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Está no ar o Explicador da Rádio Observador, esta terça-feira sobre o novo podcast Plus do Observador, a eleição mais louca de sempre, e são nossos convidados o ator Gonçalo Waddington, que narrou toda a série, Samuel Horia, autor da banda original sonora, e Miguel Santos Carrapatoso, o autor deste podcast. E nós estávamos a rir porque começamos precisamente por perguntar ao Gonçalo se se diz Waddington ou Waddington, como ele próprio diz no trailer.
Deixa eu falar.
Eu já estou arrependido de ter tentado explicar, porque eu próprio dizia mal, eventualmente.
Pois, se calhar sim.
Há lá um A e houve uma pessoa inglesa, por acaso, que me disse: "Atenção, que há uma estação chamada Paddington, ou um urso, e se substituíres o P pelo W, dá Waddington".
Daí a explicação.
Mas eu acho que está tudo bem e não precisamos de estar todos parados numa coisa que eventualmente não nos dá em jeito.
Fica ao critério de cada um. Goncelo, Gonçalo.
Goncelo, eu quase disse isso. Bom, este podcast conta a história das eleições presidenciais de 1986, que teve contornos muito curiosos. Foram das mais disputadas da história democrática do país, obrigando pela primeira vez, e até hoje única, a uma segunda volta entre os dois candidatos mais votados, Freitas do Amaral e Mário Soares. Miguel, se calhar começamos por ti. Como é que foi decidido o tema deste podcast? Tem a ver com a importância histórica, cultural daquelas eleições? Conte-nos tudo.
Sim, claro, tem a ver com a importância daquelas eleições, mas porque estamos na antecâmara de umas eleições presidenciais que muito provavelmente vão ser decididas a duas voltas e, portanto, havia essa motivação lógica e decidimos fazer este podcast muito por aí. Depois, tivemos uma preocupação desde o início, que foi não fazer deste podcast uma história sobre a festa da campanha, que foi de facto uma campanha verdadeiramente mobilizadora, uma campanha americana, a primeira campanha profissional que se fez em Portugal. Mas de alguma forma esses espaços já estavam ocupados, já tinham sido feitos trabalhos sobre isso mesmo, uma série até, do Nuno Markl, muito à base, muito centrada na festa da campanha. Mas depois também não queríamos fazer uma coisa de nicho, só para as pessoas que gostam de política, só para as pessoas que conhecem aquelas personagens. Portanto, decidimos contar esta história, que acaba por ser uma história sobre a natureza humana, sobre traições, sobre lealdades, sobre amizades, sobre a forma como a política muda tudo e envolve os sentimentos mais primários que todos temos.
Sim, Carla.
Está centrada nos quatro candidatos ou gira em torno de algum?
A pergunta era essa.
Como sabemos, a campanha foi decidida a duas voltas, acabaram por ficar Mário Soares e Freitas do Amaral, mas o podcast arranca com quatro personagens, Freitas, Mário Soares, Pintasilgo e Salgado Zenha. E portanto, explica-nos também, porque essas personagens, pela força das circunstâncias, acabaram por perder algum protagonismo à medida que os anos foram passando, mas foram muito importantes nessa campanha e tiveram um papel determinante. Salgado Zenha era um irmão de Mário Soares, era o eterno número dois do Partido Socialista, decide avançar contra Mário Soares, isso muda por completo a história do Partido Socialista, muda também a esquerda, como a esquerda se redefine depois dessas eleições.
E a amizade deles também, ou nem por isso?
Não querendo spoiler, mas sim, muda muito a amizade que os uniu aos dois. Foram pessoas que partilharam cela durante o período da resistência. Portanto, para termos uma noção do quão profunda era a amizade entre os dois, Salgado Zenha era padrinho da filha de Mário Soares, Isabel Soares, que fala neste podcast. E depois havia Maria Luz Pintasilgo, que foi a primeira mulher a liderar um governo, primeira e única a liderar um governo em Portugal, de quem se fala pouco ainda hoje, apesar da importância que teve e que era uma personagem absolutamente muito interessante, a forma como ela se apresentava e as propostas que tinha para o país. Se fecharmos os olhos, muitas vezes ouvimos ainda ecos do que Maria Luz Pintasilgo dizia e como hoje se mantêm muito atuais algumas das mensagens dela. E portanto, estas quatro personagens fizeram, de facto, uma campanha muito interessante e que é irrepetível, nunca haverá outra igual.
