Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Explicador da Rádio Observador. A notícia da morte de Francisco Pinto Balsemão originou uma série de reações dos mais variados setores políticos, da comunicação social, da sociedade civil. O velório será ao final desta tarde e noite, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa. Balsemão é um nome incontornável na política e na comunicação social portuguesa, Judite.
Recebemos agora Manuela Ferreira Leite, social-democrata, antiga ministra das Finanças e da Educação. Bem-vinda, obrigada por ter aceitado o nosso convite. É inevitável falarmos de Francisco Pinto Balsemão. Vamos começar por aí: que legado deixa o político, o jornalista e o empresário?
Muito boa tarde. É realmente um tema incontornável hoje. É um dia triste, apesar de haver aqui um aspecto muito positivo, que tem a ver com o legado. Há quem, infelizmente, perca a vida e não há história a contar ou não deixou nada para além da vida. E eu acho que o doutor Balsemão é uma daquelas pessoas, que não são frequentes, que deixa um legado intransponível e raro na sociedade portuguesa. Não só na questão de natureza política, porque é evidente que ele tem um papel determinante em toda a evolução política que houve no nosso país. Tem um lugar de destaque, com todas as consequências que isso teve no desenvolvimento das suas ideias, nomeadamente no que respeita à comunicação social. E é interessante pensar que ele o fez sempre de uma forma discreta. Foi uma pessoa que desempenhou funções do mais alto grau e importância, sendo primeiro-ministro, nomeadamente. Mas deixa especialmente uma marca que, do meu ponto de vista e pessoalmente, não deixo de o ligar ao partido que ele ajudou a fundar e que no fundo foi ele sozinho, quase, que depois o consolidou, dado o desaparecimento do seu grande amigo Francisco Sá Carneiro. E, no entanto, a despeito desse desaparecimento precoce, em que as coisas ainda não estavam muito consolidadas, eram muito jovens para já ter uma grande consolidação, ele conseguiu ficar ligado exatamente à fundação de uma ideia que ele nunca largou, que sempre desenvolveu, que sempre não só patrocinou como expandiu pelo seu próprio exemplo. Isso efetivamente é um legado que tem uma marca enorme no país.
E que relação a doutora Manuela Ferreira Leite tinha com Francisco Pinto Balsemão? Eram próximos?
Não posso dizer que era amigo íntimo lá de casa. Fui algumas vezes à casa dele, mas não direi que fosse íntima na casa dele. Mas uma marca de um enorme respeito, de uma enorme admiração e até de uma enorme subjugação ou subordinação às ideias dele. Era uma pessoa em que, como sabe, candidatei-me a certa altura à liderança do partido, não sozinha, mas com outros oponentes.
Em 2008.
E não tenho dúvidas que se ele não me tivesse apoiado ou considerasse que não me devia candidatar, não me atravessaria o espírito fazê-lo. Foi porque ele considerou positiva a ideia e me incentivou, que me levou a dar esse passo.
Recorda-se de como é que foi essa conversa? Eu recordo-me de parte, recordo-me de onde foi essa conversa, foi num jantar. Mas como é que foi essa conversa com Francisco Pinto Balsemão?
Não, essa conversa já foi algo posterior à conversa que eu tive com ele. Ele foi tão bondoso ou tão simpático, direi assim, que depois da conversa que eu tive com ele no sentido de saber a opinião acerca de uma hipotética candidatura à liderança do partido, ele quis-
Tornar público.
Exatamente. E portanto, por iniciativa dele, proporcionou um jantar em que chamou a comunicação social para mostrar que me estava a apoiar. Portanto, uma coisa foi a minha conversa com ele, pessoal, onde ele estaria à vontade para dizer o que entendesse. Outra foi depois a grande, enorme simpatia com que depois quis, e não porque eu lhe tenha pedido.
Mas a sua decisão está intimamente ligada a esse apoio nessa altura, é isso?
Está ligada a esse apoio no sentido de que não me atravessaria o espírito ter-me candidatado, caso ele entendesse que não devia fazê-lo. Isso eu não tenho dúvida acerca disso. A iniciativa foi minha e por isso falei com ele Mas se ele tivesse tido reticências ou qualquer tipo de hesitação, eu não tenho nenhuma dúvida de que não o faria sem o apoio dele. Efetivamente respeitava-o muito e além de o respeitar, acho que eu continuo a olhá-lo, e continuarei sempre, como um símbolo de um partido que foi criado com determinado tipo de ideias e princípios, que ele nunca renegou, que sempre viveu no seu dia a dia e pelos quais tenho o máximo dos respeitos. E é realmente difícil, porque a fase que ele passou depois do desaparecimento de Sá Carneiro, foi uma fase conseqüente.
