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Está no ar o Explicador da Rádio Observador. Hoje, na edição das manhãs, 360 de fim de semana, falamos sobre o que se espera para o turismo este verão, que está quase aí. Para isso, convidamos para estar conosco Bernardo Trindade, presidente da Associação da Hotelaria de Portugal. A moderação deste explicador é do Luís Soares.
Bem-vindo, Bernardo Trindade, a este explicador. Obrigado pela sua disponibilidade. Bernardo Trindade, esta semana a Associação da Hotelaria de Portugal apresentou um inquérito aos associados que mostra que este verão começa um pouquinho mais pessimista para a hotelaria, com perspectivas de taxas de ocupação mais baixas do que no ano passado. O contexto geopolítico é o fator que mais pesa nesta expectativa mais negativa dos hoteleiros.
Bom dia, Luís, e bom dia aos ouvintes da Rádio Observador. É um gosto aqui estar e muito obrigado pelo convite. Assim é. De fato, vivemos hoje num momento de grande imprevisibilidade. Temos um contexto internacional que não é favorável, com conflitos à escala global com significado. Qualquer um de nós se pode pôr na pele do turista. Face a toda esta imprevisibilidade, o que está a acontecer é que as reservas se estão a materializar mais tardiamente. Significa, por isso, que quando a Associação da Hotelaria de Portugal faz um inquérito e pergunta sobre a taxa de ocupação, quando comparado com o mesmo período do ano passado, as taxas de ocupação estão mais baixas. Isso, obviamente, é um fator de preocupação, porquanto os hotéis são uma unidade de negócio e que têm receitas e custos. Nós temos que preparar a operação, tendo em consideração ter níveis de ocupação muito elevados.
O que não quer dizer que não venham a existir novas reservas até ficar mais perto desse período de alta, digamos assim.
Essa é claramente a expectativa que temos. Desse ponto de vista, diria que é possível olhar para ambientes resorts como o Algarve e a Madeira, cujas expectativas são globalmente positivas. A Madeira, no fundo, a viver um período muito glorioso desde o Covid, com crescimentos muito significativos ano após ano. E o Algarve, este ano, também a ter, previsivelmente, um verão positivo. Nós temos sempre que olhar para o Algarve como havendo dois Algarves. Há o Algarve que começa de abril e termina em outubro, e depois há o Algarve que começa no novembro e termina na Páscoa. E são duas realidades completamente distintas. Mas estamos a falar do verão e a expectativa para o verão no Algarve é, apesar de tudo, positiva. E é positiva também por um efeito que Portugal já sentiu em momentos de conflito internacional, nomeadamente na Primavera Árabe, em que o que acontece é que os turistas vindos de mercados emissores, nomeadamente europeus, olham para o contexto internacional e preferem territórios que estejam longe do conflito.
É um destino que é visto sempre como mais seguro.
Exatamente, o tema da segurança é um tema absolutamente incontornável. Costumo dizer que o turismo é a indústria da paz e as pessoas, no fundo, deslocam-se da sua casa, estão disponíveis para sair e para conviver, experienciar noutros locais, se a questão da segurança estiver garantida.
Mas o que é que podemos tentar perceber que seja diferente, tendo em conta essa expectativa que o Bernardo explica que é um pouco mais baixa da hotelaria, sendo que Portugal, como dizíamos, sempre foi considerado um destino turístico seguro. O que é que parece ser diferente agora que possa de alguma forma afetar mais essa expectativa e ser mais negativa?
Aqui, claramente, o comportamento do consumidor turista, que olha para esta questão da conflitualidade internacional e não é tão determinado na marcação de férias. E isso tem implicações hoje ao nível da ocupação, e é isso que o inquérito da Associação da Hotelaria mostra. Por outro lado, no caso de Portugal, e em resultado desta sua distância das zonas de conflito, permite poder beneficiar de alguns fluxos, e nós estamos a sentir, os nossos associados estão a sentir isso nas suas reservas, de clientes, por exemplo, que iam para a Turquia, ou iam para a Tunísia, ou iam para Chipre, e que, em resultado desta incerteza, fazem marcações para uma região como o Algarve, que tem, de fato, todas as condições de acolhimento e tem este benefício adicional que é estar longe da conflitualidade. Mas há um aspeto aqui, Luís, que eu gostava muito de sublinhar: com certeza, nós conjunturalmente podemos beneficiar este ano desse efeito, mas isto não pode ser uma prática habitual, porque não é sustentável. Porque então num quadro de conflitualidade permanente, as pessoas permanecem em casa e, portanto, aí já nem é a questão da geografia. É claramente um tema comportamental, para além de que há um outro aspecto que é muito importante. Esta incerteza, e nomeadamente com o agravamento de preços em determinados items que são fundamentais na construção da nossa proposta de valor, leia-se a questão dos combustíveis nos aviões, a questão dos combustíveis na mobilidade, o preço dos bens da cadeia alimentar. Todo o conjunto de serviços, se eles se agravarem, se tivermos uma inflação em resultado desta incerteza internacional, isto é obviamente muito mau para o turismo. Portanto, desse ponto de vista, o que é importante é que essas coisas avancemIsso possam, apesar de tudo, resolver. Esse era claramente o nosso apelo.
