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18 de maio, data escolhida pelo presidente da República para as eleições legislativas antecipadas. Os diferentes partidos começam a preparar a campanha e o discurso com que esperam conquistar o voto dos eleitores. Este é o tema do Explicador. Eu e a Raquel Cacete falamos com o publicitário, especialista em marketing e comunicação, com experiência em campanhas políticas. Falamos com Edson Ataíde. Boa tarde, bem-vindo, Edson Ataíde. Vamos para mais um ato eleitoral, terceiras eleições no espaço de quatro anos. As últimas foram há pouco mais de um ano. O que os diferentes partidos podem e devem fazer, e o que podem fazer de diferente nesta campanha que se aproxima?

Boa tarde. A democracia tem aquela coisa, não podemos reclamar de excesso de democracia. Podemos só reclamar de falta. Então, se há mais campanhas do que estava previsto, o que os partidos devem fazer é lembrar as pessoas, motivar as pessoas, convencer as pessoas que vale a pena ir votar e defender os interesses, a ideologia, aquilo que eles acreditam.

Edson Ataíde, mas tendo em conta o fato que levou a estas eleições, acha que é um caso que deve ou pode ser explorado, é útil até para mobilizar as pessoas, que esse caso seja explorado em campanha ou, pelo contrário, acha que isso pode ser prejudicial e afastar as pessoas das urnas?

Digamos que o elefante está na sala e vai ser difícil tirá-lo. Então há que se conviver com ele. Cada partido tem um ponto de vista diferente sobre o mesmo assunto. Tem um envolvimento diferente a esse assunto. Alguns estão envolvidos, outros estão implicados. Mas uma coisa é certa: não é como aquele filme dos MIB, do "Men in Black", passar uma luzinha na frente das pessoas e não existiu nada aqui. Não. Existiu. Existe um motivo para esse governo ter caído, vai ter que ser debatido, vai ter que ser passado, mas é preciso que os partidos e os candidatos passem sobre esse assunto, que não seja só sobre esse assunto. Se for só sobre esse assunto, é uma bela maneira de convencer as pessoas a ficar em casa.

Mas, de facto, o presidente da República já mostrou preocupação em relação a isso, pediu para se abordarem outros temas. O governo tem tentado, de facto, nas últimas declarações de Montenegro, que foi tendo já durante a última semana, tentar puxar os galões daquilo que tem sido o trabalho feito, os restantes partidos, de certa forma, vão respondendo, criticando algum desse trabalho, mas o tema da empresa Montenegro continua em cima da mesa. Para quem prepara uma campanha e para quem tem experiência daquilo que é preparar uma campanha, tendo um tema destes tão mediático e que as pessoas conseguem ou acompanharam durante todas estas últimas semanas, também é difícil para quem prepara essas campanhas, principalmente na oposição, abordar outros temas que não este durante todo esse período de duas semanas.

Mas vão ter, porque uma coisa é um tema duas semanas, três semanas, um mês. Outra coisa é o mesmo tema três meses. Aí não há ninguém que aguente. Ou seja, é relevante, é interessante que a oposição queira falar sobre o assunto, mas, mais uma vez, até a oposição vai ter que encontrar outros temas. Até porque isso é uma regra que vale para qualquer eleição. Sim, é verdade, contra propaganda funciona. Sim, é verdade, falar mal dos outros funciona, mas para você ganhar e ganhar em maioria, é bom que você fale bem sobre si mesmo ou sobre as propostas que você tem.

Edson Ataíde, nesse sentido, qual é a sua valoração dos cartazes que o Chega já pôs na rua explorando este caso? Acha que, até do ponto de vista deste partido, é uma aposta certa e que no fundo acaba por fazer esquecer os casos em que o próprio partido esteve também envolvido?

Olha, é muito difícil esquecer um deputado que rouba malas no aeroporto e sem falar os outros que, entretanto, fizeram coisas bem piores do ponto de vista do Código Penal.

