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E no Explicador de hoje recebemos nosso convidado, Jaime Nina, virologista e especialista em doenças tropicais no Instituto de Higiene e Medicina Tropical e também no Hospital Egas Moniz. Bom dia e muito obrigada pela sua disponibilidade.
Muito obrigado. Já agora, uma pequena correção: eu não sou virologista, sou médico. O médico vê doentes, o virologista vê vírus.
Muito obrigada pela correção. Vamos falar do coronavírus. Jaime Nina, o número de mortos na China subiu para 81 e em todo o território chinês existem agora quase 3 mil casos confirmados. Em que fase estamos? A propagação ainda está a aumentar? Pode prever-se algum abrandamento ou ainda é precoce?
Há um fator que é bom lembrar: que o número de diagnósticos de mortes depende muito da capacidade de diagnóstico. E neste momento, há uma série de hospitais, nomeadamente na China, mas também noutros países, incluindo em Portugal, que criaram a capacidade de fazer o diagnóstico. Portanto, o número aumenta, em parte, porque está a aumentar, de fato, o número de casos, mas em parte porque outros casos que não eram diagnosticados passaram a ser diagnosticados.
De qualquer maneira, é possível, neste momento, saber se estamos numa fase ainda muito crescente ou se há alguma estabilização do contágio, ou é difícil ter essa noção?
A posteriori, pode-se saber se já tínhamos chegado ao pico ou não. Nesta fase, não sabemos. Nós estamos a fazer estimativas com uma informação muito incompleta. De qualquer forma, também é bom lembrar que isto é um período de incubação. Portanto, mesmo que se pudesse, que não é possível, mas mesmo que se conseguisse fazer a transmissão chegar a zero hoje, o número de casos só começaria a diminuir depois de passar o período de incubação, portanto, mais ou menos daqui a uma semana.
Cerca de sete dias de incubação, não é?
Em média.
Em média. As mortes ocorridas e registradas são todas na província chinesa de Hubei. Isso quer dizer que o contágio pode estar controlado de alguma maneira?
Não, nós pensamos na China como um país muito desenvolvido, mas não é bem assim. A China, para já, é enorme. E depois uma grande área da China é profundamente pobre.
E rural, não é?
Rural, e depois tem cidades industriais que fazem lembrar as cidades industriais do século XIX da Europa, com níveis de poluição altíssimos, que é o caso de Wuhan. Wuhan é uma cidade que sozinha tem mais gente que Portugal e que tem níveis de poluição perfeitamente assustadores, uma cidade industrial e comercial, tem um aeroporto internacional altamente movimentado, que neste momento está parado, obviamente.
As autoridades chinesas começaram por tentar controlar este surto só depois de várias mortes confirmadas e de vários casos noutros países é que decidiram fechar a fronteira da cidade de Wuhan. Foi tardia essa reação? Temos agora também a construção de um hospital para as pessoas infectadas. Foi tardia?
Não, eu não diria que foi tardia, porque quando todos os dias há alertas de novos vírus que são isolados, até se saber se ele é grave ou não, demora algum tempo. Portanto, eu diria que as autoridades chinesas estão a trabalhar bastante bem. É bom lembrar que o primeiro caso foi diagnosticado em 21 de dezembro. Nós estamos ainda em janeiro.
Só um mês, precisamente.
É um mês, isto está a correr tudo a uma velocidade enorme. Mas se a comunicação hoje em dia é muito rápida, as doenças continuam a ter os mesmos períodos de incubação e o mesmo período de evolução. Portanto, se pensarmos noutra perspectiva, neste momento, os primeiros casos estão simplesmente na terceira geração. O período de geração dos casos, que é o período de incubação até os novos casos clínicos, não mudou. E isso demora tempo.
