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Começa agora o Explicador. Esta manhã sobre a corrida a Belém, são nossos convidados Fernando Negrão, apoiante do almirante Gouveia e Melo, e Duarte Pacheco, apoiante de Marques Mendes. A moderação é do Paulo Ferreira e do Bruno Vieira Amaral.

Muito bom dia, obrigado a ambos pela disponibilidade para estarem conosco esta manhã. Fernando Negrão, começando por si. Bom dia. Apresentou-se ontem. Fernando Negrão é apoiante do Gouveia e Melo, esteve ontem, aliás, na sala da apresentação. Acha que foi um discurso esclarecedor sobre aquilo que é o posicionamento político e o entendimento que Gouveia e Melo faz dos poderes do presidente da República?

Permita-me que comece por cumprimentá-los e cumprimentar também o deputado Duarte Pacheco, o meu estimado amigo, e cumprimento-o com muita simpatia.

Agora estão em posições diferentes.

Mas curiosamente é a primeira vez, e o Duarte Pacheco confirmará, que nós temos uma divergência de fundo em muito tempo de deputados. Pronto, mas isso é normal em democracia, é bom que essas coisas aconteçam. Quanto à pergunta que me faz, o discurso foi um discurso adequadíssimo, foi um discurso de alguém que ama profundamente o seu país, o que é importante e é bom nós referirmos isso e fazermos alusão a isso, principalmente os políticos. O almirante fez, e fez muito bem. E foi um discurso pragmático, no sentido de esclarecer de uma vez qual é a posição que tem relativamente às funções que a Constituição lhe confere. Ficamos claramente a saber qual o seu espaço de intervenção na sociedade portuguesa e ficou esclarecido que o almirante Gouveia e Melo tem a ideia e a convicção de que a sua intervenção na sociedade portuguesa é uma intervenção apaziguadora e de regulação do funcionamento da democracia. E isso é bom.

Duarte Pacheco, bom dia, bem-vindo também. Faço-lhe também a pergunta: o que achou deste discurso inaugural da candidatura de Gouveia e Melo? Duarte Pacheco, que apoia a candidatura de Marques Mendes.

Muito bom dia para si e para todos aqueles que nos acompanham e um abraço muito grande ao meu amigo Fernando Negrão. De facto, é a primeira vez que temos uma divergência.

É verdade.

É a vida, mas é estranho. Também te digo que é estranho, porque estou habituado a discutir amigavelmente com muitos outros colegas, mas nunca me passou pela cabeça que este dia havia de chegar, mas aqui estamos. Mas repare, a nossa divergência não é tão profunda assim, porque nós aquilo que queremos para Portugal é que tenha um presidente que possa unir e que possa respeitar todos por igual. Gostamos de uma leitura diferente de qual é a personalidade que pode desempenhar essas funções destas duas que estão apresentadas. E aí, ainda sabemos muito pouco, mesmo o discurso de ontem não foi para mim suficiente, sobre qual é o pensamento político do senhor almirante. O que é normal, porque quem está na vida militar tem uma obrigação de não interferência na vida política e, portanto, tem um dever de reserva. E por isso mesmo, só há pouco tempo é que o almirante Gouveia e Melo começou a falar um pouco sobre o que pensa do país, do sistema constitucional português, dos grandes desafios com que nós estamos confrontados e das responsabilidades. E até agora tem sido, de facto, muito pouco. Enquanto que do outro lado, Luís Marques Mendes, tem pensamento público de 30 anos de exposição e por isso sabemos aquilo que contamos. Pode até acontecer que o almirante possa vencer, como o doutor Marques Mendes possa vencer. Agora, neste momento, ao dia de hoje, sabemos o que é que um quer e pensa para o país e ainda é incipiente o pensamento do outro lado.

Fernando Negrão, tendo o PSD manifestado através da direção o apoio a um candidato presidencial, um antigo presidente do partido, não é estranho que apareçam várias figuras ligadas ao PSD a apoiar Gouveia e Melo? Isso tem a ver com o quê? Com a figura de Marques Mendes?

Eu direi que não é estranho. Direi que também lá estavam ex-deputados e mesmo atuais deputados, suponho, do Partido Socialista.

Sim, mas o Partido Socialista ainda não tem um candidato apoiado pela direção.

Sim, mas o facto de não ter um candidato não quer dizer que o livre-arbítrio os permita tomar uma posição pública.

