Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Começa agora o Explicador da Rádio Observador. Esta quarta-feira olhamos para a conquista do título do Sporting, campeão 19 anos depois, e quem melhor para falar conosco do que nomes ligados ao clube leonino? Por isso convidamos esta manhã Dias Ferreira, antigo dirigente do Sporting, e Eduardo Barroso, médico e também antigo dirigente do Sporting. Mas por causa dos confrontos registrados ontem à noite entre adeptos e forças de segurança, está primeiro conosco o vice-presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, Gustavo Tato Borges, e também António Nunes, especialista em segurança pública do OSCOT, do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo. A moderação é da Carla Jorge de Carvalho, a quem se junta o Paulo Ferreira e, a partir do Porto, o Júlio Magalhães. Muito bom dia a todos. Obrigada pela presença. Ainda no rescaldo dos acontecimentos de ontem à noite. António Nunes, falamos ontem, antes de saber como é que iriam decorrer os festejos. Ajude-nos agora a perceber o que é que aconteceu junto do estádio e no Marquês de Pombal, em Lisboa. Havia mesmo uma estratégia das forças de segurança, por aquilo que viu?
Bom, eu tenho que lamentar de dizer, para já condenar os acontecimentos que ocorreram, a falta de civismo, mas nós sabemos que as emoções muitas das vezes são mais fortes do que o refrear esses comportamentos. E eu lamento também ter que dizer que me pareceu que o dispositivo estabelecido para a situação me pareceu mais reativo do que preventivo. Isto é, estava, penso eu, na mente de todos nós de que a situação ocorreria, quer à volta do Estádio José Alvalade, quer nos acessos, quer no Marquês de Pombal. Normalmente jovens, o que complica um pouco mais a situação, e que todas as regras de segurança, quer do ponto de vista da segurança de pessoas e bens, quer do ponto de vista, porque estamos ainda em período de pandemia, não seriam respeitadas. E lamenta-se que não se tenham criado outras situações. Penso que poderiam ter sido acautelados painéis gigantes em outras zonas da cidade, mais abertas, menos confinadas, e tal não aconteceu. Isto é, julgo que da parte geral, e não estou aqui a apontar o dedo nem ao Sporting, nem à Federação, nem à Liga dos Clubes, nem ao governo, nem às forças de segurança, mas penso que todos descansaram de que tudo iria ocorrer tranquilamente e nós sistematicamente estamos habituados a isto. Os especialistas alertam para as situações, as situações acontecem e depois dizem: "Bom, mas a culpa é de alguém que não tem comportamento cívico". Mas nós sabemos que nestas multidões bastará que alguém despolete uma situação complexa de atirar uma garrafa, uma pedra, qualquer coisa, até porque pode estar até não nas suas totais faculdades, porque pode estar embriagado ou uma situação qualquer, ou até começar a haver uma luta entre dois grupos que, porventura, por alguma razão, entenderam que ali era o melhor sítio para ajustar contas, e nós temos depois a situação que vimos ontem. E, portanto, situações reativas, sempre por reagir.
António Nunes, como é que se entende isso? Ainda por cima o ano passado o Futebol Clube do Porto ganhou o campeonato e impediram-se os festejos habituais precisamente tomando medidas prévias para isso.
