A defesa feita pelo Governo da intervenção policial na madrugada de sábado, em Lisboa e Porto, não conteve a contestação, nem protegeu o Governo de críticas à direita. Na área do PSD, apareceu Jorge Moreira da Silva a classificar a operação como um “tremendo erro dos decisores” e até André Ventura, que apoiou “incondicionalmente” a polícia, exigiu uma resposta de Luís Montenegro — tal como o PS. À esquerda, à cobrança de explicações do primeiro-ministro, juntou-se a pressão sobre o Presidente António José Seguro.
Luís Neves manteve a sua intervenção deste domingo, em reação aos acontecimentos noturnos, na defesa da autoridade da polícia e da preservação da “lei e do Estado de Direito”. Apresentou a operação como necessária e tentou desvalorizar a dimensão da força utilizada. Ao ponto de, a dada altura, referir que esteve a acompanhar o que se passou, dizendo só ter visto “uma única vez que um bastão tenha sido utilizado.”
A declaração obrigou o Ministério da Administração Interna a vir, pouco tempo depois destas declarações, a corrigir o tiro. Afinal, o ministro “não pretendia enumerar exaustivamente a quantidade utilizada, mas apenas, como é, aliás, testemunhado pelas inúmeras imagens publicadas, que foram usados bastões apenas numa situação específica no Rossio.” A explicação procurava delimitar o episódio e “contrariar a tese de que a polícia tinha dispersado os manifestantes ‘à bastonada’, como tem vindo a ser erradamente repetido”, reclamava o Ministério.
Nas comemorações do Dia do Bombeiro, em Celorico de Basto, o ministro da Administração Interna considerou “normal, aceitável e desejável” que se atue e defendeu que o espaço ocupado pelos manifestantes seja “restituído à liberdade” para repor a ordem pública e a restituição de espaços públicos à “liberdade”. Mas esta necessidade de intervir não respondia, por si só, à principal crítica dos opositores políticos (e não só): a forma como a intervenção foi executada.
A contestação a essa atuação não ficou circunscrita à esquerda. Jorge Moreira da Silva, que foi ministro e antigo número dois do PSD, classificou a “carga policial contra protestos pacíficos de jovens” de “injustificável à luz da tolerância, da empatia e dos direitos humanos”. Disse ainda tratar-se de “um tremendo erro dos decisores” e avisou que “é disto que se alimenta o populismo, a radicalização e a descrença na política.”
Vinda de um antigo dirigente social-democrata — que disputou a liderança com Luís Montenegro (2022) –, a crítica contrariou a leitura de um confronto limitado à esquerda e ao Governo. Moreira da Silva não só questionava a atuação policial, como também apontava um erro de decisão com consequências políticas como a promoção da extrema-direita.
Ventura “incondicionalmente” com a polícia
André Ventura, que tem colocado Luís Neves debaixo de fogo, convergiu, desta vez, com o ministro da Administração Interna pelo menos na defesa da intervenção policial. Mas acrescentou à reposição da legalidade uma desqualificação dos manifestantes, que descreveu como uma “minoria de vândalos”, “infiltrados da extrema-esquerda” e “arruaceiros internacionais e nacionais”. Onde o Governo procurava justificar a operação, o líder do Chega procurava também retirar legitimidade a quem estava nas ruas — a mesma estratégia foi, de resto, seguida por alguns sociais-democratas, caso de Pedro Duarte. Também o presidente da Câmara do Porto classificou de “minoria” pouco representativa o grupo que se manifesta nas ruas da cidade.
Num vídeo publicado nas redes sociais, Ventura defendeu também que “o país, os seus centros urbanos, não podem ficar à mercê da desobediência de um conjunto muito minoritário de vândalos e provocadores sobre as forças da ordem.” E não viu “outro caminho” para a polícia. Colocou-se “incondicionalmente” ao lado das forças de segurança, tentando ser o defensor mais inequívoco dessa atuação.
Ao mesmo tempo que apoia a ação policial, diz que a “causa da habitação tem de ser de todos” e lembra que é o Chega que vai, por exemplo, obrigar “o Governo a não avançar com cauções ilimitadas” nas alterações propostas pelo Executivo à lei das rendas — e que estão na comissão da especialidade, no Parlamento. Com isto tenta evitar que a contestação à política de habitação fique apenas nas mãos da esquerda, apoia a intervenção nas ruas e cobra ao Governo uma resposta ao problema que está na origem dos protestos: “Onde anda o nosso primeiro-ministro? Num momento em que é necessário resolver uma causa tão importante. Não se sabe dele há uma semana.”
Carneiro poupa polícias e vira-se para Montenegro que “atura polícias contra cidadãos”
Por razões distintas, José Luís Carneiro também colocou Montenegro no centro da resposta exigida ao Governo. Numa conferência de imprensa no Porto, o líder do PS começou por considerar “incompreensível o silêncio do primeiro-ministro” e defendeu uma saída “política” para esta crise. “O primeiro-ministro, Luís Montenegro, é o primeiro e principal responsável do Governo e tem de assumir a sua responsabilidade. Não pode, com o seu silêncio, continuar a atirar polícias contra cidadãos e cidadãos contra polícias”, afirmou José Luís Carneiro.
