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Dia de greve nos hospitais de Faro, Portimão e Lagos, que integram a Unidade Local de Saúde do Algarve. Médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde decidiram parar para reivindicar, por exemplo, mais recursos humanos, numa altura em que milhares de cidadãos rumam à ponta sul do país para as férias. Hugo Pereira, presidente da Câmara de Lagos, socialista, é o convidado deste Explicador, conduzido pela Judite França e pela Vanessa Cruz.

Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigada por ter aceitado o nosso convite. A greve de médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde está a ter muito impacto para os utentes aí em Lagos?

Acaba sempre por ter. São serviços que mesmo sem períodos de greve, já são serviços que trabalham com, não digo serviços mínimos, mas próximo disso, e a instabilidade da greve, por muito poucos sejam os recursos humanos que a façam, torna aquilo que trabalha pelo mínimo em quase impossível. E daí que os recursos humanos, obviamente, que são o grande calcanhar daquilo da saúde na região, ou são um dos principais, e obviamente que esta greve está a ter um impacto ainda pior e criar pior situação na saúde do Algarve daquilo que infelizmente acaba por acontecer todo o ano e que no verão ainda se agrava mais.

Sim, a população aumenta muito. Não sei se tem conhecimento das especialidades mais afetadas por esta greve.

No caso de Lagos, como é uma urgência básica, acaba por não ter essa implicação. Existe alguma consulta, existe o internamento, existem alguns, mas poucos meios complementares e acaba por ser uma urgência básica sem especialidades. Vamos lá, para além da questão do primeiro atendimento, mas depois tudo o que seja com uma especialidade de ortopedia, ou de cardiologia, ou de oftalmologia, não ficam na unidade, isso acaba por ser transferidos para Portimão ou Faro e acaba por não se querermos analisar em termos de especialidade, mas sim do impacto no atraso e no menor acesso a utentes, em especial no serviço de urgência e consulta.

A urgência, essa urgência básica do hospital está a conseguir dar resposta?

Infelizmente, tem dado resposta, está a dar ainda menos resposta do que costuma dar.

Portanto, há espera.

Sim, espera existe.

Tem ideia se é possível quantificar o aumento da população neste mês de agosto em Lagos?

É um pouco como no resto da região, mas em especial nestes concelhos onde há uma maior pressão, por regra multiplica por cinco, seis vezes. E é mais ou menos o que se tem sentido. Passamos de 35, 40 mil para 200, 250 mil pessoas a circular. Nem sequer são a circular, são a estar. E depois, obviamente, acaba sempre por haver muita mobilidade, porque existe muita mobilidade.

Mas é uma estimativa por baixo essa?

Eu tento não dar por alto, tento dar como aquela que é a população. Normalmente, ela multiplica por quatro, cinco. Poderá haver anos por seis, mas aqui a média dos quatro, cinco, é normalmente isso que acontece, pelo menos nestes sete, oito concelhos que o turismo é a principal escolha na região.

Sim, cinco vezes mais população, de facto, é um aumento exponencial. Percebe as reivindicações dos médicos, dos enfermeiros e dos profissionais de saúde para esta greve e encontra nela, sim ou não, motivações políticas. Nós também entrevistamos a presidente da Unidade Local de Saúde do Algarve e fala em motivações políticas para esta greve.

