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2026, aqui estamos, mais um ano fora do baralho. Ano que começa intenso na política, campanha para as presidenciais e eleições a 18 de janeiro. Primeira volta, depois a provável segunda volta. Vai ser a jogada da semana, na segunda parte deste primeiro programa do ano de 2026. Temos cartas, trunfos, peças para jogos semanais garantidos na Rádio Observador. Nesta primeira parte, a Susana Prado, o Luís Aguiar-Conraria, o Jorge Fernandes e o Nuno Garoupa têm cartas para casos e protagonistas políticos, e não só, que vão marcar este novo ano. E a primeira carta é tua, Luís, uma carta joker para Donald Trump. A joker costumo ser eu, não sei que comparação queres fazer aqui.
Não quero que leves isto a peito. Tu és joker no sentido de distribuíres as cartas, o Trump é joker no sentido de ser imprevisível e de não sabermos o que vai sair dali. Não haja confusões. De facto, Trump foi a figura de 2025, ou pelo menos uma das figuras de 2025, e várias coisas passam para 2026 que nos deixam na expectativa e vão marcar o mundo. Neste momento, temos os processos de negociação de paz na Ucrânia, temos também a situação de Gaza com o acordo que os Estados Unidos estão a forçar. Vamos ver qual é o desenlace disto. Eu devo dizer que se o desenlace dessas coisas fossem positivas e fossem favoráveis e se conseguisse, de facto, chegar a acordos de paz mais ou menos duradouros, não ficaria surpreendido se Trump nos próximos anos, não imediatamente, mas nos próximos anos, realmente ganhasse um Prêmio Nobel da Paz. Mas outro assunto que vamos acompanhar para o próximo ano é o que está acontecendo na Venezuela e a forma como os Estados Unidos estão a interferir com a Venezuela e como estão basicamente a violar todas as leis internacionais. E isto é que me parece que, de facto, vai impedir qualquer hipótese de, no futuro, Trump ganhar o Nobel da Paz, mesmo que as coisas na Ucrânia e em Gaza corressem bem. Eu tenho dificuldade em perceber o que se passa na Venezuela, não consigo perceber qual é o interesse do regime norte-americano. Parece-me que o petróleo da Venezuela é um petróleo muito pesado e, portanto, má qualidade, que tem um valor comercial muito inferior ao da maioria dos petróleos. Parece-me que é uma justificação pequena para a atuação dos Estados Unidos na Venezuela. Reconheço simplesmente que não sei, mas é um assunto a acompanhar. E depois outro assunto que também vamos ver como é que se desenvolve em 2026 e que teremos de seguir de perto, é a questão da guerra comercial que o Trump começou com a Europa e com a China, com a China a responder na mesma moeda, depois com a Europa a reagir de forma tímida, mas isso é bom, eu defendo essa reação. Mas do ponto de vista económico, de facto, as tarifas na Europa tiveram impacto negativo muito mais mitigado do que aquilo que a maioria dos economistas estavam à espera. Nesse aspecto, a economia europeia mostrou uma resiliência que deixou bastantes pessoas surpreendidas. Mas enquanto isto se desenvolve, também se vai desenvolvendo nos Estados Unidos alguns processos judiciais, algumas tarifas que estão a ser contestadas nos tribunais. Não são todas, mas algumas, e algumas têm a ver com aquele dia da libertação, quando foi anunciado aquele aumento de tarifas absurdo. E para já, as decisões dos tribunais têm sido desfavoráveis à administração norte-americana, têm sido desfavoráveis a Donald Trump. Possivelmente irão chegar ao Supremo Tribunal e isso também é outro assunto a acompanhar, porque se o Supremo Tribunal der razão aos tribunais inferiores, isto pode ser um grande golpe em Donald Trump e também uma demonstração de independência do Supremo Corte dos Estados Unidos. Vamos ver.
Há aqui várias frentes em que Donald Trump, a presidência Trump, pode ter influência durante este novo ano. Vamos passar agora para uma carta, um valete de paus, Jorge Fernandes, para o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez.
