Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Boa tarde. Chegamos ao Gabinete de Crise, uma parceria do Observador com a Universidade Nova de Lisboa para avaliar o estado da pandemia e a forma como Portugal e o resto do mundo estão a enfrentar a doença. Os nossos especialistas são a professora da Escola Nacional de Saúde Pública, Sónia Dias, já em linha e à distância, como ainda convém. Olá, boa tarde, Sónia.

Olá, muito boa tarde, Carla.

Boa tarde também ao Pedro Pita Barros, professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Pedro, bem-vindo.

Obrigado, Carla. Boa tarde.

A convidada da segunda parte é a professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Ana Margarida Barreto. Com ela vamos analisar as estratégias de comunicação das autoridades de saúde e do poder nas várias fases da pandemia. Estamos ou não a passar a mensagem correta neste momento de desconfinamento? Mas para já, arrancamos com a ordem de trabalhos desta semana. Começamos sempre este gabinete de crise com um número que marca a semana. Sónia Dias, qual é o seu número?

O meu número esta semana é o 62%, que se refere à redução do número de doentes internados nas unidades de cuidados intensivos em relação ao pico deste indicador registado em abril, e também uma tendência verificada, de igual forma, no número de doentes internados em outros serviços. Apesar de estarmos ainda expectantes, pois ainda não decorreram os dias suficientes para termos dados concretos e avaliar de forma mais conclusiva o impacto do desconfinamento, há dados que já nos começam a apontar para que a situação continue controlada. Ou seja, o tal famoso R, que continua ligeiramente abaixo de um em todo o país, e diminuíram de fato os internamentos, como referido, e os óbitos também. É, sim, necessário colocar a atenção na gestão das próximas fases de desconfinamento. A próxima é já na segunda-feira. Na verdade, à medida que as pessoas vão regressando à normalidade possível, é fundamental manter o controle da transmissão, reduzindo-a tanto quanto possível. Se pudesse só realçar ainda mais um aspecto relativamente à razão porque escolhi este número, a taxa de redução dos internamentos, é porque também indica um alívio gradual dos serviços de saúde, que é tão importante para a retoma dos cuidados a outras doenças não Covid. Estes dados podem assim aumentar a confiança dos portugueses e incentivar o seu retorno aos cuidados, nomeadamente no que toca a situações não relacionadas com Covid e é um aspecto muito relevante, sendo urgente continuar a dar atenção a outras causas importantes de morbilidade e mortalidade. E mesmo para terminar, só dizer que há um trabalho a fazer. É importante que se reforce os benefícios das pessoas se reaproximarem dos serviços e os nossos dados mostram-nos que até agora uma em quatro pessoas que precisavam de consulta neste período decidiu não ir. E mais preocupante foram realmente os idosos e as pessoas com morbilidade múltipla, ou seja, aqueles que também provavelmente precisam de mais cuidados.

Ou seja, este número da redução dos cuidados intensivos é o número da semana, é também uma nota positiva e desafios que vêm a seguir. E o número do Pedro Pita Barros, qual é?

Esta semana escolhi um número também ligado à comunicação. E o número é 94%. 94% dos portugueses utilizam a televisão para ver notícias, para ter informação sobre a pandemia. Isso foi encontrado numa amostra de um estudo que estivemos a fazer de comparação internacional. E Portugal é, dentro dos sete países que foram comparados, aquele em que as pessoas mais procuram informação. Curiosamente, em todos os países, a TV é sempre a primeira fonte de informação, seguida de buscas de internet e depois alguma distância às redes sociais. E qualquer que seja o meio de comunicação que nós olhemos, em Portugal é onde mais se utiliza esse meio de comunicação. Portanto, nós temos tido uma preocupação, enquanto portugueses, de estar informados sobre a pandemia, refletida nesta forte presença da televisão como meio de comunicação e forte presença dos espectadores do outro lado a verem o que está a ser comunicado.

E ao contrário do que até podíamos pensar, quer dizer que continuam a procurar a televisão e não as redes sociais para se informarem. É um dado interessante, Pedro.

