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Até no querido mês de agosto, os nossos quatro asas, até em mês de férias para muitos cidadãos, estão atentos à atualidade e os ouvintes também. Tanto que nos fazem chegar perguntas via foradobaralho@observador.pt, o nosso e-mail. Hoje é a tão boa, boazinha, Susana Prado a responder. Vamos a isso, Susana. Temos salários, Banco de Portugal e uma curiosidade a teu respeito que vou deixar para o fim, para criar algum suspense. A primeira pergunta é da Maria Videira, fala na nomeação do governador do Banco de Portugal. Estamos a falar de Álvaro Santos Pereira, que vai suceder a Mário Centeno a partir de setembro. Pergunta Maria Videira se houve alguma consideração de candidatas do sexo feminino. Não sei se tens alguma informação privilegiada a este respeito, Susana. Imaginando que não, se poderias indicar alguns dos nomes que teriam sido boas escolhas. É a pergunta ou as perguntas desta ouvinte.
Sim, olá, obrigada por essa pergunta. Eu não tenho absolutamente nenhuma informação privilegiada, mas de facto os vários nomes que surgiram na imprensa, houve pelo menos dois jornais, "O Observador" e "O Eco", que tinham relatos aparentemente muito bem informados acerca do processo que levou à escolha de Álvaro Santos Pereira, nenhum deles nomeava uma única mulher. Portanto, de facto, eu acho que é seguro assumirmos que se alguma mulher houve ou foi muito apagadinha, ao ponto das várias fugas de informação deste processo não terem retido o nome dessa mulher, ou não existiu. Parece-me evidente. Eu não sei, mas uma das pessoas da equipa de Mário Centeno no Banco de Portugal, que é por exemplo a Clara Raposo, acho que daria, que já foi também presidente do ISEG e que é uma economista com currículo na área financeira, estou a dar um exemplo, daria uma excelente governadora do Banco de Portugal. Mas isso agora são águas passadas, vamos esperar que termine este mandato. Espero que há mais cinco anos, pode ser que venhamos a ter o sonho de ter uma mulher à frente do Banco Central.
É que esta nossa ouvinte Maria Videira até faz aqui esta referência, que também é importante. O Banco Central tem mais de 175 anos e nunca houve uma governadora. De facto, dá que pensar.
É incrível, porque até líderes não necessariamente comprometidos com a causa da igualdade de género, como por exemplo o Erdoğan na Turquia, já nomearam governadoras do Banco Central mulheres. Portanto, de facto, em Portugal parece que os lugares do topo da nação, ou seja, de primeira-ministra, à exceção de Maria de Lurdes Pintasilgo, de Presidente da República, nunca tivemos nenhuma, mesmo de Presidente da Assembleia da República, também apenas tivemos Assunção Esteves. Parece que esses lugares de topo ou de líderes partidárias, o PS nunca teve nenhuma líder mulher. Eu podia continuar aqui a dar exemplos, mas parece, de facto, que esses lugares de topo estão vedados às mulheres. Por muito que haja cotas nas listas partidárias, etc, estes lugares mais simbólicos de grande poder ainda não são para mulheres. Vamos aguardar.
Temos agora a próxima pergunta, que é do António Cardoso, que tem aqui um desafio, no fundo, também. Suponhamos que a equipa do "Fora do Baralho" vai para o governo e decide nivelar os salários em Portugal com os salários de Espanha. Pergunta este ouvinte se há algum estudo que explique os impactos económicos e financeiros de uma medida deste género, ou semelhante a esta, que provoque um aumento brusco da massa salarial, independentemente do aumento da produtividade.
Sim, essa é uma pergunta que tem várias camadas de interesse. A primeira é que a equipa da "Fora do Baralho" nunca ia para o governo, porque nós próprios depois lá dentro não nos íamos entender. Mesmo com uma primeira-ministra de altíssima qualidade e de pulso forte como tu, Vanessa.
Ai, eu? Acho que serias tu.
Não, obviamente, não.
Tu ias para as Finanças, economia. Tu e o Louçã.
Eu ia para as Finanças, mas imagina o nosso Conselho de Ministros. Teria a vantagem de facto de ser a primeira vez, falámos há pouco do problema da representação das mulheres, íamos ter pela primeira vez uma primeira-ministra mulher e logo quem? Vanessa. Seja como for. Depois, outra questão dessa pergunta é que não há nenhuma medida legislativa que nos permita nivelar os salários de Portugal com Espanha. O que nós podemos fazer é de facto equiparar o salário mínimo português ao salário mínimo espanhol, porque o governo não tem medidas legislativas para decidir o nível geral dos salários, muito menos ainda a distribuição dos salários, que na verdade é aquilo que mais nos importa. Nem é tanto a média, mas é saber que percentagem das pessoas é que ganham mais de 1000€, menos de 1000€, mais de 1500€, este tipo de medidas. E portanto, aí estamos já a falar da distribuição estatística dos salários e nenhum governo consegue manipular isto, nem mesmo um liderado por ti, Vanessa, com todas as suas competências económicas.
