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Esta segunda-feira tivemos notícia sobre o reiterado interesse de grandes grupos de aviação na TAP, Air France e KLM, por um lado, por outro a Lufthansa. Junta-se a mim neste explicador, Ricardo Conceição, a Judite França, e temos conosco os deputados do PSD, Gonçalo Lage e Carlos Barbosa, do Chega. Estamos ainda a aguardar que um deputado do PS se junte a este explicador. Muito bem-vindos a este explicador.

Gonçalo Lage, obrigada por ter aceitado o nosso convite. Na ausência da maioria do capital, a condição da Air France KLM é a gestão comercial da TAP. É uma boa estratégia para a companhia portuguesa?

Em primeira lugar, muito boa tarde. Obrigado pelo convite. Eu creio que sim. Repare, há dois pontos aqui a salientar neste processo todo. O primeiro processo é que ele decorreu com uma enorme lisura e uma enorme transparência do lado do governo. As regras são claras, sempre foram claras, têm vindo a ser sucessivamente discutidas na Assembleia da República e chegamos a um produto final, que foi um caderno de encargos, que creio eu que já foi inclusivamente tornado público na semana passada, e que define as regras de uma forma absolutamente transparente. Portanto, sendo assim, o que há aqui a salientar, e que nós vemos com muito bons olhos, é que primeiro, há um conjunto de interessados de uma dimensão bastante significativa. Há um conjunto de interessados num processo que é altamente transparente e claro, e demonstra obviamente que há um futuro que pode ser um futuro promissor para a TAP e para os seus trabalhadores. E claro que, diretamente à pergunta que me faz, não era possível que nenhuma destas empresas com esta dimensão pudesse vir a fazer este tipo de aquisição sem, obviamente, ter um conjunto de instrumentos de gestão e de capacidade de atuação, precisamente no que vai ser o futuro da companhia.

Deixe-me chamar também aqui à conversa o Carlos Barbosa, deputado do Chega. Este tipo de interessados tranquiliza o Chega, que manifestamente nunca esteve muito à vontade com esta ideia de privatização da TAP?

Desde já, muito boa tarde, muito obrigado pelo convite. Cumprimentá-los a vocês, o Ricardo, a Judite e ao meu colega Gonçalo. E desde já dizer que nós sempre estivemos à vontade com o critério da privatização da TAP.

Nunca foram grandes defensores, não é?

Nós desde a CPI, nós referimos, e era o próprio deputado Filipe Melo que na altura defendia bem, e o doutor André Ventura, a privatização da TAP, mas não no critério totalitário da sua privatização. E nós continuamos a defender isso e continuamos a defender que o próprio Estado deve manter uma posição maioritária. E são esses um dos pontos que nós referimos. Ou seja, nós não queríamos, nem queremos uma privatização selvagem da própria TAP, por isso não concordamos com a circunstância de estarmos aqui a preparar uma segunda fase de privatização. Achamos que deverá ser feito, e isso já foi até discutido na semana passada quando o projeto do PCP entrou, quer seja pelo deputado Filipe Melo e pela deputada Marta Silva, onde evidenciamos estas questões.

Deixe-me só perguntar-lhe, olhando para aquilo que são as promessas da Air France, se se mantiver o hub em Lisboa e a marca TAP, isto é suficiente ou teme-se que a médio prazo o centro de operações, por exemplo, seja transferido para Paris ou Amesterdão?

Há aqui várias questões que nós temos que analisar em comparação com os restantes grupos que se predisponhem também na aquisição. Neste critério, nós temos também a finalizar a própria Air France KLM está a finalizar o processo de privatização, que vai finalizar agora em 2026, me parece no primeiro semestre de 2026, a aquisição da SAS, mas aí numa percentagem maioritária. E manteve na mesma a marca SAS e manteve na mesma a bandeira da própria marca. E a própria KLM também em 2004, assim foi feito. Ou seja, há aqui pressupostos que se põem dentro daquilo que o próprio partido Chega defende, que é mantermos a nossa estrutura como ela existe, o próprio hub em Portugal. E nós temos que ver que isso também interessa à própria KLM Air France, porque as rotas que nós mantemos, eles têm neste momento quatro rotas para o Brasil, que fazem pela Gol, enquanto que a TAP tem 14 rotas. Interessa-lhe essa expansão, como é óbvio, essa expansão é importantíssima também para a própria KLM Air France. Depois nós temos outra circunstância significativa que é também o continente africano. Nós sabemos que neste momento o âmbito francês tem vindo a decrescer e os números dizem isso, tem vindo a decrescer no continente africano, enquanto que a TAP tem um crescimento e tem mantido o seu bom funcionamento no âmbito lusófono do continente africano. E depois temos aqui outras circunstâncias, que também são importantíssimas na manutenção do hub, que é a ligação também à América do Norte e tudo isso que pode trazer, e as próprias joint ventures que podem ser feitas, que podem trazer benefícios para a própria TAP.

