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E no Explicador desta manhã estamos a assinalar um ano desde a identificação do novo coronavírus em Portugal. Olhamos para o percurso do país nestes meses e também para fazer um balanço do que foi o combate à pandemia até agora. Para isso, o Explicador de hoje tem como convidados Ana Jorge, ex-ministra da Saúde, também Filipe Froes, pneumologista e coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos, ainda Pedro Simas, virologista e investigador do Instituto de Medicina Molecular, e Manuel Carmo Gomes, epidemiologista.
Muito bom dia, obrigada pela presença de todos. Íamos começar por uma rápida ronda por todos, depois do país há um ano se ter preparado para enfrentar uma situação absolutamente nova. Filipe Froes, de uma forma genérica, que avaliação é que faz à forma como o país geriu a pandemia?
Bom dia a todos. Eu estou de Ciudad do Banco, portanto ainda estou aqui no meu hospital e aproveito para cumprimentar os ouvintes e os meus colegas de painel. Eu diria que as avaliações corretas fazem-se no fim, e o que nós neste momento estamos a viver após um ano é que ainda não chegamos ao fim. E o balanço final far-se-á no fim e todos teremos de ser avaliados no final da pandemia. Portanto, não só quem toma decisões, também as pessoas que as têm que implementar e que as têm que cumprir, todos nós coletivamente, individualmente, teremos de ser avaliados. O que eu vejo agora ao longo desta pandemia é momentos bons e momentos menos bons. Se me é permitido algum tempo, eu diria que nós estamos agora a entrar numa quarta fase. Tivemos uma primeira fase caracterizada pela prudência e pela proatividade, em que fomos dos primeiros países a confinar numa altura em que tínhamos uma baixa incidência. E foi uma decisão corajosa na altura confinar e trouxe-nos imensas vantagens, mas este confinamento precoce, muito eficaz, teve, a meu ver, uma contrapartida: escamoteou a fragilidade do Serviço Nacional de Saúde, escamoteou a fragilidade dos nossos sistemas de vigilância e não permitiu avaliar bem os mecanismos de fundamentação científica das decisões. E o balanço final desta primeira fase foi uma desvalorização da pandemia, que caracterizou, a meu ver, a segunda fase que nós vivemos praticamente no verão, outono, na segunda metade do ano passado. Uma desvalorização da pandemia que vai culminar com uma banalização da normalidade, uma desvalorização do, se nos lembrarmos em setembro, do início da segunda onda, que perdemos imenso tempo a dizer que era normal a deslocação das pessoas, que o aumento dos casos era perfeitamente normal, e isto terminou numa cadeia consecutiva de irreversibilidade no aumento do número de casos, numa reatividade das medidas, muitas vezes medidas incoerentes e não uniformes, e sobretudo um comportamento muito reativo e atrás do vírus, que culminou com algumas decisões fatais e mal fundamentadas, mal monitorizadas no Natal do ano passado, que nos obrigou, depois, perante a desgraça, entrar na terceira fase, que foi o confinamento tardio e a dois tempos.
E vamos ter tempo, Filipe Froes, para olhar com mais detalhe para essas fases. Em qual é que estamos agora? Como é que caracteriza esta quarta fase?
Estamos agora a passar da terceira para a quarta fase, que é o desconfinamento, que eu chamaria idealmente o desconfinamento final, acompanhado das medidas necessárias para o desconfinamento, acompanhada das medidas de grande adesão a todas as atitudes que evitam a transmissão do vírus na comunidade e, finalmente, a vacinação em massa com o objetivo de se atingir a imunidade de grupo.
Seria bom que fosse a quarta e última fase, mas já lá vamos, Filipe Froes. Obrigada por esta análise genérica. Queremos ouvir com todos os nossos convidados. Pedro Simas, que balanço é que consegue fazer deste ano ou também partilha da ideia que os balanços só se fazem mesmo no fim?
Bom dia. Bom dia também ao Filipe, ao Manuel Carmo Gomes e à Ana Jorge. Eu percebo o que o Filipe está a dizer e concordo e revejo-me em tudo que ele disse na análise muito detalhada. Mas eu acho que isto é uma curva de aprendizagem e tem que se ir fazendo balanços todos os dias, todas as semanas, todos os meses, para irmos aprendendo com a experiência. Eu concentrava-me nesta última fase. Eu acho que esta última fase, temos que começar a desconfinar. E o Manuel Carmo Gomes haverá de falar nos parâmetros epidemiológicos, se o permitem ou não. E eu acho que estamos numa fase que temos uma solução, temos as vacinas, e as vacinas vão nos permitir entrar em duas fases: uma primeira, que é a mais importante, que é vacinar os grupos de risco e obter 100% de imunidade nos grupos de risco, e uma segunda fase, que depois vai ser a resolução, finalmente, da pandemia com a imunidade de grupo. E aí a vacina também vai ser muito importante.