E hoje já não é o mesmo partido, Dr. Manuel Ferreira Leite?
Nos seus princípios, nos seus fundamentos, na sua ideologia, para mim, é o mesmo partido.
O PPD.
O PPD. O PPD e PSD, enfim, porque acho que não há uma grande diferença nesse sentido. A verdade é que foi algo que ele, a certa altura, se viu quase que sozinho perante esse grande desafio, e do qual se pode honrar, porque continua a ser um partido que tem a força e os princípios que ele não deixou morrer e pelo contrário, desenvolveu.
Nós temos a ideia pública, do homem público, de um homem de convicções fortes, transparente em relação àquilo que pensava politicamente, aquilo que queria para o país, até para os seus negócios. Em tempos que estamos agora a viver, de polarização, de gritaria na arena política, Pinto Balsemão lembra-nos a necessidade de ter elevação e eu diria até elegância na discussão de ideias. Acha que ele pode ser um símbolo para nos tentar trazer de novo para esse patamar?
Se não é, devia ser. Eu admito que a evolução dos tempos e da comunicação social e da forma de conhecimentos que temos a toda a hora altera os comportamentos das pessoas, mas não tenho a mínima das dúvidas de que se havia pessoa que era bastante discreta. Era uma pessoa muito discreta. Mas tão fiel aos seus princípios que nunca os abandonou. Não tenho nenhuma dúvida de que nunca fomentaria, partilharia ou protagonizaria outro estilo de forma de estar como aquele que ele sempre teve, de uma forma discreta.
Dr. Ferreira Leite, já que a temos conosco, vamos agora falar de eleições presidenciais, porque ontem foi conhecido mais um candidato, o candidato do Livre, Jorge Pinto. Com tantos candidatos, estas vão ser eleições muito fragmentadas?
É evidente que quando há muitos candidatos, a fragmentação ocorre.
Isso em sua opinião é positivo ou negativo?
É sempre positivo se ela corresponde ao impulso das pessoas. Não sei se cada um dos candidatos está verdadeiramente consciente de qual é que é o papel da Presidência da República, se tem capacidade algum dia para ser Presidente da República. Nessa situação, parece que se está um pouco a brincar ou a considerar como obrigatório que cada um dos partidos, para dar prova de vida, tem que ter um candidato à Presidência da República.
Acha que não estão a lidar com isso com a gravitas que merece uma candidatura presidencial, é isso?
Acho que não, é evidente. Não vou agora aqui nomear nomes, mas bastamente o último que agora citou ou partidos que praticamente não têm expressão eleitoral e que arranjam um candidato à Presidência da República, é só porque sim. Não tem nenhum outro motivo, não consigo encontrar qualquer espécie de fundamento.
E a preencher o espaço público.
Com certeza, quer dizer, tentar dar prova de vida, quando eu acho que a prova de vida da Presidência da República não tem a ver com partidos. E se tem a ver com partidos, é mau. Nem me lembro de haver uma eleição em que se considerasse necessário cada um dos partidos ter um candidato.
Portanto, acha que não é possível fazermos um paralelismo entre estas presidenciais que vamos ter em 2026 e as de 86?
Evidentemente que não. É algo que eu não encosto de dizer mais.
Quase se juntou aí um suspiro, Dr. Ferreira Leite.
Sim, bastante profundo.
Por quê? Explique-nos lá.
Não preciso lhe explicar, não é? Escuso ser desagradável ao ponto de fazer uma explicação, mas eu não vou comparar as eleições que houve, que de resto corresponderam a uma segunda volta, e não houve outra segunda volta. Ou outras eleições com segunda volta. Estas provavelmente terão, por motivos completamente diferentes, e com forças, personalidades. Eu quero crer que o país tem alguma reação perante isto Realmente nem toda a gente tem perfil para ser presidente da República, nem que liderasse um partido que tivesse uma enorme implantação, que não é o caso. Quer dizer, partidos sem nenhum tipo de implantação, que são capazes de nem eleger um presidente de câmara, candidatam-se à presidência da República. Eu acho que há aqui uma desvalorização lastimável da eleição da presidência da República, que é evidente que não será considerada resolvida numa primeira volta, dada a proliferação. Não sei de onde é que vem a vantagem, seja para o que for, de ter que haver um processo eleitoral não só muito complexo, como é-lhe retirado valor. A essência da presidência da República está posta em causa quando proliferam os candidatos, não deveria ser em nome pessoal, de termos tantas personalidades importantes neste país que levasse a que aparecessem várias pessoas. Mas não é o caso. Os partidos é que vão ter o seu representante na presidência da República, mas quem é que diz que a presidência da República tem que ser uma ostentação de um partido? Alterou-se completamente a conceção e aquilo que foram eleições em que grandes personalidades da vida nacional se candidatavam à presidência da República, com as suas ideias muito próprias e muito bem marcadas, agora transformou-se numa eleição que vamos ver o que acontece.