Exatamente. E mais curioso ainda é, nós podíamos pensar que os jovens utilizariam mais as buscas de internet ou as redes sociais como fonte de informação, mas não é verdade. Para termos um número como 94% no global, nós temos que ver que os próprios jovens fazem muita utilização da televisão. Por exemplo, na faixa dos 18 aos 24 anos, 95% deles diz seguir a televisão como fonte de informação. Que é exatamente o mesmo número de pessoas que na faixa dos 55 aos 64 diz seguir a televisão. Nas redes sociais, dos 18 aos 24 anos, dois terços dizem utilizar as buscas de internet e redes sociais. Claro, essa porcentagem é um pouquinho menor em faixas etárias mais velhas, nos 45 aos 54 anos e nos 55 aos 64. Cerca de 55% das pessoas utiliza buscas de internet e apenas 40% redes sociais. Portanto, é certo que os jovens usam mais redes sociais como fonte de informação do que os mais idosos, que é aquilo que nós esperaríamos. O que talvez seja mais surpreendente é que, mesmo assim, a principal fonte de informação, ou aquela fonte a que vão mais, acaba por ser a televisão.

É a televisão como meio ainda muito transversal. Ora bem, esta é uma semana importante de balanços. O país prepara-se para entrar na segunda fase do desconfinamento, com mais serviços abertos, mais comércio, mais atividade econômica e também, naturalmente, mais riscos. Pedro, no programa anterior, tinha dito que a partir desta última quarta-feira já íamos começar a ter uma ideia mais certa do resultado da primeira fase da abertura do país. Que conclusões é que já consegue tirar?

Neste momento, com as informações que vamos tendo Parece estar uma evolução relativamente controlada. Isto é, dá uma sensação que houve, e parece haver ainda, um certo receio das pessoas quanto a se ter antecipado demais o desconfinamento, de ter sido cedo, e como tal, acabaram por ter precauções, que são essencialmente as mesmas que tinham durante o período do confinamento. Portanto, muita gente continua a funcionar em teletrabalho, as saídas continuam a ser feitas com muito cuidado e isso fez com que não tenha havido uma explosão de novos casos. E isto mostra a importância que o comportamento individual acaba por ter para este bom resultado coletivo. É também verdade, provavelmente, que nós começamos também ter alguns bons exemplos de outros países que nos dão alento para continuar este tipo de comportamento. Vemos que nos países que começaram mais cedo com a abertura das escolas, não houve grandes problemas, como na Dinamarca, o que pode significar que afinal as crianças não são grandes difusores de contágio e teremos que avaliar como é que corre aqui. Na Alemanha houve ameaças de pequenos surtos, mas estão em fase onde parecem ter a situação mais ou menos controlada e na Áustria também está a correr tudo bem. E, portanto, neste sentido, nós temos sinais internos e externos de que está a correr menos mal. É claro que estamos com a esperança de chegar às notícias da Nova Zelândia, que estando numa fase mais avançada, já está a regressar aos restaurantes, incluindo em jantares de pequenos grupos. O que nós temos de particular neste momento em Portugal a ter atenção? Acho que vamos ter que ter atenção a surtos que possam surgir aqui e ali e controlá-los com alguma rapidez. Se nós olharmos apenas para os números em bruto, o que nós vemos é que, como tem sido registado, até nas próprias conferências de imprensa da Direção-Geral de Saúde, passámos de uma média de cerca de 300 e poucos novos casos confirmados por dia com Covid, na primeira semana de desconfinamento, para esta segunda semana, até ontem, termos menos de 200 novos casos confirmados em média por dia, o que é uma evolução relativamente, eu não queria chamar simpática, mas pelo menos uma boa evolução.

Mas é animadora quando seria, se calhar, nesta semana que estamos agora a atravessar, aquela onde poderia começar a subir, não é?

