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A Distrital de Braga do PSD tem eleições este sábado, dia 28, e concorrem Carlos Eduardo Reis e Paulo Cunha, o atual presidente daquela estrutura, também eurodeputado e agora nosso convidado.
Paulo Cunha, muito bem-vindo. O senhor foi presidente da Câmara de Famalicão. Nestas eleições, é fundamental o apoio das concelhias. Segundo o Expresso, não tem a totalidade do conselho consigo, e Barcelos, que é uma concelhia muito relevante no PSD, está com Carlos Eduardo Reis. Se o senhor perder a liderança da Distrital, é uma derrota para si e para a liderança do PSD que o apoia?
De fato, não há nenhuma ligação, nem podia haver, entre a minha candidatura e a estrutura nacional do partido. Eu fui, como disse, e bem, autarca. Ao longo do meu percurso, eu consolidei uma vida política. Aliás, a minha vida é feita muito além da política. Eu tenho 32 anos de atividade profissional e estive menos 15 ligado à vida pública, dos quais oito como presidente, quatro como vereador e um e meio como deputado europeu. Portanto, eu tenho uma vida que vai muito além da política. E não poderia estar nesta candidatura, que não fosse pelo distrito de Braga e por aquilo que eu acredito que é a vontade da nossa comunidade, que eu espero que seja refletida pelos militantes. Porque há aqui uma nuance, nós somos eleitos pelos nossos militantes, mas é suposto que a nossa ação seja no âmbito do distrito. Portanto, a nossa ação política vai muito além dos militantes. Os partidos não são corporações que servem para servir os interesses dos seus cooperantes ou dos seus membros.
Mas por que sentiu a necessidade de se recandidatar?
Senti a necessidade de me recandidatar porque senti que há um percurso que está a ser feito, que não terminou com as eleições autárquicas. Porque é bom não ignorarmos que, do ponto de vista autárquico, os processos não terminam na noite eleitoral. Há um conjunto de resultados autárquicos que merecem um trabalho posterior. E no pós-autárquicas, há sempre duas fases. Há uma fase, que é uma fase de olhar para os resultados e de criar condições políticas para que as comunidades possam absorver esses resultados. Depois, há uma segunda fase, que é a fase de preparação da próxima eleição. Eu já não estarei nessa fase, porque se os militantes do PSD Braga me derem a oportunidade de ser presidente distrital, eu só serei durante dois anos, porque o limite de mandatos impede que continue. Portanto, não serei eu quem vai preparar o próximo ciclo autárquico. Eu quero é dar condições para que os eleitos, e é bom olhar para os resultados eleitorais do distrito de Braga e perceber que tivemos resultado absolutamente histórico. Em 14 conselhos, o PSD lidera nove, o PS lidera três e temos dois independentes. Nunca houve um desnível tão grande. E em cima disso, é bom não esquecer que temos as quatro maiores Câmaras Municipais: Barcelos, Braga, Guimarães e Famalicão. E Guimarães foi uma conquista histórica. Ou seja, há um trabalho que começou no pré-autárquicas, que tem que continuar nos dias seguintes para consolidar resultados, não só onde ganhamos, ajudando a criar condições para que esses vitoriosos possam ser bem sucedidos junto das suas comunidades, mas particularmente onde perdemos, que é preciso sarar um conjunto de feridas e criar condições para que o projeto político continue.
E sendo eurodeputado, com tantas solicitações, tem tempo, se for reconduzido líder da Distrital?
Eu tenho tempo. Aliás, as últimas autárquicas demonstram isso. Nós tivemos eleições autárquicas em outubro passado, eu já estava há cerca de um ano no Parlamento Europeu e tive uma presença nos processos autárquicos que é absolutamente indiscutível. Estive em todos os conselhos a apoiar todas as candidaturas em muitos momentos, não só do ponto de vista de presença física, mas também do ponto de vista do apoio institucional e pessoal que é preciso dar aos nossos candidatos.
Nesta corrida há também um outro fato interessante. O ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, de Vila Verde, não o apoia. Isso é um revés?
Não, não é um revés. O senhor ministro José Manuel Fernandes, com quem tenho uma relação histórica de muitos anos, entendeu, e eu acho perfeitamente razoável, não tomar nenhuma posição nesta eleição interna da Distrital de Braga. Acho perfeitamente aceitável e razoável.
O seu oponente nesta corrida está acusado de cerca de uma vintena de crimes no processo Tutti-Frutti, incluindo corrupção passiva. Acha que Carlos Eduardo Reis não se devia candidatar? Ou está a candidatar-se por quê?
Essa pergunta terá que ser feita a ele.
Já fizemos a pergunta.
E ele terá que responder essa questão. A única coisa que eu devo dizer sobre isso é o seguinte: eu, se estivesse no lugar dele, não seria candidato.
Mas em relação a si, não há nada de concreto. E já agora aproveitava também para lhe perguntar, Paulo Cunha, se houve algum desenvolvimento. Há pelo menos dois casos em que o seu nome surge envolvido, o caso do projeto das Pateiras do Ave, e há também um outro caso relacionado meramente com a sua mulher, que venceu o concurso para chefe de divisão da Juventude, Turismo e Modernização Administrativa, estou aqui a ler para não me enganar, na Câmara de Famalicão. Teme que estes dois casos o possam prejudicar? Não há nada de concreto ainda? Já agora, aproveito para perguntar em que pé que isto está.