Obrigado, Pedro Simas. Ana Jorge, pedíamos-lhe também essa avaliação de uma forma genérica estes 12 meses. Olhando para trás agora, que avaliação é que pode fazer à forma como o país, de uma forma genérica, tem gerido a pandemia? Ana Jorge não está conosco, penso. Ainda temos aqui com problema na ligação. Ana Jorge? Vamos aguardar mais uns minutos. Manuel Carmo Gomes, pedíamos então agora que entrasse na conversa a sua avaliação genérica à forma como o país está a gerir a pandemia.
Olá, muito bom dia. Bom dia também ao Filipe, ao Pedro, à doutora Ana Jorge. Eu concordo, no essencial, com a análise que o Filipe fez e também com os pontos que o Pedro levantou. Poderia fazer um pequeno historial, se me permitem, reforçando. Não sei se consigo dizer de forma tão assertiva as quatro fases que o Filipe mencionou, mas vamos ver. Nós tivemos os primeiros casos no dia 2 de março, embora saibamos que o vírus já circulava em Portugal, provavelmente em fevereiro. Entre o dia 10 e o dia 31 de março, nós assistimos em Portugal a um aumento de 20 a 30% de casos por dia. Isso significa que nós estávamos com um RT, que na altura andaria por volta de 1,5 a 1,8. É um número elevadíssimo, se vocês se recordam que os valores habituais é estar abaixo de 1,1. E tínhamos duplicação de casos de cinco a sete dias. Tivemos um pico entre 23 e 27 de março, com 708 casos. Portanto, imaginem, isto foi a primeira fase. Hoje em dia, 700, 800 casos parece-nos relativamente baixo. E nessa altura os hospitalizados andavam à volta de 1200 casos na altura de pico. A chave do nosso sucesso em março, e essa é a primeira fase que o Filipe mencionou, foi de fato a rápida decisão de confinamento que foi adotada no dia 16 de março e tínhamos apenas nessa altura, reparem, 240 casos acumulados. Não obstante, estávamos a observar este rápido aumento. Depois, o número de casos foi decrescente após o confinamento, que foi muito severo nessa altura, mas foi uma excelente decisão. E em maio reabrimos, embora gradualmente, porque se se recordam, houve três fases: primeiro o pequeno comércio, depois as lojas um bocadinho maiores, por aí adiante. E o que falhou em maio foi que houve uma velocidade de propagação nos bairros suburbanos, especialmente a Lisboa-Valter, se se recordam, que não foi acompanhada de uma resposta pelo sistema de testagem e de rastreio. Nós depois tivemos uma outra fase em que as coisas, a meu ver, correram bastante mal, que foi a segunda metade de setembro e a primeira metade de outubro, já com as escolas abertas. Nós nessa altura, reparem bem, na primeira metade de outubro, nós tínhamos aproximadamente 800 a 1200 casos por dia e estávamos com uma taxa de aumento diário de 5% a 10%.. Cinco a 10% significa que os casos estavam a duplicar a cada uma a duas semanas. Isto é uma luz vermelhíssima para se tomar medidas muito assertivas e que contenham a propagação da infecção. Não foi feito. Adotámos um conjunto de medidas graduais que na altura foram caracterizadas pelo governo como tendo, salvo erro, máxima eficácia, mínima perturbação, era o termo que era usado. Houve um estado de calamidade em 15 de outubro e depois só a 31 de outubro, no fim do mês de outubro, já com muito atraso, é que se adotaram mais medidas. Tivemos um pico, se se recordam, entre 18 e 20 de novembro, nessa altura já com 5500 a 6000 casos. Portanto, tivemos aqui um longo período cheio de luzes vermelhas em que não aprendemos aquilo que nós próprios tínhamos praticado em março, que com medidas decisivas e tomadas atempadamente, é a única forma eficaz de conseguir evitar o crescimento exponencial deste vírus. Depois aquilo que se seguiu é conhecido de todos. Entrámos no Natal com um nível elevadíssimo de incidência, aproximadamente 3500 casos por dia. Houve um descuido de quatro, cinco dias no Natal e o vírus disparou por aí acima. Em janeiro, eu penso que não é dramatizar se disser que este janeiro foi a maior catástrofe de saúde pública em Portugal dos últimos 100 anos. Já disse isso mais que uma vez e os fatos falam por si. Nós tivemos um número de mortes que rondou 5800, só no mês de janeiro. Estes 5800 mortes de janeiro correspondem a quase metade de todas as mortes que tinha havido até o fim de janeiro, que foram 12700 e tal. E finalmente, quando chegamos à primeira semana de fevereiro, penso que era consensual, ou pelo menos as pessoas têm refletido sobre este assunto, que era necessário que o país fizesse uma revisão da matéria e se interrogasse acerca da estratégia que nós adotamos desde que desconfinamos em maio até essa altura. Essa estratégia, obviamente, não foi a ideal, conduziu à situação que eu descrevi de janeiro e era necessário, nesta entrada em fevereiro, que nós mudássemos de rumo, aprendêssemos com as lições e tomássemos aquilo a que eu chamaria o princípio da precaução, que é tão importante em medicina individual como em medicina de populações. Com um vírus que cresce exponencialmente, não se consegue lidar com medidas de grande gradualismo, porque a certa altura o vírus entra em crescimento exponencial e não há forma, não há recursos humanos, não há recursos de rastreio que consigam acompanhar a propagação exponencial do vírus. Portanto, quando isso acontece, com o tempo, existe uma décalage crescente entre o número de novos contágios que ocorrem por dia e o número de pessoas que nós conseguimos identificar, rastrear e isolar. E com isso, somos conduzidos à situação que nós tivemos em janeiro. Neste momento, o país está confinado. Este confinamento tem tido excelentes resultados. É a altura de pensar, pensar com cuidado em todas estas lições, que nós fomos bastante bons e fomos bastante maus, tivemos altos e baixos e, portanto, acho que temos toda a informação para tomar decisões de hoje para a frente com base naquilo que é a nossa própria história.