Exatamente, é muito animadora. É preciso também pensar que seria muito pouco razoável esperar que se chegasse a zero casos logo nestes primeiros tempos. E, portanto, esta é uma evolução que eu poderia dizer que é mesmo bastante boa, sobretudo porque alguns destes valores aqui de novos casos estão impelados por surtos que têm sido relativamente esporádicos em pontos particulares. E, portanto, não parece ser uma difusão geral. E, portanto, nesse sentido, nós vemos uma adesão das pessoas a um determinado tipo de comportamentos, da utilização de máscaras, cuidado com a distância física, manter o teletrabalho sempre que for possível, ter os cuidados com a higiene das mãos e desinfeções de locais, e parece estar a resultar razoavelmente bem.

Sónia, também tem esta ideia? O Pedro chama aqui a atenção para o facto de independentemente das diretivas, são as próprias pessoas que estão a tomar a iniciativa de se protegerem mais, começaram antes da declaração do estado de emergência e agora também ainda não estão a sair. É uma ideia que também partilha?

Sim, eu acho que é um aspecto muito interessante. É que no momento em que deixamos de ter uma medida clara e restritiva, estamos, no fundo, neste momento, a promover mais o sentido de comunidade e de responsabilidade. Ou seja, passamos do momento em que se forçava as pessoas a ficar em casa para o momento atual, em que funcionamos mais no formato de recomendações. E isto leva-nos depois, provavelmente mais daqui a um pouco, a falarmos também da importância da comunicação e da informação como forma de motivação e incentivo a manterem as regras necessárias de proteção.

Mas isto quer dizer também que foi, apesar de tudo, mais fácil irmos pra casa do que está a ser agora tirarem-nos de casa, olhando para a experiência destes últimos 15 dias.

Eu, por acaso, acho que estão as duas estratégias a funcionar muito bem, porque, na verdade, nós estamos a mostrar que estamos a criar uma cultura de confiança, em que as populações acreditam nas sugestões das autoridades de saúde, dos especialistas, confiam no governo e aceitam que é indispensável seguir recomendações. Vemos isso, por exemplo, quando a grande maioria das pessoas acatou a utilização das máscaras nos transportes públicos. Vemos também como foi feita a gestão, por exemplo, do distanciamento físico e só saindo de casa quando necessário e em casos de possibilidade de exercer a sua atividade profissional em teletrabalho, como dizia o Pedro, assim se manteve. Portanto, eu acho que os portugueses estão, de facto, a conseguir gerir muito bem estas diferentes fases da evolução e do desconfinamento.

Resta saber agora se a chuva, que também houve nos últimos dias, não ajudou em parte a isso também, e se com o bom tempo não vamos começar a ter a tentação de acharmos que a regra é para os outros e a exceção é para nós. Esta evolução recente também pode ter a ver com algum elemento de não se ter dissipado completamente o medo ou receio que existiu do contágio, que eu acho que foi uma das características desta pandemia, foi uma consciencialização dos riscos de uma forma que não era habitual até agora. E, portanto, nós temos aqui provavelmente um conjunto de fatores que pode ter feito uma alteração nos nossos comportamentos, que talvez seja permanente, talvez não seja. Tenho a impressão que o verdadeiro teste vai ser quando tivermos um fim de semana de sol e calor e houver a tentação de ir às praias.

É já este. E entretanto há um outro fator, e o Pedro nos últimos gabinetes de crise foi chamando a atenção para ele, que é o fator económico. Estamos com vários setores da sociedade que pararam completamente, muitos ainda não vão retomar, e as situações já são mesmo muito difíceis em muitas famílias. Como é que se vai pedir a estas pessoas que não arrisquem se precisarem de sair para sobreviver?

Eu posso talvez acrescentar Há aqui um equilíbrio não muito fácil, em que as pessoas percebam que a pandemia se mantém, que há um risco real de poder ser contagiado e, ainda mais importante, de contagiar outros, e estes outros que podem estar em maior risco de desenvolver complicações severas, etc. Mas há também depois um balanço a fazer com que este risco não seja demasiado exagerado ou fatalista. É este equilíbrio que é necessário, porque também como o Pedro até realçava, se todos pensarmos que o risco não existe já, as pessoas provavelmente vão baixar a guarda e podemos começar a assistir a uma diminuição das precauções e de comportamentos de maior exposição, que também não queremos que contrarie a expectativa de um desconfinamento mais rápido e de sucesso. É este equilíbrio sempre difícil de atingir, e por isso também escolhemos o foco na comunicação, porque é também muito importante esta gestão da percepção de risco e na adoção de comportamentos.

