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Boa tarde. Chegamos ao Gabinete de Crise, uma parceria do Observador com a Universidade Nova de Lisboa para avaliar o impacto da pandemia provocada pelo novo coronavírus e o impacto que o desconfinamento está a ter em Portugal e no resto do mundo. Todas as semanas temos a análise da professora da Escola Nacional de Saúde Pública, Sónia Dias. Boa tarde, Sónia.
Viva, boa tarde, Carla.
Boa tarde também ao Pedro Pita Barros, professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Bem-vindo, Pedro.
Obrigado, boa tarde.
O convidado da segunda parte é o professor de Virologia do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, Ricardo Parreira. Queremos saber até quando vamos ter de manter as regras de afastamento social e o que é isso de termos de aprender a viver com o vírus. Mas fica mais para a frente, porque para já arrancamos com a ordem de trabalhos desta semana. Começamos sempre este gabinete de crise com um número que marca a semana. Pedro Pita Barros quer começar, qual é o seu número?
O meu número desta semana é 21%, que é a percentagem de pessoas que numa sondagem que foi feita numa amostra representativa, em mais um dos estudos da Nova School of Business and Economics, disse que estaria hesitante em tomar uma nova vacina contra a Covid-19.
21%?
21% hesitaria. E que é um número elevado. Sabemos que 75% desta amostra diz que tomaria, mas já estamos habituados a ter taxas de vacinação muito elevadas, acima dos 95% em Portugal. Portanto, o que eu gostaria que esta incerteza que está neste número se dissipasse quando houvesse uma vacina e, sobretudo, que não se transportasse para a vacina habitual da gripe, que deve ser tomada no próximo outono, e que as pessoas mantenham os seus níveis de vacinação. Vai ser importante também para evitar que haja muita gente a necessitar de ir aos serviços de saúde numa altura em que se poderá ter uma chamada segunda vaga da Covid e também protege a saúde de cada um. Portanto, é um número de hesitação que nós devíamos preocupar-nos em não ter.
E consegue-se perceber porquê, enfim, é quase um quarto do universo das pessoas inquiridas. Consegue-se perceber porquê esta hesitação com a vacina?
Sim, consegue-se saber, isto porque foi perguntado o motivo pelo qual tinham esta hesitação e está muito ligado à incerteza sobre a segurança que as vacinas possam ter ou não possam ter. E isso é um aspecto que nos deve preocupar. Portugal tradicionalmente tem sido um país onde há grande confiança nas vacinas e adequadamente há essa confiança. Portanto, seria bom que a Covid agora também não trouxesse incerteza para a vacinação em geral. Daí a importância de nós conseguirmos manter os níveis de vacinação, por decisão voluntária das pessoas e por confiança no processo de vacinação.
Que tem sido assim no plano nacional de vacinação e nas outras vacinas. O número da Sónia Dias, qual é?
O meu desta semana é 20 mil, como o número aproximado de artigos científicos publicados sobre a Covid em todo o mundo. É uma quantidade avassaladora de trabalhos.
Sónia, este número 20 mil desde janeiro?
Sim, aproximadamente, mas eu estava até a dizer que é uma produção de evidência quase viral. A cada minuto temos um novo artigo científico, portanto, este número provavelmente já não estará assim hoje que estamos a falar. E falamos de um quebra-cabeças para a ciência, um vírus que era totalmente desconhecido há seis meses e que tanto impacto teve mundial. Portanto, é natural que com o avanço e a capacidade técnico-científica haja tanta produção. E nunca vimos, provavelmente num curtíssimo espaço de tempo, tantos recursos a serem dedicados a estudar uma só doença e tantos artigos publicados. Mas deve-se realçar que a quantidade nem sempre é sinónimo de qualidade. A maioria dos papers hoje em dia estão a ser publicados sem aquilo que nós chamamos a revisão de pares, ou seja, o sistema que implica que o trabalho antes de ser publicado seja avaliado, criticado e melhorado por outros investigadores especialistas na área. Só que este processo é demasiado exigente e embora assegure qualidade, ele também é demasiado lento para responder às necessidades prementes do conhecimento na atualidade. E então o que se está a verificar é que muitas das vezes a submissão e aceitação de artigos não passa de alguns dias e esta revisão de pares ficou colocada de lado. E vemos que se a maioria dos artigos publicados acrescentam, de facto, conhecimento novo, na verdade, não podemos assegurar que todos tenham a qualidade e o rigor científico necessário. E esta é uma discussão que até no meio académico está cada vez a ganhar mais terreno. Por último, só chamar a atenção, ainda ligado a este tema, que se por um lado os investigadores estão de facto habituados a lidar com dados inconsistentes, com limitações das próprias investigações, com resultados pouco conclusivos ou até contraditórios, e é por essa razão que hoje frequentemente assistimos a reajustamentos dos discursos oficiais, por exemplo, com a questão do uso das máscaras, que foi durante muito tempo discutido se valia ou não a pena a sua utilização. E esta semana ainda o que saiu da Organização Mundial de Saúde, de que não é possível confirmar se há contaminação através da existência do vírus em determinadas superfícies. O que acontece é que para o cidadão comum, tudo isto acaba por ser confuso. Ele não está habituado ao mundo da ciência nem de investigação e de facto o que ele precisa é de uma forma simples, ter a informação concreta e precisa de dados conclusivos sobre o que ele, de facto, precisa de saber e o que ele precisa de fazer em concordância com isso. Mas podemos explorar daqui a pouco, mais um pouco, esta questão, porque talvez estejamos a falar de um impacto não tão positivo quando há informações que são veiculadas em diferentes sentidos E as pessoas até a podem depois considerar, de alguma forma, incoerente.
