Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
A força da natureza impôs-se e as tempestades praticamente eclipsaram a campanha eleitoral. A discussão nesta reta final rumo às presidenciais do próximo domingo, 8 de fevereiro, foi se devia ou não haver eleições. A pergunta também para a jogada da semana, na segunda parte do Fora do Baralho, com os quatro ases da análise política, Jorge Fernandes, Luísa Aguiar Conraria, Nuno Garoupa e Susana Peralta. Vamos tentar fazer o balanço possível de uma campanha, no mínimo, bizarra e com o país, com as populações viradas do avesso. Tens, a propósito, nesta primeira parte, Susana, duas cartas de espadas para dois membros do governo, desde logo o primeiro-ministro, pela forma como reagiu à tragédia logo no primeiro Conselho de Ministros extraordinário.
O nosso sentimento e as nossas condolências para com as famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perderem a vida.
Foram estas as palavras iniciais de Luís Montenegro no domingo passado, sendo que esta quinta-feira, depois de um outro Conselho de Ministros, Luís Montenegro, logo nas primeiras palavras, foi mais empático e mais solidário com as populações. Tentou, de alguma maneira, emendar a mão. Conseguiu, Susana?
Não, não conseguiu nada emendar a mão. Ele, de resto, na primeira declaração, também apresentou condolências. Eu não percebi muito bem qual é que era o objetivo desta expressão, aqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida. Porque se é um eufemismo, é extremamente infeliz. Ou seja, morreram pessoas. Nós somos todos adultos, este país é adulto, aparentemente o governo não é, na gestão de uma crise deste gênero, e não é só o governo que não é, também os serviços da proteção civil, etc. Parece que nada funciona. Mas seja como for, nós somos adultos e, portanto, morreram pessoas e eu acho que nós estamos todos preparados para ouvir o primeiro-ministro falar de mortes. Essa é uma opção, é que isto tenha sido eufemismo. E se for um eufemismo, é infantilizante e é francamente patético. A outra opção, que também me ocorre, porque às vezes é algo que acontece frequentemente ao primeiro-ministro, é tentar tornar frases que podiam ser muito simples, uns floreados, andar à volta, quase parece aquelas figuras de sketch que querem falar caro, o que também seria péssimo, sobretudo num momento destes, realmente trágico. Depois, obviamente, quem mete os pés pelas mãos, porque ao tentar ou a opção do eufemismo, que é má, ou a opção de tentar tornar uma frase um bocadinho floreada, que também é péssima, acaba por meter os pés pelas mãos e falar das pessoas que não evitaram a trágica consequência de morrerem. Obviamente que isto não foi de maneira nenhuma intencional da parte do primeiro-ministro, mas é completamente trágico, neste momento, que ele esteja a atribuir, através destas palavras, a responsabilidade da morte aos desgraçados que foram apanhados por uma tempestade, para as quais os especialistas concorrem no diagnóstico que não houve avisos suficientes e depois também daquilo que eu tenho ouvido os especialistas a falar disto, há um grande problema. Aliás, devo dizer que isso foi agora mesmo na conferência de imprensa que estávamos a ouvir em direto da proteção civil, que estão a dizer às pessoas para agirem com segurança, para salvaguardar os bens. Aquilo que eu tenho ouvido, a generalidade dos especialistas que têm passado nos meios de comunicação social, é que este tipo de ação tem que ser muito mais dirigida, é dizer às pessoas, em determinadas freguesias, às vezes mesmo em determinadas ruas, o que é que têm que fazer concretamente. E portanto, esta completa falta de jeito do primeiro-ministro acaba por atribuir as culpas de quem morreu aos próprios mortos. Tem lá tanta gente de comunicação metida nos gabinetes e depois não tem uns guiões de comunicação de crise, eu acho isso verdadeiramente patético. E só para terminar, relativamente ao ministro Castro Almeida, quando ele fala do ordenado de janeiro e que as pessoas façam estender o ordenado de janeiro antes de chegarem os apoios do governo, pois já agora, os apoios eram 1000 € ou eram 1000 € vezes 12, estou a arredondar. Imagina as pessoas em situação de grande estresse, de não saberem se vão conseguir reparar as casas, comprar tudo o que avariou, etc. Não percebem muito bem se vão receber 1000 ou 12.000 €, estou a arredondar, é absurdo.
Afinal são 12 mil.