É difícil imaginar, depois de Mário Soares ter estado 10 anos na Presidência da República, de ter sido reeleito, provavelmente com a maior porcentagem de sempre em 1991, é difícil imaginar a situação e a posição em que ele se encontrava no arranque para essas eleições presidenciais de 1986.
Lá está. Mais uma vez, é o defeito de quem está habituado a escrever sobre isto e a recordar essas histórias. Não me lembrei do essencial. E o essencial era mesmo o ponto de partida de Mário Soares. Começou com sondagens de 8%, tinha sondagens internas de 6% e acaba por vencer umas eleições. É uma recuperação absolutamente histórica.
Com um sapo pelo meio.
Com um monumental sapo pelo meio, que envolve Álvaro Cunhal e o Partido Comunista Português. Mas sim, esse é o ponto de partida de alguém para quem é muito difícil cumprir o sonho de ser presidente da República. Ele tinha esse sonho desde pelo menos o início da década de 80 e que tinha sido primeiro-ministro, tinha sido obrigado a aplicar um programa duríssimo de austeridade
Tinha uma inflação galopante. Nós hoje em dia falamos de inflação na ordem dos 20%.
Estamos a falar de um período da história do país em que havia vagas de despedimentos, fome às portas de Lisboa, na Península de Setúbal.
Salários em atraso. Mário Soares era tudo, menos uma personagem apreciada no país. Começa com 8%, começa com gente a dizer-lhe: "Desista, vai sofrer uma derrota humilhante", e depois faz a recuperação incrível, como sabemos. Claro que com vários-
Pois é, isso nós queremos saber. Isso é para ouvir. Porque estamos aqui a falar de 86, eu fui até aqui com a ajuda perceber, Gonçalo, o que é que te lembras dessa altura?
Não sei porque é que não me perguntaste a mim, Carla.
Estou te a poupar dessa humilhação.
É interessante porque na altura, o meu avô materno, antes os meus pais vieram de Moçambique. Malta que veio de Moçambique naquela altura não tinha uma boa relação com Mário Soares.
Uma grande simpatia.
Com Mário Soares.
Mas como vemos, era mais ou menos extensível.
Exatamente. Sim, de facto, mas em famílias que vieram, todas elas de Moçambique, que era o nosso caso, tanto os meus avós paternos como os maternos, a relação com Mário Soares e Almeida Santos não era uma coisa muito boa. Mas o meu avô, que na altura, em Moçambique, era considerado branco de segunda, porque não podia evoluir nas empresas, nos cargos, havia coisas que ele não podia fazer, ele tinha uma grande simpatia pelo Mário Soares. Era o único, era o meu avô materno. Toda a gente da minha família depois pediu votaram.
Ele era um dos 8%.
Precisamente, eram todos Freitas do Amaral.
Mesmo no final da campanha?
Sim. O meu avô materno era gozado, aquilo era realmente... E depois houve discussões muito acesas, porque foram fantasmas que voltaram àquela família. O abandono de casas, sítios, lugares, vidas.
Não, eu lembro-me perfeitamente, também cresci num bairro com muitos retornados e de facto, nós identificávamos as pessoas facilmente, porque tinham os autocolantes do Para a Frente Portugal, do Freitas do Amaral.
Os meus avós, o meu avô materno não era retornado, o meu avô materno nasceu lá. Os meus pais não se consideravam retornados. Os meus pais acham que foram exilados, expulsos, o que for. O meu avô paterno e minha avó paterna eram, de facto, retornados. Eles voltaram. Aquelas discussões tornaram-se e houve noites mesmo muito acesas, porque essas discussões-
Também na tua família, não é?
Sim. E eu lembro-me, sobretudo isso. Foi quando eu mais ouvi falar daquilo que foi a vida em Moçambique e as dificuldades depois quando tiveram que voltar, foi durante aquele período.
E tu, Samuel? Só para acelerarmos, porque temos aqui tempo. Qual é a tua memória dessa altura?