Sim. Pedro Sánchez será certamente um dos políticos que vai marcar este ano na Europa, não só porque é um dos últimos primeiros-ministros sociais-democratas, o representante daquela família que está no poder num país importante, e eu estou interessado também em perceber como é que vai ser a evolução da direita espanhola e da evolução dos equilíbrios de força entre o PP e o Vox. Sánchez faz-me lembrar em muitos momentos José Sócrates, sem a parte judicial, porque ele é ao mesmo tempo um político muito inteligente e capaz, e acho que toda a gente tem que, honestamente, reconhecer isso, mas é ao mesmo tempo alguém sem qualquer bússola moral ou vergonha. Um dos muitos escândalos que já envolveu o seu governo seria suficiente para, noutras circunstâncias, garantir que ele se demitiria, porque era o fim da linha. Por outro lado, a vantagem com que ele parte para este ano de 2026 é que dificilmente pode acontecer pior do que aquilo que já aconteceu. A não ser que apareça algum vídeo dele em atividades sexuais mais estranhas, do seu ponto de vista político, não há nada que não possa acontecer. Ele tinha o número dois do PSOE, foi preso por corrupção. Escolheu outro número dois ao fim de um ano, e esse número dois também foi preso por corrupção. O seu núcleo duro ou está na prisão, ou está metido em grandes sarilhos judiciais, ou então está a sair do governo para ir disputar um muito difícil calendário eleitoral regional ao longo deste ano. E por outro lado, as pressões dentro do seu próprio partido estão a ser cada vez mais difíceis de suportar, porque há aqui uma percepção dentro do partido de que se o primeiro embate eleitoral sério for ao nível regional, serão os barões regionais que pagarão o preço nas urnas pelo descontentamento de uma bela parte do eleitorado com o governo. E há muita gente a fazer pressão para que se inverta esta situação e que haja eleições nacionais para permitir aos eleitores penalizar o governo livremente e depois ir às urnas para eleições regionais, para conseguir de alguma maneira ter um plano mais equilibrado. Sanchez cometeu várias coisas que custarão muito caro nos próximos anos à democracia espanhola, mas também ao próprio partido. Ele conseguiu matar a nacionalização do Partido Socialista, que neste momento é um partido que parece um paradoxo, mas é um partido com muito poder. É o partido do governo, mas perdeu muita da sua presença regional. Neste momento governa apenas uma região, que é a Catalunha, que é uma região muito importante, mas é a única região que o PSOE governa. E se tivesse que apostar, diria que este ano Sanchez em dada altura vai pedir eleições antecipadas, até porque a economia está a correr muito bem, em bela parte graças ao PRR, e isso temos que lhe dar mérito, até porque Espanha está a conseguir aproveitar o PRR de forma muito mais contundente do que Portugal. Outro dia eu li umas notícias de que havia duas grandes obras em Lisboa, de metro, que estavam programadas para começar, mas como se atrasou tudo, perdeu-se não sei quantos milhões, muitos milhões de euros da União Europeia. Eu acho que Sanchez vai tentar sair ou pedir novas eleições ainda a tempo de aproveitar o mini boom econômico que Espanha está a passar.
Uma questão: uma das partes polêmicas dos últimos anos do Sanchez tinha a ver com as negociações que fez com os movimentos independentistas da Catalunha. Como é que isso está para 2026? É um assunto que está arrumado ou pode surgir novamente?
Não, o assunto não está arrumado, até porque um dos partidos catalães, o Junts, supostamente veio dizer que cortava as relações, deixava de apoiar o governo, porque Sanchez ainda não cumpriu, e ele está a gerir isto de forma bastante inteligente, porque ele nunca cumpriu completamente aquilo que prometeu a este partido e vai mantendo sempre o partido, dá o minimum indispensável para o partido nunca abandonar completamente. Eles agora disseram que iam abandonar a coligação de investidura, que é o que eles chamam lá isso, mas na verdade há muitas coisas que continuam por cumprir desse acordo. Na verdade, ninguém sabe exatamente até onde é que isso vai, até porque há uma grande componente judicial que não está nas mãos de Sanchez. Há várias decisões que estão nos tribunais em Espanha, e aquilo está tudo a ser litigado.
Esclarecido, Luís?
Sim.
Vamos passar agora para o plano nacional. Nuno Garoupa, tens aqui uma carta de ouros para o procurador-geral da República, Amadeu Guerra. Não sei se queres especificar a carta e por que é que é uma figura que vais acompanhar com entusiasmo durante este novo ano.