Afinal são 12 mil, exato. Mas como é que isso não foi comunicado com toda a clareza desde o início? Onde é que esta gente tem a cabeça? E a ideia peregrina de que as pessoas vão usar o ordenado. Ora o ordenado, em princípio, para a maior parte das pessoas ou para uma parte substancial da população, serve para as despesas correntes, não serve para despesas extraordinárias. E é patético, outra vez, peço desculpa, eu hoje estou mesmo pessimista, que o ministro da Economia não percebe nem da economia, nem de economia, para dizer uma coisa destas.
Vanessa, se eu me lembro corretamente, eu estive fora aqui uns dias, portanto, posso ter apanhado mal uma notícia, a verdade é que a primeira publicação do governo diz que é um mês.
Sim, que era esse valor a dividir por 12, mas depois houve um esclarecimento que afinal é a multiplicar por 12. Portanto, não são 1000 €, são 12.900.
Eles podem lhe ter chamado um esclarecimento, mas não foi um esclarecimento, foi uma correção àquilo que estava escrito. Ou seja, não foi um lapsus linguae do ministro, foi o que eles escreveram. Depois corrigiram. Podem lhe chamar esclarecimento, claro, mas foi uma correção.
Tens razão, o Isto tem razão.
Sim, na verdade, o valor inicial errado foi adiantado pelo Ministério do Trabalho e depois foi corrigido pelo gabinete do primeiro-ministro. Vamos avançar para uma outra carta que também tem que ver ainda com o mau tempo, lançada aqui pelo Nuno Garoupa. Já ia trocar aqui os apelidos. Nuno, é para o Presidente da República, que sugeriu uma comissão técnica independente para avaliar a gestão desta crise e os estragos provocados pelas intempéries.
Efetivamente. Aliás, eu queria dizer, porque muitas vezes tenho sido aqui bastante crítico do Presidente da República, que nesta matéria eu considero que o Presidente da República esteve bastante melhor do que o Primeiro-Ministro e a Ministra da Administração Interna. Portanto, nesse sentido, acho que esteve muitos furos acima daquilo que é o desempenho do Governo nesta crise e tendo em conta que é um presidente em final de mandato, não teria tantas razões pra ter tido o envolvimento que teve. Parece-me que aí há que assinalar esse ponto e há que assinalar esta proposta apenas para dizer que parece óbvia, mas também para lembrar que a crise e as consequências de tudo isso não acabam no dia em que isto acaba. Porque nós também já tivemos uma iniciativa semelhante e bem pensada quando foi a dos incêndios de 2017 e 2018, uma comissão técnica independente que fez um grande relatório sobre o que é que estava mal e depois nunca mais ninguém pegou naquilo. Cada vez que há um incêndio no verão, lá vem alguém dizer que no papel fizeram-se umas tantas medidas. Mas a questão aqui é: não é só os políticos. Nós estamos numa fase que culpamos os políticos, eles é que são os bandidos que não fazem, eles não trabalham, eles deixam o Estado chegar a este estado. Mas também há um grande papel aqui, um grande falhanço, quer da sociedade civil, quer da comunicação social, que quando nós estamos nestas épocas, ninguém quer saber onde é que estão essas comissões, ninguém quer saber onde é que estão esses planos, ninguém quer saber o que é que foi feito. Só voltamos a falar do assunto quando há outro desastre. E portanto, a proposta do Presidente da República merece da minha parte copas hoje, mas aqui como aviso à sociedade civil, à comunicação social. Espero que desta vez não façam o mesmo que fizeram nos últimos 10 anos, que quando as coisas acontecem, "ai meu Deus", e depois passa rua o assunto e o assunto morre até o "ai meu Deus" seguinte.
Na prática, até lançaste aqui várias cartas, uma de copas para o presidente e outras mais negativas também. Luís Aguiar Conraria, vamos agora sair aqui um pouco do mau tempo. Na segunda parte, na jogada da semana, já vamos voltar a propósito da campanha eleitoral e das presidenciais do próximo domingo, mas queres falar aqui da Iniciativa Liberal, porque consideras que o partido tentou espalhar desinformação a propósito das denúncias de assédio.
