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Respondemos sempre a perguntas enviadas para foradobaralho@observador.pt. Hoje com o Luís Aguiar-Conraria. Olá, Luís.

Olá, bom dia.

Bom dia. Esta semana assinalam-se quatro anos de guerra na Ucrânia. Há uma pergunta sobre a evolução deste conflito e também outra sobre a política interna. Vamos começar por aqui. O nome do novo ministro ou ministra da Administração Interna vai ser anunciado esta semana. É uma questão que está a preocupar os ouvintes. A Ana Nascimento escreveu-nos, já não é a primeira vez que nos escreve, dizendo que tem pensado sobre o substituto, sobre se vem aí ou não uma possível remodelação também, e diz que em alturas como esta, a escolha do senhor ou senhora que se segue diz muito sobre a visão de liderança, neste caso, da liderança de Luís Montenegro. Deve ser alguém do partido, do PSD, por coerência interna, ou alguém com reconhecida capacidade técnica e experiência de gestão em contexto de crise, mesmo que não pertença à estrutura partidária?

Essa pergunta é chata, porque dá vontade de dizer que o ideal é ser a segunda alternativa. O ideal era combinar as duas coisas. Mas admitindo a dicotomia que a Ana Nascimento está a colocar, eu acho que neste momento é tarde para procurar o melhor ministro da Administração Interna possível. Isso são coisas que se fazem no início dos mandatos, portanto, podia tê-lo feito ou tentou fazê-lo de forma malsucedida em 2024. Obviamente, foi malsucedido com esta tentativa em 2025 e não parece que possa correr mais riscos. Não é necessariamente, vamos ver o que é que Luís Montenegro fará, e ele às vezes surpreende-nos. Mas eu diria que a opção mais segura neste momento seria escolher alguém que lhe garanta a habilidade política para pegar num ministério que é difícil e para o qual claramente a ministra anterior faltava capacidade política. É exatamente isso que lhe faltava. Ninguém propriamente contesta as suas qualidades técnicas, nem as suas competências, nem a sua inteligência, nada disso, mas politicamente era uma pessoa fraca. Eu digo isto sem qualquer menosprezo pela-

Por Maria Lucília Amaral.

Sem qualquer menosprezo, até porque eu aprecio bastante e até me custa estar a dizer isto, eu tenho bastante apreço por ela. Mas politicamente, obviamente, revelou-se uma carta fora do baralho.

Esta ouvinte até destaca aqui um exemplo. Ela não nomeia, mas diz que há aqui autarcas que se destacaram pela serenidade e pela competência na gestão de situações exigentes. Pode-nos vir logo à cabeça o autarca de Leiria, Gonçalo Lopes, também a autarca de Coimbra, Ana Brilhosa, que tem sido bastante elogiada. Têm tido estes autarcas um perfil que podia também servir de inspiração para Luís Montenegro para a escolha do próximo ministro?

Eu, por acaso, quando estava a ler a pergunta, pensei: "Isto parece que está aqui a querer descrever Ana Brilhosa", mas a Ana Brilhosa seria uma enorme surpresa aparecer num governo da AD quando foi ministra de um governo PS.

Curiosamente, a entrevista na Vixi Suave da Rádio Observador disse que não é preciso o estado de calamidade. O PS defende o estado de calamidade nesta altura e Ana Brilhosa aqui tem uma postura em relação a esta matéria em linha com a do governo e do PSD.

E já agora, eu concordo com ela. Não vejo essa necessidade. Basicamente, o estado de calamidade permite cortar cantos e seguir atalhos do ponto de vista administrativo. A partir do momento em que a situação de emergência acaba, as coisas têm de se conseguir fazer com a regularidade normal, com os concursos públicos como deve ser feito e por aí fora, bem feitos e com urgência, mas dentro do quadro normativo normal. Portanto, eu concordo com ela com isso. Agora, em relação à pergunta, eu não acho concebível que alguém que fez parte de um governo socialista fosse para um governo da AD. O caso do autarca de Leiria, eu não sei qual é a área política dele. Eu não faço ideia. Agora teria de procurar. Mas não é de forma alguma automática que alguém que é bom a nível autárquico consiga fazer o trabalho do ministro da Administração Interna. E o facto de ter estado bem nesta crise é apenas, digamos que uma pequenina parte das competências do Ministério da Administração Interna, que o Ministério da Administração Interna tem as polícias a seu cargo.