Temos que começar por desejar bom ano a todos e obviamente também às figuras públicas nacionais. Parece-me que vai ser um ano muito importante para o procurador-geral da República e que vai ser uma das figuras, senão a figura do ano. E eu vou explicar por quê: porque o procurador-geral da República criou uma situação que eu penso que se vai adensar e com consequências que vamos ver em 2026. O PGR inventou estas averiguações preventivas. Na verdade, transformou aquilo que na lei existe, que são as averiguações preventivas, em averiguações preliminares, coisa que não existia na lei. Isso resolveu-lhe um problema pontual, que foi o caso Espinho Viva, mas criou agora uma série de contradições das quais algumas fomos falando já nos últimos meses. Duplicidade de critério em relação, por exemplo, a Pedro Nuno Santos e a Luís Marques Mendes, duplicidade de critério em relação a André Ventura, mas aí poderá argumentar que os casos que envolvem André Ventura não são de criminalidade financeira, mas de racismo ou de discurso do ódio, só que a lei não faz essas distinções a dizer que uns têm isto, outros têm o outro. E a verdade é que agora, no fim do ano, com o envolvimento quer da Operação Influencer, que continua de meio aberto, quer com o caso referente ao almirante, vemos já não uma duplicidade, mas uma triplicidade de critérios, porque obviamente quem foi sujeito a inquéritos antes desta mudança, agora está numa situação que é diferente daqueles que foram tratados de forma diferente com averiguação preventiva. Isto vai se complicar em 2026, inevitavelmente E junta-se a isso que o PGR, nas últimas semanas, primeiro reagiu muito mal às críticas da comunicação social, já teve duas intervenções agastado, que não aguenta nem lida bem com ser criticado, e fez aquela declaração absolutamente inexplicável de que queria dar uma prenda de Natal ao senhor primeiro-ministro, que depois levou a pedir escusa, obviamente, à averiguação preventiva da Spin off Eva. Portanto, estamos a passar um período que está já a adensar e complicar, e eu agora aqui vou arriscar, que a minha previsão é que o Chega poderá avançar com uma CPI ao PGR, porque do ponto de vista tático do Chega, depois das presidenciais, não acho que uma CPI ao primeiro-ministro ou aos negócios do primeiro-ministro, ou eventualmente aos negócios de um presidente Marques Mendes, sejam do interesse tático do Chega, até porque aprendeu com a CPI a Marcelo Rebelo de Sousa e, portanto, é possível que venha a haver uma CPI ao PGR, que será um enorme desafio ao PGR. Para um PGR que se anunciava como PGR de proximidade, penso que vai ser um ano muito complicado e por isso carta ouros ou copas para lhes desejar boa sorte neste ano de 2026.
Estás num sítio certo para arriscar, quiseste aí fazer essa aposta sobre uma eventual comissão de inquérito ao PGR por parte do Chega. Susana Prado, a tua carta vai para os casos de violência doméstica em Portugal, um flagelo da nossa sociedade, sai um dois de espadas.