Olha, eu lamento ter que dizer isto. Como é que se compreende isto? Compreende-se isto porque estamos em Portugal. É a única coisa que eu lhe posso dizer, porque sistematicamente nós vemos Sua Excelência o presidente da República a dizer que em Odemira temos que apurar responsabilidades. Já foi assim nos incêndios de 2017, já foi assim no roubo das armas, já foi assim em todo lado. Nós passamos a nossa vida em Portugal, temos excelentes polícias e acho que a polícia teve um comportamento exemplar do ponto de vista da sua reação. Temos excelentes políticos, temos excelentes técnicos, mas depois não temos nada, porque provavelmente não falam uns com os outros, não se toma aquilo. Acreditamos muito, e peço desculpa à simbologia que vou ter, na Nossa Senhora de Fátima. E a Nossa Senhora de Fátima não nos pode resolver tudo. E, portanto, o que nós temos que fazer são planeamentos adequados, planeamentos prévios. Se porventura houvesse quatro ou cinco ou seis pontos da cidade onde houvesse ecrãs gigantes com mais espaço. Eu até posso dar dois exemplos. Tinha ali o Campo Grande, que é bem próximo, ou inclusivamente ali junto à Cidade Universitária, ou mesmo junto do Marquês Pombal, que é o Parque Eduardo VII, talvez se conseguisse, eu estou a dizer um talvez, se conseguisse diminuir a pressão junto do Estádio José de Alvalade, com todas as consequências que poderiam ser. Felizmente que tivemos feridos ligeiros, mas sabemos que numa carga policial, a polícia a determinado momento, quando é agredida como foi ontem, tem que intervir de uma forma musculada e nós depois não sabemos os resultados disso. Portanto, é melhor prevenir. Os clubes, a federação e a Liga dos Clubes deveriam ter, na minha opinião, optado por outras oportunidades e não só por ter um ecrã ao que parece à porta do estádio, porque isso indubitavelmente, até inclusivamente com equipamentos que são proibidos, como as tochas e por aí fora. Portanto, eu acho que correu mal do ponto de vista do planeamento. Acho que correu bem do ponto de vista da reação da polícia e do controle que a nossa polícia já demonstrou mais de uma vez. Quando é chamada ao local, consegue controlar a situação, mas essas situações não se resolvem, previnem-se.
António Nunes, muito obrigada pela análise que aqui nos deixou. Despedimo-nos já de si, mas ficamos com este olhar sobre aquilo que podia ter sido planeado e a reação depois das forças de segurança. Eu chamo agora o vice-presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, porque a preocupação tem a ver também com os ajuntamentos em tempos de pandemia. Gustavo Tato Borges, bom dia. O que aconteceu ontem pode ter consequências na evolução da pandemia em Portugal? Podemos estar daqui a 15 dias a olhar para um novo surto?
Bom dia. De facto, aquele ajuntamento, aqueles festejos em excesso por parte dos adeptos sportinguistas, pode traduzir-se num aumento de casos num espaço até 15 dias. Estamos com a nova variante do Reino Unido neste momento a ser a principal forma de contágio no continente, em Portugal, por todo Portugal até, e portanto esta doença com esta variante aparece mais cedo em termos de sintomas. E portanto, durante as próximas duas semanas, será muito interessante verificar como vai decorrer a taxa de incidência na região de Lisboa e Vale do Tejo, e não só, porque também na Avenida dos Aliados, no Porto, houve festejos e um pouco por todo o país houve ajuntamentos de pessoas. Portanto, vai ser muito curioso verificar se vamos ter muita sorte e de facto não acontece nada, ou então, como será mais provável, que haja aumento de casos associados a esta festa, que era algo que com a devida preparação e aqui junto, não só o senhor, o anterior convidado falou da questão da federação, da Liga de Clubes, etc, mas porque não juntar aqui a Câmara Municipal, porque não juntar aqui a Direção-Geral da Saúde, todas aquelas entidades que também têm responsabilidades para que, em conjunto com os clubes, fosse organizada uma forma de assistir ao futebol em direto, sem ajuntamentos descontrolados e depois ter vários pontos de festa onde até o autocarro pudesse depois circular, mas que permitisse que as pessoas estivessem um pouco mais afastadas e sempre com o uso de máscara.
Gustavo Tato Borges, mas como é que se entende isso? Nós vamos com 14 meses de pandemia. Já passámos por situações semelhantes no ano passado, que foram bem resolvidas de alguma maneira. Como é que se entende isto? Já aligeiramos de tal maneira da parte das autoridades as regras e o alerta em relação a isto, que já achamos que podemos voltar à normalidade, mais uma vez, começando pelas autoridades?