E já lá vamos mesmo, Pedro, para concluir. Também nesta linha do equilíbrio.

Nesta linha de equilíbrio, nós vamos ter na próxima semana, com a abertura da restauração, provavelmente o retomar de uma atividade econômica que foi muito afetada pelo encerramento geral da economia, que é os restaurantes, bares, pequenos estabelecimentos. E vai ser importante para eles reabrirem, para retomarem alguma atividade. E vai ser também importante como forma de nós percebermos se os nossos comportamentos, seja do lado da restauração a organizar-se, seja do lado agora das pessoas a utilizarem, se vai ser compatível com o retomar da sua atividade econômica, com a segurança sanitária e com a ausência de contágio nesses sítios. A próxima semana, depois dessas duas semanas, vai ser mais uma semana de teste a estes alargamentos. Se nós pensarmos que outros países já começaram a ter os restaurantes a funcionar sem terem tido picos inesperados, então podemos ter aqui alguma esperança. Alerto apenas que às vezes o pico surge de forma completamente aleatória, fortuita e com alguma importância. Basta pensar o que sucedeu na Coreia do Sul recentemente, em que apenas uma pessoa, indo a três bares, criou um pequeno surto, que criou algum alarme e levou ao encerramento novamente dos bares em Seul.

E, portanto, sempre alerta. Temos que gerir. Agora, na ordem de trabalhos do gabinete de crise, vamos desfazer mitos . Uma mentira repetida muitas vezes não passa a ser verdade. Pedro Pita Barros, é perigoso ter animais de estimação por causa desta doença?

Não. Esse é um mito que às vezes tem sido apresentado, que é que os animais de estimação mais comuns, como cães e gatos, transmitem a Covid-19. Não é verdade, neste momento, com a atual informação, não há motivo de preocupação com os animais domésticos. Só em muitos poucos animais foi detetado o vírus, o que nem sequer foi tido como sendo sinal de que eles tivessem a infecção. Podia simplesmente estarem com vestígios de vírus. Portanto, quem tem cães ou gatos deve, sobretudo, se preocupar com a transmissão entre pessoas e com a possibilidade eventualmente do vírus ficar pousado pelos animais e não necessariamente com eles terem uma infecção, pelo menos com base em toda a informação que nós temos hoje. Aliás, se nós olharmos para os milhões de pessoas que já foram infectadas e olharmos para o número de animais de estimação que foram infectados, ter dois ou três casos quando temos centenas de milhares de pessoas e milhões de pessoas infectadas, não é um motivo de preocupação. Ainda assim, as recomendações dos centros de controle de doenças, europeus, americanos, etc, são para nós termos os mesmos cuidados com os animais de estimação que temos com as pessoas quanto a evitar contágio, por exemplo, distanciamento físico na rua. De qualquer forma, a mensagem é: os donos dos animais de estimação podem estar descansados, ainda que se devam manter cuidadosos nesta parte do distanciamento físico na rua.

Muito bem. Sónia Dias, o uso da máscara é só para quem tem medo?

Sim, esse foi o mito que escolhi, que é o que usar máscara é sinal de ser fraco ou de ter medo de se contaminar. E gostaria de reforçar que é exatamente o contrário. O uso da máscara não deve ser associado à fraqueza ou um sinal de saúde de estado frágil, mas pelo contrário, usar máscara é um sinal e um símbolo de força, de responsabilidade e de proteção coletiva, de respeito para com os outros. É importante que se transmita esta mensagem, que se usarmos a máscara, estamos fundamentalmente a proteger o outro e aqueles que nos rodeiam. E se todos o fizermos, estamos a proteger-nos uns aos outros. Este é um aspecto importante, porque temos, apesar dos sinais de elevada utilização, alguns grupos que estão a aderir com menos facilidade, exatamente por causa desta associação de máscara à vulnerabilidade, ou seja, uma pessoa considera que por tendo um estado de saúde robusto, não tem necessidade de a usar.

