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Gabinete de Guerra da Rádio Observador, esta tarde com o Major-General João Vieira Borges, a quem agradeço a disponibilidade. Boa tarde, senhor Major-General. Acontece este Gabinete de Guerra pouco tempo depois de ter sido conhecida a notícia de apreensão por parte dos Estados Unidos de dois petroleiros que saíram da Venezuela. Um dos petroleiros tinha bandeira russa. O chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov, já fez exigir que os Estados Unidos garantam um tratamento humano e digno aos tripulantes russos a bordo deste petroleiro. Perguntava-lhe se este incidente tem o potencial para criar um problema diplomático entre Estados Unidos e Rússia.
Muito boa tarde, muito obrigado pelo convite. Efetivamente, tem potencial. E tem exatamente porque o Kremlin já referiu que a apreensão deste navio, que agora tem uma designação diferente do que tinha há uns anos atrás, agora chama-se Marnera, se não me engano, constitui uma violação do direito marítimo internacional. Por outro lado, segundo informações que chegaram até nós, da parte do comando europeu dos Estados Unidos, a apreensão foi feita de acordo com o mandado emitido por um tribunal. Aliás, este navio com bandeira russa já tinha sido sancionado pelos Estados Unidos por operar uma frota fantasma, por transportar petróleo ilegalmente, e também há a notícia de que haveria pelo menos um submarino e um navio russo nas proximidades. Portanto, há todas as condições para efectivamente haver aqui alguma troca de palavras entre a Casa Branca e o Kremlin. Já agora, um dos petroleiros, este tinha a bandeira russa, efectivamente tinha viajado do Irão para a Venezuela e inverteu a rota quando se apercebeu do embargo. Portanto, é diferente do outro. Esse quando tinha saído da Venezuela, não sei para onde, mas este era uma situação diferente, este teve buscas durante mais de uma ou duas semanas. Portanto, este é um navio muito especial, mas que tem mandado já desde 2024. É uma situação diferente.
Senhor Major-General, entretanto, continuamos aqui num clima de alguma indefinição sobre o futuro político imediato na Venezuela. Importante para qualquer desfecho será o posicionamento das Forças Armadas venezuelanas. Já percebemos qual vai ser exatamente a posição assumida pelas chefias militares na Venezuela, se apoiarem ou não esta intervenção dos Estados Unidos e a gestão do país ambicionada por Donald Trump?
É muito difícil entender, até porque os dois militares com maior poder, é o ministro da Defesa e o ministro da Ação Interna, muito leais a Maduro, e portanto controlam umas Forças Armadas consideráveis, por um lado, e umas milícias também que têm uma força específica, designadamente nos territórios do interior, ligadas eventualmente ao narcotráfico. Portanto, a partir daí é muito difícil seguir aquela linha de previsão que eu segui numa fase inicial, logo nas primeiras horas, de haver militares generais envolvidos, e são muitos os generais. É uma maneira de compensar, neste tipo de regimes, de compensar, de dar lealdade a promoções a general de dois mil e tal generais, quando os Estados Unidos têm 800 para 130 mil homens, se não me engano, no total. É sempre difícil na Venezuela saber quantos militares e milícias no seu conjunto. Mas isto para dizer o seguinte: aquilo que parecia numa primeira fase, havendo ligações a militares venezuelanos, seria a tradicional junta militar. Um golpe, normalmente, neste caso seria de direita, em oposição ao regime de esquerda, e depois preparariam, em coordenação com os Estados Unidos, aquilo que seria a tal transição para a democracia, na nossa perspectiva, e para a liberdade e para a venda de petróleo na perspectiva de Trump. Mas isso até agora ainda não aconteceu e é muito difícil, nesta fase, vir a acontecer. Portanto, os Estados Unidos prepararam a operação de extração, uma operação de excelência em termos militares, mas não prepararam o futuro. O que é típico, já vimos desta administração. E portanto, a situação continua a ser dominada pela presidente interina, por estes dois militares. Já percebi até por hoje a declaração de luto nacional em honra dos 24 militares, a linguagem tipicamente militar. Portanto, eles têm uma influência muito grande os dois, mas eles são leais a Maduro e são leais a toda uma estrutura complicada que vive do narcotráfico, que vive da corrupção e que vive da pobreza do povo venezuelano. E portanto, isso é muito difícil alterar na minha perspectiva, a não ser que houvesse ligações privilegiadas dos Estados Unidos com outros generais que tivessem algum poder. Vamos ver a evolução da situação, mas não tendo sido logo no início, já é muito difícil Numa fase posterior que venha a acontecer.