Sim, um dois de espadas para mais um ano em que as mulheres são vítimas de violência, são vítimas de discriminação e no fundo é sempre importante recordar que a violência contra as mulheres não é só doméstica, já agora, ela tem várias dimensões, mas a violência contra as mulheres reflete-se, por tudo, a falta de poder das mulheres na sociedade, entendida de maneira abrangente, ou seja, no local de trabalho, no âmbito da família, e é isso que depois as sujeita a situações de violência. Não é apenas isso, mas é também isso, porque é o que faz com que as mulheres fiquem muitas vezes presas a situações em que depois a violência escala e em que muitas vezes acabam mortas. E eu queria aqui invocar que há um mês exatamente, soubemos pelo Observatório das Mulheres Assassinadas da UMAR, que já havia 24 mulheres assassinadas. Isto estamos a falar no final de novembro, vamos lá ver o que é que acontece, porque infelizmente o período das festas é muitas vezes menos festivo para pessoas que são vítimas. A ministra da Justiça tem falado da violência doméstica como uma das prioridades do seu mandato, o que eu acho que é positivo e também gostava, se calhar, de deixar aqui uma carta mais simpática, talvez assim um cinco ou um seis de ouros para a Rita de Alarcão Júdice. E o meu cinco ou seis de ouros é porque sou muito cética, porque nós com muita regularidade, e isto é transversal aos partidos, não é apenas a AD. Eu recordo-me, por exemplo, do famoso discurso de António Costa em que ele leu os nomes das mulheres vítimas de violência doméstica, enfim, de assassinato por parceiros íntimos, num momento, já não me lembro muito, mas da sua carreira. Quer dizer, isto não tem nada a ver com PS e PSD, claramente. É um tema onde é muito fácil fazer grandes declarações de intenção e depois é muito difícil, de facto, sem mais meios, sem mais instrumentos de recolha de informação. Se nós só temos um inquérito que mede de maneira representativa as situações de violência de género, para começar, portanto, nós nem sequer sabemos muito bem a prevalência. O ano passado tivemos o primeiro-ministro a dizer: "Não, eu acho que há um aumento do reporte, mas não há um verdadeiro aumento no terreno", mas quer dizer, sem ter instrumentos estatísticos para dizer uma coisa dessas, o que é uma afirmação perfeitamente irresponsável. E, portanto, é por isso que eu tenho aqui uma carta um bocadinho cética para Rita Alarcão Júdice, mas reconhecendo a sua boa intenção. Deixa-me só dizer mais uma coisa que eu acho que é importante. Por detrás das alterações legislativas que Rita Júdice quer implementar, há uma ideia de valorizar os testemunhos da vítima no momento em que ela apresenta queixa, porque muitas vezes muitas vítimas se recusam depois a persistir nos seus depoimentos, nos momentos de julgamento, etc. Mas é evidente que isto pode ter depois aqui um efeito inesperado, que é as pessoas ao saberem que no momento da queixa, as suas declarações, depois podem ser usadas como prova em tribunal, isso pode levar as pessoas a retraírem-se da queixa. E isto por quê? Porque os motivos que levam, embora haja aqui questões emocionais diferentes, e é possível que as pessoas estejam mais dispostas a correr riscos para apresentar queixa no momento em que apresentam queixa, do que depois em momentos de depoimentos posteriores em tribunal. Portanto, eu não vou desvalorizar completamente esta boa intenção. Agora, nada disto se resolve sem empoderar as mulheres. Quando as mulheres decidem num determinado momento, quando chegam a tribunal, retrair-se nos seus depoimentos, é porque têm medo. E, portanto, sem nós desmancharmos esses mecanismos do medo, nunca vamos conseguir resolver este problema. E deixa-me só aqui deixar mais uma carta, e esta é um valente dois de paus, mas realmente de péssimo gosto, daquelas declarações do primeiro-ministro a dizer que queria que nós fôssemos Cristiano Ronaldo, quando Cristiano Ronaldo está ao serviço de uma petromonarquia ditatorial, na qual as mulheres não têm direitos nenhuns, onde inclusivamente a violação conjugal está consagrada na lei. As mulheres têm que ter uma boa desculpa, têm que ter razões válidas para recusar relações sexuais com o marido. Portanto, Cristiano Ronaldo está a viver a sua história de amor com a Georgina, o casamento de sonho na Madeira e tal, num país que consagra na lei a violação conjugal. Eu gostava que o primeiro-ministro viesse dizer como é que invoca esse grande exemplo moral para o país e também perguntar à ministra da Justiça como é que ela convive com este exemplo moral, quando tem esta preocupação, que eu considero genuína e agradeço-lhe por isso, Rita Júdice, relativamente à violência doméstica.
Fica aqui essa carta sobre este próximo ano e um diagnóstico também a esse problema da violência doméstica. Na jogada da semana, já a seguir, vamos falar das presidenciais. Jogada da semana do Fora do Baralho, a primeira de 2026. Daqui a duas semanas temos eleições presidenciais. Os eleitores vão decidir quem sucede a Marcelo Rebelo de Sousa no mais alto cargo da nação. Candidatos não faltam, há 11. A campanha oficial na estrada está quase aí, este fim de semana começa. Pelo que vimos até agora, deve ficar marcada, Jorge Fernandes, por casos com contornos mais ou menos judiciais. Tivemos primeiro Marques Mendes, agora Gouveia e Melo.
