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Abrimos a porta para mais um episódio do Gabinete de Guerra, hoje, como dizia o Nelson, com o historiador Bruno Cruz Reis, que está conosco em estúdio. Bruno, bem-vindo.
Olá, obrigado.
Começamos, naturalmente, com o tema que está a marcar o dia, o ataque russo perto da fronteira entre a Ucrânia e a Romênia, que atingiu um prédio residencial na Romênia. Isto é sinal de desleixo por parte da Rússia? Pode haver aqui algum grau de intencionalidade, ou é sinal também de que o Kremlin não está muito preocupado com as repercussões que esses ataques possam ter?
Eu acho que pode ser uma estratégia deliberada de testar as defesas dos países da NATO, em particular estes mais próximos da Ucrânia, nomeadamente a Romênia, mas também pode ser, de facto, desleixo, descuido. Agora, isso é sinal ou confirma, no fundo, essa ideia que está implícita na tua questão, que me parece muito pertinente, que o Kremlin, na Rússia, não tem grande receio da reação da NATO. Eu recordo que aqui há uns anos, um avião russo, quando a Rússia tinha uma presença grande na Síria apoiando o regime de Bashar al-Assad, entrou no espaço aéreo turco. A Turquia abateu essa caça russo, não voltou a haver distrações, nem descuidos. Portanto, há anos que digo que me parece que os países da NATO não têm reagido com suficiente robustez. Obviamente, isto não quer dizer escalar-se para uma Terceira Guerra Mundial, não quer dizer usar ou ameaçar usar, como aliás a Rússia faz, ameaça a Europa quase todas as semanas de algum tipo de ataque nuclear. Agora, há meios de resposta que passam por uma defesa aérea avançada, passam por reforçar os apoios à Ucrânia e passam também por reforçar os próprios meios de defesa aérea dos países da NATO para dissuadir, não só para lidar e defender, mas também para dissuadir eficazmente este gênero de intrusões.
Mas o que justifica essa falta de resposta por parte dos países da NATO? É esse receio de que responder no imediato, abatendo estes equipamentos, representasse ou pudesse ser interpretado pela Rússia como um ato de guerra?
Sim, acho que inicialmente e durante demasiado tempo foi muito isso, ou seja, aquilo que eu chamo uma insistência numa guerra demasiado limitada, não porque alguém queira que uma guerra é uma coisa boa, muito menos uma guerra alargada, mas o apoio à Ucrânia durante demasiado tempo foi demasiado limitado por receios infundados de escalada que não correspondiam de todo aos interesses racionais russos, nem ao comportamento russo. E, por outro lado, também há a questão de que são máquinas muito pesadas, máquinas governativas, orçamentais e também máquinas no campo da defesa, as Forças Armadas, muito pesadas, muitas vezes com grande inércia. E, portanto, eu continuo sem perceber como é que é possível, passado todo este tempo, sobretudo os países da linha da frente, mas eu diria que até países como Portugal, como é que não se têm sistemas muito mais avançados e eficazes de defesa anti-drone? Como é que estamos dependentes de F-16, que já se sabe que não são o meio ideal, que são extraordinariamente dispendiosos de usar, que demoram depois demasiado tempo também a ser ativados.
A ser acionados.
Portanto, como é que não se têm defesas mais eficazes a este nível? É evidente que já se devia ter avançado muito mais nesse campo. A Rússia percebe que isso não aconteceu e, portanto, seja por descuido, seja deliberadamente, não tem propriamente grandes incentivos para deixar ou de se descuidar ou de tentar testar as águas e demonstrar, eventualmente, algumas fragilidades do lado da NATO.
E só para esclarecer ou para sublinhar, isto não é a primeira vez que acontece, já aconteceu na Lituânia, já aconteceu na Polônia. Parece-te razoável ou plausível considerar que este tipo de acontecimentos são um acidente?