Ou seja, não é perigoso continuar a ter animais domésticos e usar máscara não é só para fraquinhos. Regressamos já a seguir com notas de esperança e também com a professora Ana Margarida Barreto. Até já.

Olá, sou o Bruno Roseira, sou editor de esporte do Observador. Estou a trabalhar em casa como o resto da redação, mas continuamos empenhados em dar os melhores conteúdos, decodificar o que se passa por cá e lá fora, no futebol, no esporte, na economia, na saúde ou na ciência. As luvas que falamos hoje são diferentes, as estatísticas são outras e muitas informações ainda merecem VAR, mas informar com rigor e isenção é sempre a melhor tática. Fazer jornalismo de qualidade tem um custo e é por isso que o seu apoio é tão importante pra nós, pra que possamos continuar a fazer da pergunta e da análise o melhor caminho pro gol. Se quer juntar-se à nossa missão de serviço público, torne-se assinante do Observador.

Segunda parte do Gabinete de Crise, o programa que analisa o estado do combate à Covid-19. Estamos com Sónia Dias e Pedro Pita Barros e daqui a pouco com a professora Ana Margarida Barreto, mas antes de mais, uma nota de esperança. O clima é de incerteza, é de preocupação, mas também já vimos que todos os dias há sinais que dão confiança. Qual é, Sónia Dias, a nota que quer destacar hoje?

Eu destacava também o ponto até já mencionado, porque de facto temos uma boa notícia relativamente aos primeiros países europeus que iniciaram o desconfinamento e que apresentam um reduzido impacto nos contágios. Noruega, Áustria, República Checa apresentam atualmente menores taxas de crescimento médio do número de novos casos. E acho que é bom basearmos nestes exemplos e nas lições que se podem retirar. Temos aprendido muito e hoje sabemos que temos, por exemplo, uma maior capacidade de testar e controlar a transmissão e que esta transmissão é crucial nesta fase de desconfinamento. Só fazendo um último ponto, para que, de facto, se temos alguma coisa também a aprender com estas experiências, é que o comportamento que adotamos neste desconfinamento é determinante na contenção da propensão da doença e é tão importante como foi também na fase de confinamento.

Pedro Pita Barros, qual é o seu sinal de otimismo desta semana?

O sinal de otimismo está na rapidez com que têm sido tratadas situações de focos locais que têm sido detectadas em lares e em hostels. Nós sabemos que são pontos fracos em termos de contágio, onde é improvável que surjam pequenos surtos, e temos visto que noutros países, a parte dos lares de pessoas de idade mais avançada, de idosos, tem sido sempre um problema. Ora, em Portugal, não tem fugido a esse padrão, mas temos conseguido atuar rapidamente e apesar de haver sempre notícias a cada dois, três dias de mais uma situação de foco local, vemos que há uma intervenção rápida. E, portanto, é uma nota de esperança porque permite socorrer em tempo útil quem está a precisar e, ao mesmo tempo, evita o contágio ao resto das pessoas. Mostra um sistema ativo de vigilância que está a agir depressa e isso vai ser essencial durante os próximos dias, se calhar semanas, meses, provavelmente, neste processo de lidar com a pandemia. E, portanto, a esperança é que temos um sistema que tem rapidez de decisão suficiente pra quando encontra um problema, o resolver antes que ele se torne um problema mais grave.

Isso é importante agora para as próximas semanas de desconfinamento. Convocamos então a convidada desta semana, Ana Margarida Barreto, professora de Marketing, Comportamento do Consumidor e Comunicação Estratégica na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Bem-vinda.

Olá, bom dia, boa tarde.

Olá, boa tarde. Não podemos ignorar, Ana Margarida Barreto, que o combate à pandemia também se faz através da informação e através de campanhas para mudanças de comportamentos. Como é que diria que nas diversas fases que temos atravessado, essas estratégias têm sido utilizadas em Portugal?