Marques Mendes não teve um caso judicial. Foram levantadas um conjunto de dúvidas éticas e de dúvidas sobre o seu passado enquanto, ele não gosta da palavra, mas é a palavra correta, facilitador, devido à sua profissão e àquilo que ele fez nos últimos 20 anos, que estranhamente paira um certo silêncio sobre isso. Apesar do almirante ter levantado isso no último debate, e acho que levantou bastante bem e acho que foi contundente e explicou com alguma clareza que o problema não é exatamente legal, é um problema de avaliação política, avaliação ética, e tentar perceber até que ponto é que Marques Mendes realmente tem a ficha completamente limpa e não corremos o risco de ele levar para Belém um conjunto de interesses atrelados que possam pôr em causa a independência do presidente da República ou possam fazer de Belém uma central de negócios. Dito isto, é claro que é muito negativo, mais uma vez, parece que já é inevitável que em todas as campanhas eleitorais apareça o Ministério Público ou algum tipo de investigação criminal ou algum tipo de dúvida. E a dada altura uma pessoa começa a se perguntar que isto não pode ser mera coincidência.
Gouveia e Melo ficou bastante agastado com esta investigação.
Penso que com razão.
O Ministério Público veio esclarecer que não é arguido.
E penso que com razão. Esta investigação começou em 2017, segundo o que li nos jornais, quando o almirante era um ilustre desconhecido. Nunca apareceu nada em público, inclusive quando ele ganhou notoriedade nacional na altura da vacinação e de alguma maneira eu leio nos jornais apareceram n perfis bastante laudatórios do almirante e nunca nada apareceu nos jornais. E agora em plena campanha eleitoral, depois do fortíssimo cartão que ele deu a Marques Mendes no debate eleitoral, isto parece-me conveniente demais. Eu nunca gosto da tese da cabala, mas de facto, a única explicação verosímil aqui é que este tipo de notícia foi ou plantado, ou uma notícia que objetivamente pretende encostar ou amedrontar um candidato que tinha uma linha política de ética, de dizer que é preciso impor ética na política, que ele não era um político, que era uma pessoa limpa, etc. Portanto, isto claramente, objetivamente favorece alguns candidatos que estão a ter problemas nessa matéria. Certamente, por exemplo, António José Seguro é um exemplo. Não seria favorecido por isto, no sentido de que ele não estava metido neste tipo de acusações, mas objetivamente isto favorece Marques Mendes, porque cala o adversário que trouxe de forma mais clara e objetiva esse tipo de problemas para a campanha eleitoral.
Já que falas em António José Seguro, Susana, nós vimos o secretário-geral do PS apelar de viva voz para que os candidatos à esquerda desistam a favor de António José Seguro. Catarina Martins e António Filipe têm recusado, Jorge Pinto ficou em silêncio. Vês ainda a hipótese de algum deles desistir nestas duas semanas que faltam?
Não. Eu acho que já aqui falámos, não sei em que semana, do jogo da galinha. Agora eu acho que não fui clara da outra vez, que galinha neste caso é para cobardia. Ou seja, é um jogo em que ninguém quer desistir para não se mostrar cobarde, mas acabam por estar a acelerar rapidamente um carro contra o outro e obviamente que o desfecho disso é trágico. Mas eu acho que já aqui expliquei porque é que se Jorge Pinto desistir sozinho, não me parece que seja uma solução para Jorge Pinto, até porque o mais provável é os seus votos irem parar ou a António Filipe ou a Catarina Martins e muito mais dificilmente a António José Seguro. Portanto, ou de facto havia uma movimentação de esquerda conjunta, coletiva, a dizer que temos aqui um desafio histórico e António José Seguro representa-nos coletivamente, ou então parece muito difícil. Depois também me parece que José Luís Carneiro, talvez antes de começar a pedir à esquerda dele que fizesse isso, podia pôr um pouquinho mais de ordem no seu partido. É certo que agora Augusto Santos Silva já veio com ar de enjoado, com ar de algum enfado, dizer que afinal era melhor votar em António José Seguro, mas eu queria recordar aqui uma crônica da Ana Sa Lopes daqui de há umas semanas, em que ela falava da cartinha de boas festas que o PS colocou nas caixas do correio. Isso é uma coisa normal, obviamente assinada pelo seu secretário-geral, José Luís Carneiro, e em que ela diz que na quarta página do panfleto, numa espécie de nota de rodapé, por obrigação, há esta frase em que então José Luís Carneiro, depois de discorrer ao longo de três páginas acerca de grandes desafios estratégicos e de prioridades do PS para o ano que aí vem, diz que é realmente importante votar em António José Seguro. Portanto, eu já perdi essa esperança e não me parece que seja justo assacar agora isso a Jorge Pinto sozinho.