Não, eu acho que não devemos ir por aí, porque as greves acontecem, quer quando está o governo socialista no governo, quer quando existe um governo social-democrata. E acredito que não são enfermeiros socialistas que fazem greve quando está o governo social-democrata e vice-versa, quando está o governo socialista. Acredito é que é um esgotar por parte dos profissionais de saúde, de ano para ano, não se ver acontecer efetivamente recursos humanos reforçados nas áreas médicas e não médicas. Não haja de uma vez por todas também aquilo que o Algarve anseia, que é ter uma unidade nova, um hospital central que dê resposta aos muitos milhares de algarvios que estão todo o ano cá, mas muitos daqueles que depois acabam por ser os algarvios de verão e algarvios que estão a segunda habitação. E o Algarve tem sido dado ao abandono e há 20 anos que nos prometem uma unidade nova, que nos prometem reforço todo o ano, nem sequer digo no verão, e obviamente que quem tem sido carregado é quem está na primeira linha, e no verão ainda mais carregado é, e obviamente que há um esgotar por parte de médicos e enfermeiros e obviamente todos os profissionais. Eu acho que infelizmente já nem com greves vai, mas de uma vez por todas, o governo, este que está lá agora, e os outros também já o tinham a obrigação de o fazer, é de uma vez por todas as medidas tornarem-se efetivas. Obviamente, também sei que não é fácil encontrar profissionais de saúde de um dia para o outro. Sei que pontualmente, no caso dos enfermeiros, sei que houve agora um reforço, houve uma abertura de um concurso para enfermeiros e começaram a entrar alguns enfermeiros, mas outras coisas têm que ser feitas. Tenho a certeza que existem zonas do país onde há excesso de médicos ou há capacidade para libertar alguns médicos e espalhá-los um pouco para outras regiões mais deficitárias, porque é completamente vergonhoso aquilo que acontece todas as semanas nas notícias, quase sair uma lista. Habitávamo-nos a ter listas de farmácias de serviço, agora quase temos é listas de hospitais de serviço E temos quase que ter sorte na semana em que vamos adoecer, porque arriscamos a não ter, no perímetro à nossa volta, nenhuma unidade aberta para aquela que é a nossa especialidade. E obviamente que os profissionais estão fartos, a população está farta e o assunto da saúde tem que deixar de ser um tema que tem sido, que é a falta de médicos, hospitais fechados, especialidades fechadas. E obviamente, quem sofre é quem está lá na primeira linha, que chega a um ponto que também já não aguenta serem tão poucos para fazer. Portanto, daí que não alinhe numa questão política, alinhe nos profissionais de saúde estarem fartos, não verem as coisas acontecerem.

Os sindicatos queixam-se que o Algarve deveria ter tido acesso a vagas carenciadas, com incentivos para fixar médicos, como acontece no interior do país. E há cerca de uma semana, ouvíamos aqui o presidente da ULS do Algarve admitir que sim, que era necessário, mas que nunca aconteceu. Os autarcas da região, no seu caso em específico, têm tentado sensibilizar o governo para esse efeito?

Sim, isso tem sido uma discussão. É completamente lamentável que o Algarve não entre nessa linha de apoio, atendendo que historicamente a falta de recursos humanos é grande e poderia passar por aí, ainda para mais sabendo que a questão da habitação no Algarve é uma questão que faz escolher ou que faz não escolher, porque na verdade a falta de habitação a preços aceitáveis, até mesmo para profissionais de saúde, no caso de médicos, que até podemos pensar que poderão ter outra capacidade, mas o Algarve está efetivamente numa situação complicada e que está a ser tratada, com algum atraso, que é injetar novas habitações, em especial por parte dos municípios, onde as casas de função também poderão estar em cima da mesa. E daí que neste intervalo tinha que se tentar tudo e isso claramente foi um erro, não ter proposto essa medida para incluir o Algarve nessa medida. Obviamente que era mais uma forma de tentar resolver um problema que há anos que acontece e de ano para ano agudiza e não se tem visto solução. E acho que tem que se usar tudo o que está ao alcance do governo. E infelizmente isso não aconteceu.

Vamos falar ainda de outro problema, Hugo Pereira. O tema da segurança ganha relevo nesta altura em que milhares de turistas rumam ao Algarve. Qual é o retrato que nos consegue fazer em Lagos deste verão?