E para fazer melhor e não errar. Manuel Carmo Gomes, queremos falar consigo precisamente sobre a forma como esse desconfinamento pode ser feito, mas agora já temos condições técnicas de ouvir a ex-ministra da Saúde, Ana Jorge, a quem cumprimentamos também. Ana Jorge, bom dia, bem-vinda. Estávamos aqui a tentar fazer um filme rápido deste ano de pandemia e fica esta ideia do milagre que fomos na primeira fase, fomos desaprendendo ao longo das fases seguintes? É também este o olhar que tem sobre a história da pandemia?
Olá, bom dia a todos. Eu acho que nós tivemos uma atitude muito rigorosa na primeira fase, como toda a gente disse, e os serviços de saúde pública conseguiram responder de uma forma exemplar e bem. Depois houve, de facto, alguma não preocupação ou despreocupação com os bons resultados. E isso passou um pouco, acho eu, para a população em geral, que não foi capaz por dela própria, embora eu perceba aquilo que há pouco o professor Carlos Gomes acabou de dizer sobre o risco e as vicissitudes deste vírus e desta propagação, que é preciso, de facto, muito cuidado e muito confinamento para que ele não se propague, mas houve, de facto, alguma despreocupação e não atendimento aos grupos ou aos locais onde a situação poderia ser dramática. Porque há aqui dois grupos, duas situações que são preocupantes. Por um lado, o número de doentes que dão uma grande pressão sobre os serviços de saúde, nomeadamente sobre os serviços públicos, as urgências e os cuidados intensivos. E, por outro lado, eu penso que não houve uma grande preocupação que tem a ver com as mortes, uma intervenção a nível dos lares, não daquilo que foi feito, que é perante um surto ir lá resolver. Eu penso que houve falta, e eu já o disse noutras vezes, que é a não intervenção preventiva de tomada de medidas, conhecendo a situação que existe habitualmente nos lares, que iria acontecer. Isto que aconteceu era quase inevitável se não fossem tomadas outros tipos de medidas para reduzir os efeitos. Não era para os evitar a 100%, isso não era possível, mas para reduzir esses efeitos. E isto, de facto, não foi tomado e que tem muito a ver com aquilo que aconteceu também, ou está relacionado com o que aconteceu na periferia de Lisboa. E que foi no fundo ali em setembro, outubro, e de facto nos preocupou muito. Mas são as condições de vida das pessoas e da forma dos transportes, em condições em que vivem, como é que elas próprias fazem a leitura das suas medidas de contenção, que foi pouco interiorizado, e que isso podia ter sido, eventualmente, feito de outra maneira, mais assertivo, mais intervenção próxima, e que também não houve muita capacidade. Nós tínhamos o sistema de saúde pública um pouco fragilizado, porque nunca foi muito investido nos últimos anos, de uma aposta grande na saúde pública e que agora se sente que era fundamental se dar mais gosto. E, portanto, essa foi uma grande preocupação.
Filipe Froes, um ano depois continuamos aparentemente com a mesma receita, enquanto esperamos, obviamente, que a vacina produza efeitos na comunidade. Continuamos com a mesma receita, de facto, para tentar controlar a pandemia, que é confinar, desconfinar, fechar fronteiras. Não há outras alternativas? Aprendemos mais do que isso, nomeadamente, talvez uma utilização mais cirúrgica deste tipo de instrumentos, em termos geográficos, por exemplo?
