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É mais de meio milhão de pessoas que não têm acesso a comida na Faixa de Gaza. Um alerta acompanhado pela UNICEF e pelas Nações Unidas, que declararam fome no enclave palestiniano com base nos dados do Quadro Integrado de Classificação de Segurança Alimentar, o IPC. A fome afeta sobretudo a cidade de Gaza, mas o IPC acredita que o cenário vai estender-se às zonas de Deir al Balah e Khan Yunis nas próximas semanas. Estima-se que uma em cada três crianças esteja subnutrida na Faixa de Gaza. É a nossa convidada neste explicador, Beatriz Imperatori, diretora-executiva da UNICEF Portugal. Uma entrevista da Raquel Bacis e da Diana Rosa.

Muito boa tarde, seja bem-vinda e obrigada por ter aceitado o nosso convite. Pergunto-lhe antes de mais, e para que não haja qualquer dúvida, como é que são reunidos estes dados que são hoje apresentados neste relatório e que motiva precisamente este alerta de todas estas organizações?

Olá, boa tarde, obrigada pelo convite também, para estar aqui e ter esta oportunidade para explicar esta questão que é tão importante. Este indicador é construído através de observações diretas no terreno. Contabilizam para este indicador a informação observada no terreno, neste caso, por 21 organizações não-governamentais e governamentais, portanto, entidades públicas e entidades não públicas, e que fornecem toda a informação primária observada no terreno para caracterizar três indicadores: aquilo que é a prevenção alimentar extrema, aquilo que é a subnutrição aguda e a contabilização de mortes relacionadas com fome. Pode ser por fome diretamente ou por doenças diretamente relacionadas com ela. É assim que funciona. Neste caso, as quatro agências das Nações Unidas, a UNICEF, a OMS, o PAM e a FAO, são as entidades que publicam o indicador e que são o garante da fiabilidade de toda esta informação.

Relativamente ao aumento previsto nas próximas semanas, no que diz respeito à fome, o alargamento a outras regiões que não a cidade de Gaza, como é que são recolhidas essas evidências?

Essas evidências são recolhidas através das instituições de saúde que ainda estão a funcionar, ou seja, os hospitais e pequenas unidades locais de saúde que estão a funcionar, aonde as pessoas se dirigem. Por exemplo, com as crianças, onde é feito o diagnóstico relativamente à subnutrição, seja ela grave ou aguda, e depois ela é reportada diretamente, existem canais especiais, nomeadamente aos nossos gabinetes, aos gabinetes da OMS, e depois toda essa informação é compilada e apurada.

Como é que responde àquilo que tem vindo a dizer o governo israelita, negando os dados que outras organizações, entre as quais também a UNICEF, têm vindo a divulgar, dizendo que são falsos e parte de uma operação de propaganda do Hamas? É possível provar que estes dados são independentes?

É claro que é possível provar. E é possível provar exactamente este índice que vem provar isso. E quem quiser ir ler a metodologia, as 21 organizações que participam poderá ver que de facto são situações reais e observadas no terreno. São os enfermeiros que relatam, são os técnicos de saúde que relatam, são os antigos professores que relatam, são os pais e as mães que vão ao hospital com os seus filhos, são as crianças que morreram e morreram porque tiveram fome. É a realidade. Quem vai a Gaza, quem vai à Faixa de Gaza, sabe que esta é a realidade. E as pessoas têm de estar interessadas em avaliar e concretizar.

A questão é que o próprio governo israelita tem impedido que entidades internacionais tenham acesso à Faixa de Gaza.

Mas vamos lá ver. Nós estamos na Faixa de Gaza. A UNICEF está na Faixa de Gaza. Nós temos uma equipa permanente residente de palestinos, também, que vivem na Faixa de Gaza. A OMS tem pessoas na Faixa de Gaza. Os Médicos Sem Fronteiras têm pessoas na Faixa de Gaza. Há pessoas na Faixa de Gaza, há organizações a trabalhar na Faixa de Gaza. Eu penso que essa também é uma informação que devemos esclarecer.

Com o plano de Israel de ocupar o enclave palestiniano, como é que ficam as pessoas com menos mobilidade, as pessoas mais velhas? Ficam de alguma maneira encurraladas? Haverá forma de retirar estas pessoas se isso acontecer?