Eu diria que numa primeira fase, o principal objetivo da Direção Geral de Saúde era incentivar a mudança de comportamento, sobretudo com base no medo, a chamada atenção para o risco de contágio. Pelo menos só assim se explica porque é que na conferência de imprensa onde foram confirmados dois casos de infecção, nós tivemos a Ministra da Saúde, a diretora da DGS, o Secretário de Estado da Saúde e ainda o diretor do Instituto Ricardo Jorge.

Portanto, dando muito peso e muito valor àquele momento.

Exatamente. Muito para, penso eu, chamar a atenção e provocar algum receio. Uma mensagem um pouco assente no medo. Hoje, tenho sérias dúvidas se manter o foco no estado de guerra, que a dada altura se comentou, poderá surtir os efeitos desejados ou os mesmos efeitos produzidos inicialmente, na medida em que esta metáfora os efeitos são limitados no tempo e os portugueses também não estão todos a sentir da mesma forma os efeitos do isolamento social ou não estão a sentir todos da mesma forma este estado de guerra.

Portanto, esta metáfora da guerra, e ouvimos, sobretudo por parte do poder político, a ideia de estarmos num combate, de o inimigo invisível, o risco de morrer na praia. Tivemos assim muitas expressões. Justifica-se, entende-se numa fase inicial de choque, mas depois essa ideia vai banalizando, digamos assim.

E até porque a dada altura, esta metáfora acabou por ser desviada para explicar o estado da economia portuguesa. Já não era tanto relativamente à saúde pública, e quando o ministro das Finanças referiu que a nossa economia estava a ser atingida como em tempos de guerra, já estávamos a desviar o sentido.

Portanto, foi uma metáfora que se arrastou muito. Hoje, e agora que estamos em fase de desconfinamento, como é que vê a forma como isso está a ser comunicado, a mensagem, como falávamos na primeira parte do Gabinete de Crise?

Hoje, numa fase mais de estagnação, eu penso que é imprescindível continuar a apostar na comunicação, nas campanhas, adaptando-as aos diferentes públicos, mas focando as atuais necessidades ou desafios. E penso que, neste momento, um dos principais desafios consiste em perceber se os portugueses estão a lidar, ou estão a receber e a usar a informação recebida relativamente ao vírus da mesma forma como no início desta crise. Mas, sobretudo, perceber qual é a percepção de risco, se sofreu alterações, porque o facto de nós não termos vivido aquele pico da pandemia, e o facto também de terem sido levantadas as medidas mais extremas, pode ter uma influência negativa. Aqui entramos no campo das hipóteses, teríamos que averiguar. Pode ter uma influência na forma como as pessoas percepcionam o risco de virem a ser afetadas por esta doença e de afetar outras pessoas. Portanto, aqui o importante é compreender e gerir essa percepção de risco. Nem subestimar através das campanhas de comunicação, mas também não exagerar.

Portanto, estamos aqui num ponto de equilíbrio em que é preciso tirar as pessoas de casa e pôr a economia a funcionar, por um lado, mas ao mesmo tempo não arriscar. Como é que se transmitem duas mensagens que, à primeira vista, numa leitura mais superficial, até podem ser contraditórias. Que estratégias é que se pode usar para esta situação?

Qualquer campanha de comunicação, para ser eficaz, tem que compreender muito bem como é que o receptor reage à mensagem. E curiosamente, em abril de 2020, uma equipa de investigadores da Universidade de Cambridge tentou compreender, fez um estudo, avaliou 10 países, por acaso Portugal não estava incluído, para tentar perceber o que está por trás dessa percepção de risco, quais são os preditores que contribuem para essa noção. A amostra continha participantes do Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha, Espanha, Itália, Suécia, Japão, Coreia do Sul, México e não sei se entretanto já me escapou algum. As conclusões a que chegaram foram que os valores individualistas e pró-sociais, assim como a experiência pessoal com o vírus, eram os três principais fatores da construção dessa percepção de risco. E, em seguida, o passa palavra, ou amplificação social, por meio de amigos e familiares. Portanto, uma mensagem, parece-me, assumindo que a amostra portuguesa iria apresentar resultados em consonância com estes observados, assente no sentido comunitário, nos valores pró-sociais, possivelmente nesta fase, poderá produzir melhores resultados do que uma campanha informativa assente no medo, como inicialmente parece-me que foi a estratégia adotada.