Eu fui autarca durante 12 anos, oito dos quais como presidente de câmara, em que any tomações executivas está obviamente sempre sujeito à sindicância e a ida aos tribunais é bem-vinda. Sobre esses casos, eu devo dizer, aliás, que havia um outro da Microsoft.
Exatamente.
Foi arquivado há pouco tempo.
Foi arquivado?
Eu devo dizer que eu tenho, como há pouco lhe disse, 32 anos de vida ativa e nem 15 dos quais passei no exercício de funções públicas. Até este momento, eu nunca fui considerado arguido, nem nunca fui sequer ouvido em nenhum processo de averiguações ou outro que seja. Até este momento, isso nunca aconteceu.
Neste processo nem sequer foi ouvido ainda.
Não, nunca fui ouvido, nunca fui notificado para nenhuma diligência processual sobre esses processos, nem sobre qualquer outro processo de âmbito criminal.
O que o coloca numa posição diferente do seu oponente, Carlos Eduardo Reis.
Eu não quero colocar essa questão como uma questão essencial neste processo. Eu respondi há pouco à sua pergunta acerca da situação em que ele se encontra e, como disse, eu não farei comentários sobre isso. Limitei-me a dizer que é o que eu penso. Se eu estivesse nessa condição, eu não o seria. Aliás, o meu partido, na próxima quarta-feira, realizará um conselho nacional em que um dos temas será a discussão daquilo que chamamos um código de ética, que resulta de uma alteração estatutária. Eu acho que a ética na política é essencial. A questão da presunção de inocência, de que beneficia, obviamente, e bem, o Carlos Eduardo Reis, e faz todo sentido que beneficie dela, não tem reflexos políticos. A política não se comparece com estatutos processuais. Eu sou jurista. Uma coisa é a avaliação jurídica de uma pessoa e o juízo de condenação jurídica dessa mesma pessoa. Outra coisa é a avaliação política e a dimensão ética que um político tem que ter. E essa é a questão central.
E acha que essa dimensão ética está fragilizada em Carlos Eduardo Reis?
Eu não acho nada em relação a ele. Eu, se estivesse no lugar dele, sentir-me-ia fragilizado e não estaria aqui a falar convosco hoje, porque não seria candidato à distrital de Braga do PSD.
É importante para esta direção do PSD, para o PSD atual, que o senhor vença este sábado?
Acho que não. Seguramente que o primeiro-ministro e presidente do PSD, Luís Montenegro, não terá nem a atividade mais facilitada, nem mais complicada, em função do resultado das eleições distrital de Braga do próximo sábado.
E o líder parlamentar, Hugo Soares?
De igual forma. São pessoas de quem eu sou amigo, embora deva reconhecer que, em relação ao primeiro-ministro, a amizade construiu-se em cima de uma relação política, de uma admiração política do seu percurso ao longo dos anos, muito antes de ser presidente do partido. A relação que eu tenho com os dois não ficará minimamente afetada com o que acontecer no próximo sábado, nem a relação deles com o distrito, seguramente.
Noutra matéria, mas não se tem falado de outra coisa esta semana, como é que vê as críticas e intervenções públicas de Pedro Passos Coelho?
Eu confesso que tenho apreço pessoal. É uma pessoa com quem também convivi bastante, até em funções autárquicas, mas são posições que me surpreendem, porque não são coadonáveis com o seu posicionamento no passado. A história e o prolongamento histórico é muito importante e a memória é decisiva. Eu ouvi o doutor Pedro Passos Coelho referir-se a uma série de sucessos, nomeadamente em relação ao novo ministro da Administração Interna, mas não só, também em relação à vocação reformista do governo, e confesso que me parece intervenções de alguém que poderá estar deslocado do seu tempo.
Como assim?
Porque acho que não são razoáveis as críticas. Eu habituei-me a ouvir do doutor Pedro Passos Coelho críticas razoáveis, críticas sensatas, equilibradas, ponderadas, uma pessoa que sempre mediu a sua intervenção pública e que nos últimos meses tem tido uma intervenção pública que não é compaginável com aquilo que foi a sua intervenção pública no passado.
Como é que lê essa mudança?
Eu não sei, eu não extrai nenhuma conclusão disso. Eu estou a fazer uma avaliação só factual em função do que ele diz. Não estou a extrapolar daí acerca do que ele quererá fazer no futuro. É uma pessoa completamente livre politicamente, dentro do partido e fora do partido.
Mas o atual quadro aconselharia Pedro Passos Coelho mais recato? É isso que está a dizer?
Ele não ser mais recatado surpreende-me. Não tem a ver com o atual quadro, tem a ver com a dinâmica temporal. Se olharmos para os últimos mais de 10 anos, é bom não esquecer que ele saiu do governo há mais de 10 anos, e avaliarmos as intervenções públicas que ele fez, facilmente perceberemos, nessa tábua do tempo, que nos últimos meses a frequência da intervenção pública é muito maior do que era no passado. E com franqueza, eu não vejo razões para o aumento dessa frequência. Se olharmos para a intervenção de Pedro Passos Coelho quando António Costa era primeiro-ministro, não é compaginável com a atualidade. E acho sinceramente que o país hoje está muito melhor do que estava no passado. Não é o partido, é o país.
Obrigado, Paulo Cunha. Eurodeputado, líder e candidato à presidência da distrital de Braga. As eleições são este sábado.