E por isso merecem os meus paus e, portanto, o meu naipe aqui é paus. Eu queria aqui rapidamente relatar três notícias. Vou começar por lembrar que quando rebentou o escândalo, a determinada altura, insinuam que a Inês Bichão, por onde quer que passe, faz queixas e se queixa de assédio sexual. Era uma forma de dizer que o problema era dela e que ela já tinha o hábito de levantar essa questão, insinuando então que seriam falsidades. E depois há uma notícia de há duas semanas no DN, onde a jornalista, neste caso a Fernanda Câncio, foi investigar esses rumores. E portanto, obviamente, em off, disseram-lhe quem é que eram os tais envolvidos que teriam sido acusados, e ela foi investigar e não encontrou acusação nenhuma. E, portanto, o título da notícia, que é um título que resume corretamente a notícia, diz: "Cotrim exortou jornalistas a procurar outras queixas de assédio. O DN investigou e nada encontrou." Isso foi há duas semanas. Entretanto, na semana passada, ou aliás, no início desta semana, alguém há de ter soprado uma notícia semelhante ou aqui alguma coisa para algum jornalista do Observador, neste caso ao Luís Rosa, que faz um título de notícia que é: "Inês Bichão relatou perseguição em 2025, Ministério Público arquivou o inquérito." Isto dá a entender, mais uma vez, que a senhora anda a fazer queixas, e que depois foi arquivado o inquérito. Uma pessoa vai ver a notícia com cuidado, não se deixando ficar pelo título. Aqui o título é altamente enganador. E uma pessoa lê a notícia e percebe que não há notícia nenhuma. Isto trata-se de um caso em que ela esteve no supermercado, em que havia um homem que estava a apontar o telemóvel pra ela e constantemente a chocar com ela. Os próprios seguranças do supermercado repararam nisso e chamaram o homem à parte, e por aí fora. E, na verdade, ela não apresentou queixa nenhuma. Portanto, aqui a única notícia razoável seria... Aliás, nem sequer há notícia aqui, na minha opinião. Mas claramente é mais uma notícia construída para pôr em causa a honestidade de Inês Bichão. E finalmente, temos a notícia que rebentou acho que ontem ou anteontem, em que ficamos a saber que a Iniciativa Liberal, afinal, sabe de denúncias internas de assédio sexual. E, portanto, quando andou a desmentir e a dizer que não tinham conhecimento de nada, talvez formalmente não tivessem mentido, porque estas queixas não eram relativas a Cotrim, mas claramente deram a entender o contrário, deram a entender que não sabiam de nada. E aliás, aquela publicação da Inês Bichão, aquela que depois veio cá pra fora, que foi publicada no Instagram em privado, falava em Cotrim, mas falava em mais três nomes. E na altura, começou-se a falar que aquilo era um problema da Iniciativa Liberal e que na Iniciativa Liberal havia aqueles problemas de assédio. Portanto, aqueles desmentidos que fizeram, na verdade, mais não foram do que defletirem a verdade e esconderem a verdade. E digamos que esconder a verdade relatando apenas factos corretos é uma forma de mentir, dizendo meias-verdades Aliás, por isso é que nos tribunais americanos, quando se faz aquele juramento, se jura dizer a verdade e depois se acrescenta: "E toda a verdade". E ele não fez esta segunda parte do "e toda a verdade", pelo contrário, propositadamente omitiu. E, portanto, merecem uma condenação muito forte.
E a verdade é que tens pouco tempo, Jorge Fernandes, agora pra carta que queres lançar de espadas. Pedro Sánchez merece espadas. Não é a primeira vez que tens cartas negativas para o primeiro-ministro espanhol pela legalização extraordinária de imigrantes.
O problema não seria a legalização em si. Isto é como em tudo. A democracia é a forma, acima de tudo. Eu teria aqui uma série de coisas pra dizer, mas como já tenho pouco tempo. O que o Pedro Sánchez está a fazer é uma coisa absolutamente evidente pra quem esteja a seguir a política espanhola. Ele está a seguir uma estratégia bem-sucedida, de resto, mais bem-sucedida do que o PS português, mas é uma estratégia análoga ao doutor Costa e ao doutor Santos Silva, porque o Sánchez tem toda aquela retórica anti extrema-direita, mas, na verdade, o que o Sánchez quer é o Vox o mais forte possível, porque quanto mais forte estiver o Vox, maiores dificuldades terá o PP em formar o governo. A leitura sobre clivagens na política mostram que a ativação de uma ponta da clivagem, isto é, alguém que esteja fortemente anti-imigração, a melhor maneira pra ativar politicamente essas pessoas e mobilizá-las é fazer uma política fortemente pró-imigração. Mas isso não é uma política só fortemente pró-imigração. Esta manobra tem exatamente a intenção de atirar gasolina pra fogueira. E há aqui um problema, na minha opinião, que é o problema central de tudo isto, é que Sánchez tem um problema fortíssimo de legitimidade. Ele não tem legitimidade política pra fazer isto por um motivo absolutamente evidente. Ele não vai passar esta medida pelo Parlamento, porque sabe que se passasse pelo Parlamento, o Parlamento chumbaria esta medida. Portanto, ele decidiu fazer isto por decreto, porque sabe, e é público, todos os partidos já se pronunciaram, e portanto, ele teria, na melhor das hipóteses, uma minoria curta, muito curta, eventualmente o Podemos, o Sumar, uma minoria muito curta. O Parlamento, que é a sede da soberania popular, está contra isto e ele está a fazer isto contra o Parlamento e contra a soberania popular. Isto é absolutamente evidente. Ele quer tornar-se uma espécie de farol moral da esquerda, não só em Espanha, mas agora também internacionalmente. E o problema disto é que isto vai acabar muito mal, infelizmente, porque ele está só a pensar nele, no curtíssimo prazo e nem sequer está pensando no partido dele, nem muito menos no país.
