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Mais uma reunião do Gabinete de Guerra na Rádio Observador, hoje com a ajuda do major-general Arnaut Moreira. Entre os pontos na ordem de trabalhos, temos a visita de António Guterres a Kiev, que está marcada para amanhã. Há também um ponto de situação no que toca ao armamento e à batalha pela cidade de Bakhmut e ainda novos desenvolvimentos sobre a explosão dos gasodutos Nord Stream.

E começamos até já por aí. É a notícia que está a marcar esta última hora. Os serviços secretos norte-americanos apontam para um grupo pró-ucraniano como autor desse ataque aos gasodutos Nord Stream. Major-general Arnaut Moreira, bem-vindo.

Olá, boa tarde a todos.

Boa tarde. Este tem sido um dos maiores mistérios desta guerra, esta explosão nos gasodutos. A ser verdade isto que está a ser noticiado pelo New York Times, que reação é que poderemos ter depois por parte da Rússia?

Em primeiro lugar, eu teria muita cautela sobre este assunto. E essa cautela deriva, por um lado, do ponto de vista técnico, isto foi uma explosão que ocorreu a uma profundidade imensa, o que significa que também é importante sabermos quem recolheu as provas e que indícios efetivamente recolheu, porque esta notícia não fala muito sobre os indícios recolhidos. Isto é uma notícia que eu diria que dá um excelente título, mas depois não tem notícia nenhuma, isto é, não contém informação. Eu trabalhei alguns anos em intelligence e pra mim, uma das partes importantes quando eu olho para uma notícia é a credibilidade da fonte. Ora, a fonte aqui não é o New York Times, aqui é referido que são oficiais norte-americanos. Não sabemos quem. Ligados à intelligence, não sabemos que instituição, que eventualmente poderão estar por trás das explosões, um grupo. Poderá, portanto, não é que estão. O grupo pode ser pró-ucraniano e ser contra o presidente Putin, mas não há evidência que terá atuado sob as ordens do presidente. Não se sabe muito sobre os perpetradores, não se sabe sobre as suas filiações. Temos um título, na verdade, temos um excelente título, mas nós não temos informação. E este é que é o problema destas coisas todas. É que nós andamos a correr atrás de um título sem que esse título tenha, para ser sustentado, uma cara ou, no mínimo, uma instituição que se reconheça. Muitas das minhas intervenções são feitas com base em informação que é recolhida, por exemplo, da British Intelligence. Mas, portanto, é uma instituição que quando se pronuncia, dá a cara e assume a responsabilidade pela produção daquela intelligence. Mas quando me dizem que há um grupo que diz que fontes que não podemos identificar disseram que, pra mim essas têm que ser tratadas como notícias e não como intelligence. Portanto, para resumir, a minha posição é a seguinte: é tão verdade isto como outra coisa qualquer. Há aqui um excelente título, mas não há intelligence, não há informação credível para sustentar esta notícia. Tem que haver uma fonte credível que assuma a responsabilidade pela identificação deste ataque. Senão, isto pode ser isto, como podem ser forças de uma ou de outra origem qualquer.

Vamos avançar aqui com dados diferentes, porque estamos a falar de um balanço da NATO que por cada soldado ucraniano, a Rússia perde cinco vezes mais. O Instituto para o Estudo da Guerra tinha alertado que a este ritmo, a capacidade russa para novas ofensivas vai-se perdendo. A Ucrânia pode aproveitar esta fragilidade?

Esta notícia tem por base também aquilo que é o estudo da guerra. Portanto, é muito natural que o número de baixas por parte de quem ataca seja muito superior àquele de quem defende. Neste caso, dizermos que há pelo menos cinco mortes do lado russo por cada um do lado ucraniano, parece-me perfeitamente credível, não porque alguém tenha andado a contar isto, mas porque existe, do ponto de vista histórico, em situações semelhantes, forma de podermos trabalhar este tipo de informação. É preciso ver que os soldados aqui envolvidos pelo lado da Federação Russa são, sobretudo, das milícias Wagner. E ao serem das milícias Wagner, não têm o conjunto dos equipamentos de proteção também de grande nível e, portanto, eles estão mais expostos do que estaria, digamos, um combatente normal nestas circunstâncias. E portanto, a mim não me parece excessiva esta leitura de que por cada soldado ucraniano falecido em combate, haja cinco do lado das milícias Wagner, porque elas estão expostas, porque têm que avançar enquanto os ucranianos estão em posições preparadas e, portanto, mais protegidos, quer dos fogos diretos, quer dos fogos indiretos. Portanto, em resumo, eu diria que A Batalha de Bakhmut, se assim lhe podemos dizer, tem consequências muito graves para os dois lados, porque o número de baixas é muito grande, quer de um lado, quer do outro. Mas ainda assim, do lado ucraniano, esse número de baixas é consideravelmente inferior ao da Federação Russa. Pelo que esta questão de os ucranianos, aparentemente, através daquilo que foram as declarações produzidas por Zelensky, que terá falado, certamente, com os seus generais do Estado-Maior ucraniano, de continuar a defender Bakhmut, é uma avaliação de natureza operacional que tem a ver exatamente com esta leitura. A leitura de que do ponto de vista do desgaste, não obstante haja dos dois lados, a atrição junto das forças russas é uma atrição enorme. E essa atrição pode condicionar, depois de Bakhmut, eventuais progressões por parte da Federação Russa.

