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Este é o som do gabinete de guerra das manhãs 360. Esta terça-feira contamos com a análise do coronel José do Carmo. Muito bom dia, senhor Coronel.

Olá, bom dia.

Bom dia. Assistimos a um reacender do conflito Irã e Israel, Estados Unidos, nos últimos dias. Houve apelos dos Estados Unidos ao cessar-fogo. Ajude-nos a perceber o que está a acontecer, qual é a síntese que se pode fazer dos últimos dias.

O que está aqui a acontecer é o Irã a tentar impor uma nova equação. O Irã está-se a aperceber de quase um desespero total dos Estados Unidos para obter um acordo a qualquer preço e a capacidade que tem neste momento de alcançar uma equação que lhe seja favorável, no sentido em que podem usar o Hezbollah não só como proxy, que tem tido contra Israel, mas neste momento para criar uma separação nítida entre os americanos, neste caso a administração Trump, e Israel. Portanto, estão a jogar no prolongamento destas negociações, entre aspas, e aproveitando tudo isto para fortalecer a sua posição. Não é muito boa, mas eles de fato estão a jogar muito bem em termos negociais e estão a criar não só esta ideia de que não estão assim tão desesperados como isso e que conseguem marcar o seu poder na região, apesar de terem menos, e apesar de nos últimos dois, três anos, os seus proxies terem sido bastante reduzidos, o seu poder ter sido, de fato, materialmente reduzido, mas estão a conseguir, através destas negociações, apercebendo-se claramente do desespero americano por um cessar-fogo a qualquer preço, e estão a extrair o máximo possível de vantagens de situação que não é muito boa, mas que eles estão a explorá-la de uma forma bastante inteligente, temos que reconhecer isso.

Houve apelos por parte de Donald Trump dirigidos a Israel para que terminasse os ataques levados a cabo nos últimos dias. Houve notícias daquele telefonema um pouco azedo entre Trump e Netanyahu. Há uma degradação das relações entre Estados Unidos e Israel, coronel José do Carmo?

Eu não chamaria apelos, eu chamaria aquilo que é habitual em Trump, quando acha que tem poder sobre algum parceiro, que neste caso era um parceiro ombro a ombro, pelo menos tinha sido aqui há 100 dias. E quando Trump tem o seu interesse, neste momento o seu interesse é acabar com a guerra de modo que resolva esse problema do Ormuz, que não existia antes, mas que o Irã conseguiu colocar à ordem do dia. E portanto, ele neste momento, Israel está-se a interpor, porque Israel tem interesses próprios, que não se coadunam com aquilo que Donald Trump quer. Donald Trump quer resolver uma situação rapidamente, porque tem problemas internos, tem eleições intercalares, tem uma série de problemas. Israel tem problemas diferentes e neste momento os problemas de Israel são problemas existenciais, quer dizer, são inimigos que estão ali à volta, que o querem destruir e, portanto, qualquer ataque feito a Israel que não tenha uma resposta é uma diminuição da sua capacidade de dissuasão. Neste momento, Israel só funciona com uma capacidade de dissuasão forte, ou seja, só se os seus inimigos souberem que atacando têm uma resposta violenta é que pensam duas vezes antes de atacar. E se Israel não responder, coloca-se numa situação difícil em que se torna propenso a mais ataques. Há quem compare o que aconteceu na guerra do Iraque, em que o Iraque disparou mísseis Scuds sobre Israel e na altura a coligação americana e árabe, no fundo, em vários países, pediu a Israel para não responder. E há quem compare isso ao que está a acontecer agora. O problema é que na altura, o que se passava ali era que havia que manter viva e atuante uma coligação que estava a derrubar Saddam Hussein e a derrotar o Iraque, portanto, estava a manter um combate. E neste momento, ao contrário, os Estados Unidos estão não a fazer apelos, mas estão claramente a exigir ou quase que a mandar Israel a não responder a ataques, que nos Estados Unidos não doem nada, mas aos israelitas doem, quer dizer, os mísseis caem lá em cima deles, portanto, é uma perspectiva completamente diferente de alguém que leva com eles em cima, de alguém que está lá longe a olhar para papéis e a ver filmes. E por isso, este pedido, este apelo, eu ponho entre aspas sempre, porque não é esse o tom que Trump utilizou. Isto para Israel não é aceitável. Por outro lado, Israel também não pode de caras confrontar os Estados Unidos porque há muitos interesses na sua área de defesa, que dependem muito dos Estados Unidos. Esta dependência que se foi criando ao longo do tempo, de sistemas de armas que os americanos têm, que só eles produzem em quantidade e Israel não tem em quantidade. E portanto, tudo isto coloca Israel numa situação muito difícil, em que basicamente já há internamente quem ache que há que fazer uma separação. E este é que é o problema, os Estados Unidos estão com estas ações constantes com os seus aliados.