Mas a Organização Mundial de Saúde foi rápida a falar em emergência. Em Portugal, houve uma certa desvalorização destes casos. A Direção Geral de Saúde acabou por desvalorizar, disse que até foi um exagero o sinal de emergência da Organização Mundial de Saúde. Agora percebe-se que não terá sido um exagero tão grande. Sente que em Portugal foi muito rápida essa desvalorização, sem perceber bem qual era a realidade deste surto?
Não sou bem dessa opinião. É difícil tomar decisões com a informação incompleta, como é o caso. Volto a repetir, todos os dias são descobertos novos vírus. Todos os dias há casos humanos de novos vírus. Saber quais são os graves e quais não são, é complicado. Se nós declararmos uma emergência mundial ou nacional para todos os novos vírus, nunca saímos da situação de emergência, porque todos os dias há novos vírus. Portanto, o escolher e tentar definir quais são os graves demora algum tempo e não é fácil.
Mas perante aquilo que já sabemos, o que acha que deveria ser recomendado neste momento?
Neste momento, eu penso que o que está a ser feito é o correto. Tentar conter o vírus na origem, na China central, a cidade Wuhan está mesmo no umbigo da China, tentar evitar que alastre-se primeiro dentro da China e depois para fora da China. Claro que durante este período houve pessoas que viajaram e as pessoas têm a sua vida. Há pessoas que têm coisas marcadas, têm reuniões marcadas, têm reuniões de família marcadas, têm cerimônias marcadas, casamentos, enterros, etc. E que é uma grande disrupção se isso tiver que ser anulado ou adiado. O impor medidas de quarentena e de isolamento tem que ser muito bem pensado pelo prejuízo que isso provoca às pessoas, a milhões de pessoas. Além do preço econômico. A China é um parceiro econômico importante a nível mundial e isolar uma parte da China, já não falando da China toda, tem um impacto enorme na economia mundial. É preferível tentar evitar que o remédio seja pior que a própria doença.
Claro. Jaime Nina, essa quarentena continua a ser eficaz, mesmo quando se sabe que já há casos confirmados um pouco por todo o mundo, tirando os países ali à volta: Estados Unidos, França, Austrália e Canadá.
Sim.
E, portanto-
Cingapura.
Cingapura também.
Há uma diáspora chinesa gigantesca, há dezenas de milhões de chineses a viver fora da China com família na China. E isto ocorreu numa altura má, que foi o Ano Novo chinês, que é uma altura de festas. Pensando numa perspectiva ocidental, é como se a epidemia tivesse começado em pleno Natal, quando toda a gente está a visitar a família.
Quando as pessoas viajam mais, não é?
Exatamente. E que, por um lado, torna mais difícil controlar e, por outro lado, torna as pessoas mais resistentes a tomar medidas de isolamento, de quarentena, etc. A pessoa já tem marcada a reunião de família, já comprou os bilhetes de avião, já gastou milhares de euros para ir e voltar, já tem os presentes embrulhados. Dizer: "Agora não pode porque há um caso ali ao lado." Ninguém fica satisfeito.
A propagação está sobretudo associada ao contato pessoal e às viagens de pessoas desta região chinesa, é isso?
Sim, exatamente. Até agora só houve dois ou três casos apenas de pessoas que não tinham vindo da China e que adoeceram, mas todas elas tiveram contato próximo com pessoas que tinham vindo da China. Pondo isto em termos de geração, a primeira geração será os que vieram da China. A segunda geração será aqueles que tiveram contato com os que vieram da China. A terceira seria aqueles que teriam contato com pessoas que tiveram contato com quem vieram da China. Neste momento, há um número muito reduzido, conta-se pelos dedos, de casos de segunda geração. Até agora, que eu saiba, não foi notificado nenhum caso de terceira geração.
As últimas notícias dizem que o vírus se espalha com mais facilidade do que se pensava inicialmente. Como é que tem evoluído a pesquisa que está a ser feita para se conhecer, de facto, a forma como se propaga este vírus?