Vale a pena perceber como é que estes dois campos, o campo científico e acadêmico, e depois o campo midiático, se traduzem na mensagem para o cidadão comum. Pedro, vamos agora fazer um balanço da primeira semana da segunda fase de desconfinamento. Os números que a Direção-Geral de Saúde vai lançando todos os dias mostram-nos o quê em relação à situação atual?
Mostram-nos que estamos a ficar com o país partido em dois. Temos, de um lado, Lisboa, sobretudo, e os concelhos à sua volta, e temos depois o resto do país. Por que eu estou a separar desta forma? Porque a maioria dos novos casos que têm surgido, tem sido no concelho de Lisboa e à sua volta, nos concelhos limites à volta, portanto, na grande área de Lisboa, e mostram que aí há o risco de passarmos a ter um surto não controlado, que depois mais cedo ou mais tarde propagaria ao resto do país. Vai ser preciso agora, nos próximos dias, muita atenção ao que está a passar em Lisboa e, eventualmente, as autoridades de saúde terem que tomar alguma decisão de reverter alguma das medidas restritas a esta área geográfica, se não houver um alinhar novamente com um crescimento que seja compatível com o controle do surto pandémico. E isto é uma novidade, porque até agora nós tínhamos tido uma muito maior uniformidade entre países. Tinha só havido confinamentos parcelados ou cercas sanitárias, como foi chamado, na zona de Ovar e nos Açores. Eram áreas não muito grandes. Quando estamos a falar de Lisboa e concelhos limites, começamos a falar, se calhar, de áreas maiores. Não excluo que possa haver, infelizmente, a necessidade de adotar alguma semelhança com o que está a acontecer em Espanha, em que estão a avançar a diferentes velocidades no desconfinamento entre áreas, onde Madrid e Barcelona estão atrás das outras áreas e se calhar não é por coincidência serem áreas de maior densidade e de maior circulação. Convém também perceber se existe alguma característica particular nestes surtos. Nós sabemos que houve alguns surtos associados com empresas. No entanto, os números que foram divulgados associados com esses surtos não cobrem o total de casos adicionais nesta zona de Lisboa, o que significa que há mais a acontecer do que apenas esses surtos de empresas. Não tivemos nenhuma notícia de surto grande que justificasse novamente estes números em lares, parece que também esteve numa situação controlada. Portanto, temos que perceber o que se sucedeu, se foram situações pontuais ou se foi o abandonar do confinamento e das situações de precaução de uma forma muito mais rápida do que aquilo que seria desejável. Vamos ter que esperar para os próximos dias. O resto do país está aparentemente de parabéns, porque está tudo a correr bem nessa fase.
Está tudo a correr bem. Sónia, quero também fazer uma análise rápida aos números da última semana. Há bons sinais e depois há estes focos que podem causar uma maior preocupação.
Sim, nós já no programa da semana passada tínhamos realçado que de facto as primeiras semanas de desconfinamento tinham tido pouco impacto também porque a maior parte das pessoas tinha decidido continuar em casa. E, portanto, eu penso que é agora do início da semana passada e ainda nesta semana que estamos, de facto, a começar a ver o verdadeiro desconfinamento. E precisamos de perceber qual é que é o impacto, talvez na próxima semana, em meados da próxima semana, começaremos a ter uma realidade mais concreta do impacto deste desconfinamento. Por outro lado, e no seguimento até daquilo que o Pedro estava a dizer, estudos que temos desenvolvido também na Escola Nacional de Saúde Pública têm-nos mostrado que zonas onde há uma habitação mais sobrepovoada e com, por exemplo, maior utilização de transportes públicos sobrelotados e com eventualmente maiores desigualdades, são regiões que podem estar mais vulneráveis e que têm estado mais vulneráveis a este risco. E a área metropolitana de Lisboa tem, de facto, algumas dessas zonas e isto vai no sentido daquilo que o Pedro estava a colocar como eventualmente áreas que vão requerer nos próximos tempos maior atenção.