Olhe, mal de nós se ao fim de um ano de pandemia não aprendemos. Nós já passamos por um desconfinamento e agora temos o dever cívico e a responsabilidade de fazer melhor. Indiscutivelmente, nós agora temos um conjunto de novas ferramentas que nos permitem, na minha perspectiva, serem otimizadas e facilitar o desconfinamento. Eu vi o desconfinamento numa perspectiva desfaseada. Eu tenho alguns indicadores, mas certamente o Manuel Carlo Gomes terá valores muito mais sólidos e fidedignos, mas de qualquer maneira, o gabinete de crisis de órgãos médicos também tem os seus intervalos de confiança. E, de qualquer maneira, o que me parece que é essencial e onde nós não podemos perder a nova batalha do desconfinamento? Na capacidade de teste precoce em tempo útil. Recentemente ouvimos da parte da senhora ministra da Saúde, um discurso já a preparar para isso, a dizer que todos os contactos de alto risco têm que ser testados. Eu relembro que em julho do ano passado, algumas pessoas, nomeadamente eu e um outro colega meu, que também colabora às vezes convosco, o doutor António Dinis, nos manifestamos publicamente pelo facto de os contactos de alto risco não estarem a ser testados imediatamente e precocemente. E depois, indiscutivelmente, temos uma ferramenta que agora está disponível, que não estava antes, que é os rastreios. A norma 019 foi atualizada recentemente. Eu sou um dos espíritos que colabora nessa norma e posso dizer que eu não me revejo, compreendo a norma, mas eu teria tido uma atitude ainda de maior testagem do que aquela que vem em relação à preconizada. E, portanto, eu seria muito mais interventivo, utilizaria valores mais baixos para fazer rastreios, porque nós nesta fase do desconfinamento temos que ter uma precaução muito grande, que é: não podemos perder tempo, temos que detectar logo o que se passa. Ou seja, o que inicialmente nos caracterizava por testar. Nós agora temos que ser: encontrar, testar, rastrear, isolar e vacinar. E portanto, passamos do testar para uma outra vertente: encontrar, testar, rastrear, isolar e vacinar.
É esta, a meu ver, a nova fase para o desconfinamento em 2021.
E, portanto, é uma estratégia com mais níveis de observação. Manuel Carmo Gomes, o senhor há três semanas, na última reunião do Infarmed de que fez parte, defendeu claramente uma política de testagem mais musculada, mais universalizada. E o que ouvimos depois disso é que as autoridades iam avançar para essa nova estratégia, mas ela, na prática, ainda não está a acontecer. Já devíamos estar nesse caminho?
Eu admito que haja algum tempo para preparar essa capacidade de testagem, que terá que ser massiva, quando nós começarmos a desconfinar. Deixe-me voltar um bocadinho atrás para referir os indicadores com que nós estamos neste momento. Nós neste momento estamos com uma incidência média por dia de aproximadamente mil casos. Eu diria que seria desejável que continuássemos a descer, pelo menos pra zona dos 800. Estamos com um Rt que é inferior a um e estamos com uma positividade que ronda os 4%. Isto é, a percentagem de casos de testes que estamos a efetuar, que vêm positivos, são aproximadamente 4%. Este 4% está, de facto, já abaixo do limiar de 5% que nós consideramos desejável. Portanto, isto no que diz respeito aos indicadores epidemiológicos. No que diz respeito aos principais indicadores hospitalares e àquele que é o principal, as UCI, estamos ainda com um valor muito elevado. Os números de ontem, salvo erro, rondavam as 490 camas UCI ocupadas, quando ainda recentemente o doutor Gouveia deu-nos como referência o valor de 242, que ele justificou devidamente como sendo o indicado. Portanto, em termos de UCI, estamos ainda muito aquém daquilo que seria desejável. Quando nós começarmos a desconfinar, e eu, como todos os colegas, defendemos um desconfinamento gradual e que seja monitorizado. Isto é, quando nós adotarmos a primeira medida de desconfinamento, devemos, no meu entender, aguardar duas a três semanas para ver as consequências. Se a primeira medida de desconfinamento, e eu advogo que assim seja, for a abertura das escolas dos mais pequenos, digamos de crianças até aos nove anos de idade, portanto, creches e primária.
E primeiro ciclo.
É inevitável que o Rt vá aumentar. Eu dou-lhe a título de exemplo que os ingleses, recentemente, um estudo muito recente deles, estimaram que o Rt só com as escolas primárias aumentará 0,25. Isto devido à presença da nova variante, que nós aqui em Portugal também já temos, representa aproximadamente metade dos novos casos. Portanto, para contrariar um aumento destes do Rt, que salta imediatamente para cima de um com muita facilidade, nós temos que ter preparado no terreno uma capacidade de testagem muito grande, porque, novamente, como eu disse há bocado, o número de casos vai começar a aumentar de forma que aparentemente é controlável, porque é isso que caracteriza o crescimento exponencial, que não é muito intuitivo e que as pessoas têm tido dificuldade a interiorizar. O aumento de casos começa a ocorrer linearmente, de forma aparentemente linear, mas depois dispara, explode. E quando explode, ou nós temos uma capacidade de testagem instalada muito grande para conseguir responder, ou então nós começamos a perder a corrida. O número de contágios por dia começa a superar rapidamente o número de novos casos que nós identificamos.
