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Explicador da Rádio Observador. Agora falamos de um jantar informal que reuniu António José Seguro e várias personalidades do centro-direita, muito conotadas com Pedro Passos Coelho. Os presentes neste jantar dizem ao jornal Expresso que se trata de um apoio individual, de um jantar em que estiveram individualmente e não há aqui um movimento passista de apoio a António José Seguro.
É exatamente sobre isso que vamos falar com Vasco Rato. É professor em Ciência Política e Relações Internacionais, antigo presidente da FLAD e um dos participantes deste jantar. Bem-vindo, Vasco Rato. Obrigada por ter aceitado o nosso convite. Este jantar, que reuniu várias personalidades que apoiam António José Seguro, foi organizado a pedido do candidato presidencial ou foi um movimento espontâneo?
Olá, boa tarde. Que eu saiba, não. Houve uma pessoa que me convidou para ir a um jantar com António José Seguro e eu disse que sim, que eu me iria jantar com outras pessoas. Não vi nada de extraordinário nisso, nem um movimento organizado, nem um complô passista, nem nada que se pareça. Aliás, as pessoas presentes representavam várias sensibilidades, pessoas próximas do Chega, pessoas próximas da IL. Sim, acho que a forma como essa notícia foi construída não corresponde inteiramente à verdade, mas não gostaria muito de falar sobre um jantar que foi, em princípio, privado.
Mas estava muita gente no jantar ou não?
Estava alguma.
Mas deixe-me perguntar: dá o seu apoio individual a António José Seguro?
Eu pessoalmente voto no António José Seguro, sim. Quer dizer, 50 anos depois do 25 de Abril, eu acho que as eleições presidenciais são eleições de consciência. Não tenho grande paciência para partidarite neste tipo de eleição. Estamos a escolher alguém para representar o país, para unir os portugueses e eu acho, a título individual, não falei com ninguém sobre a minha decisão pessoal, que o António José Seguro é a pessoa mais indicada para desempenhar a função.
E por quê? Perante o leque de candidatos que temos nesta altura.
Por toda a sua história. É uma pessoa sensata, é uma pessoa moderada, é uma pessoa com responsabilidade institucional, é uma pessoa que já mostrou que não é sectário, que não é dogmático. E creio que António José Seguro tem uma noção dos desafios que confrontam a sociedade portuguesa e o tipo de atuação política necessária para esvaziar um pouco deste radicalismo, desta intolerância que é o seu eco diário.
António José Seguro é o melhor candidato à Presidência da República do que Marcos Mendes, que é da sua área política?
Eu acho que sim. Mais uma vez, estas eleições não são partidárias, são eleições sobre personalidades e a personalidade que melhor pode desempenhar esse papel. Isto não é uma crítica, nem deve ser assumida como uma crítica a Marcos Mendes ou a Govêa Melo ou a André Ventura ou qualquer outra pessoa. É simplesmente uma preferência.
Imagino que fique satisfeito, mas como é que António José Seguro recebe este apoio, por exemplo, o apoio de Vasco Rato ou de pessoas que se situam na sua área política?
Não sei, não lhe perguntei, mas presumo que não discrimina entre portugueses de direita, de centro-direita, de esquerda. É um apoio de um cidadão, não vai rejeitar apoio de pessoas que votem nele, não terá razão para rejeitar que eu vote nele.
Esta minha pergunta tem sempre aquela ideia subjacente que António José Seguro é o candidato da esquerda que a direita gosta.
Não sei. Não é por isso que eu acho que ele é o candidato mais indicado, por ser de esquerda, por não ser de esquerda, isso é perfeitamente indiferente. Agora, é um candidato que pode, a meu ver, ganhar as eleições presidenciais. E não vejo António José Seguro refém de um partido ou de uma área ideológica. Também acho que depois de 10 anos do atual presidente, é preciso um estilo novo, diferente, mais institucional, menos governamentalizado. São essas as razões, no essencial.
