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Bem-vindo ao Gabinete de Crise. Esta é uma parceria do Observador com a Universidade Nova de Lisboa. Todas as semanas analisamos a evolução da pandemia e o impacto em Portugal. A semana fica marcada pela apresentação do plano de vacinação contra a Covid. Foram definidas as grandes linhas estratégicas, mas ficaram também algumas dúvidas. Por isso, este gabinete de crise tem hoje uma reunião especial com o Francisco Ramos, o coordenador da task force criada para elaborar precisamente este plano. Vamos já daqui a pouco falar com ele, mas antes seguimos ao encontro dos comentadores com assento permanente. A Sónia Dias, coordenadora do Centro de Investigação da Escola Nacional de Saúde Pública e o professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa, Pedro Pita Barros. Muito bem-vindos, já os estou a ouvir aí do outro lado do telefone. Vamos ter hoje mais um gabinete de crise, hoje com um modelo diferente, mas a manter o primeiro ponto da ordem de trabalhos. O Pedro Pita Barros, Sónia Dias, estão já a conversar com o nosso convidado e creio que agora já nos estamos a ouvir. Sejam bem-vindos e vamos ao número da semana. Pedro Pita Barros, boa tarde. Qual é o seu número?
O número que eu escolhi para esta semana foi o número três. O número três, porque são as fases de vacinação que vamos ter e que foram definidas, e que nós devemos olhar para elas agora, neste momento, não tanto como se é este ou aquele grupo que deve estar a ser incluído, mas sim quais são os critérios que estamos a usar. Uma vez que sabemos que as vacinas vão chegar de forma faseada, teremos que necessariamente fazer algumas escolhas de quem é que avança primeiro para esse processo de vacinação. Portanto, é definir quais são os critérios técnicos que fazem sentido e depois ver quais são os grupos que lá cabem dentro e quais são as situações que cumprem esses critérios. Vamos ter a tentação de toda a gente querer estar presente, mas vamos ter também outros desafios. Vamos ter que ter uma esperança de que o nosso sistema de saúde aproveite as suas rotinas habituais para ter elevadas taxas de vacinação e vai ter que se articular com estas próprias fases que são definidas. Portanto, também aqui o número três é relevante para percebermos como é que o sistema se vai ajustar. E estas três fases de vacinação também nos dão o tempo para pensar como vamos lidar com outra característica que temos que ter em conta, que é haver um número relativamente elevado de pessoas que está hesitante na vacinação. Os vários inquéritos que têm sido feitos ao longo do tempo, quer aquele que nós temos feito através da Universidade Nova, numa parceria internacional entre vários países, que dá valores à volta, neste momento, dos 20% a 25% de portugueses com hesitação, cerca apenas de 8% a 10% estão contra. Significa que temos uma grande massa de pessoas dispostas a vacinar-se e uma massa importante hesitante. Temos que aproveitar estas três fases também para convencer a população de que faz todo sentido ter a vacinação, que é segura, que é eficaz, que vai ocorrer no momento certo. Vamos ter desafios logísticos do lado de colocar as vacinas disponíveis. Vamos ter desafios do sistema de saúde, conseguir chamar as pessoas no tempo certo para evitar problemas e vamos ter que ter o desafio de levar as pessoas a não hesitarem e a convencerem-se em número maior, o que já é neste momento, a vacinarem-se.
São três desafios, o número do Pedro Pita Barros. Sónia Dias, e o seu número, qual é?