Mais cartas negativas nesta primeira parte do Fora do Baralho. Vamos na segunda parte, o balanço que se faz da campanha possível e também das consequências do mau tempo político adentro. Jogada da semana no Fora do Baralho, com a Susana Peralta, o Jorge Fernandes, o Nuno Garoupa e o Luís Aguiar Conraria. Estamos no último dia de campanha eleitoral para as presidenciais, a meio de uma catástrofe natural que está a assolar o país. Luís, perante uma campanha que quase não existiu, esta campanha oficial, que avaliação é que fazes da postura presidencial dos candidatos, André Ventura e António José Seguro, perante esta catástrofe e o desafio que há de cair em cima de quem for eleito, tendo em conta que os próximos anos vão ser de recuperação?
Começando pelo fim, na verdade, não acho que seja nenhum desafio de especial. O desafio é pro governo, não é pro presidente da República. Resposta mais curta e clara, não é possível.
Marcelo Rebelo de Sousa indicava esta semana que o próximo presidente ia ter esse desafio: presidente, governo e Parlamento.
Certo, ele também tinha o desafio de garantir que os fundos do PRR seriam aplicados muito bem e com muita transparência, e obviamente que não tem competências pra isso. Portanto, qualquer ação que ele tenha feito foi basicamente irrelevante. A sério, aqui estamos a misturar poderes presidenciais com poderes executivos. Obviamente que isso se trata de um assunto para o executivo. Ele poderá fazer alguns discursos e não muito mais, seja lá quem for. Mas em relação à tua primeira parte da pergunta, que é como é que estiveram os candidatos, de fato, estão numa situação muito difícil. Aqui custa-me um bocado criticá-los, porque obviamente são candidatos, têm umas eleições aqui à porta e se não aparecem, que é na minha opinião o que deviam ter feito, que era ter-se abstido completamente de aparecer nestas situações. Se não aparecem, vão parecer distantes e obviamente que a ideia é que não querem saber de nós. E, por outro lado, se aparecem, é difícil aparecer sem estarem a fazer demagogia e algum tipo de populismo, porque, lá está, na verdade, não têm competências nenhumas nisto. Eu diria que nisto pareceu-me que André Ventura foi mais demagogo e mais populista do que António José Seguro, mas acho que nenhum excedeu o Tendo Ventura estado um bocadinho pior, na minha opinião, acho que também não se deu o razoável. Esteve dentro dos limites de uma situação que obviamente é muito difícil e os próprios políticos em campanha não sabem o que fazer.
Jorge, adiar as eleições em todo o país e não só-
Desculpa, Vanessa. Queria só acrescentar uma coisa ao que o Luís disse, porque eu acho que Ventura esteve realmente mais sóbrio do que é costume e eu acho que ele próprio tem consciência disso, tanto que a sua insistência em adiar as eleições, quanto a mim, é precisamente porque ele percebe que esta campanha não foi o seu hábito de campanha. Apesar de eu concordar com o Luís, que o Seguro esteve melhor no terreno, a falar com as associações de empresários, com os autarcas, etc., mas ainda assim eu acho que o próprio Ventura reconhece que isto não foi exatamente o seu terreno ideal.
E foi André Ventura que insistiu, e até continua a insistir, nessa ideia de adiar as eleições em todo o país e não só nos municípios em estado de calamidade, que esses sim podem decidir fazê-lo e alguns vão mesmo a votos só no domingo seguinte, dia 15. Jorge, teria sido melhor, como pediu André Ventura, arranjar-se uma solução criativa, embora a lei eleitoral impeça esse adiamento geral?
