Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Explicador da Rádio Observador, é nosso convidado António Nogueira Leite, economista, professor, já foi presidente da Bolsa de Valores e secretário de Estado do Tesouro e Finanças, ainda no governo de António Guterres. Seja bem-vindo, professor António Nogueira Leite, a este Explicador.
Boa tarde.
Segundo os dados do INE, a inflação subiu para 2,7% em março, isto é mais ou menos um aumento de 0,6 pontos percentuais quando comparado com igual período do ano passado. Para quem vai agora pra casa no carro, isso deve ser um sinal de alarme?
É um sinal de que estão a começar os efeitos nos preços da situação de conflito no Golfo Pérsico. De facto, o que nós tivemos foi um aumento da homóloga, como muito bem disse, 2,7. Em fevereiro, ela aumentou 2,1. Portanto, entre março deste ano e março do ano passado, os preços sobem em média 2,7%, quando em fevereiro deste ano, face a fevereiro do ano passado, era só 2,1, o que dá o tal aumento de 0,6 pontos percentuais. Em cadeia, isto é, entre este mês e o mês passado, os preços subiram 2%, o que é, de facto, bastante.
Uhum, é muito.
O que é bastante e que tem várias componentes. Uma é a subida dos preços energéticos no consumidor, que são 5,8%, que é muito elevado. Houve vários países europeus que conseguiram atenuar mais este valor e a generalidade teve um valor menor do que nós. E depois há aqui um aspecto que me preocupa um bocadinho, em particular, e que nas notícias que vi, não vi muito enfatizado, é que há um conceito econômico que eu vou tentar explicar muito rapidamente, para que toda a gente possa perceber, que é a de inflação subjacente. Às vezes nós gostamos de usar a expressão inglesa core, mas há uma expressão portuguesa que é subjacente. E o que é? É a inflação, excluindo os preços energéticos e os alimentos não transformados. E o que me está a preocupar, a inflação subjacente, em relação ao ano passado, só sobe 2% e em fevereiro 1,9. Portanto, a diferença entre um mês e outro é relativamente pequena. O que nós temos aqui? É que, segundo o INE, mais do que os bens energéticos, os alimentos não transformados subiram 6,4% e já tinham subido bastante no mês anterior. E isto preocupa-me por quê? Porque nós vamos ter alguns problemas no mercado de alimentos, nos mercados agrícolas a nível internacional, porque não nos podemos esquecer que há uma parte importante dos fertilizantes que vem do Golfo Pérsico e que também está afetada da mesma.
E que passa pelo estreito de Ormuz, não é?
Ormuz. Exatamente. E portanto, isto afeta muito a produção de fertilizantes. Nós, nos países desenvolvidos, não estamos tão dependentes desses fertilizantes, mas eles mesmo assim têm um preço considerável. São os chamados NPKs, portanto, tem azoto, tem potássio e que são os tradicionais químicos.
Que são muito usados na agricultura.
Exatamente, e sobretudo nos países menos desenvolvidos. Ora, isso significa que havendo menos produção agrícola, como as pessoas não vão pra Marte, vamos ter pressão inflacionista nos produtos alimentares não transformados de uma forma geral.
Que já se está a sentir.
O que nos deixa uma preocupação adicional. Já sabíamos que íamos ter um impacto geral sobre os preços, porque os combustíveis entram na cadeia de produção e logística de praticamente tudo que nós consumimos.
Tocam em tudo.
Exatamente. Mas temos este fator adicional de exacerbação do efeito e a mim preocupa-me o comportamento que nós estamos a assistir quando o efeito está a começar e que já vinha de antes desse mesmo efeito. Portanto, há aqui um problema nos bens alimentares não transformados, que junta a isto e que leva para que a perspectiva de inflação é algo que nós vamos ter de seguir os dados com muita atenção, nós, os bancos centrais, os outros países, mas para já não são boas notícias relativamente àquilo que é a expectativa para os próximos meses.
E quando falamos de inflação, também toca logo aquela sineta das taxas de juro. Vou aproveitar aqui a presença de um professor catedrático para pedir que nos explique aqui em menos de um minuto, António Nogueira Leite, por que a subida da taxa de juro é a vacina para controlar a inflação? Porque há muitas pessoas que ainda não percebem este mecanismo.
Ora bem, nós estamos numa situação particularmente difícil, porque estamos numa inflação do lado dos custos e, portanto, se tivéssemos tido uma política monetária muito expansiva, com juros muito baixos, muita emissão de moeda, como tivemos na altura do quantitative easing, aqui há uns sete, oito anos.
Quando o dinheiro é barato.
