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Explicador da Rádio Observador, numa altura em que ainda se fazem contas aos resultados autárquicos e no rescaldo do relatório preliminar do acidente com o elevador da Glória, recebemos agora Alexandra Leitão, vereadora eleita pelo PS à Câmara de Lisboa. Judite.

Bem-vinda, obrigada por ter aceitado o nosso convite. À luz do relatório conhecido ontem, há responsabilidades políticas a assacar ao presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas?

Muito boa tarde, obrigada pelo convite. Antes de responder diretamente a isso, eu gostaria de tecer duas outras considerações sobre o relatório que foi tornado público ontem. O relatório é muito grave. É um relatório que fez com que o gabinete que investiga estes acidentes tivesse necessidade de fazer um segundo relatório intercalar, já tinha feito um primeiro, e neste segundo relatório intercalar apresenta falhas de natureza sistémica. Não só a questão do cabo que não tem as especificações técnicas adequadas para um equipamento que transporte pessoas, isto é gravíssimo, mas também falhas de outro tipo, como sejam a falta de existência de um sistema de controle de qualidade da manutenção, a falta de existência de protocolos que devem ser seguidos nessa manutenção. E, portanto, aponta para um descuido, uma falta de diligência sistémica que aponta para problemas gestionários da própria Carris e da empresa de manutenção.

E perante isso?

A partir do momento em que nós encontramos aqui não um caso fortuito, mas problemas gestionários sistêmicos, há logo uma primeira conclusão quanto a mim se deve retirar: está quebrada, de forma irreversível, uma relação de confiança entre os próprios lisboetas e quem utiliza estes transportes e o conselho de administração e o presidente do conselho de administração da Carris. E portanto, julgo que não há condições para o mesmo permanecer no cargo. Para além disso, não podemos esquecer duas outras coisas que eu gostaria de acrescentar e que vou responder à pergunta que me fizeram. A primeira é que este terrível acidente não foi um caso fortuito, não foi um tremor de terra ou um acto de Deus. Portanto, um acto daqueles que acontecem e que vem da natureza e que não se pode evitar.

Inesperado, no sentido de que não é possível controlar.

Um acto da natureza que está para lá da capacidade humana prever ou evitar, ou mitigar até. Não, isto é um acidente num equipamento público de uma empresa municipal, empresa essa que é detida e tutelada 100% pela Câmara Municipal de Lisboa. E é um acidente que, olhando para o relatório, tudo aponta que é evitável. Então se é evitável, devia ter sido evitado. Nós ficamos, além do mais, a saber mais um conjunto de coisas pelo relatório. Ficamos a saber que houve um acidente em 2024 e um acidente em 2025 que tiveram influência no desgaste do cabo e cuja existência foi ocultada numa primeira fase pela Carris. Sabemos que os outros elevadores todos estão na mesma situação de insegurança. Permitam-me, aliás, lembrar o seguinte: a razão pela qual este gabinete de investigação de acidentes justifica a necessidade de ter feito agora um segundo relatório intercalar é exactamente o facto de terem que apresentar já recomendações que a Carris tem de seguir, não só do ponto de vista dos protocolos de segurança, mas exactamente da manutenção dos outros elevadores em serviço.

Alexandra Leitão, deixe-me só fazer-lhe uma pergunta, aproveitando tudo isto que acaba de dizer e de explicar. Enquanto lisboeta, tem confiança nesta altura noutros meios de transporte, como autocarro, metro, comboios, que vão circulando por Lisboa?

O que nós retiramos daqui claramente é que todos aqueles que têm estruturas similares à do Elevador da Glória, e quando digo similares, eles não são todos iguais, uns são motorizados, outros não são motorizados. O do Lavra e o da Glória são semelhantes, o da Bica é diferente. Mas esses todos, claramente, não há confiança e o próprio relatório determina.

E nos restantes? No metro de Lisboa, por exemplo.

O metro não é a mesma coisa.

Não é, exatamente.

Não vamos misturar.

Mas neste caso, aparentemente, o que acontecia era que esta manutenção estava entregue a esta empresa e aparentemente não havia uma fiscalização eficaz sobre o trabalho desta empresa.

Não havia nem protocolos a seguir pela empresa.

E nos outros meios de transporte, existem?