O meu número vai no mesmo seguimento, também das vacinas, com 22 milhões, que é o número estimado de doses de vacinas contra a Covid-19 que o governo prevê comprar. E eu escolhi este número exatamente para demonstrar que se, por um lado, tem esta mensagem positiva, implícita, que haverá, embora em diferentes fases e até momentos sequenciais, mas que estão previstas, no fundo, haver vacinas para todos os portugueses e que ninguém ficará de fora, tem subjacente, de facto, este número, 22 milhões, o peso de uma enormíssima operação de vacinação. E aqui temos de referir que estamos a adquirir, de facto, várias vacinas que resultam de diferentes acordos entre várias farmacêuticas e que as próprias vacinas são diferentes. Portanto, há aqui toda esta complexidade, não só do próprio número de pessoas que têm que ser vacinadas, mas também as dificuldades em termos de logística, distribuição, monitorização das exigências diferentes das diferentes vacinas. É, de facto, um processo bastante complexo. Viraria talvez aqui também para a questão do ponto de vista do cidadão, que o Pedro também já começou a tocar, e da confiança que vai ter que ser gerada em relação às vacinas e que, consequentemente, influencia a intenção da própria toma. As pessoas foram assistindo ao longo de todo o processo do desenvolvimento das vacinas a taxas diferentes de eficácia, incidentes, reações adversas, até que eventualmente algumas vacinas são mais indicadas para diferentes grupos e, portanto, muitas das vezes até dados que são apresentados sem alguma contextualização. E aqui eu levaria, até pegando no número que o Pedro escolheu, nas três fases. Penso que nesta primeira fase, nesse sentido, haverá menos desafios, porque não há disponibilidade de todas as vacinas num primeiro momento e sabemos hoje também pelos estudos que temos vindo a efetuar, que quem tem mais intenção de toma é também quem está mais indicado para estes grupos prioritários. Portanto, não me parece que aí haverá grande questão, o que também dará tempo. Mas nas fases seguintes é preciso, de facto, ter em conta esta questão de uma comunicação com a população e uma preocupação com a adesão, que de qualquer forma, o próprio grupo da task force já contempla também, o que eu acho que é muito positivo.
Os números da semana, obviamente, também dominados por este plano de vacinação. A Sónia e o Pedro já explicaram, vai avançar o plano por três fases. A primeira poderá ser até em janeiro, mas como o primeiro-ministro também já avisou, o caminho pode ser longo e penoso. Francisco Ramos ontem apresentou o plano de vacinação, está agora conosco. Muito obrigada por ter aceitado vir ao Gabinete de Crise. Vai ser importante ouvir os teus esclarecimentos. Bem-vindo.
Muito obrigado pelo convite.
O senhor tem em mãos uma tarefa em que se depositam enormes expectativas. O que diria que é o principal desafio? Falou ontem na dificuldade de gerir a incerteza. O que isso quer dizer?
Novamente, muito obrigado pelo convite. Que o desafio é grande, ficou bem evidente pelos números que o Pedro e a Sônia trouxeram para esta conversa. Ou seja, aquilo que temos pela frente tem uma amplitude tal que os números são três e 22 milhões. Maior disparidade, acho que é difícil de conseguirmos imaginar. Na prática, isto quer dizer o quê? Que temos, de fato, que lidar com uma operação de saúde e logística de grande monta, mas que tem que ser preparada com uma minúcia e um detalhe comparáveis com, provavelmente, uma operação para administrar ou que possa administrar os 22 milhões de doses que Portugal tem reservado da vacina, com uma minúcia que o número três possa representar. Aquilo que eu tentei transmitir ontem na apresentação é que temos que gerir, para já temos que delinear o plano com o detalhe e o rigor que a situação exige. Mas uma vez esse plano gizado, tem que ser gerido com a máxima competência, argúcia, cuidado, as características que quisermos juntar. Estamos perante uma situação que eu caracterizaria como de gelo muito fino. Temos grande incerteza ainda, embora, felizmente, aquilo que temos assistido nas últimas semanas é essa incerteza ser progressivamente reduzida, mas ainda é muita. E temos uma situação em que a vacina aparece como o, não é um dos, é o fator de esperança de conseguirmos ultrapassar esta pandemia causada pelo SARS-CoV-2. O que quer dizer que, portanto, temos que ter cuidado com sobretudo não gerar expectativas que possamos não conseguir corresponder e que possam exatamente minar a confiança que as pessoas têm que ter neste processo. As pessoas têm que confiar na vacina, nas pessoas têm que confiar na forma como todo o processo está a ser gerido e como será administrado, e as pessoas têm que ser capazes de confiar que lhes vamos dar a resposta transparente do sucesso que o processo de vacinação vai ter.
E confiar, Francisco Ramos, desculpe, implica também compreender. E entramos logo aqui na questão dos grupos prioritários. Como é que se chegaram àqueles números? Qual foi a base de cálculo para chegarmos exatamente ao número que está previsto em cada fase?
Definindo objetivos para o processo de vacinação. À cabeça, reduzir a mortalidade da doença e reduzir os episódios mais severos, na prática da doença também, da Covid-19, no fundo, que se traduzem com internamento em unidades de cuidados intensivos. E o que sabemos sobre esses episódios é que há um grande número desses episódios que têm associados tipo de doenças: doença cardíaca, doença renal e doença pulmonar. Esse foi o critério essencial para que se diga que as patologias que estão identificadas na primeira fase são estas.
