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Abri-se a porta a mais um gabinete de guerra na Rádio Observador. Hoje fazemos o ponto de situação nos conflitos da Ucrânia e no Médio Oriente com Vítor Gabriel Oliveira, ele que é secretário-geral da SEDES Europa. Vítor Gabriel Oliveira, bem-vindo, obrigado por estar conosco.

Obrigado pelo convite.

Hoje começamos com o encontro entre Netanyahu, está já confirmado, vai acontecer na próxima semana. Vítor, isto pode querer dizer que há mesmo um cessar-fogo à vista na Faixa de Gaza?

A Rádio Observador põe sempre questões complicadas. Provavelmente nem Trump saberá o que é que ele vai pensar na próxima semana com aquilo que temos visto nas últimas semanas. O que sabemos é que Trump declarou que o cessar-fogo poderia ocorrer em questão de dias. Sabemos que há, neste caso, uma cessação dos bombardeamentos da parte do Irão e da parte dos Estados Unidos, pese embora o Aiatolá Khamenei se tenha vangloriado e tenha irritado um bocadinho Trump na questão do bombardeamento que fez a uma base americana, mas penso que o próprio Trump também viu que não podia ir mais longe, porque poderia envolver ainda mais os Estados Unidos. Pensamos muitas vezes: "O que é que levará Trump a ir para a direita ou para a esquerda?" E a base de apoio de Trump, que é o movimento MAGA, que não é um partido, é algo dentro do próprio partido, mas que não é só do partido, portanto é um bocadinho diferente. Esse movimento não queria outra guerra, principalmente no Médio Oriente. E Trump foi um bocadinho pressionado também, até publicamente, de forma ligeira nos Estados Unidos e não queria estar envolvido. Mas penso que há bons indícios, agora temos que aguardar, porque com Trump tudo pode acontecer.

E como é que podemos classificar o papel de Trump como mediador dos principais conflitos que vão marcando a atualidade desde que regressou à Casa Branca? Porque especialmente no último mês, houve a intervenção dos Estados Unidos no Irão, que resultou depois num cessar-fogo mais ou menos cumprido por ambas as partes. O conflito acalmou entretanto. Agora parece estar perto um cessar-fogo, como dizia o Vítor, ainda temos de ver. Este mês tem revelado um Trump capaz de obrigar as partes a chegar a consensos ou ainda é cedo para o dizer?

Antes de mais, dizer-lhe que o que nós, na história dos conflitos mundiais, víamos como um cessar-fogo, hoje em dia já não é um cessar-fogo definitivo. Por quê? Porque o mundo tornou-se muito mais dinâmico e os conflitos tornam-se muito mais dinâmicos. Quando Israel recebe os seus reféns há cerca de dois meses, pensávamos que naquele momento tinha acabado e o conflito não acaba naquele momento. Portanto, se alguém assinar, se algum país, algum líder assinar o que quer que seja neste momento, isso não quer dizer que depois milícias daquele país ou aliados daquele país na região não possam criar outro conflito derivado de outra questão. Portanto, o que eu lhe quero dizer é: é tudo muito volátil hoje em dia. E o cessar-fogo, a palavra cessar-fogo era uma palavra muito mais definitiva antigamente do que é hoje em dia. Relativamente à pergunta que me fez sobre Donald Trump, Donald Trump tem tido alguma dificuldade em ser um mediador imparcial, porque nos vários conflitos ele tem, também pela sua forma de estar, mais agressiva publicamente do que era Joe Biden, por exemplo, ou do que são outros líderes mundiais que intervêm nestas mediações, mas ele de certa forma mantém alguma parcialidade, tanto na Ucrânia com a sua proximidade não à Rússia, mas ao papel da Rússia no conflito, muito mais no Médio Oriente com a aproximação, com a ligação dos Estados Unidos extremamente forte com Israel. Aliás, Israel é o principal aliado dos Estados Unidos em toda a região. Só para ter uma ideia, à volta de Israel e na região do Médio Oriente, se não me engano, existem 45 mil militares destacados dos Estados Unidos que dependem da forma como a Mossad trabalha naquela região e da inteligência de Israel para conseguir operar e para manter a sua influência também, que permite aos Estados Unidos uma hegemonia económica, nomeadamente na importação de petróleo e na passagem do Estreito de Ormuz, na passagem da região, e que permite a Trump ser um mediador, mas ter um papel parcial. E tem sido mais a ver o interesse dos Estados Unidos do que a ver o interesse da mediação em si. Só dar-lhe esta nota, neste aspecto, no Médio Oriente, o Egito e o Qatar têm tido o papel de integração e de mediação, de compreensão da cultura para as duas partes, isso é muito importante.