Eu penso que não. Eu penso que não há da parte das autoridades, sejam civis, sejam de saúde, sejam policiais, alguma noção de que isto está terminado. Não acredito nisto. O que eu acho que aconteceu foi que as pessoas consideraram, uns que os adeptos iriam comportar-se, outros que não era responsabilidade deles iniciar este processo de convite das diferentes entidades para organizar um plano deste género. Outros associaram-se, se calhar, à ideia de que já existia um plano base e que a cidade estaria preparada para resolver isto. E toda a gente fifou, achou que era um dos outros, sem haver contacto e comunicação. Eu penso que o problema aqui é mais comunicar entre as diferentes entidades de uma forma eficiente para que isto possa ser resolvido. E essa falta de comunicação, essa falta de prontidão, acabou que tudo aconteceu como tivesse acontecido. Pessoas juntas sem distanciamento, sem cumprir com as regras da pandemia, polícia a ter que intervir de forma reativa e musculada e todas as chatices que aí advêm, que apesar de tudo, mesmo no ano passado, já aconteceram com os festejos do Porto com cargas policiais para dispersar os adeptos.
E portanto, voltou aqui a haver falta de articulação. Gustavo Tato Borges, muito obrigada por ter estado conosco também neste Explicador, a avisar que nos próximos dias, nas próximas duas semanas, podem começar a surgir novos casos de infecção por causa dos ajuntamentos de ontem à noite. Vou tentar avançar então para outro dos convidados e outro dos ilustres do Sporting, Dias Ferreira. Bom dia.
Efetivamente. Bom dia.
Agora sim, peço desculpa pelo ligeiro atraso na conversa que tínhamos convocado e antes de olharmos para a questão desportiva, Dias Ferreira, gostava de ouvir também sobre estes acontecimentos de ontem à noite. De alguma forma, acabam por tirar destaque à importância que foi a conquista do título por parte do Sporting.
A coisa muito desagradável é que realmente um filho meu, já homem, mas foi vítima da carga da polícia e tem no seu corpo as marcas das bastonadas e das balas.
Como é que isso aconteceu?
Segundo o que ele relata, e a mim me pareceu, até porque foi numa fase já em que a cabine já estava a subir através da Fontes Pereira de Melo de regresso, e ele estava filmando calmamente, como filmou os acontecimentos, e de repente começaram à bastonada. Aliás, como se viu algumas vezes, de uma forma absolutamente desnecessária. Eu ouvi há bocadinho a dizer da reação da polícia. Eu acho que em certas circunstâncias foi uma forma desusada e houve cenas que eu me lembrei de tempos em que a polícia era outra, mas as vítimas eram as mesmas. Também andei, muito antes do 25 de abril, assisti a cargas policiais muito semelhantes àquelas de ontem. Acho que houve um perfeito exagero na maneira como se reagiu, porque inclusivamente acho que houve ali situações que é um disparate, porque há muito tempo que já se ouviu dizer, e julgo que isso quer uma explicação a julgar, é que pôr as pessoas atrás das grades só lhes aumenta a agressividade da maneira absolutamente disparatada como ontem se pôs.
Mas não sente que houve também uma falta de preparação das autoridades, quer sanitárias, quer de polícias, sobre aquilo que podia acontecer?
As sanitárias só viam uma possibilidade, que era proibir tudo.
E não devia ter sido isso a ser feito no contexto atual?
Não sei se devia ser ou não devia ser. Não sou eu que estabeleço as regras E, portanto, o que as pessoas deviam perceber é o que o acontecimento poderia fazer. Nós não podemos esquecer, além do mais, que ainda há pouco tempo, as pessoas estão para além de manifestarem a sua alegria, a sua satisfação, as próprias pessoas estão todas desejosas de ir para a rua, de explodir as suas emoções. E, portanto, eu acho que nessas coisas, ou se planeia como devem ser as coisas para evitar as brutalidades que ontem se ouviram, ou então, pura e simplesmente, não havia mais nada a fazer. Porque realmente, se calhar, era menos perigoso ter aberto o estádio e deixar as pessoas lá estar. Agora, acho que isto foi feito de uma maneira também absolutamente desajustada. E depois aquelas cargas policiais, por amor de Deus, entre pessoas desarmadas. Põem as pessoas atrás das grades e não perceberam que já todos os estádios do mundo acabaram com grades, porque isso obviamente que ainda aumenta a agressividade das pessoas. Todo o indivíduo que está por trás de uma grade, se torna agressivo. Isso já acabou nos estádios, já não há estádios com essas situações.
Portanto, estratégia errada, Dias Ferreira.
Completamente.
Já vamos continuar a conversar.