Eu gostei do comentário.
Há um artigo, um estudo publicado numa revista especializada em economia do trabalho, que precisamente olha para o efeito do aumento do salário mínimo em Portugal. Portanto, Portugal é um laboratório interessante, se quisermos, para analisarmos este tipo de fenómenos, porque de facto houve um aumento a partir de 2015, que foi muito substancial no salário mínimo, que o torna de algum modo um caso de estudo único no mundo. E há um estudo muito interessante, que é dos economistas, eu vou deixar o último nome para o fim, Pedro Passão, João Cerejeira, Helder Costa e Miguel Portela da Universidade do Minho, e também Fernando Alexandre. Portanto, o nosso ministro da Educação é um dos coautores deste estudo, que é um estudo que tem três ou quatro anos. E o que eles mostram, e que é muito interessante, é precisamente que os aumentos de salário mínimo Pelo menos aquele que foi observado em Portugal, nós temos sempre que ter cuidado a extrapolar isto para aumentos muito superiores ou muito inferiores. Em todo caso, o que foi observado em Portugal, que é de fato este aumento espetacular do salário mínimo a partir de 2015, o que ele fez foi exatamente aumentar a produtividade. Ou seja, já não é a produtividade que move o salário, é o salário que move a produtividade. E como é que isso acontece? Acontece porque os autores mostram que este aumento do salário mínimo levou empresas que estavam em má saúde financeira a sair do mercado. Portanto, empresas que não conseguiam acompanhar este aumento do salário mínimo acabaram por se retirar do mercado e isso é bom, porque precipita a saída do mercado destas empresas que não estão assim tão bem e cria mais espaço nos mercados para o nascimento e o prosperar de empresas de melhor saúde financeira, que conseguem acompanhar este aumento dos salários e, por sua vez, são também as empresas mais produtivas. E portanto, há esse estudo, e esse estudo indica que as economias têm algum espaço, sobretudo economias em que há empresas que coexistem no mercado e que são de níveis de produtividade muito diferentes, estes aumentos do salário mínimo podem ajudar a escolher, por assim dizer, separar o trigo do joio. É muito importante também percebermos que de um ponto de vista de política econômica, devemos sempre proteger as pessoas. É importante que haja mecanismos de subsídio, desemprego, etc, para proteger as pessoas. Nós não devemos ter sentimentos muito emotivos relativamente à morte de empresas, desde que protejamos os trabalhadores que são libertos dessas empresas e que depois poderão juntar-se a outras empresas melhores, mais produtivas, onde vão ganhar mais.
Este ouvinte, a propósito, faz aqui ainda só uma outra questão que é: como é que podemos ter a certeza dos valores que nos dão atualmente para a taxa de inflação? Será que o indicador está a ser bem calculado? Vês aqui algum ponto fraco neste indicador da inflação?
Essa pergunta também é muito interessante. Nós temos que ter confiança, ou seja, o INE é uma autoridade estatística regulada por diretrizes europeias, faz parte do Eurostat, é uma autoridade estatística independente. Eu tenho, em todo caso, plena confiança nesta autoridade estatística do ponto de vista da produção de estatísticas. Agora, aquela sensação que o António aqui traz é uma sensação que também é real, que é o seguinte: a taxa de inflação é calculada pelo INE de acordo com o cabaz de consumo, o padrão de consumo, por assim dizer, médio de uma família portuguesa, que gasta uma determinada porcentagem do seu orçamento em alimentação, uma determinada porcentagem em energia, uma determinada porcentagem em vestuário, uma determinada porcentagem em custos de casa, etc. Custos de transporte, enfim, dos vários itens. Isso é medido com dados de inquérito, mais uma vez, são inquéritos que são comuns a toda a União Europeia, o inquérito às despesas da família, feito de acordo com a diretriz do Eurostat, mas claro que nem todas as famílias têm a mesma distribuição do seu orçamento por estas categorias e, por exemplo, uma família que tenha uma maior concentração do seu rendimento em alimentação, seja pela composição do seu agregado familiar, por exigências de saúde ou até porque nós sabemos que as famílias com menos rendimento tendem a concentrar mais os seus gastos em itens mais essenciais, portanto, também vão gastar mais em educação, em alimentação, energia, etc. Se a inflação estiver concentrada mais nessas categorias, essas pessoas vão sentir mais a inflação. Isso é algo que tem a ver com a nossa heterogeneidade. Nós somos todos diferentes, temos padrões de consumo diferentes e cada família, cada agregado familiar tem uma taxa de inflação diferente. E aquilo que o INE mostra é uma evolução média desse custo de vida. Por outro lado, há aqui outro aspecto, que é: um abrandamento da inflação quer dizer que os preços estão a crescer mais devagar, mas eles não voltam aos preços anteriores. E também há muitas vezes aqui fenômenos que nós de repente vamos comprar pêssegos, agora é a altura dos pêssegos, eu sou uma grande viciada em pêssegos.
