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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões. A análise é do coronel José do Carmo. Olá, coronel, bom dia, bem-vindo.

Olá, bom dia.

Olá, bom dia. Na mesma altura em que Moscou fala publicamente em sentar-se à mesa com Kiev e Washington, a Rússia lançou esta noite um novo ataque com mísseis sobre Kiev. O ataque destruiu um edifício universitário e duas unidades de saúde. Há pelo menos um morto e 10 feridos, três em estado grave, a maioria estudantes. Coronel, como é que o governo ucraniano pode sentar-se a negociar sob a pressão de Washington, quando no terreno a Rússia continua a massacrar civis e a demonstrar que não tem qualquer intenção de fazer concessões?

A Rússia está a fazer aquilo que um negociador que pensa que está na mão de cima. A Rússia quer negociar, no sentido em que quer impor os seus objetivos por via da negociação. Irá, portanto, negociar sempre nessa base. Pelo menos é aquilo que afirma. Agora, o fato de se predispor a negociar, ir agora para aquelas negociações trilaterais, no mês que vem, independentemente das posições que vai ter, o atacar com mais força antes das negociações é sempre uma maneira de forçar a mão. Ainda mais quando nesta situação estranha em que os Estados Unidos parecem estar a pressionar a Ucrânia, parecem que eles estão, de facto, agora se é intencionalmente ou não, mas estão a pressionar a Ucrânia para fazer cedências e inclusive retirando-lhe algumas capacidades momentaneamente. Neste momento, a Rússia tem muitos mais incentivos para continuar a aumentar a pressão, porque consegue com isto que inclusive os Estados Unidos se ponham do seu lado e, portanto, esse é que é o paradoxo. Ou seja, eles conseguem, aumentando a intensidade da sua ação, fazer com que o adversário seja pressionado pela parte que tenta mediar as negociações. Portanto, é só vantagens em termos de interesses russos. Quanto mais pressão fizerem, quanto mais devastação causarem, mais, na sua perspectiva, motivam a Ucrânia a sentar-se à mesa. Esse é que é o paradoxo da imposição de negociações da maneira como está a ser feita.

Entretanto, de acordo com o Wall Street Journal, a administração norte-americana sugeriu a Viktor Orbán que se candidate a secretário-geral da ONU para suceder António Guterres, um plano que Washington quer apresentar em conjunto com Moscou e Pequim. Coronel José do Carmo, estamos perante mais um sinal do início de uma nova ordem mundial. É o fim da independência das Nações Unidas?

Eu não creio que as Nações Unidas sejam independentes. As Nações Unidas resultam da votação dos Estados. Na verdade, a maior parte dos Estados são Estados autoritários, não são Estados democráticos. E por isso, quando se vota no secretário-geral, há uma série de interesses que se digladiam. Os secretários-gerais, que no fundo, acabam por ser eleitos, têm que negociar uma série de interesses e concessões com os países que os vão eleger. Portanto, não há ali nenhuma independência. Ou seja, um secretário-geral das Nações Unidas não é necessariamente um anjo que veio do céu e puro. Aliás, já tivemos um que tinha um passado mais aí, que era o senhor Kurt Waldheim, que era um austríaco.

Mas como vê esta hipótese?

Eu acho que tudo é possível, porque Orbán pode colher votos do lado russo. Pode colher votos do lado daquelas pessoas que estão a favor do Sul global, porque a Rússia diz que é do Sul global. Ou seja, há ali uma certa teias que se podem juntar. Não creio que muitos países, os países da Europa, obviamente, a maior parte deles não irão votar em Viktor Orbán. As Nações Unidas têm quase 200 Estados. Muitos daqueles votos são comprados, são negociados, tudo é possível.

E apresentar alternativas também, não é?

Sim, vai haver alternativas, obviamente. Os candidatos que vão surgir, como aconteceu com o António Guterres, vão andar a mostrar suas plataformas, vão negociar com esses países, com esses Estados, vão situar-se dentro daquilo que é a tendência majoritária dentro das Nações Unidas, que neste momento, de fato, não é pró-ocidental, não é já há muito tempo. Portanto, tudo é possível. Até o Cristiano Ronaldo se pode candidatar e pode ganhar. Qualquer pessoa que apresente uma plataforma suficientemente ampla.

Mas isso também diz muito sobre o papel do secretário-geral da ONU. Se qualquer um pode concorrer.