Sónia, e pegando até naquilo que nos estava a dizer e do número que lançou para este programa, temos algumas informações, algumas indicações que nos podem levar a comportamentos não exatamente seguros, até com mensagens confusas. Que impacto é que isto pode ter também na forma como todos nós gerimos estes dados que nos vão chegando?
Tem essa questão de que, de facto, às vezes há algumas informações que para o cidadão comum podem ser incongruentes e pode levar a que há algum menor crédito ou alguma menor confiança de que faz sentido mesmo adotar algumas medidas, portanto, temos esse risco. Mas é também importante perceber que estamos agora a ter que nos adaptar, provavelmente, a outras medidas mais complexas. E eu até estava aqui a realçar que, por exemplo, nesta questão do desconfinamento, e houve muita discussão, por exemplo, relativamente a se nos devíamos começar a encontrar com familiares, amigos e como é que poderíamos fazer isto em confiança. Eu acho muito interessante que se por acaso, um de nós for a um supermercado e se cruzar com estranhos, provavelmente vai ter sentimentos de maior insegurança e uma reação de necessidade de maior proteção. Enquanto se que, por acaso, nós estivermos a falar de encontros em relações com familiares, amigos ou até colegas de trabalho, os quais já quotidianamente nos cruzávamos, provavelmente este sentimento de insegurança diminui e, portanto, estamos naturalmente com uma reação de maior segurança. E há, provavelmente, aqui também, que eu acho que é importante, um risco na própria avaliação dessa perceção de risco Porque eu até posso ter eventualmente um familiar ou um amigo que, por exemplo, pertence a um grupo que tem estado em maior exposição de risco, por exemplo, um profissional de saúde, etc. E na verdade, eu vou ter menos cautelas com essa pessoa porque a minha relação me parece mais próxima do que teria com alguém que é desconhecido no supermercado e que está em completo confinamento e só sai esporadicamente às compras. E isso é muito interessante ver que estes erros na avaliação e na perceção de risco já aconteceram em outras epidemias, como por exemplo, com o HIV. Portanto, há aqui algumas coisas que nós podemos ir retirando até de lições do que sabemos já de outras epidemias.
Pedro, ouvindo também a si, há esta sensação de incerteza. Conhecemos um pouco melhor o vírus, mas ainda há um longo caminho até conseguirmos viver com ele. Por isso, vamos continuar a ter precauções.
Exatamente. Nós temos neste momento, como já estivemos a falar durante hoje, uma grande incerteza sobre o que é a Covid-19, como é que funciona, como é que se transmite, e mais vale ter precauções do que não ter. E como a Sónia referia, temos aqui às vezes uma dificuldade em perceber, ou pelo menos conseguir passar as mensagens do que a ciência nos vai trazendo. Não só porque às vezes a ciência também tem os seus mecanismos de transmissão da informação, que não são os melhores. Aliás, basta pensar, por exemplo, em toda a discussão que existe à volta do famoso modelo do Imperial College, que aparentemente teve problemas de codificação e, portanto, não estaria inteiramente correto e por não ter sido colocado à discussão pública, como é feito normalmente nos trabalhos científicos, isso só agora é que começou a ser discutido. Mas temos também esta semana, como a Sónia referiu, a questão da transmissão, como é que se transmite, se as superfícies transmitem ou não. Ora, nós não sabemos hoje, pelos vistos, qual é a real importância, mas pelo sim, pelo não, devíamos limpar tudo e manter os critérios de limpeza como se fosse a pior situação possível. E isto por quê? Porque vai ser muito importante para conter contágios em atividades como a restauração, que está agora a abrir e se calhar o pior que lhes podia acontecer era terem que voltar para trás e sobretudo nos transportes públicos, que podem ser uma fonte de transmissão importante. Ligando ao que a Sónia estava a dizer, vale talvez apenas adicionar um ponto que é: mesmo já nesta epidemia, na Covid, um dos factos que tem sido encontrado com regularidade em vários países, é que um dos pontos de transmissão é precisamente o ambiente familiar, onde provavelmente por esse excesso de confiança uns nos outros, inclusive na família alargada e no conjunto de amigos, se tende a ter menor precaução e às vezes começar a ter os focos de infecção. Agora, a solução para isso também não é clara. Porque é verdade que todos nós preferíamos ter grandes certezas, mas mais vale que a ciência vá dizendo o que com honestidade se conheça, do que esteja a cada momento a ditar verdades que vão mudando de um momento para o outro. E também aqui isto ver como se explicar, não é?