Sim, quanto à questão de segurança, eu acho que o Algarve, sem margem para dúvidas, é uma região que sempre foi e continua a ser uma região muito segura e obviamente que alinhar numa discussão de que o Algarve não é seguro, não alinho. Obviamente que entram todos os dias, aqui e ali, situações de insegurança, de abusos, de excessos, não de segurança, mas obviamente de cenários e de alguma violência pontual que acontece e que, ainda para mais com as redes sociais, tem uma dimensão grande. Mas ainda assim, o Algarve é uma região muito segura. Agora, não podemos deixar que isso deixe de acontecer. E claramente, também aqui, tanto na PSP como na GNR, o reforço efetivo de meios humanos tem que acontecer, porque existem em muitos concelhos do Algarve, número de profissionais da autoridade, tanto na GNR como na PSP, como dizia, muito abaixo ou abaixo daquilo que era o necessário. E daí que tem havido um esforço com os poucos para se conseguir ainda assim garantir a segurança que a região tem. Depois, no verão, a partir de meados de junho, este Algarve mais turístico acaba por ser reforçado ou por meios da GNR ou da PSP, consoante os concelhos onde existe PSP ou GNR, que acabam por vir de outros pontos do país para fazer reforço de segurança, atendendo ao multiplicar de pessoas que acabam por estar na região. Mas, ainda assim, o que eu acho que era importante, independentemente desta medida ser importante para se garantir mais homens e mulheres para ajustar ao período de verão, à população de verão, ainda assim, tem que continuar a existir um reforço todo o ano, porque, na verdade, aquilo que temos sentido, e estamos perto, no caso de Lagos, tanto na PSP como na GNR, acaba por haver sempre ali um esforço às vezes desumano e claramente não conseguem estar em todo o lado, atendendo aos poucos homens, às poucas mulheres e às vezes mesmo também à idade com que os mesmos acabam por já ter, que acabam por ou não terem que fazer noite ou não poderem ter que fazer outros serviços. Sabendo também que nem sempre é fácil e isso tem acontecido, concursos com recrutamentos abaixo da quantidade de profissionais que eram solicitados, mas ainda assim, também aí têm que ser criadas medidas excepcionais. Depois, o que também tem acontecido por parte dos municípios é tentarem ajudar com vigilância virtual e digital através dos CCTVs e alguns pontos na região já estão a ser servidos com videovigilância. No caso de Lagos, estamos já há um ano quase a aguardar que a administração interna nos valide essa proposta de videovigilância, o que é uma coisa também completamente inadmissível. Ainda ontem, na reunião de câmara, foi feita uma moção ao Ministério da Administração Interna, com o desagrado, porque não entendemos por que levam um ano a validar uma videovigilância que é de todo o interesse e quase que nos foi solicitada pela PSP e pela GNR, e não entendemos por que levar tanto tempo, não precisasse haver muito administrativo, porque todo o trabalho de avaliação dos sítios a colocar, da tecnologia a colocar, já foi previamente feita antes. Mas, é uma coisa que não se entende e era claramente um auxílio, não para substituir homens e mulheres, porque não aceitaremos isso. A vigilância é para auxiliar e dar ali o maior sentimento de segurança e ajudar na investigação, não para tirar homens da rua e mulheres da rua, mas também aí aguardamos. Mas ainda assim, aquilo que digo é que a região é uma região segura, muito segura. Pontualmente acontece aqui e ali crimes Pequenos crimes, obviamente com muito ruído alguns deles, e situações que não ficamos contentes com eles lá ao pé. Mas ainda assim, digo e reafirmo que a região do Algarve é uma região muito segura. Agora, temos que manter este princípio e temos que continuar a investir para que esta fórmula nunca deixe de acontecer. O Algarve não passe disto.

Em Albufeira foi proibida a venda de álcool para consumo na rua entre as 23:00 e as 08:00. Poderia ser uma medida transversal a várias cidades durante o verão?

Não, acho que não é necessário. Acho que é uma medida radical perante, infelizmente, aquilo que tem vindo a acontecer nos últimos anos em Albufeira.

Albufeira tem sido, de alguma forma, mais castigada com episódios de violência.