Pedro Passos Coelho também deveria revelar o seu apoio. Sabemos, disse há cerca de uma semana, que se reserva o direito de não fazer essa revelação, dizendo implicitamente que não apoia Marcos Mendes. Acha que também devia apoiar António José Seguro?
Eu acho que ele vai fazer o que ele bem entende. Não lhe perguntei, não pedi licença para apoiar o António José Seguro e seguramente não vou dizer o que é que ele há de fazer. Sendo certo que isso também não adiantava. Li as posições assumidas, é opção dele, fará o que bem entender. Faz bem o tempo.
Vasco Pulido, com a quantidade de candidatos que temos, sobretudo no centro-direita, e pegando naquilo que estava a dizer há pouco, António José Seguro pode ser uma aposta segura para uma segunda volta? Entende que tem melhores condições que outro candidato para vencer?
Não estou de acordo com a premissa da pergunta. A mim é-me indiferente que António José Seguro seja do centro-esquerda ou centro-direita. O que não me é indiferente é o seu percurso, aquilo que ele tem vindo a dizer sobre a política há 30 anos.
Mas para si não será totalmente indiferente à forma como as pessoas se posicionam também ideologicamente, ou é?
Neste cargo, é.
Então admitiria apoiar Catarina Martins?
Eu disse pessoas moderadas e sensatas, porque definição exclui esse setor, como é evidente.
Há uma grande divisão na direita para estas eleições presidenciais. Por quê?
Porque as pessoas têm opções diferentes, não há um candidato que faça o pleno da direita. Aliás, há várias sensibilidades à direita. Também falamos da direita como se fosse uma só coisa. Não é, há muitas sensibilidades. Eu sim, estou no centro-direita, na direita moderada. Há algumas coisas com as quais estou de acordo com André Ventura, outras com as quais estou de acordo com Marques Mendes, outras com António José Seguro. Não vejo isto de forma dramática. Acho que as presidenciais, no passado, acho que tivemos grandes presidentes oriundos da área do Partido Socialista. O Jorge Sampaio, por exemplo, foi um excelente presidente da República. Portanto, só porque alguém é militante ou militou no Partido Socialista, a meu ver, isso não o exclui de belém. Não vejo razão.
E eu há pouco interrompi-o quando estávamos na reflexão, precisamente sobre a possibilidade de António José Seguro estar mais bem colocado para uma segunda volta. Queria ouvi-lo sobre isso.
Isto depende. Quem passará à segunda volta? Essa pergunta, no fundo, neste momento não tem resposta. Não sabemos quem são os candidatos à segunda volta.
Mas na sua análise, quem é que acha que está bem colocado para passar a essa segunda volta?
Não sei, mas acho que o António José Seguro é um bom candidato e seria um excelente presidente da República. É isso que me interessa nesta fase. Se houver uma segunda volta, depois logo se vê.
E uma segunda volta com um destes três candidatos seria obviamente diferente: André Ventura, Marques Mendes ou Gouveia e Melo. Em qual destas situações é que acha que António José Seguro estaria melhor colocado ou mais bem colocado?
Acho que estaria bem colocado em todos esses cenários. Acho que se passar à segunda volta, ganha as presidenciais, mas isso é a minha sensação, não tenho dados empíricos.
Vamos fazer um cenário. Estamos a trabalhar em cenários. Se for o almirante Gouveia e Melo e António José Seguro, acha que António José Seguro tem hipóteses de ganhar?
Acho.
Mas com esta divisão à direita, isso não pode ajudar Gouveia e Melo?
