temos um grande número de militares, por exemplo, na cidade de Coimbra, que vão ajudar, mas vai ser coordenado pela Proteção Civil distrital e regional. Está tudo previsto para onde vão, têm sete zonas. Está tudo desde há muito tempo.
Questões como alimentação.
Tudo. Está tudo bem organizado. Esperemos que não seja preciso, mas se for preciso, está tudo previsto e estão forças no local e homens no local, tanto da Proteção Civil como das Forças Armadas, para ajudar a Proteção Civil distrital a fazer toda essa operação.
Este planeamento que está agora a ser feito, e aqui estamos a falar de cheias, não estamos a falar do efeito do vento, por exemplo, dos ventos fortes da última semana, mas não podia ter sido ou devia ter sido feita a mesma coisa em relação ao impacto dos ventos fortes da semana passada?
Era muito mais difícil. Estamos a falar de fenómenos completamente diferentes. Nós tivemos uma previsão atempada do IPMA da pluviosidade que se vinha a aproximar e, portanto, temos muita experiência em Portugal de gestão de barragens e autoridades públicas muito competentes e uma engenharia muito competente, que nos possibilitou fazer uma gestão atempada dessa crise.
As três semanas que a senhora ministra começou por referir, de planeamento para esta situação, são suficientes?
São suficientes e o encaixe que fizemos, nós esperamos que seja suficiente, a não ser que haja uma catástrofe imensa, porque eu penso que vamos conseguir evitar. De qualquer maneira, estamos preparados para tirar as pessoas caso seja necessário. Com o vento é muito mais difícil, porque a previsão do vento.
É, mas havia previsão que teria ventos fortes.
Havia previsão, mas foi muito mais alta do que a previsão que existia. Nós temos o registo que foi de 210 km/h, mas a partir desse momento os meios de medida foram destruídos e, portanto, poderá ter sido mais. E, portanto, é uma catástrofe que é muito difícil de prevenir, e isso vê-se em países com muito mais poder e muito mais desenvolvidos, quando há um furacão destes anos, foi um furacão, foi uma catástrofe enorme, é difícil de prevenir. Nas cheias, nós infelizmente temos muita experiência ao longo dos anos.
E as coisas acontecem mais devagar.
E as coisas acontecem mais devagar, exceto no Mondego e, portanto, daí a nossa preocupação com o Mondego.
Muito bem, Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente e Energia, obrigado pela disponibilidade, por ter estado esta manhã no Explicador. Bom dia.
Muito obrigada. E deixe-me dizer, é preciso que as pessoas estejam avisadas e sigam todas as indicações das autoridades, caso seja necessário, e comecem já a retirar os bens, as pessoas mais idosas, os lares, porque depois, mesmo com o tempo, as situações mais difíceis é melhor estarem já acauteladas e não estarem pessoas de idade já sozinhas, em zonas baixas. Portanto, começar já a preparar, como eu disse em Alcácer e que eles começaram, porque de um momento para o outro, se for preciso, depois se fazer tudo de uma forma muito mais rápida.
Fica já esse alerta dirigido especialmente às regiões que disse que serem críticas agora.
Muito obrigada.
Muito obrigado.
Muito obrigado.