E essa estratégia, agora chamamos também os outros especialistas do gabinete. Pedro Pita Barros, tivemos de facto esta metáfora da guerra, do medo. Houve uma espécie de mobilização nacional, havia um objetivo comum, que era baixar a curva. Falámos muito nisso também aqui no programa. Parece que parte desse desígnio nacional se foi perdendo ou ainda percebemos todos por que os nossos comportamentos são decisivos?

Julgo que as pessoas têm e criaram a noção de que o comportamento de cada uma contribui pro coletivo como um todo. Agora, a metáfora da guerra foi usada e, como a Ana Margarida diz, é uma coisa que se esgota ao fim de algum tempo. Na verdade, eu devo dizer que nunca fui fã dessa metáfora e nunca a usei, conscientemente pelo menos, porque me parece desproporcional a partir de dada altura continuar nisso. E de alguma forma, o que nós temos vindo a ver em alguns seguimentos que temos feito das preocupações dos portugueses, com um conjunto de enquetes que é feito a cada duas, três semanas, encontramos que conforme temos vindo a avançar, o grau de preocupação com a pandemia tem baixado um pouco. Está em nível elevado, as pessoas continuam a procurar informação, têm este comportamento de resguardo, mas a preocupação em si está a baixar. E dá-me a sensação que até mesmo a própria atenção que vai sendo dada às conferências de imprensa diárias que têm sido feitas, vai diminuindo de alguma forma. Aliás, eu brincava há dois dias que a crise Centeno, que ocorreu nos últimos dois dias, que ocupou as aberturas dos telejornais, era o sinal primeiro de que a preocupação com a pandemia estava, de facto, a diminuir.

Isso foi sintomático.

As pessoas estão a começar a entrar numa certa habituação, que até este momento não foi desregramento em termos de comportamento, o que pode ser algo que não é necessariamente mau. Aliás, eu gostava de perguntar à Ana Margarida se haverá algum momento ótimo em que as conferências de imprensa de comunicação deixem de ser diárias e passem, por exemplo, a ser semanais.

Muito bem.

Eu pergunto isso porque na Alemanha fizeram isso, passaram recentemente a semanal.

Muito bem, vamos então a essa questão. Também tinha essa questão dos briefings. Ana Margarida, há um momento em que elas já não funcionam como estratégia e como discurso institucional de referência?

Bom, estando nós a entrar numa nova fase E havendo já alguns sinais, não digo de desinteresse, mas pelo menos as pessoas acabam por adotar um comportamento talvez um pouco mais passivo em relação à recolha de informação, poderá fazer sentido mudar a frequência desses pontos de situação, de briefings diários para semanais, efetivamente. Para evitar chegarmos ao ponto em que já ninguém ou poucos assistem a isso e acabam por entrar numa situação em que são desvalorizados.

Deixam de cumprir a função.

Exato. Para evitar entrarmos nessa fase, se calhar poderia fazer sentido pensar já nessa possibilidade.

Sónia Dias, lembro-me no primeiro gabinete de crise, a Sónia disse que a mensagem, e na altura a ideia era vamos todos recolher. Essa mensagem foi interiorizada pelos portugueses, estava a passar. Agora a mensagem já é mais difusa, porque é: podemos, mas só em determinadas condições, podemos de uma forma, de outra não. Há o risco de, com estas recomendações, às vezes nos perdermos na tradução?