Já falamos tanto nisso. Bom, na nossa ordem de trabalhos do gabinete de crise, vamos agora desfazer mitos. Parece mesmo verdade, ou é bom pensar que sim, só que o melhor é ouvir os especialistas. Vamos a isso rapidamente. Sónia Dias, o vírus transmite-se pela picada de mosquitos?
Pois, esse foi o mito que escolhi hoje. É que, de fato, não, aparentemente não se transmite, mas com a chegada do calor e o aproximar-se do verão, o regresso a espaços exteriores que nos estavam interditos e até com a época do aparecimento dos mosquitos, melgas, etc, surgem agora alguns receios de apanhar o vírus por picada de mosquitos e se de fato, este vírus poderá vir a ser transmitido por essa via. A OMS tem veiculado a este respeito de que o novo coronavírus não pode ser transmitido por mosquitos e avança que se tem demonstrado que parece não existir uma grande quantidade de vírus na corrente sanguínea. Ora, para ser transmissível por insetos, implicaria que o inseto depois de picar, o vírus iria no sangue que o inseto recolheu e depois esse sangue seria injetado no indivíduo seguinte. Mas como não parece haver muito vírus no sangue, será muito pouco provável que esse seja transmitido dessa forma. E assim a OMS continua a reforçar que o SARS-CoV-2 transmite-se fundamentalmente, como já sabemos, através do contacto direto com cutículas criadas quando uma pessoa infectada tosse, espirra ou fala.
Ficamos esclarecidos em relação a isso. Pedro Pita Barros, para ir à praia este ano vai ser preciso autorização?
Pois, esse foi o mito que eu escolhi, também em honra aos 24 °C que estão em Lisboa e para a temperatura que está a subir. E, portanto, o verdadeiro teste ao nosso comportamento coletivo vai também ser agora este bom tempo. Mas voltando ao mito, não é verdade. Não é verdade que seja preciso uma autorização explícita para ir à praia. No entanto, vão existir regras, regras baseadas na ideia de uso responsável, que é basicamente respeitar o distanciamento físico. Curiosamente, o uso responsável é algo que nós aceitamos nas telecomunicações no sentido de não fazer downloads excessivos para não nos ser cortada a largura de banda. E aqui vamos ter que fazer algo de semelhante, que é para termos alguma normalidade durante este verão, vamos ter que ter algum distanciamento físico na praia. Se não o tivermos, na praia poderá ser encerrada nessa altura.
Depende de nós, depende de nós, até mesmo.
O nosso comportamento será a chave para que todos possam usufruir do que é allowed.
É possível ir à praia este ano e não é preciso pedir a ninguém, pelo menos para já. E não, o vírus parece que não se transmite pela picada de mosquitos. Regressamos já a seguir com notas de esperança e também com o professor de Virologia, Ricardo Parreira. Até já.
Olá, chamo-me Mariana Fernandes e sou jornalista da seção de desporto do Observador Preparávamos um verão cheio, com o Europeu, com os Jogos Olímpicos. Queríamos informar, contar histórias, explicar. Agora estou em casa, como devemos estar todos, sem futebol, sem basquetebol, sem ouvir gritos de gol e a escrever sobre a pandemia que parou tudo isto. Precisamos agora que seja o nosso adepto. Precisamos que nos ajude a continuar a fazer jornalismo de qualidade, que nos ajude a vencer o jogo mais importante das nossas vidas. Se quer juntar-se à nossa missão de serviço público, torne-se assinante do Observador.
Segunda parte do Gabinete de Crise, o programa que todas as semanas analisa o estado do combate à Covid-19 e o impacto do desconfinamento. Estamos com os professores Sónia Dias e Pedro Pita Barros e daqui a pouco com o professor de Virologia do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa, Ricardo Parreira. Mas antes de mais, uma nota de esperança. A ideia é não entrar em euforia, mas há dados todos os dias que apontam para alguma confiança. Pedro Pita Barros, qual é a nota que quer destacar?
Hoje eu tenho como nota de esperança o podermos utilizar ideias novas para avançarmos neste processo de desconfinamento. O que eu quero dizer com isto? Nos últimos dias, nós vimos que volta e meia temos pequenos surtos em empresas ou em lares, que obrigam a alguma intervenção. E podemos passar a ter ideias inovadoras, como por exemplo, a realização de testes de grupo, que têm sido feitos noutros países, desde os Estados Unidos ao Gana, em que a ideia é muito simples: se eu pegar num grupo de pessoas, digamos 30 pessoas de uma empresa e testá-las todas em grupo pra ver se têm a Covid, se for negativo, sabemos que são todos negativos. Se for positivo, temos que ir testar cada um. Ora, isto permite, com menos testes, no fundo, testar mais gente e perceber qual é a situação. E isto nestas situações de surto em que é importante rapidamente perceber onde atuar, pode ser formas interessantes, até de um modo relativamente descentralizado, de procurar perceber como é que está a evoluir e intervir rapidamente. Gastam-se menos testes, conseguem-se respostas mais rápidas e podemos ter melhor informação e o surgimento destas ideias em vários sítios dá-nos uma esperança de que nós adotando-as, podemos ter um bom controle do que está a acontecer e ter uma intervenção rápida, como tem sido feito até aqui.