Mas era isso que eu questionava, o sentido do exercício desse livre-arbítrio ao escolher um candidato que não é o apoiado pelo partido.

Mas nós temos uma eleição, que é a eleição presidencial, que é unipessoal. E sendo unipessoal, eu diria que a liberdade de cada militante do partido é maior. E não estou a ver que nenhum partido político censure quem escolhe um candidato à presidência da República diferente daquele que o partido indica como o candidato do Do partido. E por isso vejo isso com tranquilidade e vejo isso com toda a normalidade. Agora não queria deixar de responder ao Duarte Pacheco relativamente à experiência dos dois candidatos que já assumiram a sua candidatura, para dizer que nós nos últimos anos temos ouvido continuamente o discurso de que a política precisa de gente nova, de que a política precisa de sangue novo, de que a política precisa de lufadas de ar fresco, com entrada de gente nova na política. E quando entra alguém, e entra alguém que foi um grande profissional das Forças Armadas, um militar honrado, um homem que deu provas de grande capacidade de gestão, de intervenção e de apaziguamento, começamos a exigir que já tivesse feito um percurso político igual ao do doutor Marques Mendes, que tem o tempo da democracia e que já nos tivesse dito tudo. A campanha eleitoral ainda não começou, embora estejamos em pré-campanha eleitoral, e o Almirante Gouveia e Melo terá agora a oportunidade para dizer ao que vem. E os senhores jornalistas e quem quer que seja, têm agora a oportunidade de perguntar ao almirante sobre este e aquele assunto, qual é a sua opinião, porque nós queremos saber e temos direito a saber.

Duarte Pacheco, ontem no discurso, Gouveia e Melo apontou baterias também a Marcelo Rebelo de Sousa. Marques Mendes, por ter tido um perfil e um percurso em certos pontos semelhante ao de Marcelo Rebelo de Sousa, presidente do PSD, nunca foi primeiro-ministro, depois comentador televisivo, pode sair prejudicado por essa comparação, por essa colagem à figura de Marcelo Rebelo de Sousa e do exercício das funções nos últimos anos?

Não tanto por isso, mas por ter, efetivamente, uma vida política mais presente. Porque aquilo que disse agora o doutor Fernando Negrão tem razão de ser. Nós sabemos que há um handicap contra os partidos e contra aqueles que estão na política. E por isso aqueles que vêm de fora da política são quase endeusados. Isto acontece nos mais diferentes níveis, nas autarcas.

Mas normalmente quem se aproveita desse discurso são populistas. Considera que esta candidatura é algo populista?

Não só, mas permita. Só para recordar, se formos lá longo, há 40 anos atrás, o professor Cavaco Silva, que foi aquele que mais tempo esteve na política, 10 anos primeiro-ministro, 10 anos presidente da República, mais ministro das Finanças, etc, ele dizia sempre que não sou político. E ele não é propriamente um populista. Mas nas autarcas vemos isso muito bem. Pessoas que saem às vezes do partido A, partido B, que até fizeram carreira de partido, mas quando aparecem como independentes a dizer mal dos partidos, isso colhe votos. Portanto, o doutor Marques Mendes pode sair prejudicado por isso. No entanto, cabe a nós, que estamos na vida política, dizer que não é bem assim e que a vida política dá efetivamente conhecimento e experiência para funções políticas. E é disso que nós estamos a falar. E acabou o doutor Fernando Negrão de reconhecer, como só podia ser, porque é uma pessoa séria, que ainda não sabemos tudo aquilo que pensa o senhor almirante. E daí há algumas dúvidas sobre se tem as competências para a função, porque não sabemos o que é que pensa. Mas acredito que a campanha agora que vai começar, certamente dará muitas entrevistas, haverá debates e isso ficará claro. E Deus queira que tenha um pensamento que a ser eleito, que exerça favoravelmente as funções. Mas agora que estamos na pole position, agora é que vamos começar a corrida e ambos têm grandes condições para ser Presidentes da República.

Mas Duarte Pacheco, nós ainda não sabemos qual é o pensamento do doutor Marques Mendes relativamente à Presidência da República em concreto. Portanto, eu diria que partem quase na mesma posição da pole position.

Quando temos a Fórmula 1, eles estão com uns centimos atrás uns dos outros, estão praticamente atrapados.

