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Está reunido o gabinete de guerra desta tarde com o historiador Bruno Cardoso Reis, ele que desde o início tem nos ajudado a entender os desenvolvimentos deste conflito. Está aqui também em estúdio a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz. Vanessa, de resto, está a ser este um dia marcado por esse pedido de adesão da Finlândia à NATO.

Que deve ser formalizado no próximo domingo e a Suécia também planeia seguir o mesmo caminho na próxima semana. A Rússia, entretanto, já reagiu. O ministro dos Negócios Estrangeiros avisou que Moscovo será forçado a tomar medidas de retaliação de natureza militar-técnica. Bruno Cardoso Reis, em que é que se podem traduzir essas medidas?

Eu acho que aqui o problema de base, militares-técnicas, foi a linguagem que os russos utilizaram para a invasão da Ucrânia. Agora, o problema das declarações russas é que não têm a mínima credibilidade, seja quando estão a ameaçar, seja quando estão a dar algum tipo de garantia de segurança. E é precisamente isso, esse completo descrédito, que leva a que a maioria dos finlandeses e dos suecos, que seriam aqueles que estariam na linha de fogo no caso de haver realmente uma ação militar russa, a acharem, por exemplo, no caso da Finlândia, a última sondagem que eu vi dava 85% de apoio à adesão à NATO, a acharem que mais vale correr esse risco, mas em troca ter aquela que é a melhor garantia de segurança, a melhor organização de defesa coletiva que existe no mundo, que é de facto a NATO e o Artigo Quinto da NATO.

E Bruno, essa alteração da ideia que os suecos têm da NATO mudou no espaço de mês e meio. Segundo estas sondagens, estes inquéritos que foram sendo feitos neste último mês e meio, houve logo uma subida da percentagem de suecos que então quer aderir à NATO.

Sim, tradicionalmente havia uma maioria que preferia a neutralidade até à invasão da Ucrânia, basicamente, e depois isso inverte-se completamente. Eu até tenho ouvido alguns comentários no sentido de dizer que no fundo isto é uma pressão da opinião pública, mas que as lideranças, os responsáveis políticos, muito pragmaticamente e muito friamente, não têm bem essa visão. Eu acho, francamente, que não é o caso, pelo menos não nos últimos anos. Mesmo na minha experiência de algum contacto direto, por exemplo, ainda há poucos anos atrás com o ministro da Defesa desta área, que dizia, isto já foi depois da ocupação da Crimeia, que a única forma de parar a Rússia, de dissuadir a Rússia, era à força e que era preciso reforçar o investimento em defesa. E no fundo, portanto, a minha interpretação é, de facto, as elites políticas, sobretudo na Finlândia, que têm uma neutralidade sempre muito mais pragmática e até em certo sentido imposta pela União Soviética, como depois da Segunda Guerra Mundial. No caso da Suécia, realmente há uma tradição muito mais enraizada, mais ideológica, parte até de uma certa cultura estratégica. A neutralidade sueca remonta a 1814. Basta dizer isso para se perceber o grau de mudança que isto representa. Agora, mesmo aí, eu acho que já há muito tempo, os líderes, os responsáveis políticos, sobretudo os que trabalhavam mais com estas questões da defesa, estavam convencidos de que isto seria inevitável. Não tinham era realmente o apoio da opinião pública e isso mudou completamente com este espetáculo trágico do regresso da guerra em grande escala à Europa por via da invasão russa da Ucrânia.

Bruno, mas uma das razões mais fortes para a Finlândia e Suécia nunca terem aderido ou pedido a adesão à NATO era precisamente a de não provocarem a Rússia. A partir do momento em que peçam a adesão à NATO, a Rússia não poderá reclamar com alguma razão que está a ser provocada?

Eu acho que depois da invasão da Ucrânia não pode reclamar nada. A questão aqui é, de facto, até ao contrário do que disse a Rússia, e eu procuro fazer uma análise mais ou menos objetiva ou tão objetiva quanto consigo. Eu percebo que uma aliança militar passar a ter novos membros, isso pode colocar problemas a outros países. Nós estudamos na segurança internacional o conceito de dilema de segurança, que é às vezes um Estado até se está a armar para se defender na sua cabeça, mas um Estado vizinho não tem a certeza de quais são as intenções ou até desconfia que essas intenções podem mudar depois das armas chegarem e, portanto, sente-se um pouco inseguro. Agora, vamos lá ver. Não há aqui nenhuma credibilidade para a ideia que a Finlândia ou a Suécia queiram invadir ou ameaçar de alguma forma a Rússia. Não há nenhuma credibilidade, é zero.