Eu tenho uma experiência semelhante, porque parte da minha família que esteve muito envolvida nesta campanha eleitoral, envolvida no sentido de serem mesmo adeptos. Adepto é a palavra certa. O meu primo Timóteo ficou muito contente quando soube que eu ia fazer música para este podcast, porque ele viveu intensamente. E também por serem pessoas que tinham vindo de Angola, não morriam de amores pelo Mário Soares e então estavam a fazer campanha pelo Freitas do Amaral. Então tenho essa ligação direta de ver os autocolantes do Freitas no quarto desse meu primo, mas também tenho uma relação, ainda por cima como eu vivi em Tondela, um sítio isolado, ainda muito isolado nos anos 80. 86 é um ano muito importante, não só pela entrada de Portugal na CEE, por essa altura, mas sobretudo por aquilo que estava a acontecer na televisão. E então, para mim, é um fenómeno quase de cultura pop, o que aconteceu nessa campanha eleitoral de 1986.
E já te vamos perguntar precisamente sobre isso, as inspirações para a banda sonora, se têm a ver também com essa influência pop.
Estamos no "Explicador" para falar do podcast Plus do Observador, a eleição mais louca de sempre, e temos o elenco desta bela série: Gonçalo Waddington, que dá voz e talento, claro, Samuel Louria, responsável pela trilha sonora, e Miguel Santos Carrapatouso, o autor deste podcast. Falávamos sobre as memórias desta altura e para fazerem este podcast, foram ao baú recordar os momentos marcantes destas eleições. Estamos a falar aqui com o Samuel, que era um garoto na altura, não é verdade?
Estás a insinuar que eu já não sou um garoto.
Sim, só por dentro.
Mas fui ao baú, sim.
Pronto, mas inspiraste dessa forma?
Sabes que uma das coisas engraçadas, sobretudo quando estou a escrever música, é que eu acesso às memórias, mas tendo a que o processo seja o mais inconsciente possível, para depois me poder gabar que recebi inspiração divina, o que quer que seja. Mas eu mantenho uma ligação muito próxima com o passado. Não é que seja um saudosista, mas tenho sempre aquela coisa de recordar repetidas vezes coisas que me marcaram, memórias que eu não quero perder. Estou sempre a refrescá-las e as desse ano estão muito presentes. Lá está, tanto por lado da campanha eleitoral, para um miúdo que vive numa terra pequena como Tondela e longe dos centros urbanos, até os tempos de antena são um entretenimento. Eu lembro-me muito bem dos tempos de antena do Salgado Zona, da Marilu Luz, Pinto Assigo. Lembro-me mesmo bem dos cenários, do décor, etc. Mas depois eu também passava muito tempo na Figueira da Foz, tenho a certeza que não te é estranha.
Adoro.
Onde viviam esses tais meus primos, ainda por cima com o nome Cavaco. Depois no ano das legislativas Cavaco Silva foi a mesma festa, mas aí por questões de nome da família, foi muito curioso. Mas lembro, por exemplo, de estar no quarto desse meu primo Timóteo a jogar no Spectrum dele
E eu tenho a certeza que essa memória invadiu-me quando eu estava a fazer a música deste podcast.
Vou fazer aqui a cama. Espera aí. Estamos a ouvir.
Lá saiu o som.
Mas podem falar.
Era isso que te queria perguntar, se foste buscar essas memórias, usaste essas memórias como base para a banda sonora que compuseste, ou se também tiveste a preocupação de ires ouvir ou recordar aquilo que se ouvia na altura, mesmo na televisão, não só na música, mas os genéricos de programas, se recorreste essas fontes para compor ou se é um trabalho mais de introspecção.
É um bocado as duas coisas. Ainda há bocado estavas a falar do "Damages" e "Make Peace", que era uma série que eu adorava. Eu acho que só começou a ser transmitida em 87.
Qual? "Twin Peaks" e "Make Peace".
"Damages" e "Make Peace". Não, o "Twin Peaks" é...
"Twin Peaks" é anos 90.
Anos 90.
Sim, que é a minha gera.
Fabulosas quintas-feiras, que davam os Simpsons e depois o "Twin Peaks". Mas o meu ponto de partida foi a tensão, mas uma tensão que fosse animada também e que tivesse qualquer coisa reminiscente dos sons dos anos 80, muitos sintetizadores.
Também algo espacial aqui, não é?