A questão é se o eleitorado do Chega, diante daquela mensagem daquele cartaz, não tende a focar-se mais no líder.

Não, o eleitorado do Chega, aquele que é o núcleo duro desse eleitorado, vive um pouco numa realidade própria. Tem uma cognição muito específica sobre o mundo. E com aquele cartaz ou outro qualquer, votará igual. Nós não sabemos se, entretanto, se são só 15%, ou 20%, ou mais do eleitorado, mas não é um cartaz, não é um tema, não é alguém ser preso, alguém ser morto em praça pública que fará a menor diferença.

O Edson teve experiência em campanha eleitoral, sabe o que é preparar campanhas, preparar também a estratégia de comunicação. Há pouco já estávamos aqui tentando fazer um pouquinho disto, mas vamos tentar ser um pouquinho mais concretos. Se tivesse que aconselhar Luís Montenegro, com os dados que temos agora em cima da mesa, em que estratégia apostaria?

Graças a Deus, eu não tenho que aconselhá-lo. Porque será difícil, com certeza, não é fácil. Mas ele é a única pessoa no seu entorno que tem todos os dados na mão. Sabe exatamente se ainda vai aparecer mais coisas, se não vai aparecer, e de que maneira ele poderá se libar dessa situação. Uma coisa é certa: nunca aconselharia ele a fazer de conta que nada aconteceu. Acho que é muito cedo pra isso ser possível.

Uma das coisas que Montenegro disse durante todo esse processo é que não queria continuar a dar esclarecimentos sobre isso a toda hora e a todo momento, sabendo que a campanha vai também cair um pouco por aí. É importante, talvez, ter um discurso preparado. Nós sabemos que muitas vezes na campanha o discurso é muito repetitivo, como são muitos os eventos na agenda por dia, acaba por se repetir um pouco aquilo que se vai dizendo ao longo da campanha. É natural que Montenegro caminhe pra aí, pra ter uma resposta já preparada sempre para que esse tema surja?

Sim, eu acho que já deveria ter, se é que não tem mais, respostas preparadas e diferentes, porque com certeza que a maneira como um André Ventura irá abordar essa questão num debate, por exemplo, será bem diferente de uma Motágua, por exemplo, e sendo os dois capazes de fazer ataques. Então não é a mesma coisa responder a um e a outro, e podemos multiplicar pros outros atores. Agora, ele precisa também dar um passo em frente. Quais são as bandeiras que ele pretende mostrar pro país? Tem, inclusive, um ano de governação, então pode dizer o que melhorou, o que poderia melhorar mais ainda. Em algum momento, ele vai ter que se desenredar dessa espuma dos dias, e vender horizontes. O que as pessoas compram são horizontes.

Edson Ataíde, agora faço-lhe a pergunta em relação ao outro protagonista. Se tivesse que aconselhar o líder da oposição, Pedro Nuno Santos, e o PS, como é que acha que os socialistas poderiam ou deveriam tirar partido desta circunstância que nos leva de novo a eleições?

Esse então já devia estar começando a vender horizontes desde ontem, porque o ataque ao atual governante virá de todos os lados. Não precisa vir necessariamente dele. No mais, pode vir de qualquer outro deputado, de qualquer outro porta-voz do PS, em qualquer momento. Ele, enquanto candidato, deveria se desenredar dessa circunstância e começar a convencer as pessoas de que ele, sim, é uma alternativa melhor ao atual. Ele só vai poder ganhar, e ganhar em maioria, se conseguir convencer a maioria das pessoas que ele é o melhor candidato.

E isso faz-se nas atuais circunstâncias com o programa com que o partido se apresentar a eleições, com medidas concretas ou criando, no fundo, uma imagem de confiança em torno do líder do Partido Socialista, aspiracional, no fundo. O que é que falta mais ao Partido Socialista neste momento? São propostas ou é uma mensagem aspiracional?