E nessa perspectiva, Bernardo Trindade, há também a questão dos receios por uma possível escassez de jet fuel, que podem fazer com que os turistas tenham mais receio de marcar voos internacionais. Isso pode também ser um problema para o nosso turismo?
As companhias aéreas têm vindo a tentar tranquilizar um bocadinho todos os seus clientes, os seus passageiros, os turistas, dizendo que têm as reservas de jet fuel e o jet fuel comprado para toda esta estação de verão. Mas não nos iludamos. As companhias aéreas são um agente econômico racional e o que faz é o planeamento, a gestão das escalas, das frequências para cada um dos destinos, em função também um bocadinho da sua capacidade de resposta. E portanto é possível, é natural, que as próprias companhias aéreas, ao longo deste verão, aquelas que puderem substituir um avião por um avião maior, servindo mais gente, é positivo. Aquelas que, de alguma maneira, tenham que fazer o reescalonamento das próprias frequências, em função um bocadinho desta incerteza, isto pode ter impactos. Portanto, é mais um fator de incerteza que para uma indústria que define o seu padrão de atuação em função de uma perspectiva de segurança que é aceitável, isso não é bom.
Já que falamos em aviões, Bernardo Trindade, outra questão que tem sido muito falada é a zona de fronteiras dos aeroportos, nomeadamente a do Aeroporto de Lisboa. Já foi inaugurada uma nova zona em Lisboa. O governo espera ter mais agentes da PSP também no aeroporto no mês que vem, para tudo aquilo que está relacionado com as questões de fronteira. Já se sente algum efeito, Bernardo Trindade, dessas medidas tomadas muito recentemente pelo governo, nomeadamente nos tempos de espera e naquilo que possa ser o ponto de vista dos turistas e se estão mais ou menos satisfeitos com aquilo que se tem passado nas zonas de fronteira dos aeroportos?
Eu aí vou basear-me nas informações que tenho e que todos temos, quer do governo, quer do próprio concessionário, a ANA Aeroportos, que confirmam exatamente essa melhoria. Mas nós não devemos baixar a guarda por uma razão simples. Em primeiro lugar, porque este efeito do controle de entradas e saídas está a sentir-se em todos os aeroportos nacionais. Já não é só o tema de Lisboa, o Porto tem esse constrangimento, o Algarve tem esse constrangimento e, portanto, esta matéria tem que ser muito acompanhada.
Pode ser um fator que afaste os turistas de Portugal, que não venham outra vez pela experiência que possam ter num aeroporto?
Ponhamo-nos outra vez na pele do turista. Qual é a ideia que temos de uma experiência que, aquando da chegada ao destino, eu estou quatro ou cinco horas para entrar nele. Como é evidente, é um gol na própria baliza que eu marco num primeiro momento e, portanto, isso é objeto de preocupação. Mas eu gostava de sublinhar o seguinte: e acho que foi feito um esforço muito grande da parte do governo no sentido de reforçar os agentes. Foi recentemente inaugurado quer o número de boxes, quer o número de e-gates, portanto, toda a componente digital a funcionar. A entrada em funcionamento do sistema de controle de entradas e saídas foi uma medida que, do meu ponto de vista, devia ter sido melhor calculada, não só para Portugal, como para todos os Estados-membros, porque a União Europeia é muito célere a legislar e a querer controlar, mas é fundamental fazer, de facto, depois o controle da sua aplicação. E a verdade é que hoje temos problemas não só em Portugal. Temos problemas em Portugal, temos em Espanha, em França, na Alemanha, na Grécia e, portanto, desse ponto de vista, tinha que ter havido um controle maior e o apelo que também tenho feito é que se constitua um lobby fortíssimo na União Europeia para sensibilizar relativamente a essas questões. Em Portugal, o senhor ministro da Administração Interna, com quem tivemos a oportunidade de reunir no âmbito da Confederação do Turismo, reforçou esta ideia de dotar as infraestruturas aeroportuárias de mais meios humanos e técnicos, e isso é obviamente positivo. Agora, com a experiência que temos de alguns anos de problema, estamos às vezes um bocadinho como São Tomé. Portanto, queremos, sobretudo, que tudo corra bem. Estamos todos muito empenhados que corra bem, agora é preciso que corra bem.
Deixe-me perguntar-lhe aqui algumas questões mais macro, digamos assim, até porque o turismo, bem sabemos, tem sido, de certa forma, a galinha dos ovos de ouro da economia portuguesa. Estamos num período em que já não é possível crescer mais no turismo, Bernardo Trindade?