Sim, mas não queria ter uma referência direta com as minhas memórias nessa altura. Eu acho que a memória interferiu mais no processo da criação da melodia, que normalmente parte sempre de uma ideia mais abstrata, que a mim me está a dizer alguma coisa, muitas vezes não sei explicar por quê. E depois, nessa inspiração, que eu tento não detalhar, há um trabalho intelectual, racional, de tentar desenvolver a ideia em torno do que aquilo já me está a soar. E aí, sim, é deixar que as memórias influenciem e que me ajudem às vezes a justificar coisas que são absolutamente subjetivas. Há opções que eu tenho aqui que fazem parte, de facto, do meu manancial mnésico e não têm a ver com a experiência coletiva das pessoas que também assistiram a esta eleição e a esta campanha eleitoral.
Gonçalo, no teu caso, tinhas de narrar uma história que te era familiar, num certo sentido, embora calculo que tenhas adquirido muita informação suplementar depois disso. Qual é que foi o principal desafio aí na narração?
Acho que o principal desafio são os longos folgos. Ou seja, muitas vezes quando estamos a ler um texto, o grande problema é estarmos preocupados frase a frase e depois o longo folgo, às vezes os longos parágrafos ou mesmo uma longa página, para não quebrarmos o pensamento. Não queremos musicar muito um texto, porque é preciso entregar aquilo de forma que as pessoas consigam, obviamente, perceber o que está lá escrito, mas depois terem espaço para irem pensando sobre o que estão a ver. E eu acho que isso tem que ver com hábitos de leitura. No outro dia li qualquer coisa, não me lembro onde é que foi, sobre a quantidade de pessoas que não consegue ler um livro inteiro. Ou seja, não há capacidade de abstração nenhuma, não há uma longa narrativa. E eu acho que isso tem que ver com o ler e conseguir dizer várias frases seguidas sem atropelar.
A voz interior da pessoa é aborrecida.
Sim, se calhar.
Devíamos ler a tua para aprender.
Sim, eu acho que é o mesmo.
Os audiolivros.
Pois é.
Claro, é isso mesmo. A questão é também não ser nem muito melódico, porque depois as pessoas ficam encantadas é com a voz e não com a mensagem.
E aqui é importante-
Ou seja, não posso brilhar muito.
Não, nem é o brilhar, é mesmo tipo: "Estou distraído com a maneira desta pessoa falar, que não é nada interessante."
E, de facto, aqui o mais importante é o conteúdo, aquilo que está a ser narrado. Miguel, como é que foi para ti mergulhar neste período, neste acontecimento em particular? No período, porque não estamos a falar só de eleições, é preciso contextualizar aquele acontecimento e inseri-lo na realidade histórica daquele momento. Há muita coisa que não sabemos ainda sobre estas eleições. Há também, e já percebemos por aquilo que estamos a dizer, à volta destas eleições, uma mitologia, uma iconografia que foi sendo criada e que depois pode ou não corresponder exatamente àquilo que se passou.
Eu aqui tinha uma vantagem ou uma desvantagem, como quiserem, para vocês será uma desvantagem, não ter vivido aquele período de tempo. Eu não era nascido em 86, nasci uns aninhos mais tarde. Claro que já me tinha cruzado muitas vezes com a história destas eleições. É um caso de estudo na política portuguesa e portanto sabia para onde é que ia e o que é que queria contar. Mas depois à medida que fui lendo a imprensa da época e que fui entrevistando pessoas, fui percebendo, de facto, o que esteve verdadeiramente em causa e como é que as peças se foram movendo para chegar ao resultado a que chegou. Portanto, nesse aspecto foi muito desafiante, porque também me obrigou a desconstruir algumas ideias feitas que tinha sobre aquelas eleições.
Alguma posso dizer?
Surpreendeste? Não.
Por exemplo, a questão da Marinha Grande.
O célebre episódio da agressão a Mário Soares.