Acho que é sempre o somatório dessas duas coisas. Isso vale pra todos e vale pra ele. Ou seja, é uma mistura de essas são as propostas e eu que sou o intermediário pra que elas existam, consigo fazer com que você confie em mim. Que você acha que se votar em mim, eu irei realizar essas coisas que você está convencido que são boas. Não adianta as pessoas olharem coisas boas se achar que o agente não irá executá-las. Ou achar que ele é um excelente agente pra executar coisa, mas com propostas que eu não me identifico. Então é nesse conjunto da obra.

Mas o Partido Socialista no último ano, nesta governação da Aliança Democrática, teve sempre um pouco colado também à governação, aprovou o orçamento ou viabilizou o orçamento. Foi fazendo aqui alguns entendimentos também com a Aliança Democrática, permitindo esta governação. O tapete acabou por ser retirado na questão da moção de confiança. O Partido Socialista tem condições para neste período de dois meses, um bocadinho mais do que dois meses, distanciar-se daquilo que foi também essa luz verde que foi dando à governação da Aliança Democrática?

Dois meses é uma eternidade em política. Vai tanta coisa acontecer nesses dois meses que nós nem podemos imaginar. É óbvio que não é fácil, mas se fosse fácil, até eu me candidatava. Então não é mais que a obrigação do líder de oposição trabalhar duro e trabalhar com muito empenho pra conseguir um resultado e se diferenciar de qualquer outra coisa anterior à campanha.

Voltando a fazer apelo à sua experiência, acha que o argumento de apelar à bipolarização é um argumento que faz sentido usar nestas circunstâncias, ao PS ou PSD, e vincar muito a bipolarização?

Esse é um argumento, hoje em dia, um bocado bicudo. Sim, esse seria o mundo ideal para o PS e para o PSD, que as pessoas acreditassem que só têm duas opções. O problema é que isso não bate mais com a realidade. Isso já foi verdade, não é mais verdade. E aqui há várias terceiras vias, quartas vias Quem adoraria que os dois partidos ficassem nesse discurso seria com certeza o Chega, porque assim poderia ir pelas traseiras, dizendo que ele que é uma alternativa a esses dois. Acho difícil que no momento em que a política está, esses dois partidos se deixem enredar a um discurso tão fácil quanto esse.

É melhor argumento apelar ou reclamar para si a capacidade de algo?

É sempre a melhor solução. Ainda mais se você não é realmente de um partido de extrema-direita, que não tem exatamente compromisso com a realidade ou com a verdade, tentará sempre vender-se como a melhor solução. Então, sim, você precisa colocar alguma coisa na mesa. Ninguém ganha só dizendo mal dos outros.

E a questão do argumento da maioria absoluta, pedir maioria absoluta, faz sentido isso nesta altura? De facto, nas últimas eleições em que vimos governos cair assim de forma inesperada, acabou por ser um tema central na campanha, também discutir a maioria absoluta. Faz sentido nesta altura?

Essa questão vai ser colocada no imediato, mesmo que eles não quisessem, porque não há como a mídia viver sem fustigá-los com essa questão. E é com certeza algo que o eleitor deve estar a ponderar, ou seja, o que será que faltou nos últimos atos eleitorais. Já vamos em vários, para que um governo se mantivesse três anos no poder que seja.

Mas tivemos maioria absoluta com António Costa, que também não se conseguiu manter no poder, portanto, não é uma resposta fácil, de qualquer forma.

Não é uma resposta fácil. Nesse caso, e bem lembrado, se nem assim é fácil, imagina não sendo.

Edson Ataíde, muito obrigado por ter estado conosco aqui na Rádio Observador. Falamos já um pouco de campanha, vai começar na primeira semana de maio. Até lá, ainda vamos ter muita atualidade para abordar também relativamente a essa eleição legislativa antecipada. Edson Ataíde, muito obrigado por esta participação aqui na Rádio Observador.

Obrigado.