Mas há um levantamento de todos esses doentes com problemas cardíacos, respiratórios?
Há uma identificação, ou seja, nomeadamente um estudo publicado com dados portugueses que diz o quê? Dos doentes com a mortalidade em que morreram em Portugal por Covid e dos doentes que passaram pelo internamento em Portugal, em termos de idade, 97% dos óbitos foram pessoas de mais de 50 anos. 91% de todos os internamentos em pessoas de mais de 50 anos e 81% dos internamentos em cuidados intensivos, pessoas com mais de 50 anos.
Claro, e isso permite-nos perceber quais são os grupos de risco. A questão agora é: como é que identificamos os cidadãos que vão precisar ser vacinados precisamente por pertencerem a esses grupos? É com base nos registros dos centros de saúde, médico de família?
Eu sei que o tempo em rádio é precioso, mas se der só mais 30 segundos.
Com certeza!
Ou seja, como é que chegamos à questão do grupo de risco com base nas patologias? Através deste critério e com um objetivo muito claro: reduzir o mais cedo que se conseguir a mortalidade e a morbilidade severa, os doentes mais severos. Segundo objetivo: controlar os surtos nas populações que são mais vulneráveis e por isso a prioridade de pessoas residentes em lares e doentes internados em cuidados continuados. Terceiro objetivo: minimizar o impacto da economia na sociedade e preservar a capacidade de resposta dos serviços essenciais. E por isso a definição como grupo prioritário, profissionais de saúde, os profissionais que trabalham nos lares, as forças de segurança, forças armadas e profissionais dos chamados serviços críticos, cuja definição está feita aliás em lei, mas que naturalmente tem que ser aperfeiçoada. Como é que isto vai acontecer? Naturalmente que as pessoas que estão internadas, que são residentes nos lares, os internados em cuidados continuados, é fácil de identificar, os profissionais também. Aquilo que se vai fazer é o trabalho de identificar nos, digamos, na No sistema de informação clínico, o S-Clínico, que existe nos centros de saúde, ou seja, todos os doentes com estas características que sejam acompanhados nos centros de saúde serão identificados pelo sistema de saúde e será o sistema de saúde a contactar as pessoas e a convidá-las a fazer a vacina, propondo-lhes, portanto, que façam a vacina, onde, a que horas e em que dia.
Muito bem. Portanto, os inscritos nos centros de saúde, não é?
Para as pessoas que não utilizem os centros de saúde, uma das formas que já é utilizada para outras formas é através de declaração médica, nomeadamente do seu médico privado ou do seguro, que ateste a condição clínica exigida. A idade não é preciso ser atestada pela declaração médica, que contactem o centro de saúde da sua residência, de forma a terem uma marcação para a sua vacinação. O processo de vacinação será agendado, ou seja, com marcação de local, data e hora, para que de facto corra com a fluidez que se impõe.
Está a falar e foi claríssimo agora percebermos como é que estas pessoas vão ser contactadas ou como é que podem contactar. Relativamente às Forças Armadas, sabemos que vão ser prioritárias, como nos explicou, mas gostava que esclarecesse só este dado: todos os militares ou só os que estão na primeira linha?
O que vai acontecer é que vai ter que ser feito um trabalho mais fino de agora dentro destas categorias. Todas estas categorias somam cerca de 950 mil pessoas, ou seja, a estimativa que temos são 950 mil pessoas, o que é, aliás, compatível com o calendário de chegada de vacinas, de doses, no primeiro trimestre, em que da melhor das hipóteses de quatro milhões de doses, temos acho que garantidas, com as duas vacinas que estão mais avançadas em termos de aprovação na Agência Europeia, dois milhões de doses. Portanto, com o risco que estas palavras têm, pode-se garantir que teremos no primeiro trimestre, pelo menos, dois milhões de doses de duas vacinas em Portugal. E portanto, a vacinação destas 950 mil pessoas, estamos a falar de duas doses para cada pessoa, está assegurada com as vacinas. No entanto, esses dois milhões não estarão cá na primeira semana de janeiro. Irão chegando ao longo do trimestre. O que quer dizer que em todos estes grupos terão que ser afinados critérios ou subcritérios para se decidir quem é que é vacinado no dia um, no dia dois, no dia três. E é um trabalho que ainda vai ser feito. Ou seja, do ponto de vista da task force, o que queremos é emitir recomendações para que esse trabalho seja feito.
E depois há essa operacionalização do processo.