Sim, tem sido. É bom que se entenda que mais de 50% do turismo na região está em Albufeira. Isso não é dividir por 16. O turismo não se divide por 16. Mais de 50% está em Albufeira. Obviamente, que isto por si não justifica existir aquilo, mas a dimensão do problema torna-se maior quando eles têm uma população que ainda multiplica por muito mais. Mas ainda assim, Albufeira, eventualmente por decisões de gestão ou de procura, a noite passou a ser quase uma das razões da escolha de Albufeira e os excessos da noite acabam por resultar nisso. Obviamente que Lagos também tem a sua noite, mas é uma noite muito mais tranquila.

Com outra idade também, não é?

Sim, para outra idade, mais diversificada. É um turismo também mais de famílias. Não quer dizer que não haja também muitos jovens, porque há, e é uma noite também muito interessante, que durante a noite existe obviamente também, com os excessos do álcool, aqui e ali, um ou outro problema, espalhados pelo dia, infelizmente. Queremos meter esta medida em cima da mesa, porque não aceitaremos que isso aconteça e que ganhe a dimensão, não estamos nem perto nem longe disso. Daí que acho que não é uma medida transversal. Agora, que em Albufeira é importante que se faça aquilo que está agora a se fazer, sim, porque obviamente que Albufeira não pode continuar como está, apesar de Albufeira ser Albufeira, não ser Lagos, mas obviamente que tudo o que acontece de bem e de mal em Albufeira vai ter repercussão no resto do Algarve, como o que acontecer de bem e de mal no Algarve terá repercussões também no resto do Algarve. Isto é uma região que é muito olhada como quase um sítio só. Tudo isto é Algarve e tudo o que acontece em qualquer cidade, concelho, em qualquer ponta do Algarve, tem sempre um efeito positivo e negativo. Daí que obviamente queremos e apoiaremos todas as medidas que Albufeira faça no sentido de tentar normalizar os excessos que têm acontecido em Albufeira.

Tentar normalizar ou tentar reverter?

Sim, reverter.

O que mudou para que as circunstâncias de insegurança em Albufeira ficassem agora tão evidentes?

Eu não tenho a cidade de Albufeira estudada.

Certo. Mas conhece bem o Algarve.

Sim, sem dúvida. É uma noite muito propícia. A oferta de Albufeira sempre teve essa tradição. Se calhar, uma política de mais baixos preços para tentar arrastar, para tentar procurar, se calhar uma aposta mais de diversão noturna, em vez de outras ofertas que fossem espalhadas para todo o dia e uma procura mais do destino para todo o dia e não da noite. Depois, o mercado acaba por fazer a escolha. Começando a haver uma procura por um mercado mais jovem, que vai começando a ocupar os hotéis, vai começando a ocupar o destino com este tipo de utilização, e isso depois acaba por ser o efeito de procura-oferta. Se calhar as famílias, ao encontrarem um destino em que há muito abuso da noite, que se calhar vão jantar à noite em família e encontram um grupo de homens e de mulheres meio despidas, meio vestidas, alcoolizados, acaba por afastar os casais e as famílias e deixar mais espaço para jovens, para os abusos de festas de solteiros, de festas, de grupos de amigos para vir de férias. Acaba por afastar um público e atrair outros e depois torna-se mais complicado, e daí que neste momento tenham que ser tomadas medidas radicais para retrair e deixar de ser tão interessante quem procurar Albufeira para os abusos que antes queria ter, porque vai passar a deixar de conseguir ter, e obviamente afasta quem procura isso e vai libertar espaço para aquilo que antes tinha mais peso do que hoje, que era o turismo do dia inteiro e não da noite.

E como fez questão aqui de sublinhar, no geral, o Algarve continua a ser uma região segura. Uma entrevista a Hugo Pereira, presidente da Câmara de Lagos, a quem agradecemos, recandidato pelo PS nas eleições do próximo dia 12 de outubro. Uma entrevista a propósito desta questão da segurança, mas até, e sobretudo, tendo em conta essa greve nos hospitais de Lagos, Faro e Portimão, uma greve de médicos, enfermeiros e também outros profissionais de saúde, uma greve de 24 horas que começou precisamente hoje, dia 7 de agosto. Muito obrigada e até à próxima.

Obrigado.