Aconteceu na Romênia dezenas de vezes, de acordo com a própria informação oficial. É evidente que há uma coisa que é indesmentível, que a Rússia não está preocupada com evitar isto. Isso podemos dar como adquirido. Agora, eu não consigo ter a certeza, por exemplo, no caso daqueles incidentes na Polônia, com dezenas de drones que a certa altura entram no território polaco. De facto, a Polônia fez um trabalho de análise mais detalhado, mais aprofundado, e foi possível perceber que realmente não podia ser um acidente, porque não era crível que dezenas de drones ao mesmo tempo, todos se enganassem, todos se desviassem. No caso dos bálticos, por exemplo, nos últimos tempos, os países bálticos têm estado a dizer que têm indicações de que a Rússia está deliberadamente a desviar, não só a interferir com drones ucranianos, mas a desviá-los deliberadamente para o território dos países bálticos para tentar criar também problemas, tensões entre a Ucrânia e os países bálticos. Portanto, acho que em alguns casos será deliberado, noutros casos será acidental. O que é bastante evidente é que a Rússia vai sempre até ao limite e não tem grandes problemas e realmente não tem tido grandes razões para ter preocupações, para evitar, por exemplo, fazer ataques à Ucrânia demasiado próximo das fronteiras de países da NATO, para evitar algum tipo de retaliação. Já agora, vale a pena dizer que a Polônia realmente reagiu de uma forma muito mais musculada a essa intrusão, ameaçando com uma retaliação direta em relação à Rússia. A verdade é que não voltamos a ter intrusões nessa escala, pelo menos em relação à Polônia.
Uma das respostas da Romênia foi o fecho do consulado-geral da Rússia e também a declaração do cônsul russo como persona non grata. Além dessas medidas de retaliação ou dessas ameaças de retaliação, estas medidas mais por via diplomática também são importantes?
Eu acho que são importantes, fazem parte da linguagem da diplomacia, têm alguns efeitos práticos, no sentido que tornam mais complicado tudo o que seja questões práticas de russos na Roménia. Muitos desses diplomatas russos também são, na verdade, espiões, portanto, também pode ter aí algum efeito em termos da quantidade e da qualidade da informação que a Rússia pode recolher. Agora, haver apenas uma resposta diplomática é que já me parece mais complicado, ou seja, acho que seria fundamental haver aqui um sinal forte de que realmente este tipo de incidentes não se pode voltar a repetir e de que vai ter consequências que tenham um custo maior e mais imediato para a Rússia, seja em termos de apoio à Ucrânia, seja em termos de medidas de defesa mais proativa, mais avançada. Parece-me que sem isso acontecer, este tipo de incidentes vão continuar a repetir-se e até podem multiplicar-se, agravar-se, e era uma questão de tempo até terem consequências mais graves. Neste caso, ainda assim, por milagre, aparentemente só houve feridos ligeiros, mas dependendo da hora ou da zona onde as pessoas estavam, poderia ter resultado inclusive em mortes.
Entretanto, a Rússia prometeu uma resposta ao fecho do consulado. Que tipo de retaliação é que se pode esperar por parte do Kremlin?
Eu penso que será uma retaliação do mesmo género, ou seja, mais uma vez, algum tipo de fecho de alguma representação diplomática romena, expulsão de algum diplomata romeno. Também é tradicional na linguagem diplomática esta espécie de reciprocidade.
Olhamos também para uma outra novela, e que se está a transformar verdadeiramente nisso mesmo, numa novela, sobre o princípio de acordo, o princípio de entendimento entre Estados Unidos e Irão. Chega agora a informação, por parte da CNN Internacional, de que Donald Trump está à espera que o líder supremo do Irão aprove o acordo de paz para o assinar. Estes avanços e recuos que nos chegam quase todos os dias ou às vezes quase que se contradizendo de hora em hora, significam que está a ser difícil chegar a um entendimento ou que nenhuma das partes realmente o quer assinar?