Subir os juros tem um impacto muito direto e muito eficaz na contenção da inflação. Aqui não. Também vai acontecer, mas eu já vou explicar duas coisas que é importante que as pessoas retenham dois mecanismos que são ligados, mas diferentes. Porque ao subir os juros, nós reduzimos a procura agregada, quer dizer, a procura de todos os agentes econômicos, famílias, empresas, o próprio Estado, e o que aqui se faz, nomeadamente famílias e empresas Faz com que havendo menos pressão, os preços possam crescer menos. Mas é preciso ver que a origem desta inflação não é monetária e, portanto, os mecanismos monetários não funcionam tão bem. Eu estou a ser relativamente simplista, mas para que se entenda, do que numa situação em que a inflação tem uma base monetária importante por trás, como a anterior ainda trazia alguma base monetária na sua causa. Aquilo que aconteceu ao seguir à guerra da Ucrânia, tivemos este efeito nos custos, mas ainda estávamos com os efeitos da política monetária muito expansionista dos anos anteriores. Agora é diferente, é só nos custos. Por isso é que os bancos centrais estão a observar. Estão a observar e ninguém aumentou já, nem na Europa, nem nos Estados Unidos, o próprio Fed. Mas há uma coisa que é certa: Trump estava a pressionar o Fed para baixar as taxas e a conversa que nós verificamos nos Estados Unidos é: ainda não aumentou as taxas.
É inverso, exato.
Mas vai baixar, certamente. O efeito nas nossas casas. Sobre os depositantes não vou falar, porque os depositantes em Portugal são grandes sofredores, portanto vou falar nas pessoas que têm crédito.
Exatamente, sobretudo o crédito à habitação.
Como sabe, nós temos as taxas de juro mais baixas da zona euro. Temos tido, portanto, os bancos são muito parcimoniosos na remuneração do dinheiro que sobra em Portugal.
Cada vez que a Euribor se constipa, as pessoas sofrem.
Exatamente. É como os mercados estão a antecipar risco, e já há risco, e portanto antecipam turbulência, para emprestar dinheiro exige-se um prêmio de risco, ou seja, as coisas podem não correr tão bem como se não houvesse esses problemas todos e portanto nós para emprestar exigimos um bocadinho mais. Isto entre agentes nos mercados. O que isso significa? Significa que a Euribor, que é o mercado secundário, portanto é o mercado de transação entre agentes econômicos, definindo a Euribor, e a Euribor é indexante para muitos das nossas dívidas, seja especificamente, e naquelas que mais importam, dívidas de crédito hipotecário, em que há uma parte fixa, mas a maior parte das pessoas tem ou totalmente ou uma parte ainda significativa de crédito a taxa variável. Com este risco todo no mercado, as taxas de juro sobem.
Ou seja, a prestação a pagar ao banco poderá subir nos próximos tempos.
Depende dos contratos de cada um, portanto agora cada um vai ter que ver o seu contrato, porque também ainda por cima tem indexantes diferentes, uns têm a Euribor a três meses, outros têm a Euribor a seis meses. Mas é preciso ver também como é que ela vai evoluindo e em que mês é que contam estas novas Euribors que começam a entrar na fórmula que define a taxa de juro.
Porque os bancos, ou neste caso a Euribor, vou simplificar assim, não ficam à espera que o Banco Central Europeu decida, porque geralmente até antecipam esses movimentos.
Não, é que esse mecanismo da Euribor é um mecanismo de mercado e os bancos também não o definem. Ou seja, no mercado, na cedência e compra de dinheiros, chamemos lhe assim, ela está se a fazer a níveis de juro mais elevados. E este é a nível de todos os países da zona euro, portanto, no mercado do euro, essas transações fazem-se com juros mais elevados. E quando nos contratos de crédito, os bancos têm indexação do juro desse contrato à Euribor, quando a nova Euribor entra na fórmula, eles aumentam automaticamente o juro, havendo ou não aumento da taxa de juro do Banco Central. Mas se o processo de inflação se instalar, o Banco Central provavelmente há uma altura onde vai subir a taxa de juro. Ao subir a taxa de juro, o que é que acontece? Isso também se vai refletir por mecanismos, não são mecanismos diretos nem de fórmula, mas são mecanismos de atuação dos mercados, significa que provavelmente a taxa Euribor vai também subir. E portanto, há aqui os mecanismos do risco que existe agora e que não existia tão grande, embora existisse, não era tão grande há um ou dois meses. E depois eventuais efeitos da política monetária, se o banco central decidir que para controlar um pouco mais a inflação, ele tem que subir as taxas diretoras, ou seja, as taxas que o banco central, esse, sim, determina.
Claro.
Onde é que a inflação é má? A inflação é má para os depositantes. As pessoas nas suas poupanças, geralmente as nossas taxas, por exemplo, num depósito, muitas vezes não estão indexadas à Euribor, em regra não estão. E são valores relativamente baixos. Portanto, neste momento, só não perde dinheiro, no dinheiro que tem no banco, alguém que tenha uma taxa de juro de 2,7%.
Abastecimento.
E neste momento eu não conheço ninguém que tenha depósitos a taxa de juro de 2,7%. E se a inflação subir mais, é natural, como aconteceu no passado, que as taxas de juro dos depósitos no vencimento de cada depósito, o novo depósito tenha uma taxa um bocadinho menor. Eu acho que o efeito não vai ser tão grande, mas em 2022, houve perdas de 5%, 6%, 7% em termos reais para muitos aforradores. Portanto, é preciso ter cuidado com esses movimentos.
Professor António Nogueira Leite, muito obrigado por me ter ajudado aqui. Não nos deixou mais tranquilos, mas ajudou-nos a perceber melhor estes mecanismos.
Espero que tenham entendido, tentei dar o máximo de informação possível.
Percebeu, sim, senhor. Muito obrigado por ter estado aqui mais uma vez no Explicador da Rádio. Obrigado.
Obrigado.