Mas também é normal. A gente está a assistir coisas. Também quem a polícia tem à frente, não vale a pena estar à espera de muita coisa.
Vamos chamar agora, e penso que agora já em condições. Augusto Inácio, eu sei que tem pouco tempo para estar conosco. Antes de falarmos da vitória histórica do Sporting, é inevitável que falemos sobre as situações a que assistimos ontem, de confrontos e de enormes ajuntamentos. Por que isso aconteceu, na sua opinião?
Era de prever, vamos lá ver. Era de prever que ao fim de 19 anos, o Sporting sendo campeão no dia de ontem, o ajuntamento fosse grande e em grande número. É claro que a espera que se teve, mais de quatro horas à espera que os jogadores passassem no autocarro em certas determinadas artérias da cidade de Lisboa. As pessoas um bocado ansiosas porque tiveram um ano inteiro sem ver a equipa a jogar no estádio, sem verem os jogadores praticamente e queriam estar perto deles e queriam dizer que estavam gratos pelo campeonato que lhes foi oferecido. O que é certo é que depois também, as pessoas bebem mais um bocadinho, eu não estou a dizer que é isso, bebem mais um bocadinho, exaltam-se mais, ficam impacientes. Não estão aquela situação de rigorosamente bem comportados, não, as pessoas estão a dar largas à sua alegria e era natural que isto acontecesse, sinceramente. Para ser aquilo que foi e para ter aquelas pessoas todas que estiveram ao longo das avenidas, mais valia que quando acabou o jogo, tivessem entrado dentro do estádio e faziam a festa dentro do estádio do Sporting. E assim era bem melhor do que estar aquele ajuntamento, que afinal não houve distância social nenhuma. As pessoas estavam todas muito juntas umas das outras, muitas sem máscaras, inclusive. E eu acho que foi piormente a coisa certa. Quer dizer, ou não se fazia festa nenhuma na rua, ou então a fazer-se a festa, fazia-se dentro do estádio. Acho que fazia mais sentido e não haveria de certeza absoluta as confusões depois que acabou por haver.
Augusto Inácio, bom dia.
Bom dia.
Como antigo treinador de Sporting, em 2019, 2020, treinador, campeão, 19 anos depois, é possível descrever o que sente alguém que é campeão tantos anos depois?
Não é fácil descrever, porque a emoção cada um depois exterioriza da forma como quiser. Mas eu entendi perfeitamente bem o que estava a sentir o Rúben Amorim, o que estavam a sentir os jogadores. E também senti o que estavam a sentir os adeptos. É uma coisa que, para já este ano, e tal e qual como também foi no meu ano, as coisas foram inesperadas. Não é que o Sporting não lute sempre pelo título, porque o nome de Sporting obriga praticamente a isso, mas as condições que se tinha para se ganhar o campeonato, eram muito poucas em relação aos rivais. Mas o que é certo é que o Rúben Amorim conseguiu, para mim é o grande arquiteto deste futebol do Sporting. Conseguiu unir um balneário, conseguiu ter um discurso agregador, conseguiu ter um esquema de jogo com que os jogadores se sentissem confortáveis e à medida que o tempo foi avançando, o Sporting foi ganhando, não ia perdendo. Quando se esperava que o Sporting pudesse perder um jogo, não perdeu, os rivais foram perdendo pontos e isto foi dando confiança. A mensagem cada vez que era passada entrava com mais força, com as vitórias, entra com mais força. E o que é certo é que o Sporting também, e isto também há que dizer, ao estar fora da Liga Europa, das competições europeias, ficou com tempo para poder treinar, para poder recuperar os jogadores, para poder olhar para os adversários só para aquela competição e fez com que realmente o Sporting fosse uma equipa sólida, uma equipa humilde e acima de tudo uma equipa com uma ambição de ganhar bastante grande, porque o sistema que o Sporting montou era aquele sistema de não sofrer gols e vamos tentar marcar. O Sporting só perdeu 12 jogos a ganhar por 1 x 0. Mas isto reflete realmente que o Sporting é uma equipa muito difícil de sofrer gols. E isso foi a vantagem que o Sporting teve, é que raramente teve que ir à procura do resultado e quando teve, teve aquela pontinha de sorte que os campeões têm que ter, como é evidente, ganhando jogos nos últimos minutos, um ou outro jogo em que o Sporting deixou-se empatar também no último minuto, mas teve aí quatro, cinco, seis jogos a ganhar nos últimos minutos, o que isto também reflete que a equipa também acreditava sempre que era possível ganhar.