Eu acho que só no domingo à noite é que saberemos se faria ou não sentido adiar as eleições. Saberemos com toda a certeza. Na minha opinião, neste momento, com a informação que temos, acho que dever-se-ia ter adiado as eleições. A questão legal, como todos sabemos, é um tigre de papel. Se houver um enorme terremoto em Lisboa no dia de reflexão ou na última sexta-feira de campanha, é evidente que as eleições são suspensas e são enviadas para a semana seguinte ou para o mês seguinte. Portanto, a questão legal é evidente, tal como Ventura disse, e Ventura tendo muitos defeitos, a estupidez ou ser burro não é propriamente um deles. Quer dizer, havendo maiorias políticas no Parlamento, etc., é sempre possível fazer tudo. Na minha opinião, qual é o problema de tudo isto? O dia das eleições tem uma certa solenidade. Há todo um ritual, os rituais contam, e uma bela parte do país está a viver momentos de grandes dificuldades e não quer sequer ouvir falar em eleições. Eu ouvi algumas pessoas fazerem uma analogia com o Covid. Bem, a diferença no Covid é que houve tempo, meses, na verdade, de antecedência, sabíamos a situação em que estávamos e foi possível preparar urnas e locais de voto. Foi possível uma série de coisas, a própria sensibilização da população, etc. E depois, há aqui outra questão que eu ouvi muitas vezes, e ouvi várias pessoas a comentar na televisão, que no fundo é a ideia de que isto está tudo decidido, portanto vamos é acabar com isto rapidamente, porque já sabemos quem é que vai ganhar. E eu, que acho que sou um democrata até ao último osso mais pequenino do meu corpo, eu acredito na forma e acho que todos os portugueses deveriam ter a oportunidade de participar em igualdade de circunstâncias nas eleições. E na verdade, eu acho que quem tem mais a ganhar com as eleições manterem-se este domingo é Ventura, precisamente. Por um lado, Seguro já estava a lutar fortemente com a ideia de desmobilização, porque há uma ideia mais ou menos geral, da qual eu partilho, de resto, de que Seguro vai ganhar. Eu acho que isto é um dado adquirido neste momento. E portanto, ele já estava com um problema fortíssimo de desmobilização do seu campo. A juntar a isto, agora, uma abstenção que vai ser altíssima, é evidente, ninguém pensa que naqueles 60 e tal concelhos que estamos a falar, as pessoas vão estar preocupadíssimas com as eleições, especialmente umas eleições que não são disputadas no verdadeiro sentido da palavra. Já sabemos que o vencedor será antecipadamente. E portanto, sob esse ponto de vista, é bastante provável que Ventura consiga, de ponto de vista percentual, aproximar-se, por exemplo, dos 40%, o que simbolicamente é importante. Por outro lado, Ventura ganha na mesma, porque e vamos pensar, sair um bocadinho de Lisboa e dos estúdios de televisão. A ideia de que existe um abandono, existem portugueses de primeira e de segunda, vai alimentar ainda mais a narrativa do Chega. E portanto, eu não consigo entender qual é o benefício de mantermos as eleições este fim de semana, considerando as circunstâncias em que o país está, e aparentemente, pelas notícias que estão a correr, amanhã teremos mais chuva, mais problemas meteorológicos. Mais uma vez, acabo como comecei. Eu acho que só domingo à noite, quando tivermos os resultados, é que poderemos perceber se realmente fazia ou não sentido adiar as eleições. Não acho que Seguro perca, mas pode ter um certo susto com o resultado final.
Com este sentimento aqui evidenciado pelo Jorge, de parte do país, metade do país, mais ou menos, votada ao abandono, a sentir-se desta forma, Luís, faria sentido aqui adiar, isso sim, a votação de domingo?
