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Fora do Baralho: dúvidas e perguntas dos ouvintes. É um episódio extra que fazemos ao domingo de manhã na rádio e que obviamente está também disponível em podcast. E esta semana cabe à Susana Peralta responder à dúvida que nos chegou. Olá Susana, bem-vinda.

Olá, Ricardo.

E hoje vamos responder ao nosso ouvinte Luís Lemos Miranda, que nos enviou. Um ouvinte, diz ele que ouviu a posição dos comentadores sobre o pacote laboral e sobre fatores que podem influenciar a produtividade, a flexibilidade laboral. E diz o Luís Lemos Miranda que gostava de perceber o que os comentadores do Fora do Baralho têm a dizer sobre a posição do secretário-geral da CGTP, que há poucos dias, e vou citar: "Parecia mais um liberal que um comunista a falar." Afinal, quantos pastéis de nata, Susana, temos de vender para comprar um comboio?

A pergunta é assim, realmente não faço ideia, mas são vários milhões de pastéis de nata. Deixa-me só pegar aqui nas declarações de Tiago Oliveira, ou seja, há aqui vários aspetos nas declarações de Tiago Oliveira quanto a mim. O primeiro aspecto é que Tiago Oliveira queixa-se da prevalência dos serviços de baixo valor acrescentado, vamos chamar assim, na nossa economia. Está a falar do turismo. Portanto, ele diz: "Portugal não pode estar assente apenas na hotelaria e no turismo." Bom, em primeiro lugar, Portugal não está assente apenas na hotelaria e no turismo. A hotelaria e o turismo representam talvez, não sei, 12%, 15% da nossa economia. E claro que nós temos esta visão de um país que depende muito destes setores, porque de facto são os nossos setores mais conhecidos, ou seja, se calhar Portugal é mais conhecido pelas suas praias do que pelo pastel de nata, embora o pastel de nata comece a ter a sua fama internacional, mas a nossa economia é muito mais do que isso. Por outro lado, também é verdade que estes setores costumavam ser os setores que estavam em maior crescimento e isso ultimamente deixou de ser verdade. Eu não fui olhar agora para os números mais recentes, mas tem havido setores de alto valor acrescentado, muito inovadores, algumas indústrias de nicho que estão a crescer mais depressa em termos de exportações. Atenção também que crescer mais depressa, para ser completamente transparente com o nosso ouvinte, óbvio que o efeito base tem aqui uma preponderância. Portanto, são setores que eram mais pequenos, mas que estão a crescer mais depressa e neste momento as nossas exportações têm uma componente grande de setores bastante inovadores, industriais e de ponta. E, portanto, nem tudo está perdido, por assim dizer. Aqui o Tiago Oliveira também trouxe uma perspetiva, quanto a mim, muito negativa. E depois, realmente vem a questão do pastel de nata, quantos croissants e pastéis de nata é que nós temos de vender para comprar um comboio à Suíça, à Espanha ou à França? Bom, outra vez, podemos interpretar isto como a queixar-se de nós termos um país que de facto não tem estas grandes indústrias, estas indústrias pesadas, de metal mecânica, não sei o quê, dos grandes bens industriais, como por exemplo, a indústria de construir comboios. Já agora, não é nada claro que a revolução industrial que aí vem seja baseada neste tipo de indústria e, portanto, também não é nada claro que Portugal não esteja até razoavelmente bem preparado ou, em todo o caso, menos mal preparado do que no passado para estas novas indústrias muito mais leves.

Digitais.

Digitais e não sei o que aí vem. Aliás, basta ver que Portugal é um exportador de drones para a guerra. Não quero agora aqui entrar na indústria da defesa e nós sabemos que as guerras hoje em dia estão a tornar-se muito baseadas nesse tipo de material industrial e perdendo alguma importância o outro material pesado, os aviões, os tanques, etc. E aí Portugal está a dar as suas cartas. Portanto, não estamos assim tão mal preparados, porventura. Pronto, mas agora há aqui o aspeto de dizer que o Tiago Oliveira quer usar o exemplo do pastel de nata e do croissant para dizer que nós não conseguimos equilibrar as nossas contas externas a vender pastéis de nata e croissants. Mas de facto, o grande equilibrador das nossas contas externas é precisamente o turismo. Ou seja, nós temos já agora uma balança comercial positiva em Portugal nos últimos dois ou três anos. Quando nós olhamos para a balança de bens, de facto nós temos um déficit, portanto nós importamos em valor mais bens do que exportamos. No entanto, quando nós depois juntamos a esta balança de bens, juntamos a balança dos serviços, onde se inclui o turismo, aí já se torna positiva. Claro que eu estou aqui a jogar com as palavras, porque é evidente que o pastel de nata é um bem, mas no entanto, quando o turista vem cá comer o pastel de nata, nós estamos a exportar o pastel de nata. E, portanto, eu percebo o que o Tiago Oliveira quis dizer, mas se ele de facto quis usar o pastel de nata e o croissant, como parece que quis, como uma imagem, uma alegoria da indústria do turismo e dizer: "Não é assim que nós equilibramos as contas externas." A minha novidade para o Tiago Oliveira é que de facto é assim que nós equilibramos as nossas contas externas. É a balança de serviços que tem um saldo positivo tão grande que mais do que compensa o saldo negativo na balança de bens.

E isso revela um pouco algum desfasamento do momento que estamos a atravessar e do futuro, em tua opinião, do secretário-geral da CGTP, que ainda está, a imagem é minha, ainda está a pensar em bigornas quando deveríamos estar a pensar em bits e bytes?

Quer dizer, eu acho que de uma certa maneira sim. Embora Portugal também continue a ter de importar estes grandes bens industriais, como por exemplo, comboios. Mas por outro lado, eu também percebo que o Tiago Oliveira se preocupe com o turismo e a hotelaria, porque nós sabemos que são setores que geram uma maior percentagem de emprego de má qualidade, ou seja, emprego mais precário, menos bem pago. E, portanto, ele enquanto secretário-geral da CGTP, é natural que se preocupe com a situação das pessoas que trabalham nesses setores. O que não nos deve impedir de perceber que esses setores, por um lado, são precisamente aqueles que equilibram as nossas contas externas e que, por outro lado, a nossa economia não é feita só disso.

Obrigado, Susana. Respondemos aqui à dúvida do nosso ouvinte Luís Lemos Miranda, que enviou um e-mail para foradobaralho@observador.pt. Enviarem e-mails com pensamentos, críticas, dúvidas e aos domingos, com um membro do painel do Fora do Baralho, vamos respondendo. Obrigado, Susana, bom fim de semana.

Bom fim de semana, obrigada.