E por isso diria, Manuel Carmo Gomes, que cada abertura setorial deve ter um espaço de duas, três semanas até uma nova abertura, para se conseguir perceber qual é o impacto dessa medida.
Sim, exatamente, porque como sabemos, se tivermos em atenção o tempo de incubação, mais o período de tempo que leva até a pessoa ser testada e depois o caso ser diagnosticado, nós precisamos de uma a duas semanas para termos a garantia que estamos a conseguir ver minimamente o impacto de qualquer medida que tomemos. Portanto, eu diria que duas semanas seria o mínimo recomendável e depois continuar gradualmente a tomar medidas de desconfinamento, se de facto a resposta que a testagem está a ter no terreno for capaz de acompanhar o aumento do número de contágios, que vai inevitavelmente ocorrer, e o valor do R. E se não for capaz, temos que ter a coragem, como sociedade, como governo, etc, de parar e de não fazer promessas de que vamos continuar a desconfinar, se ainda não temos a certeza que de facto estamos a ter uma capacidade de resposta para aquilo que estamos a desconfinar até aí.
Pedro Simas, vamos falando e voltamos sempre a receitas que logo no início estavam em cima da mesa. O testar é um bom exemplo disso. O que é que se passa? Somos muito lentos a conseguir os meios logísticos para colocar em marcha estas receitas, que são as mais básicas até. Por que demoramos tanto a fazê-lo?
Pois, isso é uma excelente pergunta. De facto, nós tínhamos o conhecimento todo em cima da mesa. Como o Manuel Carmo Gomes disse, as luzes vermelhas acenderam todas no início da segunda vaga, acenderam no início da terceira vaga. Não sei, eu acho que o confinamento em Portugal ou o controle da pandemia em Portugal está muito dependente do comportamento social e não tem um efeito tão grande nas medidas que têm que ser implementadas pelas instituições, nomeadamente a testagem e o rastreio. Agora, a testagem tem que ser feita de uma forma inteligente. Porque não é só testar. É testar, mas de uma forma inteligente, no sentido em que se vão à procura dos rastreios e que se têm programas específicos
Para testar e para mitigar esta pandemia. Eu concordo que o desconfinamento tem que começar a ser faseado e é a altura de começar a fazê-lo precisamente porque temos que começar e depois esperar para ver o que está a acontecer. E há aqui uma coisa que eu não concordo só, é em relação aos lares. Os lares, e isto é um bom exemplo, de como se deve fazer a testagem. Os lares apesar de terem tido uma grande mortalidade, desde o dia 1 de outubro, que houve um programa de testagem inteligente, preventiva dos funcionários, fizeram 134 mil testes desde 1 de outubro. Detectaram-se situações de lares positivos em 817 lares, que potencialmente preveniram surtos em 817 lares. E isso, os resultados são inequívocos. Nós tivemos no período de 1 de janeiro, que foi quando houve cerca de 52% do total das mortes nos lares. Tivemos nos lares uma mortalidade de cerca de 25% em relação a fora dos lares, ou 25, 24, 75, 76. O que significa que houve 2,9 ponto menos vezes mortes nos lares do que no resto da sociedade. E isso é indicador que a testagem inteligente funciona.
Muito bem, e aqui fica um exemplo prático. Ana Jorge, estamos nesta pandemia também a aprender a conciliar decisões políticas com informação técnica. Neste momento, a União Europeia e a presidenta da Comissão Europeia acaba de anunciar que vai apresentar uma proposta para a criação de um passaporte digital de vacinação já para março. Portanto, estamos a falar já deste mês, há uma rapidez grande da União Europeia de querer garantir aqui algumas condições até de circulação mais fácil entre as pessoas. É favorável uma solução destas também para permitir que novos processos de profundo confinamento não se repitam?