O relatório não vai tão longe. O relatório não fala deles e eu não quero falar. Eu quero ser muito factual.

Claro, nestas coisas temos que ser.

Exatamente. Agora, há uma coisa que é muito clara: há erros, negligência e descuidos da gestão da Carris no que toca a estes elevadores que não nos deixam totalmente descansados relativamente a outros transportes operados pela mesma empresa municipal.

Eléctricos, por exemplo.

Exatamente. E é por isso que eu digo, e já disse hoje, e os actuais vereadores na Câmara Municipal do Partido Socialista, na Câmara de Lisboa, já pediram, já considerámos que não há condições de confiança com o presidente do Conselho de Administração da Carris. Mas eu vou responder.

À primeira pergunta.

Exatamente. Mas compreendam este contexto.

Claro.

O que este relatório nos diz é que há um problema sistêmico de gestão. Temos um acidente gravíssimo, relativamente ao qual vamos sempre sabendo coisas aos bocadinhos. Numa primeira fase, não soubemos sobre os acidentes de 24 e 25, até foram ocultados. Depois não soubemos que contactos é que houve com as famílias das vítimas mortais e com os feridos. E vamos sempre sabendo coisas novas. E há uma coisa que aqui se tem que dizer: claro que quando um aparelho deste tipo cai, quando uma ponte cai, quando uma estrada se estraga, é óbvio que há um aspecto técnico ou mecânico ou químico que faz com que isso aconteça.

E político.

Mas isso não quer dizer que não haja subjacente um problema gestionário, administrativo e sim, político.

E há neste caso?

Eu diria que é preciso escalpelizar isto até ao limite para sabermos se há ou não há. Porque eu diria que quando há um relatório com este grau de gravidade relativamente ao mau funcionamento de uma empresa municipal, essa empresa municipal é detida 100% e tutelada 100% pela Câmara Municipal de Lisboa, e a Câmara Municipal de Lisboa nada diz sobre isto. Então, há consequências políticas que a própria Câmara, desde logo tomando medidas, vindo explicar, deve tomar. E depois veremos, não me vou precipitar. Aliás, creio que é justo dizer que neste processo não me precipitei em momento algum, e ele já vem do início de setembro, e agora que vamos sempre sabendo coisas mais preocupantes. A responsabilidade política-

Então vai esperar que faça um ano para que surja o relatório final?

Vou antes de mais esperar para ver o que o presidente da Câmara de Lisboa faz perante este relatório.

Já agora, deixe-me perguntar-

Se o presidente da Câmara de Lisboa ficar quieto perante este relatório, a imagem que está a passar é: um, que não se preocupa com a segurança dos lisboetas, que não se preocupa com a confiança dos lisboetas em equipamentos desta importância, que a própria imagem do país é posta em causa, porque desde logo teve grande repercussão mediática internacional e vítimas estrangeiras. E mais, está a passar a ideia de que a responsabilidade morre solteira. E num caso desta gravidade, isso não pode acontecer.

Mas já agora que está à espera daquilo que Carlos Moedas faça, deixe-me perguntar-lhe o que faria Alexandra Leitão se estivesse nos sapatinhos de Carlos Moedas.

Olhe, deixe-me dizer-lhe o que eu não faria e depois vemos o que eu faria. Eu já teria seguramente, ainda antes das eleições, e portanto logo quando ocorreu, teria convocado a Câmara Municipal de Lisboa, teria sido mais rápida a prestar esclarecimentos que ainda hoje não foram prestados, teria já constituído o fundo de apoio às vítimas, teria telefonado e tratado de todas as vítimas e famílias de vítimas mortais, coisa que hoje sabemos que nem isso aconteceu. Teria seguramente já obrigado a Carris a vir explicar-se e provavelmente, sabendo o que sei hoje, já com isto, já não seria a esta administração da Carris a estar em funções.

Já teria demitido.

Até por uma razão: é que é a própria Carris que dá os elementos e que dá as informações a este gabinete. E neste relatório, o gabinete queixa-se de não ter tido acesso a várias informações. Isto é muito grave do ponto de vista da transparência ou da opacidade.

Mas na questão das responsabilidades políticas, o Partido Socialista também pode ficar de fora destas responsabilidades políticas. No fundo, temos aqui duas câmaras partilhadas entre o Partido Socialista e o PSD.