Luís, o que nos diz nesta altura o radar das sondagens? Pode facilitar a decisão dos candidatos de desistir ou não, e mesmo se algum deles desistir, aumenta de fato a hipótese de Seguro passar à segunda volta?
Diz o mesmo que dizia na semana passada, porque não houve nenhuma sondagem nova, portanto não houve nova informação. Deixa-me falar da questão de Jorge Pinto. Em primeiro lugar, declaração de interesse, eu sou apoiante de António José Seguro. Os ouvintes que façam o devido desconto em relação a tudo o que eu diga que favoreça António José Seguro. Eu acho que a possível desistência de Jorge Pinto pode também-
Tu e a Susana Peralta também, só pra ficar claro.
Eu acho que a possível desistência de Jorge Pinto pode ter outra motivação. É que de facto nas sondagens, o Jorge Pinto aparece atrás de Catarina Martins e António Filipe. Houve até uma sondagem onde não apareceu porque não houve pessoas suficientes a dizer que votavam nele. E que numa altura em que o LIVRE se está a afirmar como o partido mais importante à esquerda do PS, de repente ter o seu candidato a ficar em último dos candidatos mais à esquerda, pode ser um revés. A leitura que eu faço, e aqui entro na resposta à tua pergunta, é que neste momento há uma dinâmica que vai favorecer o António José Seguro e penso que isso se irá refletir nas próximas sondagens, se não se refletir então estarei errado. E portanto, uma desistência de Jorge Pinto tem dois efeitos. Primeiro, que é não aparecer em último dos candidatos de esquerda, que seria um revés para o LIVRE, e por outro lado, poderem também chamar a si essa vitória, poder ficar associado a uma muito provável passagem à segunda volta de António José Seguro. Que o muito provável é sempre na casa dos 50%, não estou a dizer 90% nem nada disso. Neste momento, objetivamente, ele ainda está em terceiro nas sondagens. Mas de facto, parece-me que a dinâmica neste momento à esquerda vai começar a favorecer António José Seguro.
É também a percepção que tens, Nuno Garoupa?
Eu penso que neste momento, vamos ver daqui até ao fim da campanha, porque esta semana passada parecia que tinha corrido bem ao Almirante e depois acabou mal para o Almirante. Eu acho que neste momento continuo a pensar que há quatro, cinco candidatos que estão muito próximos e que é difícil neste momento realmente fazer uma previsão muito concreta sobre quem são os dois que passam à segunda volta e a ordem dos candidatos, mesmo em relação à primeira volta. Eu não arriscaria nada neste momento.
Sendo que seja qual for o presidente que venha a ser eleito, vai receber algumas batatas quentes, a lei da nacionalidade, a reforma laboral, são matérias para o próximo inquilino de Belém decidir, podem marcar irremediavelmente o futuro político do país e também logo a abrir o mandato do novo chefe de Estado, Nuno.