Sim.

Portanto, é um ministério de grande responsabilidade e não se pode escolher alguém com base na performance de alguém em duas semanas.

Gonçalo Lopes estava aqui a ver, além de político, é economista também.

Isso conta a favor dele?

Sim.

Estou a brincar.

Foi eleito vereador pela primeira vez em autárquicas em 2009 e teve vários pelouros: Educação, Desporto, Desenvolvimento Económico e Cultura, por exemplo. Chegou a vice-presidente também da Câmara e foi mandatário da candidatura de Pedro Nuno Santos à liderança do PS. Que grosso modo também foi presidente distrital de Leiria do PS.

Pois então, claramente não pode. Eu compreendo que no mundo ideal nem se olhava para partidos, mas nós não vivemos nesse mundo ideal e há fidelidades partidárias, portanto, teria o seu trabalho completamente minado. Mas deverá haver outros autarcas da AD ou do PSD que tenham feito um bom trabalho nestes dias. Para mim não é automático que alguém por ter estado bem sob pressão durante duas ou três semanas, que funcionasse bem como Ministro da Administração Interna. Portanto, acho que Montenegro tem uma decisão difícil. E espero que não vá, na verdade, pela mais fácil. A mais fácil seria, se calhar, pegar em alguém já com experiência do Ministério da Administração Interna e a pessoa que ele tem no governo com essa experiência é o ministro da Educação e Ciência, que é o Fernando Santos. E eu espero que resista à tentação de levar o Fernando para o Ministério da Administração Interna, porque acho que o Fernando está a fazer um bom trabalho no ministério que tem. E acho que seria muito difícil substituí-lo nesse ministério.

Aguardemos por essa decisão, que vai ser conhecida esta semana, pelo menos foi a indicação dada pelo primeiro-ministro no debate quinzenal. Esta semana também, terça-feira, é uma data importante, 24 de fevereiro, faz quatro anos que a guerra na Ucrânia começou. A Filipa Martins pergunta se Volodymyr Zelensky anunciar eleições, como parece que vai fazer, e um referendo a um eventual plano de paz, isso pode ser bom ou pode ser mau, contraproducente para o desfecho deste conflito, Luís?

Essa é uma pergunta muito difícil. Deverá haver poucas pessoas tão adeptas dos referendos como eu, mas isso é um referendo sobre a soberania de um país. Não sei, acho que haverá demasiadas emoções à flor da pele para poder ser feito um voto racional, que é o que se espera de uma eleição ou de um referendo. A ideia de haver um referendo, eu tenho medo que seja uma forma de desresponsabilização da atual equipa. Portanto, eu tenho muitas dúvidas. Mas de qualquer forma, se for feito o referendo, a vontade da população prevalecerá e deve prevalecer. E imagino, não tenho a certeza, que já estejam cansados de tantos anos de guerra e tantos milhares de mortos e que estejam disponíveis para aceitar uma solução razoável, que apesar de tudo, muito provavelmente envolverá perda de território, caso contrário, se não envolvesse perda de território, a questão do referendo não se colocava, porque aí era fácil de aceitar o acordo.

Mas a vontade da população pode valer de alguma coisa, tendo em conta que há Donald Trump no meio deste processo?

Vais lá ver, eu estou a partir do princípio que o que vá a referendo seja um plano já pré-aprovado pelas partes, senão não faz qualquer sentido haver esse referendo. Depois, se estiver pré-aprovado, a população terá de decidir. Sabe perfeitamente que o risco de Donald Trump deixar de apoiar a Ucrânia é enorme. E portanto, se votar por continuar a guerra, por não aceitar um acordo de paz, fá-lo-á com essa consciência. Eu nem sequer sei eu próprio como é que eu votaria numa situação dessas. Eu percebo que o lado emocional seja não ceder nada e recusar qualquer perda de território. Há esse lado emocional, mas depois também há o lado racional de aceitar que estão contra potências muito fortes e sem o apoio com que, se calhar, a determinada altura sonharam da União Europeia.

Vai ser uma semana importante, tanto na frente externa como na frente interna. Fica por aqui esta edição de resposta às perguntas dos ouvintes. Obrigada, Luís. Já sabe, estamos de volta também na próxima sexta-feira, sempre depois das 19h e estamos sempre em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz. Até lá.