Não, vai ser extremamente difícil. As pessoas tentarão sair, como têm feito até agora. Mais de 90% das pessoas estão neste momento em cerca de 12% do território palestiniano. Haverá mais uma vez a tentativa, por uma questão de segurança dessas pessoas para irem para lugares seguros, mas vai ser extremamente difícil. As pessoas não têm meios, as pessoas estão debilitadas, estão vulneráveis. Como dizia, há uma franja que é ainda mais vulnerável, todas essas pessoas que descreveu, e portanto será muito difícil.

E o fato de os jornalistas internacionais não entrarem na Faixa de Gaza, isso pode comprometer o rigor das informações que vão sendo veiculadas, uma vez que há também sempre dúvidas sobre qual a origem e a fonte das informações?

Se as pessoas têm dúvidas sobre a origem, devem ir verificar e devem ler todos os meios que neste momento são credíveis, seja "O Observador", seja a RTP, seja a comunicação internacional, uma BBC, uma TV5, o que for, para terem a segurança relativamente à informação que leem e que absorvem.

A verdade é que todos esses meios de comunicação social que referiu não estão presentes no território.

Não estão presentes no território, é verdade, e era essencial que tivessem acesso ao território. Estou plenamente de acordo consigo. Era fundamental. Ajudar-nos-ia a todos, os que queremos um cessar-fogo, os que precisam de enviar ajuda humanitária de uma forma massiva para responder à escala das necessidades que neste momento é sentida em Gaza. Sim, os jornalistas deviam estar no terreno.

E já que estamos a falar disso, faria sentido haver uma campanha internacional a colocar esse dado como essencial para que possamos saber todos do que é que estamos a falar?

Eu penso que é mais um argumento ou é mais uma importante dimensão que deve ser respondida pelo governo de Israel, e que é exactamente a entrada de observadores independentes, de jornalistas, para que possam, de uma forma concreta, fazer a sua avaliação daquilo que se passa em Gaza e, portanto, comunicar ao mundo aquilo que viram.

O comunicado divulgado hoje pela UNICEF, juntamente com outras organizações, sublinha que a entrada de alimentos continua a ser insuficiente na Faixa de Gaza. Quais são os reais constrangimentos? É que Israel não permite a distribuição de ajuda, como dizem as ONGs também, é o Hamas que assalta e se apodera do conteúdo dos camiões humanitários, como diz Israel, ou serão as duas coisas em simultâneo?

É tudo em simultâneo e mais um conjunto de factores, mas isto é o mais importante e quero começar por aqui, que é: a ajuda humanitária é pouca, mas chega a Gaza e, portanto, temos que continuar a fazer um esforço para manter abertos aqueles que são os corredores e os locais de entrega da ajuda humanitária. Aquilo que diz relativamente ao escrutínio de Israel, ao filtro de Israel, a todas as mercadorias que temos preparadas para entrar na Faixa de Gaza, existe e esse é o principal obstáculo para que a ajuda humanitária entre nas condições e nas quantidades necessárias. Depois, quando se entra dentro do território, há obviamente um conjunto de constrangimentos diferentes. Existe, por um lado, uma total falta de uma rede viária que permita, de uma forma rápida, célere, fazer a distribuição no território, porque é um cenário de guerra, basicamente. Há também uma falta de conseguir contratar com empresas de distribuição por causa do clima de guerra e dos cenários de guerra e violência que se vive. Portanto, é difícil convencer as pessoas a irem entregar em Gaza. E há também uma questão: a frota dos antigos camiões que nós tínhamos, que eram sobretudo camiões muito grandes. Neste momento, temos que optar por camiões mais pequenos, porque são aqueles que conseguem passar nas estradas, nos caminhos, digamos assim, aos quais neste momento temos acesso. Portanto, é verdade que a operação é muito complexa. Começa desde já pelo filtro que é feito à entrada de todas as mercadorias que podem entrar e não podem entrar no território. E depois, obviamente, dentro do território, as condições muito difíceis, críticas a que é feita toda esta distribuição. Por quê? Porque é um território em guerra.

Fica aqui este apelo da directora-executiva da UNICEF Portugal, Beatriz Imperatori. Muito obrigada por se ter juntado a este explicador desta tarde política. Desejo-lhe um bom fim de semana.

Obrigada.