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Gabinete Guerra das manhãs 360 esta quarta-feira com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno, bom dia, bem-vindo.

Olá, bom dia. Obrigado.

Olá, Bruno. Temos claro de começar pelas eleições em Israel. Sete milhões foram às urnas, os votos ainda estão a ser contados. Há instantes Netanyahu continuava à frente, mas com a oposição cada vez mais perto. Bruno, se no fim da contagem o bloco de Netanyahu conseguir segurar a liderança, fica demonstrado que o atual primeiro-ministro continua a ter uma espécie de vida extra na política israelita, sobrevivendo a todos os sobressaltos. E já agora, o apoio dos Estados Unidos fez a diferença para quem vota?

De acordo com Donald Trump, sim.

Sim, já se sabe.

Mas ele há dias veio dizer que não tinha nada a ver com a eleição do Brasil. Portanto, aí não perdeu. Apesar de anteriormente ser claro que realmente a preferência dele ia para Fábio Bolsonaro. E portanto, até disse que tinha simpatia por Lula. Aqui, como aparentemente Netanyahu está a ganhar, vem dizer que foi ele que fez com que Netanyahu ganhasse. Não sei se isso tem muito crédito. Mas eu acho que realmente o que isto mostra é como Netanyahu é o grande sobrevivente da política israelita. Estamos a falar de alguém que já é o recordista de tempo passado como chefe do governo israelita, como primeiro-ministro. E realmente alguém que é central na política israelita desde os anos 90, com um curto intervalo entre 99 e 2005, em que ele parece ter saído da política israelita, mas depois regressa como líder da oposição e depois a partir de 2009, está quase sempre a chefiar o governo com umas curtas interrupções. Mas enfim, isto não quer dizer que a questão esteja propriamente resolvida, porque se o bloco da oposição se mantiver coeso, e tendo o próprio Netanyahu dito algo que à partida era um pouquinho uma prática, mas não era suposto ser dito, e que também mostra que estamos aqui numa dinâmica de radicalização da política israelita, que é esta ideia de que é proibido ter os partidos árabes no governo ou a apoiar o governo. À partida, ninguém tinha posto a hipótese de eles entrarem realmente no governo, nem eles teriam, aliás, mas a ideia de que não podem apoiar um governo, realmente é paradoxal, no fundo. Mas afinal, então os cidadãos árabes de Israel têm direito a voto, e isso é referido como prova de que não é verdade esta ideia de que há um apartheid em Israel, pelo menos no interior do próprio Estado israelita. Mas então se têm direito ao voto, mas o voto deles na prática não parece contar pra nada, então o que é que isso quer dizer? No fundo, é só uma formalidade. Mas realmente, apesar de tudo, é crucial perceber se no final da contagem, e as coisas têm estado a evoluir. Inicialmente, parecia que o bloco da oposição teria mais deputados do que o bloco liderado por Netanyahu e pelo Likud, apesar do Likud ser o partido com mais votos. Mas realmente, se isso não acontecer, eu acho que a vida da oposição obviamente se complica, não só em termos práticos, tem menos deputados com que contar, mas também em termos da narrativa. No fundo, aqui toda a ideia parecia ser, Eisenhower costumava dizer, há uma maioria entre os israelitas judeus para a mudança, para a saída de Netanyahu e, portanto, inclusive, se não querem um governo com o apoio dos partidos árabes, a alternativa seria o próprio Likud livrar-se de Netanyahu e aceitar participar num governo de unidade nacional. Ora, se não houver essa maioria para o bloco da oposição, essa narrativa torna-se muito mais complicada ou mesmo a ideia de que isso pode ser alcançado com os partidos árabes, não havendo essa opção do Likud pôr de lado Netanyahu. Portanto, acho que isso realmente complicará muito a vida aos partidos da oposição. Agora, também não sei se será possível realmente, mesmo aqueles partidos da oposição mais à direita, por exemplo, o Naftali Bennett, que já foi, aliás, primeiro-ministro, se será possível, por exemplo, a esses partidos justificar algum tipo de acordo com Netanyahu, depois de terem passado também toda a campanha a fazer uma oposição bastante clara, bastante violenta contra Netanyahu, dizendo que ele punha em causa os interesses de Israel, a reputação de Israel no exterior. Portanto, acho que realmente vamos ter de continuar à espera.

Bruno, mas se este impasse na contagem das urnas se confirmar e Israel demorar a negociar uma coligação de governo, como é que fica a capacidade de reação de Tel Aviv perante as ameaças do Irão e, mais recentemente, o Hezbollah?

Bem, isso é muito o jogo também do próprio Benjamin Netanyahu. Aliás, um dos últimos desenvolvimentos destes últimos dias foi que aparentemente o chefe do Estado-Maior do exército, em Israel é também, por inerência, o chefe do Estado-Maior general, portanto, o comandante máximo das Forças Armadas, também dos outros ramos, que terá de alguma forma recusado avançar com uma operação contra o Irão, porque ele considerou que haveria aqui um interesse político do líder do governo nesse contexto. À partida, o governo continua em gestão, Netanyahu continua a chefiar o governo e, portanto, se houver alguma necessidade de defesa, a questão acho que não se coloca, claro, os sistemas de defesa funcionarão. Em termos de avançar para uma opção de um ataque renovado, isso pode ser visto como mais questionável, mas não creio que isso trave propriamente Benjamin Netanyahu. Essa questão dos detalhes do que é que se pode ou não se pode fazer, desde que a lei não impeça isso claramente e não haja mecanismos de o impedir, não creio que isso seja propriamente um problema para Netanyahu.

E se o bloco da oposição liderado por Gantz e Eisenkot ultrapassar a coligação do governo, Netanyahu aceitaria passar para a oposição depois de décadas no poder? Ou irá tentar dinamitar esta nova coligação antes de ser formado governo?

Bem, a questão é mesmo esta ideia, nesse caso, que o Likud de alguma forma se livraria de Netanyahu, realmente isso não parece muito realista, não parece que Netanyahu saísse voluntariamente. Esse não é todo o perfil dele, nem vão nesse sentido as declarações dele. Ele parece cada vez mais convencido que tem um papel providencial em Israel e muitos israelitas parecem acreditar nisso, ao ponto de esquecerem o 7 de outubro, as falhas de segurança evidentes, o acumular de sinais de que Netanyahu ignorou uma série de avisos, o fato de não ter havido uma investigação oficial, portanto, Netanyahu não ter permitido isso ao seu próprio papel, o que parece indicar que ele tem ideia de que isso poderia não correr muito bem, mas realmente isso não parece ser suficiente, pelo menos para uma parte importante da sociedade israelita, sendo que, ao mesmo tempo, Israel está dramaticamente dividido e polarizado, porque mesmo que Netanyahu consiga sobreviver, é realmente por uma margem muito curta e vice-versa também, se perder, também será sempre por uma margem muito curta. E, portanto, isso significa que realmente Israel está profundamente dividido num contexto em que realmente a região não se tornou mais segura e o conflito está longe de estar resolvido.

Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise. Um bom dia para ti, Bruno. Obrigada.

Bom dia. Obrigado.

Bom dia. Obrigada.