O senhor Major-General admite a necessidade de uma segunda intervenção por parte dos Estados Unidos, caso não consiga obter o apoio junto às Forças Armadas para as intenções do presidente dos Estados Unidos?
Eventualmente. Foi isso que ficou subjacente na primeira intervenção do presidente Trump. Uma segunda fase teria lugar se fosse necessário. Ora bem, se a situação de caos se colocar, uma segunda intervenção, como ele disse, com botas no terreno, é uma intervenção com muito maior risco. É um risco de baixas, é um risco do arrastamento de um processo, em termos militares, muito complicado e, sobretudo, é o risco de uma imagem, que já é má, da parte desta administração Trump, em termos de respeito pelo direito internacional, seria certamente ainda mais criticada pela comunidade internacional e deixaria pouca liberdade de ação aos Estados Unidos para outras intervenções. Designadamente aquelas que ele próprio anunciou, que é relativamente a Cuba, à Colômbia, à Gronelândia e a outras situações. Ele nem falou no Canadá, mas aquelas que estavam na sua linha de pensamento logo nos primeiros dias, faz agora um ano, ou daqui a pouco um ano, quando tomou posse.
O senhor Major-General falava na Gronelândia há pouco. Há cerca de duas horas, o ministro dos Negócios Estrangeiros de França disse que Rubio afastou a possibilidade de uma ação na Gronelândia semelhante à Venezuela. Podem os europeus ficar descansados?
Não podem nem devem ficar descansados, porque uma coisa são as declarações do presidente, outra coisa são as declarações do secretário de Estado, que ele se quiser amanhã demite, como já o fez na administração Trump 1.0. E com o National Security Advisor, fez isso três ou quatro vezes. Portanto, há aqui uma disputa que nós percebemos perfeitamente, quem acompanha a política norte-americana, o Marco Rubio tem uma visão, enquanto que o JD Vance tem outra visão, e estas duas estão em confronto. Nós não nos apercebemos, mas o Marco Rubio neste momento é o pensador estratégico. Por quê? Porque ele é que está a desempenhar as funções de National Security Advisor. E esse é o homem que pensa futuro, que pensa estratégia. O próprio documento estratégico foi trabalhado por ele, porque foi demitido o anterior e ele é que ficou com essa responsabilidade em acumulação, o que tem uma certa lógica ser o ministro dos Negócios Estrangeiros a pensar as prioridades de segurança e defesa e diplomáticas. Agora, ele tendo dito isto, foi uma mensagem importantíssima para a Europa pensar nessa possibilidade, mas já não sobre a pressão que tinha antes. Portanto, ele veio sossegar um pouco. A Europa percebeu perfeitamente, quer os congressistas, até republicanos, quer democratas, essa maioria, naturalmente, teve que chamar também a atenção de que a intenção é, sobretudo, comprar a Gronelândia, em vez da invasão do território. Ora bem, se isto sossega, por um lado, impõe que se trabalhe em termos diplomáticos, que se trabalhe também em termos de decisões a tomar. Hoje estiveram reunidos exatamente para trabalhar que decisões tomar, pelas repercussões que pode ter para a estabilidade na Europa, e designadamente para a própria NATO. Isto altera completamente a geopolítica europeia e mundial.