Mas quer dizer, Inácio, que foi uma equipa mais eficaz e menos bonita a jogar?
Exatamente. Concordo plenamente consigo. Acho que o Sporting não praticou um futebol, como se costuma dizer, de encantar. Não, mas foi um futebol competitivo que fez para ganhar. E o futebol faz-se é para ganhar. E depois, se houver, como diz o Jorge Jesus, norte artístico, tudo bem, mas se não houver, o que interessa depois são os pontos. E o Sporting nesse aspeto foi muito pragmático e foi realmente um Um justo vencedor pelo que fez, ao ponto de estar 32 jogos sem perder no campeonato.
Augusto Inácio, coloca-se agora uma questão: é saber se isto foi uma daquelas vezes em que o Sporting interrompe um longo jejum, sem repetir êxitos no ano seguinte. Acha que há aqui caminho para uma consistência, isto é, para que o Sporting, na próxima época e nas próximas épocas, continue a colocar-se como verdadeiro candidato ao título?
Essa é uma excelente pergunta, porque também a fizeram quando em 2000 o Sporting foi campeão, e depois só veio a ser campeão em 2002 e nunca mais foi. Naquela altura, no meu tempo, não se olhou para a parte desportiva do Sporting, olhou-se para a parte do negócio. E a parte do negócio era contratar muitos jogadores, dava jeito contratar muitos jogadores e depois a parte desportiva logo se via. Espero que não cometam o erro este ano. O Sporting teve muito tempo para ser campeão. Espero que as coisas continuem, e que o Rúben Amorim vá continuar, mas que acima de tudo o Sporting tenha um plantel compatível com aquilo que vai ser as grandes responsabilidades do Sporting na próxima época. E não esquecer que o Sporting é o campeão português e que está na Liga dos Campeões, e a Liga dos Campeões é uma montra onde se pode valorizar ainda muito mais os jogadores do Sporting. Mas eu sei que no futebol há compras, há vendas, tem que haver, porque o Sporting também tem que realizar dinheiro e tem que vender se calhar um ou dois jogadores. Mas depois interessa é contratar gente que seja capaz de colmatar algumas saídas e de dar mais força a um plantel que depois vai jogar de três em três dias, coisa que o Sporting não teve esta temporada. Por isso, depende daquilo que são as ideias, não só da equipa técnica, como também da estrutura.
Agora vamos ver qual será a estratégia então para a próxima época. Augusto Inácio, sei que tem compromissos. Muito obrigada por ter esticado até ao limite o seu tempo para estar conosco. Um bom dia para si.
Bom dia.
Dias Ferreira, de volta à conversa. Olhemos então para a equipa do Sporting. O que é que aconteceu este ano que não aconteceu nos últimos 18?
Não é bem assim, o que não aconteceu nos últimos 18. Porque o Sporting já teve uma altura em que fez aquilo que devia ser feito, que era, por exemplo, manter uma certa estabilidade, como foram os quatro anos de Paulo Bento, que foram quatro segundos lugares, e não como nos outros restantes anos em que se perde e depois no ano seguinte, inclusivamente o treinador que foi campeão vai-se embora quando não tem resultados e, portanto, não há trabalho nenhum que tenha continuidade. Desta vez, eu acho que aquilo que aconteceu foi que o Sporting finalmente assentou num projeto, assumiu esse projeto, levou esse projeto a direito e sem grandes vacilações e, portanto, o resultado ficou à vista. O Sporting escolheu bem, a partir dessa altura, o treinador. O treinador resolveu assentar a formação da sua equipa numa mistura bem feita de jogadores experientes com jogadores jovens e alguns deles formados no clube. E o resultado foi este, teve sucesso e aquilo que o Sporting tem que perceber de uma vez por todas é que o projeto exige estabilidade, exige continuidade e, portanto, não cometer os erros que se cometeram noutras ocasiões. É isso.