Major-General Arno Moreira, quanto ao apoio dos aliados ocidentais, há a promessa de envio para a Ucrânia de 300 tanques de guerra. A Polónia, por exemplo, envia mais 10 esta semana e depois, por comparação, temos a Rússia a usar peças de 1945 para criar tanques de guerra, os tanques Frankenstein. Pode vir a notar-se cada vez mais esta debilidade russa em termos de armamento ou ainda existe para vários meses?

As forças russas começaram este combate com um número muito considerável de carros de combate. Teriam basicamente disponíveis do ponto de vista operacional, portanto, entregues às unidades e prontos a operar, cerca de 3 mil e possuiriam talvez qualquer coisa como 4 mil em depósito. Destes 3 mil, entre 1500 a 2 mil já foram destruídos durante a guerra e portanto, foi preciso recolher aos depósitos. A Federação Russa, neste momento, está a substituir aquilo que eram os melhores carros que tinha, por carros que estavam em depósito. Ora, os carros que estão em depósito são bastante antigos. Desde o verão, calcula-se que tenham saído dos depósitos à volta de 800 carros de combate que foram recuperados, mas são carros de combate dos anos 60. Enquanto nós notamos que do lado ucraniano, os carros de combate são cada vez melhores, porque estão agora a receber a tecnologia ocidental, à medida que o desgaste se foi fazendo sentir sobre os carros de combate da Federação Russa, ela foi substituindo, não por modelos melhores, mas por modelos tecnicamente e tecnologicamente muito mais antigos. Ou seja, a diferença tecnológica está-se a acentuar. É muito interessante verificar que no outro dia, nós vemos pouca televisão russa porque ela está cortada, mas enfim, quem tem acesso pode ir vendo. No outro dia havia um comentador que dizia o seguinte: "Muita atenção a esta questão da evolução tecnológica na guerra, porque os ocidentais estão a fornecer equipamentos cada vez mais modernos e nós estamos a utilizar equipamentos cada vez mais antigos. Talvez esteja na hora de ir para a mesa de negociações." Isso dizia um comentador de televisão da Rússia.

Major-General Arno Moreira, só nos falta aqui um último ponto na nossa ordem de trabalhos do Gabinete de Guerra de hoje. Essa visita de António Guterres a Kiev vai acontecer amanhã. O objetivo é discutir o prolongamento do acordo para a exportação de cereais. Nesta fase em que a guerra está, será possível vislumbrarmos um entendimento nesta matéria?

Eu julgo que este acordo constitui, de alguma maneira, um protótipo de um entendimento que se mostra, se não total, pelo menos parcial em algumas áreas. Talvez até fosse interessante arranjar entendimentos noutras áreas, mas é preciso que este não falhe. Ora, este ano, de acordo com os últimos dados agrícolas da Ucrânia, foi um excelente ano de produção de cereais, pelo que a Ucrânia tem todo o interesse em poder escoar este conjunto muito grande de cereais produzidos. E isto é uma das fontes de exportação, por um lado, da Ucrânia, portanto, de rendimento, que ela tem hoje dificuldade em obter fontes de rendimento, e por outro lado, é também uma forma de alimentar o mundo, porque a Ucrânia é uma espécie de um grande celeiro dos países em dificuldades de natureza alimentar. E portanto, as Nações Unidas também têm aqui uma oportunidade que não podem deixar fugir. As Nações Unidas andam um bocadinho perdidas neste conflito sem visibilidade. A grande visibilidade é verdadeiramente o acordo dos cereais e portanto, a mim parece-me que é de todo o interesse também para as próprias Nações Unidas conseguir que este acordo continue a vigorar nestes termos ou em termos relativamente semelhantes, por forma a mostrar que as Nações Unidas também estão vivas e que podem encontrar soluções para lá daquelas soluções que são óbvias ou daquelas soluções que neste momento parecem impossíveis, como as duas partes sentarem-se à mesa das negociações para encontrar um acordo de paz.

Major-General Arno Moreira, muito obrigada por ter participado no Gabinete de Guerra.

Foi um prazer, uma boa tarde a todos.

Muito obrigada. Voltamos a contar com o Major-General Arno Moreira na sexta-feira, no Domínio da Guerra, nas manhãs 360, como bem lembrar. Obrigada.

Obrigado.