Isso é aprovado nas Forças. Se me quiser dar, se quer um exemplo muito simples: o hospital de Santa Maria ou de São João ou de Coimbra tem praticamente 10 mil profissionais. Ou seja, não é crível que se consiga entregar 10 mil vacinas num determinado dia para uma instituição dessas, mas mesmo que se entregue, tem que ser feito um escalonamento de quem é que é vacinado no primeiro dia, ou seja, quem são as pessoas provavelmente que o hospital entende como mais relevantes. E esse é um trabalho que naturalmente deve ser feito com orientações gerais, mas depois que exige uma afinação mais próxima do terreno.
E a questão do armazenamento das vacinas, e sabemos que algumas têm condições muito especiais, nomeadamente a da Pfizer, que será aquela que conhecemos melhor, porque vai começar já a ser administrada no Reino Unido. Em relação ao armazenamento e à distribuição, como é que o processo se organiza? Portugal tem condições para armazenar vacinas com estas condições?
Há 40 anos que temos condições para armazenar vacinas. Qual é a novidade agora? Exatamente uma das vacinas exige uma capacidade de refrigeração de -80º e portanto isso não é comum. O ponto de recebimento em Portugal com capacidade para esse frio existe. Não é está identificado, é já está identificado e operacional.
Que é onde?
Uma das componentes desta task force é uma pessoa que é do SIS, do Serviço de Informações de Segurança, e que recomenda que, por razões de segurança, o local não seja revelado, portanto, não serei eu a fazê-lo. Imagino que os dotes de jornalistas que temos virão a descobri-lo, mas enquanto coordenador da task force, respeito as recomendações dos responsáveis pela segurança interna e portanto, não serei eu a revelá-lo. O que posso dizer é, correndo o risco de terem que acreditar na minha palavra, é que esse espaço existe e esse espaço já é largamente excedentário em relação àquilo que prevemos que seja o ponto máximo de estocagem dessa vacina. Ou seja, a capacidade desse espaço ultrapassa largamente um milhão de doses e o ponto máximo que nós prevemos de existência em estoque no armazém central para essa vacina são 800 mil doses.
E, portanto, há espaço e ele já existe, por questões de segurança, não é divulgado. E em relação à distribuição, também?
Estamos naturalmente a trabalhar nisso. Mesmo os requisitos dessa vacina têm vindo a mudar. A task force está a trabalhar há duas semanas, já tivemos duas reuniões de trabalho com os responsáveis em Portugal da Pfizer e devo dizer que Os requisitos de transporte dessa vacina já mudaram no sentido de serem mais fáceis da primeira para a segunda reunião. E portanto, a própria empresa disponibiliza umas caixas que suportam a estabilidade da vacina fora desse frigorífico dos -80. A informação que tínhamos há duas semanas era 15 dias, já subiu para 30. Naturalmente que essa operação tem que ser montada com rigor, com todo o cuidado, mas estou perfeitamente tranquilo que vai correr bem e que as vacinas estarão disponíveis onde têm que estar.
Até nas regiões autónomas, onde se colocava mais dúvidas. Não antevê nenhuma dificuldade?
Devo dizer que nas regiões autónomas também já começámos a trabalhar com os respetivos responsáveis. As regiões autónomas já têm pessoas indicadas e a trabalhar com cada uma das equipes de trabalho que temos no âmbito da task force, e terão que replicar, naturalmente, estas questões logísticas, quer na região autónoma da Madeira, quer nos Açores. Isso já está a acontecer, começou a acontecer na semana passada. Um dia destes teremos de combinar que se as vacinas chegarem a Portugal no dia 2, 3 ou 4 de janeiro, provavelmente no dia seguinte serão uma parte entregue no Funchal e em São Miguel.
Onde também haverá condições de armazenamento com a mesma qualidade daquele que teríamos no continente.
Isso até que ser estudado, Carla. Vamos lá ver. A questão da logística, da distribuição de medicamentos, das vacinas, francamente, é das questões em que podemos estar mais otimistas. Nós temos uma logística de distribuição de medicamentos que funciona de forma excelente. E eu diria que aqui o princípio que estamos a seguir é não inventar a roda quando nós temos uma roda de excelente qualidade à nossa disposição. É a mesma questão do porquê optar por centros de saúde.
Exatamente, Francisco Ramos, ia mesmo falar, essa roda também já está inventada, que é o papel que as farmácias têm tido na administração da vacina contra a gripe. Por que ela não foi considerada neste processo?