Deixe-me ouvir também aqui o Gonçalo Lage, deputado do PSD. Isto que está a ouvir por parte do deputado Carlos Barbosa, do Chega, pode ser tranquilizador para o PSD na perspetiva de pôr o negócio finalmente em marcha, ou não?

Sim, eu tenho dito várias vezes que nós temos que encontrar uma forma de estarmos todos alinhados no interesse nacional e no interesse de desenvolvimento da TAP e dos seus trabalhadores. O Chega já teve várias posições sobre esta matéria. O Chega quis estar em dois planos ao mesmo tempo. Era uma posição confusa, porque quando a empresa era privada, opôs-se à nacionalização, e ela já era privada com mais de 50% e o Chega não queria. E depois está a se opor também à gestão pública, mas quando o PS governa, opunha-se, e agora, quando é a AD a governar, também se transformou numa lógica quase de PS pré-2024. O que nós estamos aqui a dizer é que nós somos coerentes relativamente a esta matéria e sempre o fomos. O que é mais importante para nós é que a própria empresa possa ter condições para se desenvolver, os seus trabalhadores possam ter condições de integrar um grande grupo económico e investificar numa empresa como está a se ficar hoje, que é uma empresa que vai ficar altamente limitada no seu desenvolvimento perante as decisões que foram tomadas anteriormente pelo Partido Socialista. Deixe-me só dar até um exemplo, que é um exemplo caricato. A própria administração da empresa esteve a braços ainda recentemente com um conjunto de ilegalidades de contratos, de aquisição de combustível e de aquisição de refeições e de tudo que são despesas operacionais e absolutamente determinantes no funcionamento da empresa, porque o Tribunal de Contas diz que não cumpriu com um conjunto vasto de obrigações de contratação pública que manifestamente é impossível aplicar numa empresa desta dimensão, numa empresa global, e que demonstra claramente que a empresa como está não vai ter condições para poder desenvolver-se.

Deixe-me chamar também à conversa o deputado do Partido Socialista, Hugo Oliveira, que entretanto se juntou a este explicador. Muito bem-vindo, Hugo Oliveira, explicador da Rádio Observador. Na perspectiva do Partido Socialista, o interesse destes grandes grupos de aviação e a forma como o negócio está a ser desenhado pelo governo garantem que os interesses do país e da TAP, na opinião do Partido Socialista, ficam salvaguardados?

Muito boa tarde. Cumprimentar os meus colegas de painel e cumprimentar também todos os ouvintes da Rádio Observador. Para o Partido Socialista, como sempre referimos, é muito importante encontrar um parceiro estratégico. E encontrar um parceiro estratégico não é encontrar apenas alguém que compre uma parte da TAP. É muito importante que esse parceiro estratégico que venhamos a encontrar consiga, evidentemente, trazer um valor acrescentado à companhia. E trazendo esse valor à companhia do ponto de vista económico, do ponto de vista tecnológico, do ponto de vista do aumento das rotas, do ponto de vista do aumento de aviões, mas mantendo, evidentemente, o hub em Lisboa, mantendo a nossa coesão territorial, nomeadamente para as ilhas, para a Madeira e para os Açores, e mantendo também a nossa ligação à nossa diáspora. E é importante que o parceiro que viermos a encontrar olhe para a TAP também como um ativo estratégico e uma marca a manter.

Deixe-me só continuar este debate que é para não perdermos, nós temos pouco tempo. Gonçalo Lage, ter o Estado português como acionista da holding da Air France era uma boa opção?