Sim, estou de acordo com a primeira parte que o Jorge disse. Quanto a previsões, sobre se isso beneficia um candidato ou outro, eu não sou o mais prudente. Não quer dizer que o Jorge seja imprudente. Esta questão não tem importância nenhuma. Mas de facto não consigo ter opinião forte sobre isso. É verdade que no domingo já terei uma opinião mais forte, mas nem sequer essa é garantida, seja que é correta. Mas em relação à questão do ser proibido, não é proibido. Em lado nenhum da lei eleitoral diz que é proibido fazer isto. O que a lei eleitoral não prevê é esta situação, que é uma coisa diferente. Prevê situações em que se pode adiar as eleições e não prevê esta situação. Uma coisa é dizer: "É proibido fazer isto", outra coisa é não se lembrarem disto, que é o que se passou. E é evidente que se houvesse consenso para adiar as eleições, que era possível adiá-las. Até porque vamos admitir que é proibido, que não é, mas vamos admitir que é, não existe nenhuma pena prevista e não havendo nenhuma pena prevista, não aconteceria nada. Se todos os agentes políticos estivessem de acordo em adiar uma semana as eleições, ninguém vai preso E obviamente que as eleições daqui a uma semana não seriam inválidas, não se iria invalidar a eleição para o presidente e ser necessário fazer umas eleições todas de novo por causa desse adiamento de uma semana. Portanto, esta coisa de dizer que é proibido, a mim não me convence minimamente. Estou como o Jorge, se houver consenso político, claro que é possível. Se lá tivesse uma linha a dizer "é proibido", aí concordo que seria mais complicado, mas essa proibição não existe. E depois o Jorge falou no Covid. E já que estamos a falar de proibições e de coisas ilegais, é bom lembrar que há cinco anos, quando estávamos na situação de Covid, aí, sim, fez-se uma coisa que foi absurdamente ilegal, que foi mandar todas as pessoas que tinham aquelas suspeitas longínquas de ter Covid, como por exemplo, por contactarem com um trabalhador que estava diagnosticado Covid, impedi-los de votar. Houve centenas de milhares de pessoas há cinco anos que foram impedidas de votar. Isso sim, foi tremendamente ilegal, como aliás se viu nas eleições seguintes, quando se pediu um parecer à Procuradoria-Geral da República, que obviamente que disse que não se podia proibir as pessoas de votar. Portanto, há cinco anos, sim, houve consenso político para fazer uma coisa claramente inconstitucional e que todos eles sabiam que era inconstitucional. Não há ninguém no seu perfeito juízo que não saiba que impedir pessoas de votar numa eleição, e o voto é o que de mais sagrado há numa democracia, que era ilegal. E portanto, acho que sim, que é perfeitamente possível adiar as eleições. E já agora, se isso tivesse sido decidido com antecedência, então aí teria sido possível. Mas isso eu admito que já é mais difícil e mais rebuscado. Mas o ideal era os candidatos terem ficado em casa uma semana, terem sido suspendidas as campanhas e adiar tudo uma semana. Assim tinha-se evitado esta demagogia de estarem os candidatos à Presidência da República a resolver os problemas das populações, que obviamente não resolvem nada.
E aqui estamos no último dia de campanha eleitoral. A campanha seguiu, as eleições são no domingo em quase todo o país. Nuno Garoupa, também estás aqui do lado do Luís e do Jorge no que toca a esse adiamento que poderia ter sido possível ou não?
A mim parece-me evidente que não havendo consenso, não pode haver adiamento. Quer dizer, o que o Jorge e o Luís disseram que se tivesse havido consenso, obviamente que esse adiamento era possível. E, portanto, as questões jurídicas e constitucionais são desculpas em Portugal, sempre. Não é só agora, são sempre desculpas, porque obviamente, se os partidos estiverem de acordo, as coisas fazem-se. Agora aqui, talvez ao contrário do que estava a dizer o Jorge, eu acho que pode não ser muito claro, não é neste claro, e provavelmente até à noite eleitoral não vai ser claro se era vantajoso para Ventura ou para Seguro, ou mais para Seguro ou mais para Ventura, o adiamento das eleições. Portanto, a tática não é clara. Agora, para mim é claro para quem não era vantajoso adiar as eleições, que é para o governo. E o governo aqui é que tem o papel fundamental, porque o governo nestas eleições tem dois problemas. Primeiro, não transformar estas eleições num referendo à inépcia que o governo demonstrou durante estas duas semanas. E, portanto, adiando as eleições, esse referendo tornava-se mais provável. E segundo, ele tem um objetivo muito claro nas eleições. Ventura não pode ter dois milhões de votos, porque se Ventura tiver mais votos que Luís Montenegro, Ventura vai se declarar o líder da direita. E isso é mais provável que não aconteça este domingo, se houver muita abstenção. Portanto, é do interesse do governo favorecer uma abstenção massiva para que mesmo que Ventura tenha 35 ou 40%, fique muito abaixo de dois milhões de votos. E portanto, desse ponto de vista, pareceu-me desde o princípio que o problema aqui não era tanto o que é que Ventura e Seguro opinavam de adiar ou não adiar as eleições, é o governo. E o governo, o PSD e o CDS não querem adiar as eleições, porque do ponto de vista da tática deles, não é vantajoso. A partir desse momento, não há condições para adiar as eleições e as coisas irão seguir o seu curso até domingo à noite.