Porque o que já está inventado há 40 anos em Portugal é o Programa Nacional de Vacinação e a vacinação da generalidade dos portugueses nos centros de saúde. Essa é uma roda que está inventada, testada e que todas as pessoas conhecem como se faz, que estamos muito habituados a usar há dezenas de anos. E mais, com um enorme sucesso, o Programa Nacional de Vacinação é uma das joias da coroa do nosso sistema de saúde. E portanto, é exatamente com base nesse programa, exatamente para evitar invenções, que vamos basear-nos nos centros de saúde na primeira fase. O que está dito e foi provado e foi dito ontem é: nas fases subsequentes, e naturalmente, de acordo com o ritmo a que as vacinas vão chegando, vamos ter que escalar essa capacidade, ou seja, vamos ter que aumentar essa capacidade. De que forma é que o vamos fazer, ainda não foi apresentado ontem, mas estamos naturalmente a trabalhar nessas hipóteses. Se o ritmo for o do número do Pedro Pita Barros, os centros de saúde vão chegar e sobrar para essa execução da vacinação. Se o número for o da Sónia, vamos ter que nos capacitar e muito rapidamente e não desperdiçar uma única hipótese de administrar vacinas. Portanto, eu queria dizer claramente que as farmácias não estão descartadas. O que é menos simpático para quem tem que gerir isto, eu acho que esta questão mereceria da parte de todos nós, portugueses, um posicionamento como tivemos há quatro anos a propósito da participação da seleção de futebol no Campeonato Europeu, em que de fato decidimos, enquanto povo e de forma coletiva, apoiar essa seleção e estar ao lado dela e desejar que tudo corresse bem, e correu de fato bem. Há alguns elementos neste processo que estarão disponíveis para isso ou atualmente, mas exigem ser titulares. E na minha comparação com o futebol, normalmente o que eu oiço dizer aos treinadores é: quem quer ser titular, deve ser dispensado do processo. E o ponto que eu queria chamar a atenção é que as farmácias não estão dispensadas do processo. Agora, na primeira fase, claramente optámos por estes argumentos, por recomendar que a vacinação seja feita nos centros de saúde, que é onde as rotinas em Portugal estão melhor estabelecidas e definidas.
Ora bem, as farmácias são uma espécie de Éder, só aparecem depois, já na fase em que é preciso marcar alguns gols. Pedro Pita Barros, estamos aqui a falar desde o início, e o Pedro e a Sónia lançaram esta ideia da complexidade da operação e temos ouvido vozes mais preocupadas, outras mais otimistas em relação ao que se vai passar nos próximos meses. Em que ponto do espectro é que se coloca, Pedro?
Eu estou mais no lado do otimismo, porque temos um hábito de vacinação geral na população e apesar da hesitação elevada, estou convencido que nós conseguiremos ultrapassar essa hesitação, porque a oposição estrutural é muito baixa e tem sido sempre muito baixa em Portugal. Portanto, é uma questão de, com o hábito das pessoas verem as outras a serem vacinadas, de verem até a isto em serem feitos, provavelmente ajuda. Se tudo correr bem, conseguiremos facilmente vencer essa hesitação. Temos também um sistema de saúde que está habituado a gerar elevadas taxas de vacinação nos vários locais em que a faz. Portanto, eu acho que temos tudo para fazer correr bem, como disse agora o Francisco. O que vamos ter, provavelmente, algumas surpresas ao longo do processo e como são surpresas, não podemos antecipá-las. Mas eu acredito, por exemplo, que se não será complicado que a dada altura venhamos a ter um ritmo mais rápido de chegada de vacinas, por uma razão simples, as próprias empresas que as produzem devem estar a ser relativamente conservadoras no ritmo de produção com que o fazem. Mas sabendo que existe apetência, existe uma grande pressão pra que haja mais rapidamente, é provável que acabem por conseguir produzir mais e mais rapidamente que aquilo que estão a dizer agora, porque não querem criar falsas expectativas e depois falhar. Estando nós dentro da União Europeia e estando a União Europeia a gerir, e bem, em grupo, nós conseguimos com isso evitar a corrida entre os países pra ver quem chega primeiro. Chegaremos ao ritmo da União Europeia e portanto a União Europeia certamente estará no grupo da frente de conseguir uma das vacinas mais rapidamente, se elas forem produzidas mais rápido, e eu acredito que isso vai acabar por acontecer e também na própria distribuição irá ser melhorado. Aliás, existe um conceito em economia, que são economias de aprendizagem, que é conforme se vai fazendo, vai-se fazendo melhor. E numa coisa nova como esta, numa distribuição a uma escala quase mundial de novas vacinas e de produção massiva dessas novas vacinas, há muito a aprender. E conforme nós formos avançando nos