Eu acho que, sobretudo, o facto de termos conseguido construir uma relação de confiança com todos aqueles que, nacionais ou estrangeiros, optam por fazer uma experiência de lazer em Portugal, isso é muito positivo. Os números ao longo dos anos têm crescido democraticamente. Significa que do Norte ao Algarve, passando pelas regiões autónomas da Madeira e dos Açores, este efeito tem sido sentido e isso obviamente é positivo, porque traz, por um lado, clientes, traz empreendedores, criamos riqueza, criamos emprego, geramos impostos e isso é muito positivo. O turismo tem, para além disso, uma característica muito importante: é que direta e indiretamente impacta 49 atividades econômicas em Portugal. E isso é absolutamente notável, quer dizer, os números são inexoráveis e nós temos que tratar bem este tema. A começar por um aspeto, Luís, que me parece muito importante e para o qual tenho sido vocal: é que os territórios para serem visitados, primeiro têm que ser vividosE temos que construir uma relação de confiança entre quem cá vive e quem visita o nosso país. E nas áreas onde há maior densidade, este tema ainda tem que ser bastante aprofundado.
Tem que se encontrar um equilíbrio.
Temos que encontrar um equilíbrio. Esse é claramente um tema importante. Nas nossas grandes cidades de Lisboa e do Porto, temos advogado inclusivamente a hipótese de fazermos um estudo de carga para perceber esse equilíbrio. No caso de Lisboa, tendo o aeroporto constrangido, portanto, com incapacidade de crescer mais, eu estar a licenciar mais hotéis determina que vou ter para os mesmos clientes, os mesmos turistas, mais camas de alojamento e isto, no fim do dia, são menos taxa de ocupação, uma degradação da qualidade, porquanto eu tenho a minha criação de riqueza ameaçada. Portanto, é um equilíbrio que precisa de ser aprofundado.
No que diz respeito ao mercado interno, Bernardo Trindade, como é que está a oferta hoteleira, nomeadamente na região Centro, já alguns meses depois daquelas tempestades que assolaram a região, como é que está essa oferta?
Olhe, eu estive esta semana no V Portugal, que é uma iniciativa da região Centro, do presidente Rui Ventura, vai na sua 12ª edição, e pude perceber exatamente a determinação de todas aquelas pessoas, empreendedores, trabalhadores, no sentido de transformar as tempestades em oportunidades, usando uma expressão do senhor presidente da CCDR, centro Rui Costa. E isso é bom, é obviamente muito bom. E mesmo no quadro em que nós estamos a viver de imprevisibilidade global, o conceito de proximidade pode ajudar, pode aparecer. Significa que eu posso ter portugueses de outras regiões, que não a região Centro, a fazer férias na região Centro.
E há essa expectativa?
É um quadro de mobilidade mais fácil e que pode efetivamente ser também um tónico de entusiasmo para este ano.
Mas há essa expectativa de que possa haver, pelo menos, que não haja uma quebra, mas que continue a haver visitas à região Centro e à hotelaria da região Centro, apesar de ainda haver, de certa forma, alguns efeitos das tempestades que ainda são visíveis.
Luís, isso vai com certeza e felizmente acontecer. Até por uma razão simples, porque o esforço que a região Centro fez nos últimos anos de dotar cada um dos conselhos de motivos de visitação, de experienciação, a qualidade da oferta de alojamento que vai acontecendo e democraticamente um pouco para todos os bolsos. Você tem hotelaria de muito boa qualidade, mas tem depois outros espaços igualmente muito apetecíveis e, portanto, isso é positivo. A questão da restauração, a questão do espaço público, do tratamento do espaço público, que é uma coisa que tem vindo a acontecer. Atenção, e é verdade que há uma circunstância associada à tempestade, e ela teve implicações, nomeadamente na zona norte de Fátima e na região de Leiria, mas há, de facto, um esforço muito grande no sentido de reabilitar todo esse espaço. É esse claramente o sentir que eu apanhei dos testemunhos que eu vi esta semana em Viseu. E acho que nós devemos também ser solidários. E o apelo que faço exatamente para o país, para que façamos experiências também na região Centro, porque ela merece.
Nestes últimos 30 segundos, Bernardo Trindade, deixe-me só perguntar-lhe, porque também encabeça uma lista candidata à presidência da Confederação do Turismo, ainda que as eleições sejam apenas no ano que vem. Que mensagem é que pretende deixar com esta candidatura?
Ouça, eu acho que neste momento, eu percebo a questão, o interesse jornalístico da questão, mas eu neste momento estou muito focado naquilo que é o meu exercício enquanto presidente da Associação da Hotelaria de Portugal, preparar bem este verão e depois, na altura própria, falaremos sobre o assunto.
Ficará para um outro Explicador, eventualmente, um dia destes, Bernardo Trindade. Muito obrigado por ter estado conosco neste Explicador, Bernardo Trindade, que é presidente da Associação de Hotelaria de Portugal. Bom fim de semana, obrigado.
Muito obrigado.