Sim, se nós pensarmos, há algumas situações que já obrigam para a circulação, de que é necessário estar vacinado contra algumas patologias quando se circula para determinados países. É evidente que são países muito mais, e estamos a falar da febre amarela, por exemplo, em que nós não podemos entrar em determinados países africanos e penso que da América do Sul, mas fundamentalmente africanos, para nos protegermos, de termos a vacina da febre amarela. Portanto, isso já existe. E, portanto, o que acontece neste momento é que a ser isto, será muito mais generalizado, porque a pandemia atinge todos os países e a vacinação ainda não está, e está longe de poder abranger todos os países. E isso tem sido muito evidente, que há muitas vacinas, mas elas estão concentradas em muito poucos países. Portanto, o facto de para podermos circular, e isso é inevitável e é bom que aconteça, porque precisamos de pôr o país e o mundo a funcionar, com todas as consequências que sabemos e que são evidentes, que este grande encerramento nos obriga, por um lado, para proteger a saúde, mas temos outras consequências que vão ser muito complexas num futuro muito próximo. Provavelmente, essa poderá ser uma medida que eu acho que é um bocadinho, obviamente, que as pessoas podem reagir a isso, mas se calhar é necessário garantir que haja vacina, mas é preciso que haja vacina para todos. E esse é um outro problema que a própria comunidade tem que resolver com a indústria farmacêutica. Não pode continuar, como era evidente, isso era conhecido, o grande compromisso e as grandes dificuldades que a nível da comunidade com a indústria farmacêutica e outras empresas, e que é preciso pôr regras e normas para que eles nos possam fornecer as vacinas que são necessárias e com alguma transparência. Eu tenho acompanhado como toda a gente, mas não em grandes pormenores, as dificuldades que tem havido com o fornecimento das vacinas. É bom, Portugal está na comunidade e isso tem sido positivo, mas obviamente que tem que haver uma grande pressão e uma grande negociação. E eu penso que a senhora Van der Leyen tem feito algum esforço, mas se calhar é preciso um bocadinho mais de musculado, para que haja mais vacinas, para que depois esse passaporte possa de facto ser eficaz, senão vai ser um obstáculo.
Filipe Fóias, olhando agora para os próximos passos, que são, espera-se, um desconfinamento. Ele pode ser mais tardio ou mais próximo de nós em termos de tempo. O que é que aconselharia em termos de medidas básicas para preparar este desconfinamento? Por exemplo, já devíamos ter um plano que fosse público, com metas para os próximos meses, como outros países fizeram?
Eu acho que nós, neste momento, deveríamos ter, a nível regional, já todo um conjunto de indicadores que monitorizassem e fundamentassem, a nível regional, decisões. Nós precisamos indiscutivelmente de planear. Planear significa transparência, significa uniformidade, coerência e envolvimento da população. E para nós planearmos, temos que identificar de uma forma muito clara quais os indicadores que estão a ser monitorizados. O Manuel Carmo Gomes já referiu alguns. Eu incluiria alguns outros que me parecem também essenciais, que é, por exemplo, o atraso nos inquéritos epidemiológicos, a taxa de cobertura vacinal, a taxa de letalidade nas regiões como indicador de capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde. E com base nesses indicadores, nós começarmos a monitorizar as regiões Para até estimularmos bons comportamentos, boas atitudes e adesão às medidas da população, para as pessoas perceberem o que se passa na sua região e o que significa o seu envolvimento responsável na resolução do problema. No fundo, as pessoas aqui são parte do problema e parte da solução. E nós se as conseguirmos envolver com coerência, transparência e uniformidade, através de indicadores que deveriam ser públicos e atualizados, idealmente com a maior brevidade, pelo menos uma vez por semana, no mínimo, nós podíamos depois começar a justificar porque é que algumas regiões podiam desconfinar, porque é que alguns setores podiam desconfinar e outros, eventualmente, ainda não o poderiam fazer. Essa transparência, essa indicação de indicadores e esse planeamento são críticos essenciais e, a meu ver, são os únicos que garantem o sucesso que todos nós pretendemos, que é a normalização da vida social e económica do nosso país.
Pedro Simas, falta essa informação mais próxima às populações e maior previsibilidade naquilo que nos pode acontecer enquanto comunidade?
Eu acho que nós temos uma grande capacidade de previsibilidade, mesmo muito grande. Isso não nos falta. Isto, como o Filipe Soares disse e muito bem, é uma colaboração entre sociedade e instituições. Nós estamos, como eu disse há pouco, muito dependentes na mitigação desta pandemia, do controlo do comportamento das pessoas. E só conseguimos controlar quando confinamos severamente. Eu acho que agora, e os inquéritos epidemiológicos que o Filipe falou aqui, que fazem parte do rastreio, são extremamente importantes. As pessoas têm que colaborar nesses inquéritos epidemiológicos e têm que se estabelecer programas de testagem inteligentes. Agora, temos as vacinas, e eu gosto muito de falar no futuro. As vacinas estão a ter um efeito fantástico em Israel, no Reino Unido, nos Estados Unidos. Em Portugal começam a ter um efeito também muito bom e já visível nos lares. Nós tínhamos agora 50% dos lares com a primeira dose. No dia 29 de janeiro já tínhamos coberto mais de 50% dos lares e como a vacina funciona muito bem, vamos sentir esse efeito. Eu acho que todas estas coisas que nós estamos a fazer, do desconfinamento, dos certificados de imunidade, são tudo coisas que são muito importantes agora, estamos na reta final e vão salvar muitas vidas, mas são coisas transitórias porque temos a solução em mãos. Temos que ter muito cuidado, porque nunca houve um risco tão grande de uma quarta vaga, especialmente numa sociedade portuguesa que é tão dependente, e eu vou dizer isto mais uma vez, tão dependente do comportamento da sociedade. Por quê? Porque eu não vejo ainda, da parte das instituições, uma estrutura e um plano muito detalhado de como é que havemos desconfinar. E aí concordo com o nosso presidente da República, que diz que adiou outra vez o desconfinamento duas semanas, porque ainda não se sentia seguro, que tínhamos programas de testagem e testagem inteligente com rastreios ainda implementados. E isso é essencial pra nós desconfinarmos.