Estão em linha, de facto. Há um primeiro, há um na pole position, de facto. Mas Fernando Negrão, de facto, podemos não conhecer muito ainda, porque o pontapé de saída foi dado ontem em termos oficiais, muito do pensamento político de Gouveia e Melo, mas houve pelo menos uma ideia que ficou muito clara, que foi a crítica feita àquilo que tem sido o exercício presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa, que fica muito bem espelhado naquela frase: "Precisamos de um presidente diferente." Fernando Negrão, este é para já o statement, se quisermos, a declaração mais forte de Gouveia e Melo, e perguntava-lhe também se só isto será suficiente para alimentar uma candidatura.

Obviamente que não é suficiente, embora seja importante. Mas eu queria aqui ressalvar que eu tenho o maior apreço pelo presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Acho que foi um homem que demonstrou uma enorme generosidade, para além da sua inteligência, que previu nos discursos de celebração do 25 de Abril, todos os fenômenos de natureza política que vieram a ocorrer em Portugal nos últimos anos, designadamente as questões ligadas ao populismo e as questões ligadas à transformação do espectro partidário. Simplesmente, as pessoas hoje em dia cansam-se com muita rapidez dos ciclos eleitorais, o que cria instabilidade e de facto era preciso haver uma mudança, é preciso haver uma mudança até da personalidade do próprio Presidente da República. E acho que foi nesse sentido que o almirante Gouveia e Melo fez essa afirmação. Agora, o almirante Gouveia e Melo teve meia dúzia de minutos Para fazer a sua intervenção inicial, mas agora tem vários meses, um pouco mais de meio ano, para explicar aos portugueses, de facto, aquilo que o levou a candidatar-se a presidente da República. Mas não é só o almirante Gouveia e Melo, e repito, é também o doutor Marques Mendes, porque quanto a presidenciais, o doutor Marques Mendes é a primeira vez que se candidata, e legitimamente, obviamente. E sendo a primeira vez que se candidata, é a primeira vez que se refere com minúcia relativamente às questões ligadas à Presidência da República.

Deixe-me pegar nesse ponto, Duarte Pacheco. Marques Mendes terá menos terreno, menos amplitude para se distanciar de Marcelo Rebelo de Sousa. Isso pode ser um handicap da sua candidatura?

Em primeiro lugar, dizer que de facto eu sinto que há um cansaço do estilo do professor Marcelo Rebelo de Sousa, um pouco como aconteceu já no passado com o estilo do professor Cavaco. Que são uns estilos completamente diferentes e quando o professor Cavaco Silva estava já no termo do seu mandato, havia um cansaço de algum distanciamento, de alguma frieza com que o presidente Cavaco exercia o seu mandato. E quando vem alguém que retira um peso institucional à função e se torna o presidente dos afetos, isso é muito bem recebido. Mas as pessoas também se cansaram desse estilo e hoje se sente uma necessidade de regressar um pouco à institucionalização da função presidencial, que caiu efetivamente muito. Ora bem, e o senhor almirante Gouveia e Melo agarrou já nesse ponto, percebe que esse sentimento é genuíno dos portugueses. Mas isso não significa que qualquer um possa exercer a função de forma diferente, até porque como é um cargo unipessoal, a personalidade, a experiência de vida conta muito. E o doutor Marques Mendes já mostrou diversas vezes que, sendo amigo do professor Marcelo, como eu sou e como o doutor Fernando Negrão é, nós temos uma posição completamente diferente de ver a função presidencial e eu não tenho dúvida que ele irá exercer essa forma diferente, próxima das pessoas, mas mais institucional. E isso significa que em vez de fazer conferências de imprensa na praia, se calhar resguarda-se mais e exerce o seu poder de influência com base na sua experiência política, para que, por exemplo, os próximos orçamentos possam ser aprovados e evitar crises políticas. É essa a grande vantagem de Marques Mendes, é que conhece muito bem o sistema político e vai exercer essa sua competência adquirida ao longo de décadas para ajudar o equilíbrio das instituições e por essa via a termos estabilidade que permita o crescimento do país e o progresso do país.

Muito bem. Obrigado ambos. Este também pode ser considerado o início de um período em que Fernando Negrão e Duarte Pacheco, pela primeira vez, vão debater um contra o outro aqui.

Um contra o outro, não.

E é com gosto.

Um ou outro. Exatamente, com duas candidaturas diferentes à presidência. Obrigado a ambos pela disponibilidade, por estarem aqui connosco esta manhã. Bom dia e bom fim de semana. Obrigado.

Bom dia.