Coronel José do Carmo, há quem defenda que se deve fazer uma separação entre?

Não, uma separação, desculpe, já cortou-me o fio, já não me lembro bem o que estava a falar.

Não há problema.

O problema é que, neste momento, os Estados Unidos estão a colocar todos os seus aliados perante situações que levam a que todos estes se afastem e deixem de confiar cada vez mais nos Estados Unidos. Os Estados Unidos estão a colocar-se numa situação de isolamento que não é boa para os seus aliados, colocando-os perante situações muito difíceis, como aconteceu também com a Europa e com a Gronelândia. Isto, a prazo, é muito mau para toda a gente, para o Ocidente, claramente, e para os Estados Unidos, em particular.

Donald Trump anunciou ontem que, nas próximas duas semanas, os Estados Unidos vão ter uma vitória total neste conflito no Médio Oriente. Como é que analisa estas palavras do presidente norte-americano? É retórica da guerra ou há algum indício que nos demonstre que esta vitória vai acontecer nas próximas duas semanas, coronel José do Carmo?

Não vai acontecer. Donald Trump tem uma retórica muito hiperbólica em torno da vitória. Não vai acontecer. Aliás, ontem as palavras do vice-presidente americano deram a entender bem o que é que vem aí. Vem aí calmamente e o Irão vai fazer durar isto o máximo de tempo possível, portanto não vai ser rápido. Eles vão extrair destas negociações o máximo possível de concessões. Sim, eles têm que fazer um acordo, o Irão tem que fazer um acordo porque a situação não está boa, mas vão fazê-lo saindo por cima. O lançamento destes mísseis, sem haver uma resposta de Israel, coloca-os outra vez na situação em que podem recuperar o seu prestígio. Por outro lado, segundo disse ontem o vice-presidente americano, isto só tem a ver para os Estados Unidos com um acordo nuclear em que o Irão garanta que não vai proceder a armas nucleares. Para os americanos, isto basta. Mas não eram estes os objetivos desta guerra. Eram outros: o Irão como potência regional quase dominante, impositiva e agressiva. Isto não vai acabar. Donald Trump já se percebeu que vai satisfazer com um acordo em que o Irão diga que não vai proceder a armas nucleares. Vai deixar a parte dos mísseis e dos proxies para outras calendas, provavelmente já não é para esta administração, e o Irão vai ser reforçado disto tudo. Depois, ainda há a questão de o Irão declarar uma coisa ser muito diferente de verificar isso. Eu não creio que os Estados Unidos vão deixar cair nessas tecnicidades de arrastar o acordo para que tudo isso seja verificável. Eu penso que se vai sair desta guerra com uma separação cada vez maior entre a América e os seus aliados, que deixam de confiar nos Estados Unidos, um Irão na mó de cima, porque vai conseguir restaurar as suas capacidades a prazo, não será já, mas a prazo vai fazê-lo, vai manter uma dominância sobre a região e, portanto, digamos que desta guerra, que não vai ser levada até ao fim, os Estados Unidos não foram capazes de o fazer, é apenas comprar a próxima guerra, porque Israel não vai aceitar uma equação em que seja atacado a partir do lado e o Irão esteja lá longe sem sofrer as consequências das ações dos seus subordinados, neste caso, dos seus proxies. Portanto, este acordo vai comprar a próxima guerra, que será bastante mais devastadora.

Coronel José do Carmo, muito obrigado, agradeço. Boa terça-feira e bom fim de ano.

Igualmente para si.

Obrigado.

Muito obrigado então.