O impacto que aquilo teve. Nós, a minha geração, habituou-se a olhar para aquilo como um episódio de violência isolado, mas não foi um episódio isolado de violência. Aquilo foi o resultado de um crescente de tensão, que já se vinha acumulando há muitas semanas, e aquilo foi um resultado que
Inevitável, porque as coisas estavam a caminhar para isso mesmo, mas poderia ter sido uma coisa efetivamente muito grave. E nós hoje, pela mitologia de que aquilo foi tudo uma festa, perdemos a ideia da gravidade de algumas coisas que aconteceram. A relação entre Zenha e Soares, para mim, entrar naquele psicodrama em que mergulhou o Partido Socialista foi muito interessante, porque aí sim, estamos a falar de uma relação humana que se destrói à base da política, e não foi naquelas eleições, começou muito antes. Depois há coisas mais pitorescas, como o load de Freitas do Amaral, o casaco verde-acinzentado que se tornou um símbolo da campanha, mas que foi um acaso cósmico. Freitas do Amaral apareceu um dia com o casaco, as pessoas olharam para aquilo, acharam que não era nada boa ideia, porque Freitas do Amaral era um candidato muito particular, era de uma direita muito particular, não era o que é o CDS hoje, e Freitas tinha que ter o cuidado de não parecer aquilo que o acusavam de ser, um fruto ou um símbolo ainda do privilégio do Estado Novo. Portanto, Freitas tinha que fugir disso o máximo possível e houve muita injustiça em relação a Freitas do Amaral. Ele não era seguramente um homem desse tempo, mas de facto aparece com um casaco que era um símbolo do privilégio.
Pensei que tivesse borboto.
Não, era novinho.
Um sobretudo.
Aquela qualidade de tecido não permite.
Um borboto não dá ali. Podia só para dar a ideia de que não era.
Tu que acompanhas agora a realidade política, foste pensando nos paralelismos que se podem estabelecer entre essas eleições e as que se avizinham, em que se fala da possibilidade, pela segunda vez, termos uma segunda volta.
É sempre arriscado fazer comparações entre períodos históricos muito diferentes, mas há pouco o Samuel estava a falar das eleições de Cavaco Silva, as primeiras a concorrência em 85, eleições legislativas. Mário Soares aí é primeiro-ministro, mas já está com a cabeça em Belém e o Partido Socialista sofre uma derrota humilhante. É verdade, fica em segundo, não o que aconteceu agora em 2025, mas sofre uma derrota humilhante e é impossível não olhar para o estado em que estava o Partido Socialista na altura, e não pensar no estado em que está agora. Mas depois há diferenças grandes. A direita naquelas eleições uniu-se em torno de um candidato, nestas está muito fragmentada. A esquerda multiplicou-se em candidaturas, nesta também. Há lições históricas que a esquerda às vezes não quer incorporar, mas o país era muito diferente. Havia claramente uma maioria sociológica de esquerda que hoje não existe. Portanto, essa comparação tem de ser feita com alguma cautela, mas foram umas eleições que redefiniram o espaço da esquerda democrática, porque na altura ainda tínhamos uma forte influência do PCP. Pintasilgo também representava uma esquerda que não era necessariamente a esquerda do Partido Socialista, e foram umas eleições que relançaram a direita, que devolveram espaço à direita.
Diria quase direito de cidade.
Direito de cidade, era isso. Eu estava a pensar na expressão lugar de fala, que é uma expressão agora muito em voga, mas que devolveu à direita um orgulho de ser de direita, porque é verdade que houve Francisco Sá Carneiro, mas a morte trágica de Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa obrigou a que se colocasse um parêntesis na afirmação da direita. E Freitas tem ali um momento de grande afirmação que depois, com grande grau de certeza, vai ajudar Cavaco Silva a ter a primeira maioria absoluta em 87. Portanto, estamos a falar das ativos de 85, Cavaco vence. Nas presidenciais, Freitas fica muito perto de conseguir vencê-las contra Mário Soares, que era um monstro da política, e depois em 87, Cavaco Silva tem a sua primeira maioria absoluta. Portanto, tudo isto acaba por lançar o que é o país nos anos seguintes. Esses, sim, eu já acompanhei com mais propriedade.
E a certeza que ajuda a perceber. Samuel, já ouviste os podcasts?
Não, ainda não. Mas estou muito curioso, quero mesmo ouvir.
Desculpa, foi a primeira vez que fizeste uma banda sonora para um projeto deste gênero?
Para podcast foi mesmo a primeira vez, sim. Já tinha feito para teatro, sobretudo, mas para um podcast, para este formato, ainda por cima um genérico que teria de servir como sonoplastia para momentos do podcast, tinha que ter várias sonoridades, vários ambientes. Foi a primeira vez, mas eu gostei muito.
E também, tal como o Gonçalo, preocupaste em não te sobrepor ou não quiseste saber disso e quiseste brilhar?