Não é o que me preocupa neste momento.

Mas já que estamos a falar do capítulo das responsabilidades políticas.

Neste momento, o que é importante é repor a confiança dos lisboetas e de quem nos visita nestes equipamentos. Neste momento, o Ministério Público também está a investigar. Este gabinete continua a investigar, só daqui a um ano é que terá os resultados finais. E se se verificar que o conselho de administração anterior teve responsabilidades, assim como o conselho de administração atual, eu quero sublinhar o seguinte: este cabo é montado, é aplicado em outubro de 2022, portanto, já com este conselho de administração. E há uma passagem verdadeiramente perturbadora no relatório: é que quando este cabo é montado, ele aumenta 4 m, ele estica 4 m. Eu sou jurista, como saberão, portanto eu não me meto a discutir mecânicas ou outras coisas, mas um cabo que no momento em que é montado, estica logo, como se fosse um elástico que dá de si, que tem que logo ser cortado pra ficar com o tamanho certo. Nada disto soa campainhas. Portanto, o que eu quero dizer é: eu não aceito é o passa-culpas. Se a responsabilidade em parte for do conselho de administração anterior, pois vamos apurá-la. Se é do atual, pois é pra apurar, aliás, já está apurada neste relatório.

Portanto, a frase de Carlos Moedas que atribui o acidente a causas técnicas e não políticas-

É um sofisma, com o devido respeito, porque eu repito o que disse há pouco: a causa imediata é sempre uma causa técnica, é a rutura de um cabo, é a queda de um pilar, como aconteceu na Ponte entre os Reis, é o que for. Essa é a causa técnica, mas o que está por trás? Por que não se previu? Por que não se evitou? O que falhou na gestão para que não se tenha lá um cabo que não devia quebrar? Esse é que é o ponto, e é neste momento anterior, no momento em que, como neste relatório nos dizem, foram erros e faltas de diligências gestionárias que provocaram o tal problema técnico, então aí há uma dimensão administrativa e há uma dimensão política, sim. E devo dizer o seguinte: a bem até da dignidade dos cargos, era importante que houvesse explicações cabais e que não se fugisse mais atrás de uma suposta politização. Permitam-me dizer o seguinte quanto à politização.

Temos de avançar, Alexandra Leitão.

As eleições já passaram. Não são as eleições que me movem. O que me move é o rigor, é assegurar a confiança e é que a responsabilidade, de facto, não morra solteira.

Vamos falar ainda um pouco, aproveitando que aceitou o nosso convite, aproveitando um pouco também pra falar sobre as autárquicas. Eu queria entender Um pouco melhor ao que disse este domingo, e se não for isto que queria dizer, por favor, esclareça. Mas, no fundo, explica em parte a sua derrota em Lisboa com a ideia de que jornalistas e comentadores usaram a expressão frente de esquerda para se referirem à coligação que liderava. Foi isto?

Em caso, não. Disse isso.

Disse, mas não era isso que queria dizer. É isso?

Não. Eu disse isso, mas disse isso noutro contexto. O que eu queria dizer era isto: a responsabilidade pela derrota já foi assumida por mim no próprio dia e posso tornar a assumi-la se entender necessário, está assumida. O que eu estava a falar era de uma coisa muito mais abrangente, era de como hoje nós temos um eixo, podemos falar sobre isso, é uma questão quase de ciência política.

Infelizmente não temos tempo, mas vamos convidá-la noutro dia.

Não, mas eu vou ser rápida, eu vou explicar o que disse. Isso não é a culpa. O que eu disse foi: nós hoje, qualquer ideia absolutamente normal, relacionada com o socialismo democrático ou com a social-democracia, é imediatamente vendida como radical. E outras ideias à direita, que há uns anos atrás se calhar eram bastante entendidas como diz, regressivas, são vistas como normais e moderadas. E dei como exemplo, até no léxico e na terminologia, por que, pergunto agora também, se me permite, devolvendo-lhe a pergunta, por que uma coligação com três partidos de direita é sempre referida como uma coligação e uma coligação com três partidos de esquerda e um partido que não é de esquerda nem de direita, que é o PAN, é apresentado como frentismo de esquerda? Eu devolvo-lhe a pergunta. Eu não estou a dizer que isso fez com que a coligação tenha perdido, não é nada disso. Eu dei isso como exemplo da terminologia, da forma como hoje a esquerda e a direita, o centro-esquerda é tratado de uma forma diferente.