E também um pouquinho mais de confiança, não é? Sónia Dias, qual é o seu sinal de otimismo?
A minha nota de esperança desta semana vai pra capacidade que estamos a ter em aprender a viver no que eu chamaria o início da nova normalidade e a tentar conviver em segurança com o vírus. Embora implique um esforço de adaptação, estamos todos a voltar ao trabalho, com as instituições a reabrir, tentando planear férias de verão e fazendo pequenas atividades e pequenos gestos do cotidiano que têm, neste momento, um valor acrescido. Um mergulho no mar, beber um café numa esplanada, estar com familiares, que eram completamente banais, mas que agora se tornaram em pequenos grandes momentos e que são, de facto, muito importantes nesta fase para se aumentar a saúde mental e o nosso bem-estar. Mas isto leva-nos à pergunta, que nestes últimos dias todos provavelmente temos feito, que é: como é que vamos conviver com este vírus e quando é que a pandemia irá terminar? E se isso não acontecer, como é que então vivemos a nossa vida em segurança? Eu trazia-vos talvez como boa notícia que talvez em vez de se falar logo numa vitória clínica epidémica, se possa falar numa vitória social. Há um artigo interessante dos historiadores de John Hopkins, talvez uma das melhores universidades do mundo, que falam que as pandemias normalmente têm dois tipos de final: o epidêmico ou o clínico, que ocorre quando as taxas de incidência ou novos casos e as taxas de mortalidade caem abruptamente, e o social, que no fundo se resume quando a epidemia do medo diminui e as pessoas começam a conviver com segurança com o vírus. E eles salientavam até muitas vezes que quando nós perguntamos quando é que isto vai acabar, na verdade, nós estamos a incidir sobre este tal final social e que o fim muitas das vezes pode ocorrer não porque esta doença foi vencida, mas porque as pessoas se cansam deste modo de pânico. E aqui, seremos então até mais no foro psicológico e social, quase como se fosse: "Eu preciso e mereço poder voltar à minha vida normal."
E isso também é uma forma de combater o vírus. Esta nota de esperança, Sónia, leva-nos já para chamar o nosso convidado desta semana, Ricardo Parreira, professor de Virologia no Instituto de Higiene e Medicina Tropical. Muito boa tarde e muito bem-vindo.
Olá, boa tarde. Muito obrigado o convite.
Vamos pegar nisto que ouvimos aqui pela Sónia Dias. Ajude-nos a perceber o que vai ser o nosso novo normal. Hoje até é o dia do abraço e, portanto, a pergunta até pode ser: quando é que vamos poder abraçar os nossos amigos outra vez?
Isso é complicado de gerir. Não sei bem. Por enquanto, num curto espaço de tempo, seria, eu diria, arriscado fazê-lo.
Mesmo aos nossos familiares mais próximos, aos nossos pais?
Não, vamos lá ver. Nós podemos abraçar, obviamente, as pessoas que estão com-- se estivermos num grupo de pessoas em que a exposição seja mínima, que estejamos todos em casa ainda ou que estejamos em teletrabalho ou que de facto as pessoas respeitem ao máximo as regras de segurança, ou então que está, infelizmente ou felizmente, depende da perspectiva No nosso grupo mais próximo já tivermos sido todos infectados e provavelmente já estamos todos imunes ao vírus, aí pode-se abraçar à vontade. A situação normal, não podemos. Este maio, abril, março deste ano passaram a ser uma nova realidade, não são comparáveis com os dos anos anteriores. E, de facto, o contacto físico é uma coisa muito mediterrânica nos dias que correm, é uma situação, diria, arriscada. Portanto, é preciso ter algum cuidado, porque as pessoas têm que imaginar que qualquer contacto pode ser uma porta de entrada para se exporem ao vírus, e isso é de evitar. Não lhe sei dizer.
Não me sabe dizer quando. Mas mesmo agora nesta segunda fase de desconfinamento, em que já nos convidam a ir aos restaurantes, a fazer alguns passeios e visitar museus. Da mesma forma, vamos ter de nos habituar, por exemplo, a usar a máscara. É bom não ter novos relacionamentos, por exemplo?
É bom, sobretudo, que as pessoas tomem consciência de que nós vivemos, infelizmente, numa nova realidade. E é bom que as pessoas tomem consciência de que o perigo não passou. O pior não passou, o pior está, existe. É uma situação nova e temos que lidar com o vírus e o vírus está disperso por todo lado. Portanto, nós realmente passámos aqui por um período complicado em que apertámos as malhas ao cerco, tentámos fechar ou diminuir a possibilidade de um disparo incontrolado do número de casos que pudesse permitir aos sistemas de saúde ter uma resposta minimamente eficiente. Mas, como se costuma já dizer quase na gíria, lá conseguimos achatar a curva. O número de casos diminuiu, mas este número de casos vai-se estender no tempo e isso não quer dizer que as restrições ao contacto e que o afastamento social e que as etiquetas respiratórias e o evitar partilhar objetos e o uso compulsivo de máscaras sejam coisas que a gente deixe de fazer. São coisas que passaram a fazer parte do nosso dia a dia, eram realidades, provavelmente, não imaginadas há um ano, mas que nós temos que encará-las como uma necessidade ainda dos nossos dias. Portanto, é bom que as pessoas não imaginem que o pior já passou e que a partir de agora podemos todos nos reunir em casa uns dos outros e começar a contactar fisicamente uns com os outros, de uma maneira que fazíamos de uma forma mais próxima há um ano atrás, diria assim. Ou que não se respeite, por exemplo, a utilização das máscaras, sobretudo em lugares fechados, ou que se as pessoas comecem a reunir regularmente e em grandes números, como por exemplo, em eventos desportivos ou coisas desse tipo. Isso é para evitar nos dias que correm. E eu não faço a mínima ideia quanto tempo é que isto irá durar.
Portanto, os latinos que se habituem. Ricardo Pereira, há uma década que a comunidade científica estava a alertar para o risco de enfrentarmos uma pandemia com estes contornos ou com um impacto importante. O que indicava que isso podia acontecer? O que estava a acontecer para que a comunidade científica já chamasse a atenção para este problema?
A comunidade científica, no caso particular destes vírus, houve uma situação epidémica que se iniciou mais uma vez na China por volta do final de 2002, princípio de 2003, e que levou a um vírus muito semelhante a este, que se chama SARS-CoV, o primeiro dos vírus que provoca estes síndromes respiratórios severos agudos, coronavírus que provocam estes síndromes respiratórios agudos severos. E mais uma vez, tal como nesta história, esteve associado a uma possível transmissão de um reservatório animal para o homem. E aquilo que a comunidade científica fez na altura foi, tendo em conta que o hóspede mais provável seriam morcegos, fez um rastreio amplo deste tipo de vírus nas populações naturais de morcegos chineses, no caso em particular. E o que verificou é que a diversidade de vírus era absolutamente inimaginável e que muitos deles apresentavam características muitíssimo próximas dos vírus que vieram a adaptar-se ao homem e a provocar esta epidemia. Na altura, foi possível contê-la. Ainda assim, o vírus dispersou-se muito rapidamente por cerca de 27 países e acabou por matar cerca de 800 pessoas e causar cerca de 8 mil casos, nada comparável com este. Mas voltando ao início, o que nós verificamos é que na natureza existiam vírus muito próximos daquele que depois veio a causar um problema de saúde humana e que esses vírus, sendo-lhes dada essa possibilidade, essa proximidade, essa possibilidade de saltar, como se costuma dizer, a barreira das espécies, portanto, saltar de um morcego para um humano, exista ou não um intermediário pelo meio, isso poderia vir a acontecer. E a comunidade científica o que alertou foi para isso: "Olha, cuidado que existem na natureza vírus que podem, eventualmente, vir a causar problemas no futuro. Portanto, é bom que nós mantenhamos estes rastreios para saber exatamente onde estes vírus estão, quais são os seus reservatórios naturais e vamos tentar descobrir o melhor possível quais são os mecanismos que promovem ou as situações que promovem este salto entre os seus reservatórios naturais e o homem para tentar impedir isto no futuro.
Mas não aconteceu.
E o tempo foi passando e outras coisas se foram tornando mais urgentes e 10 anos depois, ou um pouco mais do que isso, temos exatamente a mesma situação, mas agora com contornos de uma dimensão muito maior. Da outra vez estamos a falar de uma epidemia que infectou oito mil pessoas, desta vez estamos numa pandemia que já infectou muitos milhares mesmo. Milhões, aliás. O caso tem uma dimensão muito mais complexa. Agora, a verdade é certa: fomos todos avisados.
Fomos todos avisados e a verdade é que estamos mesmo a enfrentar uma situação que, pelo menos o comum dos mortais, não estava preparado para enfrentar. Sónia Dias, haverá ambiente para nós, num todo, enquanto sociedade, estejamos disponíveis para aceitar este novo normal sem contacto físico?