Ana Jorge, a mesma questão sobre os planos ou a falta deles, neste caso, para o desconfinamento. Não devíamos ter já esse calendário, se quiser, sobre os passos a dar nas próximas semanas e meses, em função da informação disponível hoje?
Eu penso que seria vantajoso termos já uma ideia do que é que vai acontecer com o desconfinamento. Fala-se, obviamente, que é consenso de que as escolas têm que abrir e, fundamentalmente, as das crianças mais jovens. É muito complicado para este futuro das crianças o estarem fechados, não só fechados, como a desigualdade que está a criar é enorme. Muito grave algumas das situações, são crianças que não têm acesso, por um lado, porque não têm, segundo, os pais estão cheios de medo. E isso é outra coisa que é difícil. Porque não os libertam e quando têm uma alternativa de poder ir a algumas escolas, os próprios têm medo de os deixar sair de casa. Isto é qualquer coisa grave do que está a acontecer. Penso que as mensagens que têm passado são de dois extremos. Por um lado, uma certa teimosia com algumas pessoas disseram que nós não conseguimos desconfinar muito racionalmente, isto é, com algumas regras, que é permitido um desconfinamento gradual, com aumento da responsabilidade de cada um individual para o cumprimento absoluto daquilo que são as regras, da identificação quando há casos suspeitos e de serem próprios e de haver alguma doença e as pessoas muitas vezes camufleiam essa parte e continuam a propagar a doença. Seria importante ter um plano com algum item rigoroso de uma divulgação, de uma mensagem grande para a população, de uma forma muito educativa e que nem sempre é. Porque aquilo que muitas vezes acontece na própria comunicação em geral, é os dois extremos: ou muito liberado, ou muito fechado demais e, portanto, não a mensagem clara e tranquila daquilo que cada um deve fazer e de uma forma muito assertiva. O plano penso que também está a ser difícil, dado embora haja números e haja muita informação, a decisão política é obviamente nestas situações Muito difícil e é um risco, no sentido de que se tomou medidas é porque se tomaram medidas, se não se tomou, é porque não se tomaram. Não é a primeira vez que isso acontece. Tem que ser baseada, de facto, em alguma informação séria dos cientistas e de quem estuda e de algumas das pessoas que estão aqui hoje nesta discussão, que não eu, que não sou uma cientista da área, portanto vou ouvindo com alguma preocupação algumas dessas questões e que a tomada de decisão é importante que seja feita de uma forma faseada. E está na altura de começar a desconfinar. Embora o Presidente da República ponha tantas reticências, mas eu penso que o governo tem que avançar com alguma devilidade, muito cautelosamente, com base naquilo que tem de informação, já dispõe dos riscos, mas de assumir alguns riscos, mas provavelmente essa forma de gradualmente fazer uma parte, avaliar e ver se pode passar para o passo seguinte. E isso era importante começar com alguma devilidade, passar a mensagem a todos, mas provavelmente não se pode apresentar já em tempo, um desconfinamento total. As fases poderão ser dadas condicionadas a—
E pela evolução dos casos, mas parece haver aqui um consenso sobre a necessidade de haver um plano faseado para o desconfinamento. Ora, o Manuel Carmo Gomes foi tornado público, faz parte desse tal grupo de peritos que vai determinar os momentos para o desconfinamento do país. Portanto, Manuel Carmo Gomes, o senhor é das pessoas que está nesta altura a decidir qual é a chave da solução.