É um papa, o secretário-geral da ONU é um papa, não tem realmente um grande poder. Ele é mais o dono da casa ali daquela organização, que no fundo ela é decidida e é determinada pelos votos dos países que fazem parte. Não há muita esperança no secretário-geral, tirando aquela grávidas ou autoridas que pode ter ser uma personalidade com carisma e reconhecida. Não é o caso de Orbán, mas também não era o caso de Guterres, também não era o caso de Kurt Waldheim. São eleitos por interesse da maioria que se junta naquele momento e que sente que aquele ou não irá prejudicar muito ou irá beneficiar muito.

Sobre o Médio Oriente, informações reveladas pela Reuters indicam que o Hezbollah passou os últimos três meses a reorganizar-se e a preparar o regresso aos combates contra Israel. O grupo Xiita terá recebido dezenas de milhões de dólares de Teerão para comprar explosivos, fabricar drones e reconstruir a sua cadeia de comando no sul do Líbano. Coronel, como é que vê os próximos tempos?

No sul do Líbano, neste momento, está tudo mais ou menos igual. Igual no sentido em que não houve evolução, houve um plano que era à medida que os israelitas iam retirando certas áreas-piloto, pois havia ali uma ocupação pelo exército libanês, havia ali uma retirada, uma inspeção do território, uma retirada de forças do Hezbollah, de meios do Hezbollah, mas nada disso está a correr muito bem. O exército libanês tem os condicionamentos que tem, no fundo também integra muitos xiitas, muita gente ligada ao Hezbollah. Há ali um perigo de guerra civil que se pode escontar a qualquer momento, porque o Hezbollah é uma força armada poderosa ainda, pelo menos internamente Está tudo igual. O que está a acontecer é aquilo que se previa que acontecia. O Hezbollah agora retira ligeiramente, depois volta outra vez, vai reconstruindo, não recebe tanto como recebia, porque finalmente as comunicações não são boas, a Síria já não é uma autoestrada e Teerão não está tão rico como estava. Mas há um caso com os explosivos, em que há explosivos que neste momento estão com o exército libanês, mas o Hezbollah já ameaçou que se não forem devolvidos, vai haver problemas. O Hezbollah está a fazer o que todas estas organizações fazem, o que está a fazer o Hamas, o que estão a fazer todos os proxies do Irão. No fundo, aguentam o embate, sofrem consequências e depois voltam. É o trabalho da formiguinha, voltam a fazer o mesmo, voltam a cavar os seus túneis e a preparar-se para a próxima ronda.

Mas isto dá a Israel a justificação de que precisava para lançar uma nova grande ofensiva militar, antes que o Hezbollah recupere a força total?

Eu creio que seja quem for que ganhe as eleições em Israel.

Hoje saberemos ao fim do dia.

Sim, saberemos, mas não sabemos se vai haver governo novo. Não sabemos se vai haver maioria suficiente ou se fará haver novas eleições depois de 2027. Mas sabemos que ambos os blocos que podem ganhar, o bloco da Netanyahu e o bloco do Eisenkot, partilham a mesma doutrina. A doutrina militar é a mesma, no fundo é evitar que um poder ameaçador cresça fora das fronteiras de Israel, que seja uma ameaça para Israel. Aquela ideia de antes do 7 de outubro, que era: temos aqui uns bons muros, umas boas cúpulas, e limitamo-nos a absorver os golpes e a retaliar com pequenos postes para evitar que isto cresça. Esta doutrina de defesa acabou. Ambos os partidos, e a Eisenkot foi general também, foi comandante das Forças Armadas, entendem que esta doutrina acabou e que agora onde a ameaça se começar a estruturar e se começar a desenvolver, têm que ir lá desmembrá-la. Isso é possível. Se o Hezbollah começar a crescer, se não houver no Líbano indicações de que o plano de desarmamento do Hezbollah tem alguma dinâmica, mais tarde ou mais cedo acontecerá isso, e o mesmo acontece com o Irão. O próprio Eisenkot também prevê ataques ao Irão. Não será para mudar de regime, mas será para estabelecer uma doutrina de contenção. Não será tão tanto como a Netanyahu, mas será muito parecida.

Coronel José Ducar, muito obrigada pela sua análise. Uma boa semana para si.

Igualmente. Obrigado para vocês.