Claro que sim, não vejo que haja nenhum problema nessa solução, porque aí viríamos a pertencer a um grupo com uma dimensão bem maior e se houver aí trocas de participações nessa matéria, não vejo qualquer impedimento, desde que as questões estejam salvaguardadas. Deixe-me só dar aqui uma nota, porque o decreto-lei é bem claro e nós estamos a colocar um conjunto de condições que é importante, isso sim, também analisarmos. Estamos a falar que as ofertas têm que ser com empresas com mais de € 5 mil milhões de faturação. Estamos a falar de situações que privilegiam o conhecimento e experiência técnica em Portugal, em engenharia e manutenção, as garantias de sustentabilidade financeira e a própria garantia de se manter a sede da empresa e a bandeira da empresa em Portugal. E isto é extremamente importante e eu creio que está salvaguardado. E aqui acho que de um vasto espectro político da esquerda à direita, não há nenhum partido que não concorde com estas premissas.

Carlos Barbosa, do Chega, acha que pode estar aqui criado um chão comum, uma plataforma de entendimento para que tudo possa avançar agora rapidamente ou não?

Ricardo, é engraçado, eu não sei se ouviu tão atentamente como eu estava a ouvir os meus colegas, mas é engraçado que o próprio deputado Costa já parecia um deputado do Chega a falar, porque tudo aquilo que ele refere é tudo aquilo que o Chega tem vindo a defender ao longo dos últimos tempos. Todas essas manutenções, quer seja da bandeira, quer seja do hub, quer seja dos trabalhadores, das próprias rotas estratégicas.

É por isso também que te estou a fazer a pergunta, que estamos aqui a ouvir a conversa dos três deputados.

A mudança da forma de estar dos partidos ao longo do tempo, como também quando referimos também este parceiro estratégico, sim, não dizemos que não é um parceiro estratégico, na altura em que foi feita a privatização total pela Azul, com o David Neeleman e com as suas mirabolantes ofertas, o próprio PSD também não pensou da mesma forma como estamos a pensar agora. Mas ainda bem que o Chega chegou para que realmente haja este tipo de pensamento.

Vamos ouvir Hugo Oliveira do PS.

É verdade que hoje podemos discutir, é verdade que hoje o PSD pode apresentar esta vontade e é verdade que até o Chega hoje pode falar única e exclusivamente porque hoje existe a TAP. Eu gostaria que tivessem valorizado tanto a TAP quando o Partido Socialista a salvou. Nessa altura, nós não víamos essa defesa da TAP, nem por parte do PSD, nem por parte do Chega. Portanto, é bom que tenham vindo a este debate. Nós sabemos bem que este debate apenas existe hoje porque a TAP existe. Mais do que falarmos no nome do parceiro, é essencial falarmos naquilo que o nosso parceiro que viermos a encontrar possa trazer. É importante mantermos a manutenção da TAP em Portugal e é muito importante que a TAP consiga manter os fornecedores, que são muitos e que faturam muito à companhia, que estão sediados no nosso país, porque isso mantém postos de trabalho, porque isso mantém a nossa economia a crescer. A TAP é estratégica para o nosso país e é estratégica para a nossa economia.

Deu uma deixa perfeita, porque a Lufthansa, que tem reafirmado o interesse na TAP, vai reduzir 4 mil postos de trabalho na Alemanha até 2030. O que é que isso pode dizer sobre o impacto no emprego da companhia portuguesa?

Pode dizer aquilo que eu lhe dizia ao início: não se chega a encontrar um parceiro que pretenda diluir a TAP na sua companhia.

Pelo PS, a Lufthansa pode ficar de fora.

Nós não colocamos, para já, nomes aos parceiros. É muito importante, primeiro, garantirmos princípios e que esses princípios nos levem àquele que será o parceiro correto. Isso é que nos parece correto falarmos neste momento. É importante mantermos a companhia, é importante mantermos a maioria do capital da companhia, é importante mantermos o hub, mas é muito importante encontrarmos um parceiro que não queira diluir a TAP na sua companhia, mas que olhe para a TAP também como um activo estratégico.

Muito obrigado a todos. Esgotámos o tempo para este Explicador. Foi curto, mas de certeza que vamos voltar aqui a encontrar-nos para discutir a situação da TAP. Obrigado ao Gonçalo Lage, deputado do PSD, Carlos Barbosa, deputado do Chega, e Hugo Oliveira, do Partido Socialista. Vamos regressar daqui a pouco, porque nesta tarde política hoje temos uma estreia. Vamos ter o regresso do Caça ao Voto.