O vírus propaga-se por via aérea. Não é pela água, não é pela comida, não é por objetos, é por via aérea. Tal como a gripe, por exemplo. Uma das informações que foi publicada há dois dias, foi um estudo de um grupo inglês, que ainda não foi analisado pelos colegas, isto está apenas num preprint, ainda não está impresso.
Tem o telemóvel a tocar aí ao lado.
É verdade, só um momento.
Claro. Esperamos um pouco então. Estamos a falar com o Jaime Nina, médico especialista em doenças tropicais, a falar deste coronavírus, a forma como se propaga.
Estava a dizer que este estudo dá uma transmissibilidade à roda de três para quatro. Ou seja, o número médio de pessoas infectadas a partir de um caso infectante, na ausência de medidas de contenção, andará entre os três e os quatro. Isto é um pouquinho mais alto que a primeira estimativa da OMS, que apontava uma transmissibilidade, ou aquilo que os técnicos chamam R0, entre 1.4 e 2.5. Mas não anda muito longe, está dentro dos intervalos de confiança das estimativas. Que é uma transmissibilidade média.
Isso é comparando com outros vírus, isto são valores médios.
É valores médios. Está longe do sarampo, que tem uma transmissibilidade de 18 ou 20, por exemplo.
O facto também de ser assintomático, de não revelar sintomas, não é um pouco preocupante também?
Ela não é assintomática, se fosse assintomática não tinha sido descoberta. Pode evoluir pra uma pneumonia grave.
O contágio é que pode ser feito antes dos sintomas manifestados, é isso?
Isso foi a novidade que-
Surgiu este fim de semana, sim.
Ontem, pelo ministro da Saúde, não chamaria federal, porque oficialmente a China não é federal. Mas as províncias têm uma autonomia muito grande, maior que muitos estados em países federais, sei lá, estou a pensar no Brasil. E foi o ministro da Saúde do governo central chinês que disse na televisão que havia casos de transmissão no período de incubação. Isso é preocupante, mas, por outro lado, quem disse foi um político. Eu ficaria muito mais sossegado se tivesse sido, por exemplo, o diretor do CDC chinês. Um técnico especializado no assunto, que tivesse uma noção clara do que é que estava a dizer, que os políticos dificilmente terão essa noção. Mas pronto, vamos ver se isto se confirma ou não.
Mas agora preparam-se já alternativas para combater este surto. Quanto tempo é que pode demorar até chegarmos a uma vacina ou um medicamento para combater?
Estão a ser ensaiados alguns medicamentos antivíricos ou utilizados noutras doenças, a ver se funcionam nesta. Até o momento, não há nenhum dado seguro, mas já estão a ser ensaiados. Quanto a vacina, isso sabe-se. Foram feitos esforços quando foi do SARS para produzir uma vacina. Agora, que é um vírus muito semelhante, outro vírus semelhante é o do Médio Oriente, o respiratório agudo do Médio Oriente. Essas vacinas nunca chegaram à fase de ensaios em seres humanos, porque a doença foi controlada antes disso, no caso do SARS, ou aparentemente não se está a espalhar no caso do síndrome do Médio Oriente. Há um trabalho prévio e é relativamente, não direi simples, porque essas coisas nunca são simples, mas pronto, é possível e não muito demorado adaptar esta vacina ao novo vírus. E isso pode ser feito num prazo de alguns meses. Se de facto a epidemia se espalhar e se justificar, possivelmente ainda este ano poderá haver uma vacina para o novo vírus. O que é uma situação que não é habitual.
Jaime Nina, muito obrigada pelos seus esclarecimentos e pela sua disponibilidade para estar em direto na Rádio Observador.
Muito obrigado!
Jaime Nina, o médico especialista em doenças tropicais no Instituto de Higiene e Medicina Tropical e também no Hospital Egas Moniz, o nosso convidado do Explicador de hoje. Observador 98.7, Lisboa. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7, em Lisboa, e em 98.4, no Porto.