Dr. Dias Ferreira, está sanado o problema do Sporting com os adeptos e com as claques?
Sanado?
Estou a perguntar se esse pode ser um problema que se pode manter na próxima época, com o público nos estádios.
Não sei, vamos ver o que acontece. Eu penso que o próprio público é capaz de ter assumido o castigo de não ver jogar a equipa durante mais de uma época, o que isso significa, e portanto que saibam fazer uma análise daquilo que sucedeu e das razões. Mas eu acho que as massas adeptas também são um bocado assim. Portanto, também não é nenhum fenômeno novo que está a acontecer. Há uns que o controlam melhor, outros que o controlam pior. Mas eu penso que as pessoas tomaram esta lição. E acho que o Sporting está de parabéns, porque realmente, depois de certos acontecimentos, conseguiu dar a volta e quase inexplicavelmente, três anos depois de um acontecimento que se gostaria de ter evitado, mas que não foi possível, ressurge com uma força nova. Acho que conseguiu dar a volta e mostrar que realmente é um clube com uma massa adepta absolutamente incomparável.
E já se devem traçar objetivos para a próxima época, Dias Ferreira. Repetir o título é obrigação do Sporting?
Não, obrigação não é. Há três equipas que o podem ganhar e, portanto, há que ficar que os outros também têm os mesmos objetivos e vão procurar evitar que o Sporting repita. Mas pode acontecer, efetivamente, que o Sporting repita. Simplesmente os outros não vão ficar, resta saber se os outros vão tomar as soluções adequadas para responder a esta atitude do Sporting que o Sporting levou ao longo deste ano Nós próprios não sabemos o que é que vai acontecer. Temos agora um Europeu pela frente. Alguns jogadores vão ter também esse Europeu. E o treinador que o Sporting tem actualmente, eu acho que é uma pessoa extraordinária e que ontem, no pico da vitória, já estava preocupado, não com o próximo jogo.
Mas com os leões brancos.
Não, não estava com os leões brancos, mas estava já preocupado com a próxima época. E a chamar a atenção. Eu acho que isso é assim mesmo, não é vulgar essa atitude e acho que é dessa atitude, fundamentalmente, que ele conseguiu transmitir aos jogadores e até conseguiu, de alguma forma, transmitir aos adeptos. E que o seu trabalho vá sendo em consonância com isso.
Dr. Dias Ferreira, mas reconhece que o Sporting, na próxima época, tem que ter outra equipa. Esta época, quando Rúben Amorim andou a falar jogo a jogo, é porque sabia a equipa que tinha, não era uma equipa para todas as competições. Os adeptos, provavelmente, na próxima época, não querem ver o Sporting fora da Liga dos Campeões muito cedo, nem da Taça de Portugal muito cedo. Reconhece que o Sporting, pelo fato de ter ficado mais cedo fora das competições, teve essa vantagem de não ter jogado todos ao domingo, à quarta, ao domingo, à quarta, como os outros clubes, mas os adeptos não querem isso, como é óbvio.
O Sporting também nesta parte final jogou ao domingo e à quarta como os outros e, no entanto, conseguiu destacar-se deles. Eu acho que os outros clubes não estão a analisar muito bem e estão a arranjar as coisas um bocado de imediato para explicar, do seu ponto de vista, aquilo que consideram um verdadeiro fracasso. No fundo, eles caíram na mesma coisa que o Sporting caiu há vários anos, que é gastar muito dinheiro, mas não é atirar com dinheiro para determinadas coisas que se resolvem os assuntos. Eu espero é que o Sporting não pense da mesma forma que você agora referiu, que precisa de outra equipa. Outra equipa parece que precisa dos mesmos jogadores de agora, mas outros. E eu não acho isso a solução. Acho que a solução é aceitar que o Sporting deu um passo grande que ninguém esperava e, portanto, que também não dê agora um passo disparatado e comece outra vez a comprar jogadores a granel e sem ver a sua qualidade.
Dias Ferreira, vamos aguardar. Por isso, para já, temos a agradecer-lhe o facto de ter estado connosco aqui em direto na Rádio Observador, apenas algumas horas depois de o Sporting se ter sagrado campeão nacional de futebol. Um bom dia.
Obrigado.
Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto