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Bem-vindo ao Gabinete de Crise. Estamos numa parceria do Observador com a Universidade Nova de Lisboa para todas as semanas analisarmos a evolução da pandemia em Portugal. E um dia depois do país ficar a conhecer o plano de desconfinamento, vamos estar daqui a pouco com a diretora da Escola Nacional de Saúde Pública. Carla Nunes tem ido às reuniões no Infarmed apresentar as percepções sociais da pandemia através do Barómetro Covid-19. Vai ser na segunda parte deste gabinete de crise. Para já, vamos ao encontro da Sónia Dias, coordenadora do Centro de Investigação da Escola Nacional de Saúde Pública, e do Pedro Pita Barros, professor na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Bem-vindos, está na hora dos números. A Sónia e o Pedro escolhem o número da semana. Sónia, começamos por si. Boa tarde, qual é o seu número?
Boa tarde, Carla. O meu número é 20 milhões, que se refere aproximadamente à verba que o governo aprovou pra testagem em massa nas escolas. Nós já fomos falando várias vezes sobre o enorme impacto que o confinamento tem na educação, quer na dimensão do desenvolvimento e da aprendizagem, mas também na parte mais social e econômica e até de saúde mental. Quando os milhares de professores e alunos se veem obrigados a substituir o ensino presencial pelo ensino online e com todas as situações, provavelmente a gravar muito mais as desigualdades nestas áreas. E, por outro lado, também porque muitos pais têm que suspender a atividade profissional pra poderem dar apoio às crianças e aos jovens ou até conjugá-la em situações muitas das vezes difíceis com o teletrabalho. E, portanto, considerando este impacto significativo que o fecho das escolas teve e tendo sido expectável que a reabertura das escolas fosse uma das primeiras medidas incluídas neste tal plano de desconfinamento, era imperativo que começassem a ser pensadas e operacionalizadas medidas concretas pra preparação e pra o robustecimento desta dimensão vital nesta fase de desconfinamento. E então aqui, parece-me esta semana, tivemos duas notícias. Uma que tem ligação com o número que escolhi, que tem a ver com a testagem massiva nas escolas e que vai abranger cerca de, pelo menos numa primeira fase, 500 mil pessoas, incluindo professores e funcionários não docentes. E por outra também, a estratégia de colocar os profissionais já incluídos nesta primeira fase do processo de vacinação. E, portanto, diria que são duas boas notícias, mas o mais premente neste momento é compreender como é que estas estratégias serão operacionalizadas no terreno e deixarei esta parte pra desenvolver no comentário da semana, já ligado com o plano de desconfinamento que foi apresentado ontem.
E que é inevitável olharmos para ele. Pedro, que número é que escolheu, também já relacionado com o plano de desconfinamento?
O meu número da semana é o número cinco, que são as primeiras cinco gotas do conta-gotas de retomar a normalidade, que foi ontem anunciado pelo primeiro-ministro. E as quatro gotas óbvias são 15 de março, 5 de abril, que é segunda-feira de Páscoa, 19 de abril e 3 de maio. Mas há uma data que não figura aqui, e que eu vou colocá-la talvez a 13 de abril, que será uma semana e pouco depois da Páscoa, e que será quando nós vamos ver se tudo correu bem na Páscoa ou não. Então nós vamos ter estes cinco momentos essenciais pra perceber se este gradualismo de reabertura está a funcionar ou não. É claro que há uma grande preocupação com o que possam ser contactos que criem uma quarta vaga e, portanto, temos este gradualismo. Mas também é curioso ver que na comunicação de ontem, nesta comunicação destas gotas, foi introduzida uma novidade pelo primeiro-ministro. Apresentou um mapa colorido, um quadro colorido dos dois critérios essenciais. O primeiro é se a infecção estiver a crescer muito rapidamente, medida pelo R, vamos ter que parar. Se a infecção estiver em níveis muito elevados, medida pelo critério de novos casos nas últimas duas semanas, é também preciso parar. Os dois critérios não são totalmente independentes, porque é evidente que se tivermos muitos contágios, vamos ter muitos casos. Mas acaba por dar num mapa colorido, que já está a ser objeto até de vários memes de internet, uma forma simples de percebermos como é que estamos a andar. Vale a pena pensar as pessoas que vamos sempre estar a oscilar entre o vermelho e o verde. Aqueles laranjas, dada a ligação entre os dois indicadores, nunca vão ser muito possíveis. Sempre que se entrar num laranja, rapidamente vamos cair no vermelho. E, portanto, nós temos ali um guia, vamos ver como é que vamos percorrer estas gotas de retomar a nossa normalidade possível.
Então vamos marcar ali no calendário o dia 13 de abril pra fazermos um balanço mais certo da Páscoa. Estamos inevitavelmente a olhar para o plano de desconfinamento. A Páscoa continua a ser apontada como esse tal ponto sensível do calendário, mas fica dado o sinal claro em relação ao ensino. É preciso voltar a abrir as portas das escolas. Sónia, vamos então pra aí. Parece-lhe bem? De que forma é que olha para esta decisão assumida e política do governo de começar por desconfinar precisamente a partir do ensino?
Sim, isso já estava de alguma maneira previsto.
Muito pré-anunciado.
Exatamente. Talvez tenha sido até a menor novidade. E talvez até de uma forma mais global, eu diria que o país atravessa tantas dificuldades tão fortes e complexas a tantos níveis, que diria que era de prever que qualquer plano seria sempre visto por uns como bastante otimista e que deveria ter sido ainda mais cauteloso e, por outro lado, por outros, como um plano demasiado gradual e que coloca grandes desafios na área social e econômica. Portanto, diria que teríamos sempre, inevitavelmente, estas duas partes. Eu diria que é um plano que incorpora a ideia da monitorização da evolução epidêmica, como o Pedro estava a referir, e que há várias medidas que no fundo vão sendo implementadas consoante critérios, e esses critérios vão servir também, de alguma maneira, para se decidir a manutenção, maior abertura ou recuo nas medidas, que são pontos positivos. Agora, estou também de acordo que provavelmente vai ser necessário incorporar outros indicadores mais associados à medição do impacto em termos da pressão dos serviços de saúde, que não foram mencionados, mas que seguramente vão estar também a ser analisados. Mas eu diria que há um pilar que será muitíssimo relevante neste desconfinamento e que, na verdade, muito pouca informação foi dada e que provavelmente teremos novidades acerca disso num futuro próximo. E que tem a ver com as estruturas E a operacionalização das estratégias de resposta à pandemia. O que nós precisamos também de ver é como é que vai ser possível garantir uma monitorização rigorosa e fina, as questões da testagem, dos rastreios, a realização dos inquéritos epidemiológicos atempadamente e como é que as estruturas vão ser capazes de dar resposta às necessidades que a evolução dos casos vão ter. E sabemos que a mobilidade associada a este desconfinamento trará, com toda a certeza, mais infecção. Por outro lado, penso que aqui, não no detalhe para o conhecimento geral de toda a população, mas é importante que a sociedade tenha a segurança de que as estruturas estão, de facto, preparadas e que a sua operacionalização no terreno esteja a ser conhecida e trabalhada com as estruturas que devem ser envolvidas e implementadas atempadamente. E dou apenas o exemplo de que se fala tanto da testagem massiva nas escolas, e que foi anunciada, mas ainda há muito pouca informação de como e quando irá funcionar e tanto consegui compreender, por exemplo, na medida em que o pré-escolar e o primeiro ciclo abrem já na segunda-feira, será difícil de garantir, a estes níveis, a testagem dos profissionais antes da sua abertura, que seria, de facto, o mais desejável. Há outros pontos, mas daria agora também a palavra ao Pedro para um comentário mais geral.
E vamos a isso, Pedro. Estamos perante um plano demasiado otimista ou suficientemente prudente?
Acho que conseguiram ter um equilíbrio entre as várias posições extremas de abrir tudo ou não abrir nada, que continuam a existir. O ritmo não me parece despropositado, à partida. A única coisa que me deixa uma certa preocupação ainda é nós não sabermos, de forma muito clara, o que é que acontece se não correr como está ali previsto. Porque quando se diz que se isto não correr tão bem assim e entrarmos no tal quadradinho vermelho do quadro colorido que falávamos, diz-se que vai ser preciso fazer qualquer coisa. Ora, nós devíamos já saber hoje, se entrarmos no vermelho, o que é que acontece. Não só para ter alguma confiança no que vai acontecer, mas também para ter alguma preparação. E não é a mesma coisa entrar no vermelho e dizer: "Vamos agora gastar mais uma semana a pensar quais são as medidas que adoptamos num novo Conselho de Ministros". Era importante que soubéssemos o que é que se passa no quadrado vermelho, se lá chegarmos. De certa forma, o plano que nós temos é um plano para a zona verde do tal quadrado. Portanto, se isto tudo correr bem e correr como previsto, temos aqui o nosso mapa até maio. Mas eu acho que era importante sabermos, se correr mal, qual é o mapa que vamos ter que adoptar. O que é que vai ter que fechar mesmo? Ou se está condicionado a termos de informação que tem que ser recolhida e então recolhamos essa informação. Quer dizer, se entrarmos no vermelho, voltamos ao que fizemos agora em fevereiro ou não. Ou se entramos no vermelho e descobrirmos que é, sobretudo, uma questão de restauração, fechamos a restauração, ou se for uma questão de espaços comerciais, fechamos espaços comerciais, sem termos o que eu tenho chamado de planos contingentes, só aquele mapa colorido está de alguma forma incompleta. Para além disso, o plano que está apresentado tem uma característica interessante. Aliás, tem uma companhia, diga-me mais, uma companhia interessante, ou que me parece interessante, e que foi apresentada de forma muito discreta, que foi a criação de um grupo dedicado a apoiar o governo na comunicação ligada aos comportamentos das pessoas. Na verdade, eu não acho que o trabalho relevante seja o de definir o que é comunicação por si, no sentido em que nós o entendemos. Mas temos que pensar como é que a própria comunicação vai induzir decisões e não apenas passar informação. E tenho a impressão que o primeiro sinal de nós vermos alguma mudança disso, já mesmo ontem, foi quando o primeiro-ministro falou em reabertura progressiva e não falou em desconfinamento. Porque reabertura progressiva dá logo uma ideia de: "Isto vai ser devagarinho". Se ele falasse em desconfinamento, o pessoal pensava todo que está na altura de sair pra rua.
Mesmo que o desconfinamento ou reabertura sejam em mês e meio.
Mesmo que seja em mês e meio. No fundo, o efeito psicológico de dizer desconfinamento, a ideia que nós associamos imediatamente é: "Vamos todos pra rua". Se eu falar em reabertura progressiva, estou a manter alguma pressão. "Afinal, isto não pode ser assim tão rápido." Se eu disser desconfinamento gradual, ninguém vai olhar pro gradual, as pessoas vão olhar pro desconfinamento. E às vezes estas escolhas e a forma como se apresentam estes elementos fazem diferença. O sentir o pulsar da sociedade em cada momento, para perceber qual é a melhor forma de apresentar as palavras para induzir as decisões que nós individualmente vamos ter que ter, vai ser importante. Eu acho que se ele tiver esse papel, será ótimo. Agora, se nós quisermos ser mesmo ambiciosos, na verdade, isto é sempre aquelas pessoas insatisfeitas. Falta ainda um outro grupo adicional. E seria até um grupo mais técnico, muito mais ligado à biologia do vírus e, sobretudo, às propriedades dos testes e à forma de organizar os testes e de fazer fluir a informação em tempo real. No fundo, temos um misto de biologia e data science aqui juntos a fazer aquilo que a Sónia estava a sugerir, que era termos que ter uma estratégia de testes e temos que depois pôr a informação dessa estratégia de testes a fluir pra nós tomarmos decisões. Nunca estamos satisfeitos, ficamos sempre um grupo mais.
Há sempre alguém que precisa de saber mais e de ter mais condições para segurança. Inevitavelmente, vamos continuar a olhar para este calendário do desconfinamento e também a pensar nisso, temos mitos e alertas. Sónia, adivinhe uma gestão delicada para os próximos tempos.
Exato. Escolhi como alerta exatamente essa gestão difícil que vem da volatilidade de fatos e de notícias que muitas das vezes podem até parecer paradoxais à população em geral e que vai exigir uma rápida gestão dos seus efeitos. E trago para hoje o exemplo desta semana com, por um lado, a boa notícia do alargamento da administração da vacina da AstraZeneca contra a Covid a pessoas de mais de 65 anos, com evidência de que a vacina é eficaz nesta faixa etária, quer na prevenção da Covid, mas também na redução das hospitalizações, quando simultaneamente assistimos à suspensão temporária da administração da mesma vacina num conjunto de países, por cautela e para análise de um lote dessas vacinas, mas cria aqui eventualmente alguma informação paradoxal difícil de assimilar. E diria que embora a EMA e o próprio Infarmed tenham ontem reiterado a eficácia e a segurança da vacina, e que os resultados preliminares dos testes parecem sugerir que não há uma relação causal entre a vacina e os efeitos que foram vistos nos indivíduos que a tomaram, mas vai ser necessário claramente monitorizar, por exemplo, o efeito que estas notícias têm nas pessoas, nomeadamente ao nível da hesitação e da adesão às vacinas.
Esse alerta aqui fica. Pedro, quero deixar também um apelo à paciência. Vai ser preciso mesmo ter muita paciência?
Exato, esse é o meu alerta desta semana. Vai ser preciso ter muita paciência. Vamos todos precisar ter muita paciência, porque a evolução recente, esta última semana, nos vários indicadores que nós temos seguido, foi de abrandamento na descida que estava a ocorrer. E portanto, dado isso, e dado que continuamos a descer, mas muito mais devagar, a pressa vai ser má conselheira e daí também que a minha visão sobre o plano não seja assim tão má. Embora a resiliência seja a palavra mais famosa do momento, o que nós vamos precisar mesmo é de paciência. Nós, cidadãos, vamos ter que manter muitas das precauções, incluindo não entrarmos em atividades sociais que possam criar o potencial para uma nova vaga da pandemia que ninguém quer. Vamos precisar de paciência das atividades mais afetadas por esta pandemia para que não sejam obrigadas a fechar novamente. E vimos que alguma insatisfação com o plano de ontem foi de algumas atividades não abrirem tão rápido, mas provavelmente é melhor abrir devagar do que abrir e fechar. E vai ser preciso paciência das autoridades públicas para manterem o caminho anunciado e irem mantendo a sua capacidade de análise, de comunicação e de informação à população em geral. Portanto, eu punha a paciência, a necessidade de paciência como alerta desta semana. Vamos ainda ter que ter muita paciência nas próximas semanas.
Paciência e também capacidade de conseguir voltar atrás se for necessário.
Exatamente. E ter um plano claro do que é voltar atrás. Agora, se nós tivermos paciência, a probabilidade de ter que voltar atrás é muito menor. E daí aquelas situações em que nós, se conseguirmos ter todos essa paciência, teremos a recompensa mais à frente.
Então ficam aqui uns alertas bem claros, paciência e também respostas rápidas e capacidade de reação rápida a algumas dúvidas que possam surgir. Voltamos já a seguir para as notas de esperança da semana e também com a diretora da Escola Nacional de Saúde Pública, Carla Nunes. Vamos olhar para o plano de desconfinamento mais uma vez e também para o barômetro Covid-19. Até já. Segunda parte do Gabinete de Crise, o programa que todas as semanas analisa o estado da pandemia em Portugal. Daqui a pouco vamos olhar para o que esperam os portugueses do desconfinamento, através do barômetro Covid-19, elaborado pela Escola Nacional de Saúde Pública. Vamos estar com a epidemiologista Carla Nunes, mas não sem antes inspirarmos um ar de otimismo. São sempre as notas de esperança da semana. Pedro, quer começar?
Eu posso começar. Este dia, a minha nota de esperança vai para o retomar das atividades escolares nas idades mais jovens, com as creches, o pré-escolar e o primeiro ciclo a retomarem as suas atividades. A importância do desenvolvimento das crianças é algo que não pode ser ignorado no meio da gestão global da pandemia e, portanto, é natural e é bom que esteja na primeira linha da anunciada reabertura progressiva. É por isso o termo usado. E, portanto, aqui a minha esperança é que vamos conseguir conciliar esta abertura com a manutenção da descida dos números da pandemia. O que vai ser exigente para as escolas, que já têm alguma experiência do passado recente e que supostamente também vão ter agora maior apoio na realização dos testes, como há pouco falava a Sónia. E também vai ser muito exigente para com as famílias que não podem ver, neste retomar da escola para os mais novos, como se fosse o fim da pandemia. Portanto, vamos ter aqui algum grau de exigência, mas também alguma esperança de que vamos conseguir conciliar.
Muito bem, exigência e esperança. Sónia, que nota é que nos trouxe para esta semana?
Olhe, eu trouxe a nota de esperança ligada com a vacina da Janssen contra a Covid-19, e que foi a quarta vacina aprovada pelo regulador europeu. É uma boa notícia, porque representa a possibilidade de ter um estoque maior de vacinas na Europa e aqui, em particular, em Portugal, porque também estamos a prever que possa já chegar em abril e representará provavelmente cerca de 4,5 milhões de doses durante este ano. Por outro lado, esta vacina também tem várias potenciais vantagens relativamente a outras, no sentido em que apenas requer uma toma, pode ser preservada durante três meses sem exigência das tais temperaturas como há para outras vacinas, e parece ser eficaz com novas variantes em circulação. E, portanto, é assim uma nota de esperança para que o efeito da vacinação no caminho da imunidade de grupo se faça mais rápido e principalmente no momento em que assistimos a vários percalços que podem e que provavelmente irão acontecer ao nível das vacinas e dos programas de vacinação.
Vacinas e escolas, duas notas de esperança registadas esta semana, quando ainda é inevitável continuarmos a digerir o plano de desconfinamento do país, que foi anunciado ontem pelo primeiro-ministro. A nossa convidada desta semana tem ido regularmente às reuniões do Infarmed apresentar o Barómetro Covid-19. Este trabalho começou logo no início da pandemia e tem medido o comportamento dos portugueses no último ano. Carla Nunes, directora da Escola Nacional de Saúde Pública, muito boa tarde e muito bem-vinda.
Muito obrigada, muito boa tarde a todos e é um prazer estar aqui. Obrigada pelo convite.
Carla Nunes, este plano de desconfinamento que ficámos a conhecer responde de alguma forma àquilo que têm sido as preocupações do momento dos portugueses? Como é que aprecia?
Sim, eu penso que sim. Tem havido uma pressão muito grande dos vários sectores que são obviamente envolvidos no confinamento e no desconfinamento. Este plano concreto que foi agora lançado tinha como o primeiro grande objectivo, e que a própria sociedade já esperava, ansiava e pressionava, a parte da abertura das escolas, e é esse o primeiro passo que está a ser feito. É um plano muito faseado, mas que contempla a abertura dos diversos sectores, já todos têm aqui uma nota de esperança e pelo menos uma ideia e uma data de que se tudo correr conforme está planeado e se não houver mais nenhum atropelo aqui no processo, já todos poderão ver quando é que começam as suas próprias actividades, os seus próprios sectores a serem libertados. Eu penso que sim, que cumpre o que tem sido previsto e pedido até pelas próprias pessoas, sendo obviamente um processo muito demorado e que irá ainda demorar muito tempo a estabilizar ou a dar oportunidade a todos os sectores.
Mas pelo menos há essa ideia da previsibilidade, o calendário, o que pode acontecer se tudo correr bem e quando tudo correr bem. Temos esta questão das escolas e ela tem sido de facto essencial. A percepção sobre a abertura ou encerramento das escolas tem variado muito ao longo deste ano de pandemia. Sentimos a pressão para o encerramento em março do ano passado, sentiu-se a mesma pressão em janeiro e os próprios pais anteciparam um pouco aquilo que depois foi a decisão política. Os números mais recentes do barómetro que têm já revelam essa vontade de abertura das escolas, já é uma necessidade?
O barómetro vai tendo perguntas que vão sendo alteradas ao longo do tempo, consoante fazem ou não sentido ao longo da pandemia. Portanto, algumas componentes não foram avaliadas durante o tempo todo. Não fazia sentido quando o período da escola está aberto, perguntar o que é que acha da abertura das escolas. As perguntas vão sendo alteradas. No entanto, na última quinzena, e já é a 25ª quinzena do barómetro, portanto, é mais de um ano e começou logo no início. Na última quinzena nós tínhamos perguntas muito específicas sobre o que é que considera o nível de adequação, por exemplo, da reabertura das creches, do ensino ao nível do pré-primário e jardim de infância, e depois ao nível do 11º e 12º ano. Dados muito recentes, esta quinzena acabou na sexta-feira passada, e sobre a reabertura, em específico das creches, nós tínhamos 50% das pessoas a dizerem adequadas e 9,4% a dizer muito adequadas. Significa que temos aqui cerca de 60% das pessoas a dizerem muito adequadas e adequadas, e 40%, então, na outra parte, pouco ou nada adequadas. Portanto, 60% a dizer que sim, que é adequado a abertura das creches. E este valor, com um pouco mais, dá 65% para o jardim de infância e pré-primários. E depois, por exemplo, para o 12º ano, já é um valor superior de 11º e 12º ano. Isto tem a ver com uma questão muito específica, que são os exames de acesso à faculdade. Esta pergunta específica sobre o 11º e o 12º, na soma do muito adequadas com adequadas, a dizer já quase 80%. Até há aqui uma expectativa maior, se assim quiserem, em relação ao 11º e ao 12º, que são anos muito específicos.
E são muito importantes para a perspetiva da vida escolar dos envolvidos.
Dos jovens.
Exatamente.
Há claramente uma preocupação com os mais novos, até como o Pedro já disse aí no seu momento de esperança. Os mais novos até pelos desenvolvimentos cognitivos, obviamente com a parte clássica do ensino, mas pela parte social, desenvolvimentos cognitivos, as crianças mais novas, e depois fica um pouco mais baixo e aparece aqui este sinal de alerta em relação aos do 11º e do 12º. Mas portanto, está concordante, creche, pré-escolar e o primeiro ciclo. Esta segunda fase aqui do 11º e 12º não foi aberto, mas houve medidas no plano, houve alterações a este nível do 11º e 12º, por exemplo, de já igual ao do ano passado, os estudantes só irem fazer exames sobre as disciplinas que efetivamente necessitam para entrar na faculdade. Portanto, já há uma adaptação, ou seja, já há uma atenção a esta faixa etária e a este problema específico do 11º e do 12º. Também aí já houve uma medida de adequação a alguma diferença e que também é igual às condições do ano passado, que também é algo importante em termos de oportunidades para estes jovens que entram este ano na faculdade.
Estão a tentar concorrer à tal questão da previsibilidade, pelo menos. Carla Nunes, o barómetro mede também a fadiga das medidas. Há um momento em que as ordens de confinamento deixam de funcionar porque há só um enorme cansaço da população?
Há um momento, e oscila, obviamente, em que as pessoas estão ou não disponíveis para aceitar as medidas de uma forma geral, e isso tem variado. Enquanto no início, o nosso barômetro começa a 26 de março do ano passado, nós tínhamos adequações de medidas de 11% muito adequadas, 64% adequadas, estamos aqui em volta dos 35% no momento que eu chamo de pânico dos caixões espanhóis e italianos na nossa televisão. Consideraram fortemente as medidas adequadas. Houve aqui fases no verão em que os comportamentos mudaram e, neste momento, já estivemos muito mais baixos, mas nós temos 65% das pessoas a dizerem que consideram as medidas adequadas, mais 8,2 de desadequadas. Estamos em volta dos 65% das pessoas a dizerem que até concordam com a adequação das medidas ao combate à Covid. Mas tem havido realmente muitas oscilações. Houve no verão um comportamento distinto, mas sempre que acontecem momentos de crise, digamos assim, momentos em que os números pioram, o comportamento das pessoas, ou o que as pessoas percepcionam, uma coisa é a percepção, outra coisa a seguir é o comportamento. Mas enfim, a percepção das pessoas nos momentos de crise aproxima-se do governo, nos momentos em que os valores estão melhores, afasta-se um pouco e querem mais liberdade do que estar fechado em casa.
Do que estar fechado em casa. Nas reuniões do Infarmed fala-se muito da imagem da mola e também aqui nas vontades, parece que há essa oscilação. Sónia Dias, estávamos aqui a falar do medo do início da pandemia. Desse medo podemos passar também para uma banalização, quer dos números, quer das medidas, quer até da própria figura do estado de emergência.
Sim, esse é um dos riscos também, até muitas das vezes associado à questão da comunicação muito baseada no pânico, etc. Que funciona muito bem numa primeira fase, mas que depois sabemos que é muito rápido a passagem pra tal fadiga. Nesse sentido, é importante ir compreendendo como é que a sociedade está a percepcionar e aderir às medidas das fases da pandemia e das medidas que vão ser necessárias adotar no futuro. E até é muito interessante perceber como é que isto vai sendo feito, desagregando por diferentes grupos populacionais, porque nós também temos até conversado bastante sobre isso. Na verdade, muitas das vezes aquilo que é necessário comunicar e adaptar aos diferentes grupos populacionais é muito diferente. E a questão do pânico também. Nós continuamos, neste momento, a ter pessoas que têm um pânico muito grande, que nem sequer em situações de outras necessidades de saúde, decidem recorrer, por exemplo, aos serviços de saúde ou até aos serviços de urgência. Quando depois temos, no outro lado, grupos que se juntam. É necessário, de facto, perceber que a sociedade não é um todo e que as necessidades são muito diferentes de grupos para grupos. Essa monitorização é importante e pode ser um auxílio necessário para a gestão também da própria pandemia.
E como até fomos percebendo, encontramos necessidades diferentes nesta altura, até sobre a questão das escolas. As posições até se dividem, apesar de haver uma maioria disponível para que as escolas comecem a abrir. Pedro, é importante que as medidas que ficamos ontem a conhecer casem também com a percepção e a disponibilidade da população.
É fundamental. Nós, neste momento, já aprendemos ao final deste ano que não há aqui automatismos ou mecânicas, que seja fácil dizer: "Puxamos do lado e isto acontece". Tudo decorre de como é que nós vamos interagindo e nos vamos mexendo em sociedade com as regras que temos, com os comportamentos que decidimos ter, com o que nos permitem ou não permitem fazer. Agora, a ideia de que nós podemos começar a reconquistar alguma normalidade e alguma liberdade mesmo, é importante, e é importante que isso vá de mão dada com uma responsabilidade. E o avaliar de que medida que isso está a acontecer é crucial e é preciso alguns barômetros, como este que a Carla tem falado, de conseguirmos acompanhar. E, sobretudo, pensarmos que não estamos a chegar ao fim ainda, ainda temos algum tempo e temos que continuar com comportamentos, com a reabertura de alguma parte da economia e da sociedade, e que as escolas não é uma questão de economia, é uma questão de sociedade futura. Com o continuar o esforço de vacinação para reabrir também algumas atividades à população mais idosa, começar a ter outras atividades mais pra frente. Temos um caminho ainda longo, mesmo assim.
E por isso pedia paciência há pouco, na primeira parte do gabinete de crise. Carla Nunes, na lógica e no seguimento daquilo que está a dizer o Pedro Pita Barros. Ontem ficamos a saber que o governo criou uma task force que vai ajudar a comunicar as medidas e a passar a mensagem de uma forma mais eficaz. Essa task force ainda vem a tempo, na sua opinião?
Ainda vem muito a tempo, porque todos os processos são Isto está longe de terminar. Nós temos que aprender, durante ainda algum tempo, até ao desconfinar mais progressivo e o desconfinar, tal como o Pedro estava a dizer, tem que haver uma perceção da nossa parte que nós vamos desconfinar, mas vamos desconfinar que e b, e há coisas que são já adquiridas por nós, como por exemplo as máscaras, o lavar as mãos, etc. Mas há muitas coisas que não estão ainda adquiridas e que se nós pensarmos que o desconfinar significa que podemos passar a ir jantar com os nossos amigos, etc, temos um problema. Portanto, no sentido de que se é útil ainda, é útil. No sentido de que se deveria ter sido feito mais cedo, eu penso que tudo deveria ter sido feito mais cedo, se possível. É sempre aquela questão de, mesmo com as medidas, muitas vezes as coisas devem ser feitas mais cedo, se possível, se houver condições, porque também se as coisas ainda não estiverem preparadas, também não vale a pena lançar ou propor ao espectador se não estiverem preparadas. Portanto, a minha resposta à sua pergunta é mais do tipo: sim, ainda é útil, e ainda é muito útil, mais do que se a data de início deveria ser esta ou não.
Desde que haja sem improvisos, é isso.
E ainda é útil. Nós temos também uma das perguntas que tivemos a fazer também na última quinzena, que foram perguntas novas, foram: o que custa mais, afinal, às pessoas, em termos de medidas? Afinal, na facilidade das medidas, o que é para si é mais difícil ou menos difícil? E, tal como eu estava a dizer, as máscaras e as lavagens de mão, tudo isso já é muito adquirido. Nós andamos já uns 90% em fácil e muito fácil. Mas há uma pergunta muito engraçada sobre o teletrabalho em que o difícil e muito difícil estão em 20%, o que significa que muito fácil e fácil está em 80%, não é mau, até ficamos contentes. Mas à pergunta da facilidade de evitar visitas a familiares ou amigos, que é algo que já entra muito mais na nossa esfera, aí o muito difícil e o difícil já se aproximam dos 40%. Portanto, o teletrabalho é mais fácil, digamos assim, do que evitar visitar visitas a familiares ou amigos.
Isso é muito interessante quando estamos a caminho da Páscoa, não é?
E a Páscoa vai ter que ser muito controlada. Isso no sentido em que nós já, e voltando à sua questão, que entrámos na comunicação e na alteração de comportamentos, etc, que se calhar a equipa devia ser mais abrangente, no sentido também incluir pessoas de várias áreas. Mas enfim, isso já tem a ver com serem criadas equipas mais específicas ou serem criadas equipas mais abrangentes, enfim, podem ser usados vários métodos e tudo bem. Mas há realmente aqui a componente que é até mais perigosa, que é os aglomerados em momentos de descontração, que é o que neste momento nós estamos a identificar no nosso barómetro, como o que as pessoas dizem ser o mais difícil, é o que as pessoas estão mais reticentes de começar a fazer. E é o mais perigoso, obviamente, em termos de transmissão, porque no local de trabalho, nas escolas, etc, existem regras, mesmo assim. Existem regras, existem distanciamentos e é nos momentos mais informais que nós temos, é que as coisas se passam mesmo nos locais de trabalho e foi identificado logo na primeira onda. Por exemplo, a hora das refeições nos locais de trabalho é que muitas vezes acontecem as situações ou quando as pessoas se encontram junto à impressora, se assim quiser. Portanto, em momentos em que não estão previamente definidos e estipulados e criadas regras e premissas, é que acontecem estes momentos. Portanto, é este valor que eu acabei de dizer, que as pessoas identificam como o mais difícil é realmente não estar com familiares e/ou amigos, mais do que o teletrabalho, mais do que ficar em casa, é não estar com familiares ou amigos. É que este momento de abertura, se não for muito bem percepcionado pelos portugueses, e isso tem tudo a ver com essa task force, seja realmente um problema e que nós tenhamos que andar para trás, o que não será sequer original, porque estamos a ver muitos países neste momento na Europa já com problemas graves.
E já muitos a pensar e apontar para uma quarta vaga. Carla Nunes, muito curioso esse dado. Esse ponto frágil nos nossos comportamentos. Carla Nunes, chegou ao fim o nosso tempo. Muito obrigada por ter vindo ao gabinete de crise. Conseguimos antecipar um pouco mais este barómetro Covid-19. Já é o 25º. Bom dia, obrigada. Sónia Dias e Pedro Pita Barros, muito obrigada também. Temos encontro marcado, como sempre, para a semana. E despedimo-nos com um coro alemão de cerca de 40 crianças que criou uma canção de conforto. A coordenadora e criadora do grupo ficou chocada com os relatos das dificuldades passadas em Portugal na terceira vaga da pandemia e quis dar um sinal de que mesmo nos piores momentos, há sempre alguém disposto a ajudar. A canção "Portugal, Meu Amigo" é um hino à solidariedade e à compaixão. Vale para os maus momentos e deve ser também lembrado nos bons. Eu sou Carla Jorge Carvalho, a sonoplastia é do Diogo Casinha. Boa tarde e até para a semana.
Der Sonne entgegen den Schmerz besiegt. Estarei com você. Até você voar novamente. Ich bleibe bei dir. So lange bis du wieder fliegst. Estou perto de ti. Com certeza estou perto de ti. Ich bin dir nah. Ich bin da. Meu amigo, me fala. Da tua situação de saúde. Meu amigo, meu coração dói. Porque não posso ajudar. Mas mesmo um pássaro com asas partidas. Que precisa um tempo para recuperar. Voará um dia novamente no ar. Estarei com você. Até você voar novamente. Ich bleibe bei dir. So lange bis du wieder fliegst. Estou perto de ti. Com certeza estou perto de ti. Ich bin dir nah. Ich bin da. Estarei com você. Até você voar novamente. Ich bleibe bei dir. So lange bis du wieder fliegst. Estou perto de ti. Com certeza estou perto de ti. Ich bin dir nah. Ich bin da.