Como é uma coisa que não é cantada, não tem palavras, geralmente se calhar é aquilo que mais me distingue, não pelas minhas características maravilhosas enquanto intérprete, mas é aquilo que me distingue. Ainda por cima, a linguagem eletrônica que eu uso ali também não é aquilo pelo qual eu sou mais conhecido. E nesse sentido, não é um trabalho de ego.
Então, dirias até que não é um trabalho do Samuel Úria? Quem ouve não pensa logo: "Isto tem a marca Samuel Úria."
Há coisas que têm, mas eu acho que não são as coisas pelas quais-
És mais conhecido.
Sim, penso que não. E nesse sentido, pode ser uma surpresa e posso me vangloriar da surpresa que estou a causar. Então, de facto, afinal é um trabalho de ego.
Sentiste tentado a fazer uma versão, por exemplo, Samuel Uriana, do hino de Freitas do Amaral, por exemplo? Eu não sei se a campanha do Mário Soares tinha...
Tinha o Alto da Liberdade, leviloso. Sim, é verdade.
Podias ter.
Mas curiosamente a mais famosa, pelo menos na psique coletiva, acho que ficou mais a do Para frente, para frente Portugal.
Para frente, para frente Portugal.
Um plural muito rápido. A campanha do Mário Soares estava tão pouco convencida no início que não quis hino. António Pedro Vasconcelos, o cineasta que ajudou a escrever a letra, disse: "Não vamos ter hino, porque não faz sentido termos um hino quando temos 8% nas intenções de voto."
Só fizeram um slogan.
E o "Rocada Liberdade" só surge na segunda volta.
Fantástico. E tu, Gonçalo, já ouviste alguma coisa do podcast?
Não, ainda não.
Ainda não?
Porque como não assino, quero ouvir aquilo tudo seguido.
E narraste de forma cronológica, mais ou menos?
Narrei de forma cronológica. E o mais interessante para mim daquilo é, obviamente, conhecendo a história, e depois há uns pormenores quase picantes que eu não sabia.
Não estás a autorizar.
Não, era que eu desconhecia algumas. Mas aquilo que eu acho mesmo interessante é, não querendo traçar um paralelo também, é impossível não pensar na qualidade daquelas pessoas como políticos. E eu não estou a dizer que é comparado com hoje, mas eu, pelo menos, a sensação que me dá, não sei se é porque a minha memória também de criança punha aquelas pessoas como deuses ou titãs ou o que for. Mas de facto, quando penso nisso, acho que a qualidade dos políticos-
A qualidade dos insultos.
Sim, não é todos, mas de uma forma geral. Quer dizer, há cargos que eu acho que as pessoas têm que ter competências e formação académica, humana.
Havia uma robustez política daqueles candidatos.
Se eu quiser, eu posso ser candidato a presidente da República. Eu não tenho cadastro, eu posso, mas não devo. E isto é válido para todos os outros cargos políticos que nós vemos, deputado, o que for. Não sei se é porque os partidos às tantas têm um sistema das chamadas jotinhas e que as pessoas estão logo ali desde muito novas e de repente não há-
São formatadas.
Sim, parece que hoje em dia há um curso que se tira para político ou deputado ou o que for. A sensação que me dá, isso é quando eu estava a ler e estava constantemente a pensar nisso, é que com todos os defeitos que todos eles pudessem ter, eram de facto sobre-humanos de alguma forma, também pela história.
E todos eles tinham formado e tinham crescido durante o Estado Novo, alguns com ligações.
Mas houve discussões aguerridas, não é? Houve insultos, mas mesmo um insulto era tipo uma revista: "Ó cião, ó Drabão. Incontornável, ó Drabão."
O que eu digo é o passado que eles têm, que lhes permite, de alguma forma, terem muitas coisas para dizer e com muita bagagem. E estamos a falar de pessoas que passaram por muitas coisas e que eu não estou a dizer que as pessoas têm todas que passar por muitas coisas para poderem fazer aquilo.
E que tinham, como o Mário Soares tinha uma participação política, tinha uma atividade política que ia já ao final da década de 30.
Isso é outra coisa que eu fiquei, obviamente, mas quando dei por mim e estava a ler, que naquela altura, Mário Soares já tinha 60?
Já era um senhor grisalho.
Já tinha 60?
Ele já nasceu assim.
Freitas tinha 43, eras muito novo.