Eu acho que é, de facto, importante que mesmo que demore algum tempo, que essa adaptação seja rápida, que não haja a ilusão, por mais que nos apetiça, porque estamos todos muito cansados do confinamento, mas também do impacto que estas medidas tiveram nas restrições das nossas vidas do ponto de vista mais afetivo, econômico, etc. Nós estamos todos muito necessitados de acreditar que, de alguma forma, a pandemia está a terminar. Mas eu acho que, até um bocadinho no sentido daquilo que o Ricardo nos apresentou, é que a ciência não é mágica e que os vírus não tendem a desaparecer. Portanto, a cautela, neste sentido, será uma grande amiga e é bom que estejamos mesmo a aprender a viver em segurança. Por outro lado, também é muito interessante que, não sendo de estranhar, pois este vírus acabou de facto de chegar ao nosso mundo, é muito recente, e o conhecimento para além de estar a ser rápido, ele não é mágico. Sabemos hoje, por exemplo, descrever o vírus, e eu não sou virologista, portanto nem sequer sei fazê-lo, mas há uma série de questões que são essenciais, que continuamos a não ter resposta. Relativamente à questão, por exemplo, de quantos infectados temos. Se nós, por exemplo, não sabemos, de facto, nem estimamos corretamente os números dos infectados assintomáticos, ou seja, aqueles que nunca chegaram a ser testados, também não sabemos, por exemplo, qual é que é a verdadeira taxa de mortalidade e, no fundo, a perigosidade desta doença. Portanto, há aqui, de facto, muita coisa em aberto ainda.
Pita Barros, há muita coisa em aberto, a ciência não é mágica, não nos dá soluções, mas a adaptação, o que vamos ter que fazer pode implicar até uma mudança de paradigma em termos de atividade econômica e de negócios. É porque mudou tudo, de facto, em dois meses.
Pode haver alterações muito profundas e nós já começamos a assistir algumas delas. Vamos ter, provavelmente, alterações das atividades econômicas, mas vamos ter também alterações no nosso próprio funcionamento de sociedade. Por exemplo, como é que nós vamos conciliar agora o respeito pela autonomia individual de cada um e o bem comum geral, nestas regras de confinamento ou não, que vão também depois entroncar com o que acontece nas atividades econômicas. Na parte da economia e das empresas, as empresas vão ter que lidar com três ou quatro aspectos totalmente novos, ou pelo menos, não são totalmente novos, mas com uma pressão que não tinham antes. Por exemplo, toda a questão da segurança no trabalho dos trabalhadores vai passar a ter toda uma outra dimensão, não só em garantir que os locais de trabalho têm as condições para evitar problemas de saúde aos seus trabalhadores, mas também para as empresas terem mecanismos que lhes permitam, de vez em quando, se for necessário, fechar parcelarmente ou totalmente a sua actividade e continuarem a sobreviver. E isso vai trazer necessidades de planeamento e de organização, que vão ser provavelmente muito exigentes, sobretudo para as pequenas e médias empresas que não vão ter estrutura para pensar nesse aspecto. Vai ser uma alteração fundamental. Outra alteração fundamental vai ser toda a parte que tenha a ver com o relacionamento com consumidores, em geral. Tudo o que precise ter a participação das pessoas pode mudar radicalmente. Por exemplo, será que iremos, no caso dos cortes de cabelo, passar a ter modalidades em que passa a ser quem corta a ir à casa das pessoas para evitar a presença em espaços comuns? Poderá suceder. Mas se pensarmos noutro tipo de serviços que são também necessários e que não será possível fazer isso. Se pensarmos num médico dentista, não estamos a ver como é que se poderia ter um dentista a ir a casa das pessoas tratá-las. Quer dizer, conseguimos pensar se pensarmos naquele dentista que tem apenas um alicate e que resolve tudo com um alicate.
Não queremos pensar nisso.
Mas já estamos pronto. Não precisamos pensar nisso. Significa que há muitas atividades que nos envolvem a nós, pessoas, enquanto parte desse serviço, que vão ter que mudar radicalmente. E, portanto, as mudanças que nós vamos ter não vão ser só o teletrabalho como se fala, mas vai ser toda esta outra componente. Também todas as deslocações da sociedade, das atividades econômicas, seja das trabalhadoras deslocarem-se para os seus locais de trabalho através de transportes públicos, como é que isso vai ser lidado, como das próprias pessoas que queiram retomar alguma da sua atividade que era normal, como é que o podem fazer. Vi há poucos dias uma notícia que achei bastante curiosa pela parte de criatividade que tem, creio que foi na Alemanha, arranjaram um cinema ao ar livre em que as pessoas vão de carro e portanto acabam por estar confinadas ao seu carro e acabam por ir ao cinema, que era uma experiência que nós associávamos apenas a um verão quente.