Olhe, se me permite, acerca do desconfinamento, eu vou dar mais uma indicação de uma coisa muito concreta que nós poderíamos fazer e, a meu ver, já devia ter sido feita há mais tempo. Quando nós começarmos a desconfinar, seria extremamente importante que a vacinação, a imunização da população mais fragilizada por vacinação ocorresse em simultâneo com esse gradualismo do desconfinamento. Desde janeiro que a Comissão Técnica de Vacinação recomendou que houvesse um alargamento do espaçamento entre a toma da primeira e da segunda dose das vacinas, nomeadamente as vacinas mRNA da Pfizer e da Moderna, até às seis semanas. E por quê? Reparem uma coisa, quando os ensaios destas vacinas foram efetuados, o da Pfizer foi feito com uma separação de três semanas entre a primeira e a segunda dose e o da Moderna de quatro semanas. Mas isto não é o normal. A razão porque se adotaram estes espaçamentos foi devido à extrema emergência em que o planeta, e neste caso os Estados Unidos, em particular, onde as vacinas seriam aprovadas na FDA, estava. Todas as mães deste país sabem que o tempo que decorre entre a toma das vacinas dos bebês, por exemplo, é de oito semanas. Os bebês tomam as vacinas aos dois, aos quatro, aos seis e às 12 semanas. Portanto, o que é normal não é ter espaçamentos de três ou quatro semanas. Ora bem, voltando aos ensaios, se nós olharmos com cuidado para a eficácia destas vacinas ao fim de 21 dias, portanto, ao fim de 21 dias após a primeira toma, nós verificamos, mesmo a partir dos ensaios, que a eficácia ronda os 90%. Quando a Comissão Técnica de Vacinação recomendou o alargamento do espaço entre a primeira e a segunda dose a seis semanas, tinha apenas a informação dos ensaios e a resposta imunogênica dos vacinados. Com o tempo, os resultados do Reino Unido, em particular da Escócia e de Israel, só vieram dar suporte, agora com um grande volume de dados no terreno, a este parecer que a Comissão Técnica de Vacinação deu. A eficácia destas vacinas sobe até ao 21º dia, a partir do 14º e até ao 21º dia, sobe e ronda os 90% de proteção contra doença grave e hospitalização, que é aquilo que nos preocupa neste momento. Não há nenhuma razão para acreditar que uma proteção de 90% caia a pique de uma semana pra outra. Uma proteção que vai aos 90% na terceira, quarta semana, estende-se com elevadíssima probabilidade até à sexta semana, como valor muito alto.
Manuel Carmo Gomes, e como é que nós podemos utilizar esse conhecimento todo que temos agora então no desconfinamento português?
Se nós, como disse não há muito tempo, o senhor vice-almirante Gouveia e Melo, se nós alargarmos o tempo de espaçamento entre a primeira e a segunda dose para, na altura, ele sugeriu até cinco, seis semanas. A Comissão Técnica de Vacinação recomendou, a meu ver, de forma muito conservadora, seis semanas. E eu digo conservadora porque o Reino Unido está a adotar 12 semanas, como toda gente sabe. Diz o senhor almirante que nós conseguiríamos vacinar até mais de 200 mil pessoas. Ora, 200 mil pessoas fragilizadas, que são aquelas que estão na fila à frente pra ser vacinadas, é muita gente. São muitos casos de hospitalização e de morte que nós conseguiremos evitar. Seria extremamente importante que nós conseguíssemos fazer isso quando começarmos gradualmente a desconfinar.
Deixe-me interrompê-lo, porque infelizmente o nosso tempo está a terminar. Mas o que está a dizer é que então o plano de desconfinamento, onde o senhor está a trabalhar, só admite começarmos a abrir um pouco mais a sociedade quando tivermos essas 200 a mais.
Não foi isso que eu disse.
Era isso que eu queria tentar perceber.
Não foi isso que eu disse.
Muito bem.
As pessoas que estão a trabalhar no plano de desconfinamento, estão, evidentemente, a ver os prós e os contras de várias estratégias. Eu não irei aqui discutir aquilo que está a ser evidentemente discutido nesse grupo, que envolve várias instituições e muitas pessoas. Agora, é consensual que devemos ir pelo gradualismo, que devemos observar as consequências da última medida que tomamos e confirmar se continuamos o desconfinamento ou não, em função dos resultados do primeiro grau de desconfinamento que nós fizemos. E também me parece absolutamente sensato que nós, enquanto fazemos isto, portanto, medida epidemiológica de desconfinar a sociedade, estejamos a acompanhar, a par e passo, com o alargamento da proteção dos mais vulneráveis, através da vacinação, se de fato nós podemos fazer isso. E é a opinião da comissão de vacinação que podemos.
E essa ideia tem que estar presente quando pensarmos em desconfinar. Manuel Carmo Gomes, muito obrigada por ter estado conosco no Explicador. Agradeço também a participação do virologista Pedro Simas, do pneumologista Filipe Froes, que prolongou o seu tempo de trabalho, ou pelo menos retirou tempo de descanso depois de ter feito banco, e também à ex-ministra da Saúde, Ana Jorge. Obrigada por terem estado neste Explicador.
Obrigado, bom dia.
Bom dia.
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