Eu acho que, de facto, as autoridades nacionais, os cientistas, os especialistas e até os órgãos de comunicação social têm feito um enorme esforço depois daquele primeiro impacto da comunicação muito centrada na guerra, etc., como referido. Acho que têm feito um grande esforço para que qualquer cidadão, independentemente até do seu nível de literacia ou grau de escolaridade, conseguir entender as questões principais. E os dados vão nos indicando que, de facto, por exemplo, tal qual como perguntava a colega, a percepção de risco tem baixado do muito grave para um risco moderado, o que nos permite ter alguma confiança de que as pessoas estão a analisar bem a situação, mas também não deixam de ter preocupação e adesão a esses comportamentos protetores. Mas acho que há, de facto, aqui uma grande vantagem e uma lição muito importante que iremos provavelmente ganhar até na prevenção, na gestão e controle de outras doenças. E eu acho que isso é fundamental, porque de facto Portugal é um país que necessita de aumentar os níveis de literacia em saúde e esta tem sido uma experiência que nos permite a todos estar a aprender, mesmo os investigadores, especialistas, a aprender como traduzir conceitos complexos, por exemplo, de epidemiologia ou virologia, de forma que as pessoas consigam entender o principal da doença, dos seus mecanismos de transmissão e até dos seus mecanismos de proteção. E por isso é que eu acho que continuamos a ver, de facto, uma adesão muito grande por parte da população a esses mecanismos. Se pudesse só realçar um aspecto que eu acho que é muito importante. É que nem sempre informar bem assegura que o próprio cidadão ficou bem informado. Parece um pouco redundante, mas é muito importante este aspecto de termos em conta que é importante que as pessoas entendam realmente o que é mais relevante, e aí estou de acordo com os meus colegas, que talvez mais do que a quantidade, neste momento, o que nós precisamos são de mensagens claras e provavelmente uma diminuição diária das conferências.

Ana Maria da Barreto, não sei se concorda com o que a Sónia acabou de dizer, mas às vezes uma sobreexposição pode ser contraproducente e podemos, de alguma forma, estar a chegar a esse ponto de saturação também a nível comunicacional.

Sim, concordo. Não devemos deixar de continuar a comunicar de forma muito clara e positiva, até para as pessoas perceberem quais são os resultados dos seus esforços. E isso as nossas autoridades têm sabido fazer. Independentemente de quem sugeriu, a verdade é que a dada altura, a Direção-Geral de Saúde optou por primeiro apresentar o número de curados e só depois o número de infectados. Isso foi bastante positivo.

E por sugestão do Presidente da República.

Sim.

Sabe bem como é que isto funciona.

É verdade.

Que não é nada especialista em comunicação.

Exato, mas esteve muito bem. E as autoridades nacionais de saúde também estiveram muito bem em mostrar essa flexibilidade e adoção dessa pequena estratégia de mudança de estratégia. Mas, de facto, a mensagem deve continuar a ser simples, não querer dizer demais. Deve haver uma repetição, mas devemos ter também em conta tentar perceber até que ponto é que ela não começa a perder o efeito, a esgotar. E para isso nós temos que observar ou ouvir o recetor, tentar perceber até que ponto continua a acompanhar afincadamente, como inicialmente, esses briefings, esses pontos de situação diários, e se continua a recolher informação da mesma forma como no início, e perceber, no fundo, como já foi aqui referido, como é que ele percepciona o risco, porque a percepção do risco está na base da adoção de novos comportamentos preventivos. Se essa percepção baixar, independentemente do risco não ter baixado Podemos pôr em causa o sucesso das campanhas anteriores e de todos os esforços conseguidos até ao momento.

Ora bem, comunicar bem não é comunicar muito, podemos concluir. Ana Margarida Barreto, muito obrigada por ter vindo ao gabinete de crise. A Sónia Dias e o Pedro Pita Barros vão voltar para a semana, à mesma hora. Até lá aos dois. Despedimo-nos com mais um daqueles momentos que poderiam ser banais, não fossem as redes sociais. Vamos até ao norte de Gales. Profissionais de saúde, trabalhadores da construção civil e funcionários locais foram filmados para a apresentação de um hospital de campanha construído para dar resposta ao novo coronavírus. Foi aí que cantaram um êxito de Simon & Garfunkel e que acabou por receber a aprovação do próprio Paul Simon. O autor norte-americano partilhou o vídeo e disse que esta versão de "Bridge Over Troubled Water" é extraordinária. E é mesmo. Boa tarde e até para a semana.