Nos anos 50 nos Estados Unidos. Mas então imaginemos. Sim, Pedro, queres concluir?
Vamos ter provavelmente alguma criatividade a lidar com a criação deste novo normal, tal como temos tido sempre no passado. E aproveitando a oportunidade para fazer uma ou duas perguntas ao Ricardo, se me permite, Carla. Acha que nós temos uma ideia de como é que pode evoluir o vírus no sentido de se tornar mais ou menos benigno, por um lado, e por outro lado, o que nós sabemos do passado? Será que já houve vírus deste gênero que passaram pelas sociedades, que nós não sabemos exatamente o que foi, porque não havia os meios nessa altura, mas será que houve adaptações sociais a essas situações das quais nós possamos aprender alguma coisa hoje? Não sei se ele tem alguma ideia sobre isso, mas conforme vamos falando eu vou chegando a isso.
Muito bem, ajude-nos a perceber isso então, Ricardo.
Vamos lá ver. Eu costumo dizer que a natureza é, enfim, não costumo dizer, está mais do que provado. A natureza é um laboratório supercriativo e a diversidade de vírus que existem na natureza é absolutamente inimaginável. Nos últimos anos, em que as tecnologias nos têm permitido conhecer, de uma forma muito mais abrangente do que conhecíamos até há 10 anos atrás, o que se passa em qualquer nicho ecológico, aquilo que a ciência nos mostra é que a diversidade dentro do mundo dos vírus, entre aspas, tem uma dimensão difícil de quantificar. O que eu quero dizer com isto é que existem, certamente, na natureza, muitos vírus diferentes que nos podem infectar e existirão ou terão já existido, certamente, na história da humanidade, muitas situações em que situações semelhantes a estas poderão ter acontecido, mas que por alguma razão não tiveram as consequências que estas estão a ter. Estes saltos não são muito frequentes, destes vírus dos seus nichos ecológicos normais para o homem não são muito frequentes. Exigem, de facto, circunstâncias especiais e a capacidade dos vírus de se adaptarem ao novo hospedeiro, e isso naturalmente não é favorecido, portanto, tem que haver uma conjugação de vários fatores para acontecer. Agora uma coisa é certa, a gente tem que pensar um bocadinho. Não é preciso ir muito longe, mas nós continuamos ou temos ouvido nos últimos anos falar repetidamente de Ebola. Tivemos uma emergência de Zika que saiu do nada e desapareceu, mas que foi uma emergência de saúde pública reconhecida pela OMS. Temos um vírus semelhante a este, enfim, semelhante no sentido que faz parte do mesmo grupo, que dá origem a uma síndrome respiratória associada ao Médio Oriente e a pessoas que têm relações com o Médio Oriente, que é muitíssimo mais mortal do que este e que pode gerar problemas gravíssimos. O que eu quero dizer com isto? Estes vírus existem, estes vírus estão sistematicamente a infectar os humanos e é preciso que nós tenhamos muitíssimo cuidado e aprendamos um bocadinho com as experiências passadas, porque isto não vai parar por aqui. Infelizmente. Sim.
Não vai parar por aqui. O nosso tempo, infelizmente, é que já parou, mas Ricardo Parreira, muito obrigada por ter vindo ao Gabinete de Crise. Esses exemplos ajudam-nos a pensar um bocado à distância sobre o que já aconteceu e os avisos que já vinham chegando. Não posso dizer que tínhamos ficado muito animados, mas muito obrigada por aquilo que nos disse. A Sónia Dias e o Pedro Pita Barros vão, como sempre, voltar para a semana, à mesma hora. Nós terminamos no Brasil. A COVID-19 é já a primeira causa de mortalidade no país e o que temos assistido é uma estratégia mais ou menos errática de combate à doença. Há decisores políticos de um lado, há comunidade científica do outro e depois há a criatividade artística, venha de onde vier. Édo Lemos, em quarentena, como quase todos nós, gravou um samba destes tempos que mostra bem o que é a fome da liberdade. Quando o Corona passar. E vai passar. Boa tarde, até para a semana. Esse samba é raiz, é madeira, que você vai se jogar de primeira. Esse refrão vai pegar na veia. E esse vírus vai virar areia. Chora, Cavaco! Vamos cantar, rapaziada! Quando o Corona passar, eu vou pro bar. Beber cerveja e cantar pra celebrar. Espero te encontrar, te abraçar. Nós vamos comemorar a vida. Esse meu samba é raiz, é madeira. Que você vai se jogar de primeira. Esse refrão vai pegar na veia. E esse vírus vai virar areia. Esse meu samba é raiz, é madeira. Que você vai se jogar de primeira. Esse refrão vai pegar na veia. E esse vírus vai virar areia.