Eu penso que são temas importantes, haverá outros também. Eu estou-me a lembrar da reforma do Estado, nomeadamente o ministro Matias anunciou que quer acabar com o visto prévio do Tribunal de Contas, coisa que o Chega e o PS já indicaram que não estariam de acordo, portanto vai haver aí também uma questão. A outra questão que tem a ver, não falámos no programa, não houve tempo nessas últimas semanas de falar do caos no aeroporto. O caos do aeroporto vai estar presente na questão da privatização da TAP, onde os partidos também já indicaram que têm posições muito diferentes. É preciso relembrar sempre a quem nos ouve que o governo avança pra privatização da TAP sendo um governo superminoritário, portanto eu nunca percebo muito bem como é que se fazem essas grandes medidas que afetam o país, em que o país está muito dividido com o governo superminoritário. Mas repara, aqui também há que especular sobre quem pode ser o futuro presidente da República, porque nós já sabemos do passado que tivemos o presidente Cavaco, que na campanha eleitoral foi muito acusado de ser uma pessoa muito executiva, muito ativa, que se intrometia muito e depois foi um presidente da República muito apagado durante aqueles 10 anos, que de facto teve muito poucas intervenções ativas. Em contrapartida, há 10 anos foi eleito o presidente dos afetos, que ia ser um presidente acima dos partidos e que como todos concordamos, extravasou largamente as suas competências presidenciais, intrometeu sistematicamente em áreas do executivo, simplesmente teve sempre um grande apoio na comunicação social e portanto não foi escrutinado durante 10 anos por romper as convenções constitucionais, por desrespeitar sistematicamente os poderes do primeiro-ministro e do governo. E nós não sabemos o que é que o próximo presidente vai ser, se vai ser um presidente muito apagado, pouco interventivo e portanto muito de frente para com o governo e para com a Assembleia da República, ou uma versão de Marcelo Rebelo de Sousa, um presidente interventivo, sistematicamente a fazer o contrário daquilo que é suposto fazer, mas que, presumo eu, o próximo presidente não terá o apoio da comunicação social que teve este presidente e, portanto, muito mais escrutinado e muito mais criticado, comparado com o silêncio que foram estes 10 anos de Marcelo Rebelo de Sousa. Portanto, acho que é muito difícil especular o que é que vai acontecer com o próximo presidente da República.
Sendo que é um presidente da República que depois também vai apanhar uma fase importante sempre para o país, o orçamento do Estado. Susana Peralta, nessa altura é que podem começar as dores de cabeça para Luís Montenegro e para o próximo presidente?
Eu vou repetir um bocado o que o Nuno disse, mas é bizarro que este governo se comporte como se tivesse uma maioria de deputados e deputadas que o apoiam no Parlamento e que por isso pode chegar com propostas quase fechadas e esperar que o Parlamento baixe a bolinha e aprove. É evidente que este ano conseguiram passar com essa estratégia de duas maneiras complementares. Uma foi despojando o orçamento de quase tudo, também porque a bem dizer, não tinham grande possibilidade de mudar muitas coisas neste orçamento para 2026, porque recordo que, por exemplo, o IRS Jovem é um corte de despesa permanente, o IRS Jovem é um corte na receita, os aumentos na função pública são aumento na despesa também permanente, ou seja, eles tinham sido decididos previamente, mas eles projetam-se no futuro e, portanto, o orçamento de 2026 não dava pra andar aqui com grandes invenções. Portanto, por um lado, fizeram um orçamento enxuto
E por outro lado, obviamente que a situação política era tal que nunca haveria uma crise política em torno do orçamento, mas isso vai mudar. Agora, eu também acho que o fogo de artifício político em torno do orçamento foi muito condicionado por Marcelo Rebelo de Sousa, que como gosta muito, andou aqui a brincar às eleições como quem brinca com teatro de marionetas. Portanto, é um homem que vem do comentário político, que vem da politiquice, do jogo político e achou piada estar em Belém e pôr-nos a ir a eleições como ratinhos de laboratório todos os anos. E usou designadamente os orçamentos também fazendo chantagem ao Parlamento, a dizer: "Se não houver orçamento, vamos a eleições". Não há nenhuma razão para assim ser. Eu julgo que, e bem, os candidatos presidenciais, quem tem sido colocado essa questão, tem sido bastante sóbrios relativamente a darem essa importância central ao momento de discussão do orçamento, como se fosse uma espécie de moção de confiança ao governo, que de facto não é. E portanto, vai depender muito do inquilino de Belém, vai depender muito da atitude do governo de Luís Montenegro, de facto, ir à procura de pontes no Parlamento. Agora, eu acho que posso arriscar no seguinte: que a discussão do orçamento para 2027 vai ser mais complicada, que fica com mais ruído do que foi a discussão do orçamento para 2026, tendo em conta todos esses ingredientes, parece-me difícil que não venha a ser.
Luís Montenegro vai ser obrigado a procurar essas pontes, Luís?