Susana, havendo eleições, há de facto este risco de uma maior desmobilização e de uma maior abstenção?
Não, isso é evidente que como... Bem, atenção, há municípios onde as eleições vão ser adiadas. Neste momento, acho que já há três que formalizaram esse pedido junto da CNEC.
Sim, e depois há outras freguesias, algumas secções de voto.
Como aliás acontece em muitos atos eleitorais, há adiamentos por diferentes razões. Portanto, eu estou a contar que nos sítios onde é mais difícil as pessoas irem votar, que essas eleições sejam adiadas para lhes dar a oportunidade de participar na semana seguinte. Agora, de todo modo, quer dizer, tendo em conta os constrangimentos nos quais estamos a viver, é um dos dados mais conhecidos da literatura sobre abstenção, é que as intempéries, a chuva, desde logo, a própria chuva, mesmo chuva normal, por assim dizer, que não é o que nos está a acontecer agora, é um fator que conduz à abstenção Há centenas de artigos, de estudos empíricos que mostram isso em todo o mundo, em todas as eleições.
Mas esse risco pode potencializar e poder ser mais.
Não consigo mesmo prever, não sei. Eu também estou totalmente agnóstica.
Mas alinhas nesta tese do Nuno Garoupa sobre o governo, que o governo também não queria mais eleições?
Mais ou menos. Sim, por um lado eu percebo que o governo não queira, mas por outro lado não é muito claro. O governo não está nesta corrida. O governo, aliás, declarou-se neutro relativamente à escolha dos dois candidatos. Eu percebo a ideia de que dar gás ao Ventura é mau para o governo, porque o Ventura depois vai reivindicar.
Mas sobre adiar eleições, Luís Montenegro disse que o governo, que esteve também no terreno, considera que há condições para na maioria dos locais, que os constrangimentos eram superáveis e que devia haver eleição.
Havia aqui um caminho intermédio, já agora, que infelizmente em Portugal nunca se tem a imaginação para promover a participação eleitoral, que era, por exemplo, ter uma maior capilaridade de secções de voto, ou seja, levar secções de voto nos sítios mais acidentados, pôr as secções de voto mais perto das pessoas, ter horários alargados, por exemplo. Ou seja, há maneiras de promover a participação eleitoral em circunstâncias destas, que não implicam necessariamente adiar uma semana. E de facto, aqui o problema em Portugal é que nós temos péssima imaginação, andamos sempre muito preocupados com a abstenção, obviamente que agora são circunstâncias excepcionais, mas nós andamos sempre muito preocupados, mas depois nunca fazemos aquilo que se faz noutros países, que é, por exemplo, votar noutro dia. Isto era mais em geral para outras eleições, mas nesta certamente que era possível alargar os horários e ter mais secções de voto, ir mais perto das populações mais acidentadas, promover, por exemplo, meios de transporte, que não podiam ser obviamente organizados pelas candidaturas, tinham que ser pelas juntas de freguesia, devidamente aprovado pela CNE, etc., supervisionado, para promover a participação eleitoral. Nada disso está a ser discutido. Eu devo dizer que tenho muita dificuldade em alinhar-me com o Jorge e dizer que seria totalmente desejável adiar as eleições. Não tenho assim muita certeza, mas eu inclino-me para manter ao máximo a normalidade e prever e acolher as situações de exceção necessárias. Agora, claro que há aqui um problema também, que é, e isso é mau para o Seguro, que é as pessoas que vão votar passada uma semana, em face do resultado. Partindo do princípio que há uma enorme probabilidade, muito elevada, de que realmente o Seguro ganhe estas eleições, que isso ainda piora a mobilização para o Seguro, no sentido em que as pessoas uma semana depois vão dizer: "De todas as maneiras, o homem já ganhou, não vale a pena." E aqui há algum apelo a isso.
Pode acontecer o contrário.
Pode acontecer também o contrário, tens razão.
De repente fica muito equilibrado agora e depois as pessoas mobilizam-se todas para votar no Seguro.
É, sendo que provavelmente vão ser poucas também. Mas sim, tens razão, Luís. Não sabemos, temos também de ser agnósticos aí.