Não vejo como. A candidatura de Gouveia e Melo vai buscar apoio em muitos setores, à direita, à esquerda, independentes. Acha que entre os dois, o melhor candidato é António José Seguro. Há um problema de experiência política que para mim é irrelevante. Estou de acordo, aliás, com Marques Mendes, é irrelevante que haja essa experiência política. É preciso conhecer as instituições. É preciso ter uma sensibilidade para as normas não escritas constitucionais. Não é só um cidadão dizer: "Eu quero ser presidente da República." Imagine que, se calhar, metade do país gostaria de ser presidente da República, eu não faço ideia, mas é preciso qualquer coisa mais para além dos 35 anos.
Falava que não vê esta dispersão de votos à direita como prejudiciais para António José Seguro, nem que seja benéfico para o almirante Gouveia e Melo. Pergunto-lhe se esta dispersão à direita pode de alguma forma ser benéfica para André Ventura.
Eu acho que os portugueses são adultos e vão olhar para estas eleições de uma forma bastante racional. Vão olhar para os perfis, o que as pessoas pretendem fazer, qual é a conceção que têm do cargo e vão também avaliar as personalidades e farão a sua escolha sem estarem particularmente ligados a opções partidárias. Eu não votaria no Partido Socialista nas eleições legislativas, mas estas eleições, de facto, são diferentes. São as únicas que nós temos em que os partidos, aliás, não apresentam candidatos. Podem apoiá-los, mas não os apresentam.
E acha que atingimos já uma fase de maturidade democrática em que Pela primeira vez, se calhar numas presidenciais, ou se calhar estou aqui a exagerar a dizer primeira vez, as pessoas estarão livres para fazer outro tipo de avaliação sobre o candidato, que não seja o candidato do seu clube, do seu partido?
50 anos depois da democracia, acho que sim. Se não for agora, quando é? Daqui a mais 50? Espero bem que seja. Não sei. Eu acho que o eleitorado português é adulto e sofisticado nestas coisas. Portanto, creio que sim, mas não fiz nenhum inquérito, não sei.
Mas sente que nestas eleições as fronteiras ideológicas, sobretudo quando falamos destes três candidatos, estão de alguma forma esbatidas?
Acho que são irrelevantes, absolutamente irrelevantes. Vamos lá ver, o que verdadeiramente separa, em termos ideológicos, Marques Mendes, Gouveia e Melo e António José Seguro? Não vejo que haja assim tanto quanto isso. Aliás, eu agradeço muito a vossa chamada e tenho todo o gosto em falar convosco, mas não vejo onde é que está a surpresa de que pessoas que normalmente votam PSD, são do PSD, do centro-direita, numas eleições que são unipessoais, decidam votar em António José Seguro ou Gouveia e Melo.
António José Seguro foi secretário-geral do PS.
Sim, isso é absolutamente irrelevante. O presidente Cavaco Silva também foi presidente do PSD e teve 50% dos votos portugueses. Mário Soares também foi secretário-geral, o Jorge Sampaio também.
Vasco Rato, não resisto a fazer-lhe aqui uma pergunta, até porque esta comparação tem vindo a ser feita e queria também ouvir a sua opinião sobre isso. Há alguma comparação que possamos fazer com estas presidenciais que vamos ter de janeiro, com a segunda volta das presidenciais de 86 entre Mário Soares e Freitas do Amaral?
Com a segunda volta, não, mas eventualmente com a primeira, sim. Nessa primeira volta, a esquerda, sobretudo, estava representada, as várias sensibilidades da esquerda, o Zé, Maria de Lurdes Pintasilgo, Mário Soares, estavam representados, e optou-se dos três, claramente, pelo candidato mais moderado. Muita gente do centro-direita que também votou em Mário Soares. E na segunda eleição presidencial, eu recordo que Cavaco Silva apoiou, o PSD apoiou Mário Soares. Portanto, sinceramente, não vejo novidade nisto.
Professor Vasco Rato, muito obrigado pela sua disponibilidade e por ter estado aqui no Especador da Rádio Observador.
Eu é que agradeço. Muito obrigado.
Professor Vasco Rato, professor em Ciência Política e Relações Internacionais, antigo presidente da FLAD.