Eu queria perceber se, na sua opinião, isso foi fator de influência na decisão dos eleitores, porque o seu oponente usou muito essa arma retórica de acolher a um certo radicalismo.

Acho que algumas expressões sistematicamente utilizadas na comunicação social, no contexto que eu tentei o mais rapidamente possível acabar de explicar, induzem uma ideia de frentismo que não existia, uma ideia de radicalismo que não existia e que ia ao encontro daquela que de fato foi a vitória.

Percebeu isso logo durante a campanha ou só depois das eleições?

Não, percebi logo durante a campanha.

E por que não o combateu durante a campanha? Ou pelo menos de uma forma eficaz.

Pronto, isso é outra coisa. Com vários colegas vossos, talvez até da vossa rádio, eu referi esta questão, por exemplo, da frente de esquerda, que é só um exemplo, mas quantas vezes eu referi que não é radical defender a limitação do alojamento local, não é radical falar sobre a situação da cidade. Quantas vezes eu referi que isto eram umas eleições locais em que era preciso era discutir a cidade e que o meu adversário trazia papões do ponto de vista ideológico apenas para não discutir a cidade. Faço-me a justiça que tenho dito várias vezes se fui eficaz ou não, aparentemente não fui.

Encontra outras razões para não ter vencido?

Razões há sempre muitas. Lisboa mimetiza um pouco também a dinâmica nacional. Hoje a direita, incluindo o CHEGA, é maioritária relativamente à esquerda e ao centro-esquerda, não estou a dizer nada que não seja. E também há um ponto importante que é os próprios eleitores do CHEGA, que normalmente pensa-se que tiram votos à direita, em grande parte também entram no eleitorado do Partido Socialista, por exemplo, nos cargos municipais. Também tive ocasião de o dizer no mesmo programa a que se referiram há pouco. Enfim, haverá outras razões, que eu não serei a melhor pessoa para avaliar.

Que a reflexão está feita sobre este tema.

Alguma reflexão. A reflexão nunca acaba. Agora, já que o tema inicial era o elevador, gostaria de dizer uma coisa que é ainda uma reflexão sobre as eleições. Acho que é justo dizer que em momento algum eu pedi a demissão do Carlos Moedas. Durante aqueles três, quatro, cinco primeiros dias, mantive-me numa lógica muito de vamos tratar de quem está mal, etc. Depois fomos descobrindo coisas que foram desde a questão dos acidentes, que primeiro foram ocultados e que ocorreram recentemente, até à questão do não contacto com as vítimas, etc. E na verdade, independentemente da atuação que a minha coligação e que eu tive, foi sempre serena nessa matéria, fui sempre acusada de politização. Ainda ontem fui novamente acusada de politização, já com as eleições passadas. A politização não pode ser a desculpa para a falta de escrutínio democrático e para a desresponsabilização perante um acidente em que morreram 16 pessoas.

Ficou claro, Alexandra Leitão, mas falta ainda uma pergunta, porque temos de falar de presidenciais. Apoia António José Seguro?

Não era só sobre presidenciais que me convidaram para falar.

Não vamos desperdiçar a oportunidade.

Pois. Eu sobre isso diria o seguinte: eu disse sempre que não falaria sobre presidenciais até às autárquicas, por razões que acho que são atendíveis e compreensíveis. Vejo como muito natural e lógico o apoio do Partido Socialista ao candidato António José Seguro. Naturalmente, foi secretário-geral da JS, foi secretário-geral do Partido Socialista e ocupa naturalmente uma parte de uma área que é relativamente próxima do Partido Socialista. Eu própria, neste momento, as eleições foram há pouco tempo, e encontro-me na minha reflexão relativamente àquele panorama que temos de candidatos presidenciais.

Portanto, ainda não tomou uma opção, é isso?

Estou na minha reflexão, francamente, mas repito, acho muito natural o apoio que o Partido Socialista deu ao seu ex-secretário-geral.

Alexandra Leitão, muito obrigado por ter estado aqui na tarde em direto da Rádio Observador e fica já o convite feito para outra tarde mais à frente voltamos a conversar. Muito obrigado.

Foi tudo gosto. Obrigada.