Muito brevemente, antes de olharmos também para o conflito na Ucrânia, surgem as notícias de que o Irão quer retomar as negociações sobre o programa nuclear, assim que tenha garantias de que os Estados Unidos não voltam a atacar o país. É este o único caminho a seguir ou até uma maneira do Irão conseguir garantir que não volta a ser atacado?

Eu acho que é muito complicado uma potência como os Estados Unidos abdicar dessa premissa, ou seja, de poder atacar outro país. Acho que isso não irá acontecer, pelo menos publicamente. O presidente iraniano Ebrahim Raisi e outros altos funcionários da segurança do Irão disseram isso mesmo, que era uma prioridade que o Irão pudesse retomar as negociações, mas que dependeria dessa promessa dos Estados Unidos, que eu não acredito que aconteça. Acredito que o Irão, de certa forma, quererá reiniciar o Plano de Ação Conjunto Global, o JCPOA, que foi abandonado pelo governo precisamente de Trump em 2018. Acredito que o Irão poderá querer reintegrar novamente este programa. Sabemos também que há fontes internacionais abertas e credíveis que nos dizem que o Irão já tem o urânio com mais de 60% de enriquecimento, o que, de certa forma, e nós vimos nas últimas horas algumas notícias que dão conta de bastantes movimentações nas centrais que foram atacadas, nomeadamente caminhões e outro tipo de logística a acontecer. Aquilo que nos vai parecendo é que o Irão está muito focado e quer continuar com o seu programa. Não acredito que os Estados Unidos irão abrir mão e nomeadamente Donald Trump irá abrir mão dessa possibilidade, que é de voltar a atacar o Irão.

Viramos então a página para o conflito entre a Ucrânia e a Rússia, porque surgiram as declarações do enviado especial de Donald Trump para a Ucrânia, Keith Kellogg, diz que a Rússia está a ganhar tempo antes das negociações enquanto bombardeia a Ucrânia. Entretanto, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, veio dizer que isto não é verdade, que a Rússia não está interessada em atrasar nada. Quem é que está a dizer a verdade aqui e a quem é que interessaria este atraso?

Parece-nos óbvio, nós pelo menos no Ocidente, temos sempre uma visão diferente do que têm outras partes do mundo. Eu costumo dizer sempre isto, nós falamos muitas vezes na bolha mediática, na bolha pública, se me permita esta expressão, mas há outras visões do outro lado do mundo que temos que respeitar. Sabemos que quando uma parte envolvida num conflito diz que não está a tentar ganhar tempo, e sabemos que isso nas negociações diplomáticas é uma forma de pressão, isso pode ser uma forma de pressionar a outra parte a aceitar os termos sem uma resolução efetiva ou ceder mais concessões. Aquilo que pode estar a fazer a Rússia neste momento é dizer: "Não, nós não estamos a ganhar tempo", mas na realidade o que estão a fazer é pressionar a Ucrânia. Isso é uma realidade e sabemos que a Rússia ainda hoje produz três vezes mais munições do que os aliados da Europa, e isso é sintomático da forma como a Rússia está resiliente em continuar com o conflito.

Entretanto, no terreno, temos também hoje a notícia de que a Rússia fez em junho os maiores avanços em território ucraniano desde novembro, acelerou também o avanço já pelo terceiro mês consecutivo. Isto são dados do Instituto para o Estudo da Guerra. Vitor Gabriel Oliveira, e para terminar, eu perguntava-lhe se estamos a assistir aqui a um tudo ou nada da Rússia.

Sim, a aceleração do avanço pode ser também uma maneira de Moscow demonstrar e indo para a mesa das negociações. Sabemos que Vladimir Putin disse que queria voltar à mesa das negociações em Istambul, e isso poderá também ser uma forma pública, de guerra e de estratégia de demonstrar que está numa posição mais forte ou ao mesmo tempo que se mantém flexível nas negociações. Sabemos que a pressão militar, neste caso, pode ser exercida para mais concessões diplomáticas, mas também sabemos que, por outro lado, houve uma incursão na semana que passou em Ustumi, penso eu, se não me falha a memória, em que a Ucrânia conseguiu suster uma pressão de 50 mil, segundo informações internacionais, soldados russos. Putin está a fazer a pressão dos soldados, está a fazer a sua parte, mas a Ucrânia está a aguentar. Agora, até quanto tempo, e com isto vou terminar a intervenção, até quanto tempo é que as duas partes podem suster tudo o que se está a passar na Ucrânia? É essa a principal pergunta que gostávamos de ver respondida nas próximas semanas.

E ver vamos o que trazem as próximas semanas. Vitor Gabriel Oliveira, secretário-geral da CEDES Europa, muito obrigado por ter estado conosco neste Gabinete de Guerra.