Eu não sei. O motivo de eu ficar aqui na dúvida e sem saber como responder, é porque de facto vejo muitas vezes aquilo que o Nuno e a Susana disseram, vemos este governo muitas vezes a comportar-se como se tivesse maioria e como se tivesse capacidade de ir para a Assembleia impor a sua visão. E vemos isso em vários domínios. Não é um, nem dois, é constantemente. De vez em quando, há algumas sondagens que mostram a AD próxima dos 40%. Depois também aparecem sondagens que mostram a AD mais próxima dos 30%. Portanto, eu acho que as sondagens e a leitura que o governo faça da opinião pública, irá também ser determinante na forma como o governo vai querer encontrar pontes ou, pelo contrário, destruí-las e procurar eleições antecipadas. Eu penso que é nisso que estamos.
Até porque essas sondas podem-
Mas sempre me ficam muitas dúvidas, porque de facto tenho dificuldades em perceber, não as políticas deste governo, essas acho que percebo, mas a atitude de ser se calhar o governo mais minoritário de sempre, a falar muitas vezes e a apresentar propostas como se tivesse maioria na assembleia que lhes assegurassem a aprovação das leis que propõem.
Jorge, vai ter de mudar de atitude o governo do Luís Montenegro e já agora também o PSD na Assembleia da República. Temos, por exemplo, aquela questão das eleições do Tribunal Constitucional e de outros órgãos, que é para resolver depois das eleições.
Para resolver depois das eleições, que é para o eleitorado continuar a fingir que o Chega não é incluído em nenhum tipo de coligação com o PSD. Eu acho que o Luís Montenegro, neste momento, bem, toda esta retórica do governo, eles acham genuinamente que vão fazer mais de três anos e meio. Primeiro, depende muito de quem seja o próximo presidente da República. E depende da leitura que o presidente da República tiver de vários momentos. Estou a pensar, por exemplo, nos orçamentos, estou a pensar em eventuais moções de censura, etc. Porque repare-se, a entrada do presidente da República em si mesmo tem um efeito nas dinâmicas parlamentares. Por exemplo, os partidos já sabem que se for Luís Marques Mendes a ser eleito presidente da República, uma pessoa muito mais próxima deste governo e de Montenegro, de resto, já sabem que chumbar um orçamento provavelmente não terá necessariamente que levar a eleições. Enquanto se for outro presidente da República, eventualmente haverá incentivos para os partidos se posicionarem diferentemente no orçamento, porque já sabem que isso poderá ter não só consequências no orçamento, mas consequências sob o ponto de vista da estabilidade parlamentar. E, portanto, primeiro temos a maneira como o próprio governo se vai comportar e, acima de tudo, os partidos da oposição, porque como já toda a gente aqui disse, Montenegro parece pensar que tem um governo maioritário, mas não tem. O governo de Montenegro é extremamente frágil e acima de tudo depende da boa vontade de André Ventura, porque de facto, se André Ventura perceber, e isto também vai depender muito das presidenciais, se André Ventura tiver uma excelente votação na primeira volta, na segunda volta penso que estará mais ou menos definido que Ventura não conseguirá a maioria, e penso que o próprio Chega sabe isto. Mas se André Ventura tiver um grande resultado na primeira volta, isso dar-lhe-á certamente fortes incentivos para, ao longo do próximo ano, tentar capitalizar isso e tentar forçar uma crise de governo. Naturalmente, o Partido Socialista neste momento não quer ouvir sequer falar de eleições, mas certamente ao longo do próximo ano, dois anos, as coisas começarão a mudar e Montenegro rapidamente perceberá que não tem maioria e que o mundo é bem mais amargo do que aquilo que ele pensa dentro das hostes do PSD.
E os Quatro Ases, mais ou menos amargos. Certo é que ao longo deste novo ano cá estaremos "Fora do Baralho". Jogada da semana concluída, a primeira de 2026. No domingo, Luís Aguiar-Conraria ainda vai responder às perguntas dos ouvintes. Escreva-nos para foradobaralho@observador.pt ou por WhatsApp para o 910024185. Também podem enviar-nos áudios, gostamos sempre de receber. Eu sou Vanessa Cruz, bom ano aos Quatro Ases e bom ano a todos os nossos ouvintes.