Eu acho que, sobretudo, é um sinal de que é realmente difícil chegar a um acordo. São dois beligerantes com décadas de desconfiança mútua. À partida, não é propriamente uma novidade, mas é importante sublinhar de vez em quando, o Irão e os Estados Unidos não têm relações diplomáticas desde 1979. É um dos pouquíssimos casos no mundo em que isso acontece. Isso obviamente dificulta as relações, a criação de confiança. Este conflito armado também não ajudou. O estilo de fazer diplomacia de Donald Trump também não ajuda, é sempre muito imprevisível, e ele gaba-se, aliás, abertamente disso. O regime iraniano também é um regime complexo, com vários setores. O facto de termos um guia supremo desaparecido em ação, não foram vistas imagens, nunca fez declarações em pessoa, passam uns textos escritos. Tudo isso realmente complica objetivamente as coisas, o processo negocial. Agora, eu acho que em última análise, e este exemplo é um bom exemplo disso, o que temos aqui também é dois regimes e dois líderes e dois tipos de liderança que não estão nada dispostos a ceder nesta área do teatro político, do salvar a face, em muitos casos, e por exemplo, os Estados Unidos muitas vezes fazia isso, até porque era uma grande potência que se podia dar ao luxo de fazer isso, no fundo, permitir ao outro lado ter algum tipo de vitória mais retórica ou simbólica. Mas aqui, realmente, com Donald Trump, isso não existe e do lado iraniano também não existe. Portanto, eu tenho receio que realmente esse seja um problema. Claramente, Donald Trump, mais uma vez, na linguagem diplomática, ser o outro lado a dizer que sim primeiro, no fundo, é um sinal de uma certa vitória política do lado que diz fim por último. E portanto, Donald Trump quer isso, mas eu não estou seguro que o Irão lhe dê isso.
E falamos nos avanços e recuos, eu convidava-te agora, Bruno Cardoso Reis, a fazer aqui um exercício comigo, porque nos últimos minutos e enquanto falávamos, Donald Trump fez mais um tweet ou uma publicação na rede Truth Social, em que diz que o Irão tem de concordar que nunca vai ter uma arma nuclear e que o Estreito de Ormuz vai ser completamente aberto. Faz aqui uma série de exigências e acaba esta publicação dizendo que se vai reunir agora na Situation Room, a sala de guerra onde tudo é decidido na Casa Branca para chegar a uma decisão final. É mesmo uma decisão final? Acreditas nisto ou daqui a umas horas voltamos atrás?
Acho que é claramente uma forma de fazer pressão sobre o Irão. Agora, eu acho que o problema deste estilo também de fazer diplomacia de Donald Trump, diplomacia pelo Twitter ou, neste caso, pelo Truth Social, pela rede dele, e também sempre com declarações muito hiperbólicas, grandes ameaças, é que depois acaba por muitas vezes perder credibilidade. Portanto, eu não estou seguro que ele consiga ser assim tão credível, ou seja, que a ameaça seja assim tão credível, e portanto, também não dou nada por garantido que desta vez é que é, porque isso ele já disse muitas vezes, já ameaçou múltiplas vezes que se não houvesse um acordo dentro de uma hora, iria atacar, etc., e depois isso não se concretiza. Portanto, eu acho que há aqui também esse problema, que Donald Trump realmente é um ator global com muito poder, mas com pouca credibilidade.
Nesta notícia pela qual eu te questionava há pouco, estava aqui implícita também uma outra questão. É que Donald Trump, e não só Donald Trump, mas surgiram várias notícias a questionar, isto ao longo dos últimos meses, se o novo líder supremo iraniano estaria ou não vivo, isto porque não aparece já desde antes de ter sucedido ao pai. Esta notícia de que Trump está à espera que Moitaba Khamenei tome uma decisão, por arrasto, quer dizer que Donald Trump acredita que Khamenei está vivo.
Sim, e só para sublinhar em relação ao que estava a dizer, eu não estou aqui com isto a dizer que não vai haver uma escalada e que Donald Trump não vai desta vez concretizar a ameaça de avançar para uma ação militar, porque ele também já fez isso. Umas vezes não faz, outras vezes faz. O problema é realmente a imprevisibilidade e a falta de credibilidade dessas ameaças. Em relação ao Irão, também temos esse problema, realmente, que é exatamente: é o guia supremo, é alguém a falar pelo guia supremo, qual é a capacidade que ele tem efetivamente de exercer controle sobre a situação, seja por razões de saúde, seja por razões de segurança. Realmente é uma grande questão. Aparentemente, os norte-americanos, como dizias, e esta publicação também vai nesse sentido, aparentemente recuaram de uma ideia que também em certos momentos foi referida por alguns responsáveis de que ele estaria morto ou completamente incapacitado, em coma, etc. E, portanto, no fundo, seria aqui uma espécie de fachada usada por setores mais duros. E agora parecem admitir que, quer por razões de saúde e de segurança, estará retirado em algum lado, mas que realmente está vivo e que tem alguma capacidade de direção política e também, neste caso, diplomática.
Obrigado, Bruno Cardoso Reis, aqui a analisar não só o conflito no Médio Oriente, mas também entre a Rússia e a Ucrânia.
Obrigado