Há aqui ainda, de facto, várias incógnitas, tendo em conta que é uma situação realmente diferente e bizarra nestas eleições presidenciais. De resto, e ainda a propósito da campanha, Nuno Garoupa, uma fotografia que foi publicada pelo jornal Público, que não queres deixar passar em branco também.
Não queria deixar passar em branco, não tanto pelo episódio da fotografia, porque evidentemente já sabemos que a fotografia tinha uma legenda que não correspondia à realidade e que depois isso causou uma imensa consternação, quer primeiro à esquerda, que utilizou a nossa fotografia para atacar Ventura, quer à direita, depois para defender Ventura.
É André Ventura a cumprimentar uma bombeira.
Supostamente a bombeira a não cumprimentar André Ventura.
Mas não é isso que diz a legenda. A legenda só diz que não havia sorrisos. A legenda não diz que a bombeira não cumprimenta.
Eu não quero falar disso. O que eu quero falar é que isto é semelhante ao que aconteceu ao ministro Fernando Alexandre e que as coisas podem ter muitas razões para acontecer. Portanto, eu não quero dizer que isto aconteceu por ser uma manipulação a favor ou contra seja quem for. Agora, quando acontecem estas coisas, e nós já vimos que isto aconteceu na BBC, no New York Times e noutros canais de comunicação social, o que acontece é que há depois uma averiguação interna para se saber por que isso aconteceu, por que foi feito um erro desta maneira e como é que se pode tomar medidas internas para que esses erros não voltem a ocorrer. E o que acontece, quer no caso do ministro Fernando Alexandre, quer neste caso, é que os órgãos de comunicação social que são visados ou não respondem, ou não assumem, ou fazem comunicados patéticos, como fez a Lusa sobre este assunto. E portanto, de facto, há uma enorme falta de autocrítica e de capacidade de dizer: "Ok, ocorreu um erro, por razões que não deviam ocorrer e, portanto, vamos tomar medidas para que não voltem a ocorrer." O que eu queria avisar não era a notícia em si, é a falta de autocrítica por parte da comunicação social quando estas coisas ocorrem.
Susana, estavas aqui já com o semi-trunfo, se quiseres ainda concretizar.
Lá está, porque de facto a fotografia circulou enfatizando o facto de a bombeira não ter cumprimentado o André Ventura, o que é mentira, ela cumprimentou. Agora, o que diz a legenda, diz simplesmente que André Ventura não foi recebido com sorrisos em toda a parte, algo assim. E de facto, mesmo na fotografia em que se vê a bombeira em questão a cumprimentar o André Ventura, que não está no Público, mas está depois naquele site Contraprova, de facto a bombeira não estava a sorrir. Ou seja, eu acho que apesar de tudo não foi o Público que disse a bombeira não cumprimentou. E tanto que já agora, a fotografia escolhida pelo Público para a edição impressa e para a edição online são diferentes e na edição online nem sequer aparece esta questão dos cumprimentos, aparece apenas o André Ventura no quartel dos bombeiros. Eu sou um bocadinho menos crítica do jornal.
Agora posso eu semi-trunfar a Susana?
Força.
Porque de facto eu não acho que a fotografia em si tenha mal nenhum. Publicas a fotografia, tudo bem. Agora, a partir do momento em que o jornal se apercebe que há uma interpretação errada da fotografia, não custa nada pôr uma mensagenzinha cá fora a dizer: "A intenção da fotografia não foi esta e estão a interpretá-la de forma errada." Só isso. Não custa nada. O jornal objetivamente permitiu que se fizesse desinformação com a fotografia dele. Eu quase que escrevi um post também a elogiar a bombeira por não ter cumprimentado o Ventura. É mentira, por acaso até achei mal que ela não tivesse cumprimentado.
É aqui uma polêmica que pode ter passado um pouco ao lado, tendo em conta o mau tempo e aquilo por que estão a passar as pessoas, e uma fotografia, como sabemos, é a captação de um instante, mas facilmente os ouvintes encontrarão tudo sobre esta polêmica com a fotografia em que se vê André Ventura a cumprimentar uma bombeira. Vêm aí mais umas eleições, ninguém esperava que com o país e as populações a atravessarem esta catástrofe provocada por um comboio de tempestades. Domingo, 8 de fevereiro, a democracia vai funcionar. Em alguns locais, só uma semana depois é que as pessoas vão poder votar, mas a maior parte do país vai mesmo a votos e na segunda-feira teremos Fora do Baralho Extra no rescaldo eleitoral, depois das 19h. Eu sou a Vanessa Cruz. Até lá.