Não a Finlândia e a Suécia, por si, mas a NATO.

Sim, mas mesmo aí, por exemplo, a Noruega, há formas de lidar com isso. A Noruega e os países do Leste da Europa que foram aderindo à NATO, por causa do seu temor, precisamente, da ameaça russa, até 2014 tinham este princípio de não colocação de tropas permanente, de não colocação de tropas de outros países da NATO, por exemplo, dos Estados Unidos, nesses novos membros. Portanto, basicamente a NATO servia como uma garantia de segurança. Não alterava em nada, no fundo, o conjunto de forças, os meios militares que estavam no terreno nesses países. Isso só é alterado a partir de 2014. Portanto, até houve durante muito tempo, muita disponibilidade para encontrar algum compromisso e procurar alguma forma de acomodar as preocupações russas, sem ceder completamente a essas pressões, porque isso seria reconhecer à Rússia uma espécie de continuação do bloco soviético. Portanto, aqui uma espécie de direito da Rússia determinar o que a Polónia ou a Finlândia ou outros países decidem. Eu acho que este novo alargamento da NATO é realmente o alargamento de Vladimir Putin. Ele conseguiu, em poucos meses, alterar aquilo que no caso da Suécia era uma predisposição, uma preferência pela neutralidade que tinha dois séculos. E portanto, acho que, de facto, como disse ontem o presidente finlandês, se os russos vierem pedir contas, aquilo que eles vão responder é: "Olhem-se ao espelho. Vocês é que foram culpados por esta mudança".

Bruno Cardoso Reis, deixa-me também chamar aqui à conversa o Major-General Arnaut Moreira, que entretanto se juntou também ao nosso gabinete de crise. Aproveitamos estes minutos finais consigo, senhor General, até porque também desempenhou funções de Intelligence Officer na NATO. Teremos aqui dois países a quebrar a neutralidade militar, a Finlândia e a Suécia, que é o que vimos falando aqui. Que significado é que tem esta provável expansão da Aliança Atlântica? E é como diz o Bruno Cardoso Reis, o alargamento de Vladimir Putin?

É certamente causado por ele e é uma das causas não previstas. Nada fazia prever a Vladimir Putin que toda esta sua vontade de impedir a adesão da Ucrânia a estruturas de segurança ou económicas de nível regional, acabasse por ter como efeito final que a NATO se encostasse 1400 km ou 1300 e tal quilómetros à sua própria fronteira da Federação Russa. Isto deve-se também porque houve uma alteração muito substancial na opinião pública europeia. E foi a observação da brutalidade russa na Ucrânia que fez mudar esta opinião pública, porque a opinião pública tem um efeito decisivo sobre aquilo que é a tomada de decisão dos governos e dos representantes dos países, porque eles sentem-se amparados pela opinião pública quando têm que dar um passo de gigante, como é este passo que agora estão a dar. Mas eu devo dizer que isto não tem implicações apenas na Suécia e na Finlândia. Isto tem implicações gigantescas para os Estados Bálticos. Os Estados Bálticos estavam muito desprotegidos do ponto de vista do seu flanco norte. Neste momento, eles estão muito mais aparados, porque eles estão agora junto com um conjunto de outros países que pertencem à mesma organização e que podem dar profundidade. Quando olhamos, por exemplo, para o mapa destes países bálticos, uma das coisas que notamos imediatamente é que eles não têm profundidade estratégica, o que significa que uma invasão convencional, se tiver sucesso em dois dias, encosta as forças ao mar, já não há para onde ir. Ora, o bloco escandinavo da Escandinávia do Norte, portanto, Finlândia, Suécia e Noruega, constitui a retaguarda estratégica que estes países do Báltico não têm, porque não têm geografia que lhes permita acalentar uma defesa em profundidade. E portanto, a adesão não favorece apenas os desejos de segurança da Suécia e da Finlândia. Ela de alguma maneira também vai fortalecer um conjunto de países da NATO muito desprotegidos e que estavam na linha da frente, que eram a Letónia, a Estónia e a Lituânia.

Major General Arno Moreira, foi pouco tempo, mas foi muito importante para nós poder contar também consigo neste Gabinete de Guerra e agradeço também mais uma vez ao Bruno Cardoso Reis.

Obrigado