meses, os processos vão provavelmente ser bastante mais ágeis, mais rápidos e com mais volume. E, portanto, podemos ter aqui tudo pra termos as boas notícias de termos as pessoas a vencer a hesitação, as vacinas a chegarem, se calhar, a um ritmo maior e a ter maior pressão, e a ter que fazer com que os suplentes saltem todos do banco e que a dada altura tenhamos que jogar não com 11, mas com 14 ou 15 pra conseguir chegar a todo lado em tempo útil. Os únicos dois riscos que ponho aqui na parte mais pessimista são, o primeiro: se não for muito claro quais são os sítios onde será efetuada a vacinação, é provável, ou é possível, que surjam eventuais situações de fraude. Alguém a tentar vender vacinas falsas por internet pra serem administradas não sei aonde. Esse tipo de situação pode ocorrer e terá que ser lidado. Também teremos que saber lidar com surpresas que sejam más notícias. E, primeiramente, tenho só um exemplo: se uma pessoa de uma idade avançada vier a falecer duas, três semanas depois de tomar a vacina, por outro motivo qualquer que não tem nada a ver com a vacina, será crucial ter rapidez em saber o motivo para evitar a criação de um empolamento de fake news, termo dos últimos anos, a empolar o movimento eventualmente contra a vacina. Portanto, haverá aqui vários pequenos riscos que eu acho que existem, mas que eu acho que podem ser facilmente ultrapassados por todo o hábito que nós temos em Portugal de ter elevadas taxas de vacinação. Vamos também ter novidades ao longo do tempo, como o Francisco já referiu, sabermos exatamente quais são as características de todas as vacinas que vão estar disponíveis. Isso poderá determinar alguma alteração de grupos preferenciais conforme a vacina que vier. Temos também alguma incerteza ainda sobre os tempos de imunidade, alguma incerteza sobre se as pessoas que sejam vacinadas simplesmente não contraem a doença, mas podem transmitir, ou se também elas próprias, portanto vacinadas, também deixam de transmitir de alguma forma. Portanto, eu acho que é aqui um processo de aprendizagem total, mas em que o que vamos aprender só nos pode beneficiar. Isso deixa-me do lado otimista.
Explicou bem, apesar dos riscos, de que lado é que está. Sónia, e aqui vamos andando entre a ansiedade da vacina e também a desconfiança. A Sónia, nas últimas semanas aqui no gabinete crise, tem falado muito na questão da gestão das expectativas. Ela volta a ser importante nesta fase.
Sim, exatamente. Eu acho que esse é um dos grandes desafios. Diria aqui e até apanhando um pouco aquilo que o Francisco estava a referir desta necessidade do esforço coletivo. E penso que aqui todos podemos, de fato, contribuir para que se consiga chegar a um bom porto. E pensava até neste caso em concreto, por exemplo, sei que agora neste momento, e é natural, há uma grande expectativa relativamente à vacina, àquilo que ela pode dar. E há, nesse sentido, também uma grande curiosidade sobre todos os aspetos inerentes a essa questão, mas há de haver um determinado momento que em termos até de comunicação e de informação, e aqui todos podemos contribuir, é importante perceber o que é que é relevante passar à comunidade portuguesa de uma forma muito clara e o que poderá ficar pra segundo plano e pra quem tenha mais interesse em se informar sobre isso. E eu avançava aqui apenas um ponto importante que é, por exemplo, relativamente a quem está com maior dúvida ou menor confiança relativamente à eficácia e segurança, são os grupos de pessoas menos escolarizadas e com rendimentos inferiores. Em oposição a quem tem mais escolaridade, que acredita mais na ciência e que, portanto, teve capacidade neste momento de reportar maior confiança na vacina. Isto também nos mostra que provavelmente todas estas informações acabam por poder também não ajudar em todo este processo de adesão à vacinação. E como o Pedro referiu, há muitos momentos ainda de incerteza E que vão ter que ser comunicados às pessoas de forma muito clara. E isto também leva na gestão das expectativas, relativamente, por exemplo, às reações adversas ou a alguns incidentes, ou à necessidade imperiosa de se cumprir, por exemplo, a segunda toma exatamente no momento em que ela for comunicada. Portanto, há tanta informação que vai ser essencial que se passe às pessoas de forma clara, que as pessoas a compreendam e sintam a necessidade e a vontade de aderir, que eu acho que como coletivo, como povo português, nós vamos ter que ter a capacidade de perceber nos diferentes fóruns o que é mesmo relevante comunicar. E esse é também um esforço e um grande desafio, não nesta fase inicial, mas provavelmente mais para as segundas fases e as terceiras fases, em que aí vamos ter mesmo um grande grupo de pessoas a ser vacinado.