Deixe-me aproveitar para perguntar, porque o ministro dos Negócios Estrangeiros de França disse também que os líderes europeus estão a preparar um plano para responder às ameaças de Donald Trump, com o objetivo de a Europa ser convincente e contundente. Que tipo de resposta antecipa que a Europa poderia adotar caso os Estados Unidos se apoderassem, de facto, do território da Gronelândia?
Eu não estou a ver uma reação militar, de maneira alguma. Curiosamente, o meu professor de geopolítica, já falecido, em 1979, eu estive a ver apontamentos há bem pouco tempo, já ele dizia que mais tarde ou mais cedo os Estados Unidos iriam tentar apoderar-se daquela região, porque bastava olhar para o mapa. Era um coronel muito interessante, sobre esse e sobre outros aspectos, infelizmente, grande parte das suas previsões vieram a acontecer, ou perspetiva. Mas, neste caso em concreto, na conjuntura atual, e isto da conjuntura é muito importante, obviamente que não era um instrumento militar. A Europa não vai usar um instrumento militar contra os Estados Unidos se houver uma ação militar. Vai usar outras formas de coação, designadamente a coação política e sobretudo a coação económica, tendo em conta que a Europa obviamente exporta mais do que importa dos Estados Unidos e os Estados Unidos têm um déficit enorme relativamente à Europa. E obviamente que a busca de outros mercados, a busca de outros aliados e a busca de confiança nas relações é importante. Eu acho que, sinceramente, para conter a Rússia e a China no Ártico, como ele diz que no fundo é uma questão de segurança, e quando ele diz é porque é, porque se ele dissesse que era uma questão económica, se fosse essa a prioridade, era essa a prioridade. Trump não tem limites na sua linguagem, tal como não teve aquando da operação de extração na Venezuela. Relativamente à Gronelândia, claro que há outras riquezas, mas o fundamental é exatamente a questão da segurança e a relação com a Rússia e a China, os tais navios, o controle do Ártico Mas para isso, acho que Marco Rubio percebeu perfeitamente, é mais importante fortalecer as alianças que dispõe, designadamente com a Europa, do que propriamente fragmentá-las e criar problemas estratégicos enormes para os Estados Unidos. Eu penso que Marco Rubio já deve ter explicado isso. Uma coisa é a zona de influência América, ou a doutrina Monroe atualizada. Outra coisa é a Gronelândia, é preciso explicar que é completamente diferente. Quer o entendimento interno, até, quer, sobretudo, o entendimento externo e as consequências desse entendimento pra geopolítica mundial. Espero que já tenha explicado a Trump.
Poderia ditar o fim da Aliança Atlântica tal como a conhecemos, da NATO?
Sim, claramente. Quando a própria Dinamarca já o veio dizer explicitamente, acho que também foi na mesma linguagem de Trump. É bom ser transparente, em vez de andar com diplomacia, quando ele utiliza esse tipo de linguagem, é preciso ter uma resposta dura, igualmente dura, como a dele. E ela foi contundente, não teve dúvidas nenhumas e não falou em nome da NATO, falou de acordo com aquilo que está, obviamente, na defesa. Quando há um dos membros da NATO que, em vez de ser protegido pelo Artigo Quinto, é invadido por outro membro da NATO, obviamente, é o fim da NATO. Eu acho que aí não há grandes dúvidas. Teríamos que trabalhar o mundo de outra maneira, porque mesmo que não termine no dia a seguir, obviamente que deixa de haver relação de confiança e em termos de uma organização defensiva político-militar, e isso é importante referir, não é só militar. Não havendo confiança, obviamente que ela pode existir no papel, pois na prática nunca existirá para defender os seus membros.
Sobre este tema, há agora a indicação de que a Gronelândia e a Dinamarca, o reino da Dinamarca, querem reunir com a Casa Branca com este tema em pano de fundo da possível intervenção norte-americana neste território. Senhor Major-General João Vieira Borges, muito obrigado pela sua presença, pela análise que partilhou conosco, essencialmente sobre este caso dos dois petroleiros apreendidos pelas forças norte-americanas e também sobre as possíveis consequências que decorriam de uma intervenção dos Estados Unidos na Gronelândia.