Mas, por exemplo, para mim, de facto, é impressionante pensar a bagagem, a vida que aquele homem já tinha. E realmente era um monstro. E por isso é que de repente, não sei, há jogos de computador, Spectrum, que é assim, em que eu lembro-me do Bruce Lee, que era um jogo que eu jogava e que horas naquilo, e de repente, no último nível, que eu estava quase a ganhar, ele aparecia-me de uma esquina e matava-me. E foi um bocado o Mário Soares. O que ele fez, passou-lhe uma rasteira final e aquilo foi de uma limpeza.
Foi de uma limpeza. Depois, Miguel, aqui há um equilíbrio, um cuidado que tiveste de ter, certamente, de contar a uma geração que não viveu isto, que não tem memória, e ao mesmo tempo de surpreender aqueles que se lembram, mas não sabem tudo. Andaste por onde? Andaste a navegar tudo, a ver imagens, a ler jornais?
Passei muito tempo na Hemeroteca, talvez demasiado tempo para o que é saudável.
Apanhaste a discussão sobre como se escreve Pintasilgo? Eu apanhei essa discussão em jornais.
É só um S. A imprensa da época é só um S. Mas sim, era aquilo que eu estava a tentar explicar no início. Houve o cuidado de não fazer disto um podcast sobre o colorido da campanha, nem uma coisa muito de nicho só para aquelas pessoas que sabiam tudo sobre esta campanha. E esse equilíbrio foi sendo procurado. Espero que tenha conseguido fazer isso, ou aproximado disso, pelo menos, para não afastar ninguém e para interessar e motivar as pessoas a ouvirem este podcast. Há um lado que é quase obsessivo em mim, que é a ideia do acaso cósmico, aquelas coisas que podiam ter sido totalmente diferente, estas eleições podiam ser totalmente diferentes. Freitas do Amaral, por exemplo, nem sequer era suposto ser candidato. Não era ele o escolhido, era outra personagem que está também neste podcast. Mário Soares, pelos motivos de que falámos há instantes, não era suposto ter vencido as eleições, era altamente improvável que conseguisse dar a volta àquilo. Salgado Zenha também não era suposto entrar nesta corrida. Não era ele o escolhido de Ramalho Eanes. Nós não falámos nesta nossa conversa, mas foi absolutamente essencial nesta corrida eleitoral. E, portanto, esta série de acasos cósmicos que depois resultam desta eleição, eu acho que vão prendendo as pessoas, ou espero que prendam as pessoas à medida que vão ouvindo, e depois outros pormenores mais picantes, muitos americanos. No meio desses acasos cósmicos, detetaste aqui nesta campanha um elevado grau de profissionalismo para a época? Muito profissionalismo, mas aqui com uma diferença: o que se fazia na altura, hoje seria, pelo menos, motivo de censura. Estamos a falar de muitas malas de dinheiro a circularem.
Quem recebeu a mala de dinheiro? Não foi o Seixas, não é?
Todos.
Todos? Ok. Estava à espera dessa resposta.
Coisas muito pouco recomendáveis e que hoje estariam numa zona ética muito cinzenta. Mas, por exemplo, há americanos, há Frank Carlucci, o inevitável Frank Carlucci, há gente que colaborou anos mais tarde com Donald Trump, que foi conselheiro de Donald Trump e que na altura ajudou Mário Soares, há gente que esteve com Reagan nos Estados Unidos, que fez a campanha de Freitas do Amaral. Há Arafat neste podcast, que terá tentado dar uma ajuda a um dos candidatos. Portanto, há pormenores que escapam ao que se tornou a versão oficial da história.
E foi mesmo a eleição mais louca de sempre. Nós infelizmente não temos mais tempo. Obrigada, Gonçalo Waddington, Samuel Úria e Miguel Santos Carrapatoso. E parabéns, Samuel, pelo Globo. Tens uma bola de ouro agora. Agora até vale, nós temos uma bola de ouro connosco.
Esperas ganhar um Globo de Ouro por causa da banca suíça.
Samuel Úria é marcante na história da Rádio Observador, porque foi o nosso primeiro artista aqui, a nossa primeira música.
Que giro.
Gonçalo, não ganhaste o Globo.
E agora na bolsa estás mais caro.
Ganhei juízo.
Muito obrigada aos três e também a Miguel Santos Carrapatoso. "A Eleição Mais Louca de Sempre" é o novo podcast Plus do Observador, com o apoio da Kia, já disponível em observador.pt e nas plataformas digitais. Obrigada.