E até porque esta task force tem também a função de comunicar e de chegar à população. Nós já estamos mesmo nos minutos finais, mas Francisco Ramos, há dois assuntos que eu ainda queria mesmo abordar e o primeiro tem a ver com a questão informática. Ontem disse que era preciso robustecer o registo eletrónico. Vai ser criado um novo sistema para acompanhar estes casos ou vai ser utilizado o Vacinas, que já existe?
Naquilo que está agendado, ainda hoje de manhã voltámos a ter uma reunião, portanto, exatamente com a entidade no Ministério da Saúde, essa responsabilidade. Ou seja, primeiro ponto da estratégia: o que existe, pode e deve ser utilizado para este processo, deve ser robustecido, desenvolvido e fortalecido para uma questão de volume. Ou seja, em princípio, o Vacinas vai ser exatamente o sistema base. Os sistemas que garantem hoje a farmacovigilância, ou seja, a notificação de efeitos adversos, em geral, de todos os medicamentos e das vacinas, será também o sistema base para monitorizar a vacina contra a Covid. E naturalmente, teremos que desenvolver sistemas centrais, um exemplo de gestão de estoques, uma vez que não existe nenhum software que faça gestão de estoques em termos nacionais e queremos, de facto, saber e ter ao minuto, será um exagero, mas ao dia, todos os estoques de todas as vacinas Covid que existem em Portugal e se estão no armazém central ou se vierem a haver armazéns sub-regionais, ou que estão ainda em cada um dos pontos de vacinação para ser administrados, isso vai ter que ser desenvolvido. Mas, portanto, vai ser um misto.
Já é uma enorme complexidade só esta parte de preparar um sistema informático ou de fortalecer aquele que já existe.
Pois, mas o que temos que fazer é complexo e terá que ser feito.
E vai ter que ser feito com, portanto, estamos aqui a falar na criação de uma equipa de especialistas só dedicada a esta questão.
Estamos a falar em reunir especialistas, nomeadamente do Ministério da Saúde, outras entidades públicas, das Forças Armadas, e certamente também contratar os especialistas. Ou seja, aquilo que falávamos há pouco da distribuição e que eu lhes chamei a atenção. Tendo nós distribuição de medicamentos em Portugal de excelência, faz todo sentido que venham a ser chamados para serem os protagonistas da distribuição fina, digamos, até aos pontos de vacinação.
É uma corrida contra o tempo, já percebemos isso.
É uma corrida que tem que ser feita no tempo que temos para o fazer. Neste momento, o que sabemos? Já agora, deixe-me partilhar. Se a apresentação do plano tivesse sido feita com dois dias antes, eu não teria tido a coragem de apresentar um calendário, quando é que vamos começar. Porque a única informação que tínhamos era a informação proveniente das próprias empresas. O que aconteceu entretanto? Há dois dias, a Agência do Medicamento britânica aprovou uma vacina para começar a ser usada no Reino Unido. Não há nenhuma razão para os critérios da agência britânica serem diferentes dos critérios da agência europeia. E portanto, isso dá-me a garantia de que, sim, senhor, em janeiro vamos ter, certamente, vacina em Portugal para começar a administrar aos portugueses.
E quando houver essa aprovação, vamos ter a capacidade de começar logo a desenvolver o processo e administrar a primeira vacina.
Exatamente. Ou seja, se neste momento, portanto, aumentada a confiança de que vamos ter vacina. Conhecido que o calendário da Agência Europeia no dia 29 de dezembro ter uma reunião para validar, para tomarem a decisão. E portanto, isso quer dizer que, de facto, nos dias seguintes, a vacina será provavelmente distribuída das fábricas onde está neste momento pelos 27 países da União Europeia. Existe o compromisso de que no mesmo dia ela chegue aos 27 países. E nós queremos que quando ela chegar a Portugal, em um, dois, três dias, estar em condições de que seja administrada aos portugueses. Uma coisa que eu não lhe consigo dizer: quantas doses é que vão chegar nesse primeiro dia. Não sei ainda, mas cremos, de facto, que isso esteja em condições de ser feito na primeira semana de janeiro.