Também gosto.
Isto há cinco anos valia menos da metade. Porque de fato a inflação pode ter abrandado, mas os preços não voltaram ao início. E já agora, o exemplo dos pêssegos é um bom exemplo, porque muitas vezes nós também gostamos muito de um determinado bem que por variações, por exemplo, não sei se os pêssegos este ano estão caros ou não, mas sepa que as cerejas estiveram caríssimas numa altura do ano e isso tem a ver com condições climatéricas que fazem com que as cerejas estejam muito caras. Isso é muito independente da inflação, tem mais a ver, de fato, com aquilo que nós chamamos o preço relativo, que é uma carestia das cerejas relativamente a outras coisas e para quem gosta muito de cerejas, sai caro ou não as come. E há aqui muitas dimensões que nos colocam perante o panorama dos preços de maneiras muito heterogêneas e que de fato a taxa de inflação não captura, mas também não tem que capturar. Isso não é uma desconfiança do INE, é o que as estatísticas têm sempre características, elas contam uma história e não conseguem contar nunca a história toda.
Ótima explicação, senhora professora, acho que é muito elucidativa aqui para os nossos ouvintes.
Muito obrigada, senhora primeira-ministra.
E para o fim, aqui está, acaba-se o suspense. Uma pergunta, Susana, de alguém bem conhecido aqui da casa. Vamos aqui ouvir.
Uma pergunta para a Susana Peralta. Qual é o segredo desse penteado que está a deixar o país curioso?
Reconhece a voz, Susana?
Sim, claro. Obrigada, Raquel de Cassis, que pergunta tão simpática! A Raquel é uma querida e eu agradeço a curiosidade. De facto, o meu cabelo suscita regularmente comentários, às vezes mais ou menos jocosos no Twitter. Efetivamente, esta semana eu envolvi-me numa discussão até no Facebook. Voltei ao Facebook, só para veres a importância que o cabelo tem para mim. Voltei ao Facebook para me envolver numa discussão de uma pessoa que estava a comentar o meu cabelo, a dizer que eu tinha um estilo horrendo, que tinha vontade de morrer cada vez que olhava para mim, coitada, também não quero que as pessoas sofram por causa do meu cabelo, pelo que registo a curiosidade positiva da Raquel. Eu vou entrar agora aqui num momento de imprensa cor-de-rosa. Eu tenho uma relação muito estável e muito fiel com a minha cabeleireira, desde 1998 que eu tenho a mesma cabeleireira. Muito raramente traí esta nossa relação. É verdade, dei umas facadinhas no matrimônio apenas quando vivi por períodos prolongados no estrangeiro. Mas mesmo assim tentava, sempre que cá vinha, voltar aos braços da minha Cristina. Não vou dizer o apelido, porque não quero agora que toda a gente acorra atrás dela e que eu fique sem vaga, porque isso seria o fim da minha vida. Há, de facto, uma obsessão. Tenho dinheiro para comprar pentes, tenho dinheiro para comprar escovas, não se preocupem com isso. Se mandarem cá para casa, eu transmito à geração abaixo, que eles usam, mas eu não uso. Trata-se de um cabelo essencialmente muito bem cortado pelas mãos Cristina, mãos tesoura desta minha cabeleireira com quem mantenho relação mais estável e fiel do que a que tenho com o meu marido. É mais antiga. E mais fiel naquela parte dos pensamentos e omissões, isso nunca me ocorreu falhar, trair a minha cabeleireira. E depois, a partir do momento em que tens um corte espetacular, que é o que eu tenho, um corte espetacularmente bem feito.
Mudar para quê? É manter.
É manter, exatamente. Eu posso depois, se quiseres, no teu ministério, posso ser ministra do bom aspeto, das mulheres e homens giros, posso ter essa pasta, acho que me compete. Acho que tenho competência para isso, sinceramente, para ser uma espécie de style. Não sei este nome qualquer.
Eu não sei, genuinely, como é que se diz.
Eu não sei como é que se diz, mas mais um género de influencer de estilo do povo português e de nós finalmente cumprirmos este ideal de nos tornarmos num grande Portugal super sexy e giro.
Eu gosto muito do teu cabelo, Susana Peralta, e os nossos quatro ases também, e muita gente, e é uma questão de estilo, lá está, e fica-te muito bem.
Obrigada, senhora primeira-ministra.
Ficam aqui estas perguntas dos ouvintes. Hoje fomos a temas bastante diversos. Já sabe, pode enviar as suas perguntas, desafios, provocações também, como viu a Susana Peralta e também os nossos outros ases, Luísa Galcão, Maria Jorge Fernandes e João Marques de Almeida. Estão aqui para responder, não têm medo nenhum de responder a essas provocações. foradobralho@observador.pt, sempre para esse e-mail e estamos depois sempre também à sexta-feira na Jogada da Semana.