Podemos já falar numa eventual segunda volta. Quem são os candidatos mais bem colocados?
Não me faça essa pergunta neste momento, porque eu acho que esta candidatura à presidência da República já está de tal forma adulterada pela quantidade de pessoas que sem terem nenhum peso na sociedade civil se candidatam à presidência da República, que eu não vou agravar mais essa situação falando sobre cada um, à maioria dos quais não faço a mínima questão.
Não vamos desperdiçar esta oportunidade para lhe fazer outras perguntas. Claro que o convite para vir aqui à tarde política da Rádio Observador está sempre feito, mas queríamos falar também consigo sobre um problema que poderá surgir agora das eleições autárquicas, em que algumas câmaras e perante os resultados eleitorais, o Chega é um partido fundamental para que se consiga alcançar uma maioria. Entende que o PSD devia optar por uma destas duas situações? Uma, chamar vereadores do Chega para o governo do município ou a doutora Manuela Ferreira Leite entende que o melhor seria negociar caso a caso e não chamar o Chega para os executivos? Qual é que seria para si a melhor opção?
Não creio que na questão autárquica se possa pôr esses termos, porque depende imenso de que câmaras é que estamos a falar. É que há câmaras em que as decisões abarcam milhares ou centenas de milhares ou até milhões de pessoas e há outras situações em que abarcam centenas de pessoas que são todas conhecidas umas das outras, primas ou afilhados ou cunhados, de certeza absoluta que têm uma relação familiar qualquer uns com os outros. É porque há disso tudo. E portanto acho que não há regra.
Não deve existir essa regra? Deve ser caso a caso a decidir?
Não. Não acho que devam existir regras. Acho que não se podem pôr regras onde não é suscetível de serem executadas. Numa pequena autarquia, dizer-se que este pode falar ou o outro pode dizer, ou o outro faz coligação ou não sei o quê, é completamente impossível.
E numa grande, como por exemplo Vila Nova de Gaia, em que no fundo há um empate cinco a cinco para o PSD e para o PS.
Impõe-se o bom senso.
Mas sem linhas vermelhas.
Não é possível imaginar-se que são aglomerados que por maiores que sejam não têm uma dimensão nacional. E ao não terem dimensão nacional, não é fácil querer-se tomar determinada medida e haver uma oposição que não permite que essa medida seja tomada. Isso sabe-se, conhece-se e nem todos se atrevem a fazê-lo. Ou então opõem-se com razões muito válidas que são conhecidas de toda a gente e portanto prejudicará quem a tentar implementar. Portanto, eu acho que o mundo autárquico é um mundo muito específico em que as regras gerais não funcionam. E portanto, como as regras gerais não funcionam, há apenas uma que deve estar sempre presente. É muito difícil qualquer presidente de câmara não fazer obra, não fazer aquilo que os habitantes desejam ou o contrário, fazer aquilo ao contrário, tomar decisões das quais as pessoas discordam.
Mas sem maiorias isso é muito difícil de alcançar.
Não sei se é de maiorias de alcançar ou não, porque aqueles que não estão em maioria . Nunca vi nos governos autárquicos quezílias que levassem ao funcionamento desses freguesias ou concelhos. Não me lembro de ter visto isso. São casos raros que têm sempre solução. Muitas vezes não é pública porque a autarquia não mexe com a opinião pública geral. Acho que é algo diferente e portanto creio que transferir para autarquias regras que se podem pôr a nível nacional, até porque como bem sabemos, as autarquias não têm a ver com determinado tipo de competências que tem evidentemente o governo nacional. E portanto, a repercussão que isso tem até externamente ou na Europa, seja o que for, é aquela que se quiser dar na comunicação social, a que ligam muito os próprios habitantes da freguesia ou do concelho, mas a que não ligam nenhum os outros. Portanto, não tem sequer repercussão nacional. E portanto, quando não tem repercussão nacional nem europeia as coisas acabam por funcionar de acordo com aquilo que é possível fazer.
Muito obrigado. Muito obrigado, doutora Manuela Ferreira Leite, por ter estado aqui na tarde política da Rádio Observador.
De nada. Boa tarde.