Com avaliações opostas em relação à intervenção policial, os dois maiores partidos da oposição convergiram na cobrança de uma posição ao primeiro-ministro. Uma pressão que impede que o desgaste seja canalizado para um ministro, direcionando-o ao primeiro-ministro. Afinal, não está em causa avaliar apenas a decisão policial, mas sobretudo a condução política de semanas de protestos e a incapacidade de os desmobilizar.
Quanto à carga policial, Carneiro não adjetivou o que aconteceu nas praças do Rossio (Lisboa) e D. João I (Porto), cingindo-se à catalogação das imagens como “incompreensíveis, nomeadamente o uso da força para retirar cidadãos que pacificamente estavam a exercer os seus direitos fundamentais”. Procurou distinguir a crítica à atuação dos agentes ao falar em polícias e cidadãos colocados uns contra os outros e apresentando o confronto como uma consequência de uma falha política do Governo.
Mas foi precisamente essa posição que o PSD procurou contestar. O porta-voz do partido, Sebastião Bugalho, classificou a intervenção de Carneiro de “oportunista e irresponsável” e acusou o líder do PS de não condenar inequivocamente o arremesso de objetos contra a polícia e os atos de desordem — e aqui lembrando mesmo o tempo que José Luís Carneiro também já teve responsabilidades como ministro da Administração Interna. Bugalho rejeitou também a acusação de silêncio de Montenegro, afirmando que o primeiro-ministro “não ficou nem cego, nem surdo, nem mudo”, mas não participa em “torneios de conferência de imprensa”.
Esquerda faz pressão sobre Presidente da sua área política
A intervenção de Carneiro esteve longe de ser a mais contundente dentro do PS, nomeadamente no que toca à intervenção da polícia em concreto. O presidente do partido, Carlos César, classificou a ação de “repressão” que é “imprópria das sociedades democráticas” e um “estímulo ao radicalismo” — uma advertência muito próxima da de Jorge Moreira da Silva.
Num vídeo divulgado nas redes sociais, o ex-líder Pedro Nuno Santos classificou a ação de “uma vergonha” e de “atentado ao Estado de Direito, à democracia e ao direito de manifestação.” Diz também que Luís Montenegro está “escondido em Espinho há mais de uma semana” e “instrumentalizou o aparelho de Estado” para se proteger a si mesmo. Também nas redes sociais, a deputada socialista Isabel Moreira descreveu “pancada, cães, cerco” e até o cheiro “a fascismo” na resposta policial aos protestos. Mais do que cobrar explicações, estes socialistas condenavam diretamente a forma como o Governo respondeu à rua.
A deputada foi também uma das vozes socialistas a reclamar por uma maior presença do Presidente da República. “Exige-se uma intervenção imediata do Presidente da República”, escreveu nas redes sociais já depois de a vereadora do PS na Câmara de Lisboa, Alexandra Leitão, ter pedido o mesmo: “O Presidente da República tem de falar”. E isto porque, defendeu a socialista numa publicação nas redes sociais, “além do direito à habitação, está em causa a liberdade de manifestação. E com ela, a Democracia.”
Já o ex-ministro da Cultura do PS, Pedro Adão e Silva, levou a questão às expectativas depositadas em Seguro por parte de quem nele votou nas últimas presidenciais. Escreveu nas redes sociais que está “convencido de que as platitudes de António José Seguro surpreendem um total de zero portugueses entre os 3.502.613 que o escolheram para Belém.”
O ex-eurodeputado e dirigente do Bloco de Esquerda, José Gusmão, ironizou no mesmo sentido: “Nem me consigo ouvir pensar com o barulho do Presidente a defender a Constituição.” E o antigo dirigente do Bloco de Esquerda, Daniel Oliveira, avisou: “Se Seguro continuar calado, terei de concluir que foi um erro não ter ficado em casa na segunda volta. A democracia não está mais em perigo com um fascista do que com um colaboracionista.” Também no Livre, Jorge Pinto pediu uma “posição firme” a Seguro — que na próxima semana vai reunir o seu órgão consultivo, o Conselho de Estado, e vai receber os partidos políticos para os ouvir sobre os problemas da coesão social.
Mesmo com Ventura do lado da “ordem”, a defesa da operação esteve longe de assegurar uma frente sólida de apoio ao Governo. Nem mesmo dentro do PSD, onde Moreira da Silva contrariou a leitura de uma divisão entre direita e esquerda, na reação ao que se passou em Lisboa e no Porto. À esquerda, a exigência de explicações do primeiro-ministro estende-se agora também a Belém. Entre a discussão sobre os limites da força usada e a cobrança de uma resposta, o conflito deixou de estar apenas nas praças e passou a envolver os principais responsáveis políticos.