Só para percebemos melhor o calendário, percebendo a incerteza toda. No Reino Unido, a vacina é aprovada numa quarta-feira, a vacina da Pfizer, e vai começar a ser administrada poucos dias depois, na segunda-feira seguinte. Estaremos a falar num período de tempo tão curto entre a chegada da vacina a esse local secreto, até que ela chegue aos centros de saúde e comece a ser aplicada aos primeiros grupos.
Um, dois, três dias.
Em um, dois, três dias teremos a vacina a começar a ser administrada.
Não há nenhuma razão para que isso não aconteça. Aliás, acho que seria imperdoável se isso acontecesse, Carla. Ou seja, termos vacinas em Portugal Numa quantidade razoável, nuns milhares de doses, e não serem imediatamente utilizadas na vacinação dos portugueses, acho que isso seria imperdoável.
Que se saiba, Portugal vai comprar seis vacinas diferentes. Já é possível saber que grupos terão que vacinas?
Se a Carla souber isso, diga.
Não, não faço ideia. Não faz parte da competência desta task force determinar.
Isso, claro, não faz parte da competência da task force, nem de nenhuma autoridade portuguesa. Ou seja, quando a Agência Europeia aprovar a vacina, aprovará exatamente dizendo: "Esta vacina é aplicável a estas pessoas", por exemplo. O que sabemos hoje que não tínhamos a certeza há dois dias? A agência britânica aprovou a vacina a partir dos 18 anos, ou seja, até aos 18 anos, ninguém no Reino Unido será vacinado. Eu posso já dizer que isto vai acontecer em Portugal? Não, porque tenho que estar à espera da decisão da Agência Europeia. Agora, posso dizer com um grau de confiança bastante grande que não há nenhuma boa razão para que a decisão da Agência Europeia seja diferente da britânica e, portanto, provavelmente, os jovens e as crianças até aos 18 anos não serão vacinados para já, assim como as grávidas, porque os peritos das agências que aprovam a vacina dizem que não há evidência que a vacina deva ser administrada a essas pessoas.
Qual é o maior risco que este processo de vacinação pode comportar? Com aquilo que sabe nesta altura.
A desconfiança das pessoas, a falta de confiança em todo este processo.
É isso que sente?
A desinformação, uma agudização dos grupos antivacinas. O que aconteceu em Portugal quando toda esta pandemia começou? Houve, de facto, um movimento de união entre os portugueses e todos, na altura, percebemos que tínhamos que estar de um único lado no combate à pandemia. Julgo que neste momento, esse movimento está a desvanecer e aquilo que eu vi hoje na vossa rádio, no comentário contracorrente, eu estou aqui dentro, naturalmente, opinião é opinião, mas significa que, de facto, à partida, faça-se o que se fizer, há quem esteja disposto mais a atirar pedras do que a ajudar.
E perante esse sentimento de desconfiança que vai encontrando, pondera que a vacina possa vir a ser obrigatória?
Não.
Nunca será?
Na minha opinião e proposto por mim, nunca será. Como eu disse há pouco, o Programa Nacional de Vacinação em Portugal é uma das joias da coroa do nosso sistema de saúde. E nunca foi obrigatório. Acho que, na minha opinião, seria um erro se nos passasse pela cabeça tornar a vacina obrigatória.
Não é preciso inventar a roda, portanto, olhando para o nosso plano nacional de vacinação. Francisco Ramos, muito obrigada por ter vindo ao gabinete de crise.
Obrigado eu pelo convite.
Conseguiu mesmo ajudar-nos a esclarecer algumas das dúvidas que tinham ficado um pouco no ar na apresentação de ontem. É normal e, mesmo assim, precisaríamos ainda de mais tempo para mais algumas. Muito obrigada, uma boa tarde e esperamos que possa voltar ao gabinete de crise numa outra oportunidade. Sónia Dias.
Quando mudarem de nome, gabinete de outra coisa que não seja crise. Boa tarde e muito obrigado.
Estamos a contar com o Francisco Ramos para que não seja necessário. Sónia Dias, Pedro Pita Barros, muito obrigada também por terem estado aqui. Vão voltar, como sempre, para a semana, para mais um gabinete de crise. Este chega ao fim. Bom fim de semana.