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Partimos agora para a edição da tarde de Gabinete de Guerra, aqui na antena do Observador, com um olhar muito em particular para os desenvolvimentos relativos à Gronelândia e à intenção de Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, assumir o controle do território. Está conosco nesta edição o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, boa tarde. Ontem foi notícia aquilo que é definido como um acordo alcançado pelos Estados Unidos e pela NATO, muito em particular pelo secretário-geral da NATO, Mark Rutte, sobre a Gronelândia. Já percebemos melhor em que consiste este acordo, esta proposta?
Há mais informação, mas toda ela sem estar confirmada e até, no fundo, uma informação confirmada que temos é que não há nenhum tipo de acordo escrito. O que apesar de tudo é um alívio, porque é evidente que não pode haver nenhum acordo entre os Estados Unidos e a NATO a respeito da Gronelândia, porque o secretário-geral da NATO não é o rei da Dinamarca, nem é o primeiro-ministro da Dinamarca ou da Gronelândia.
Nem foi mandatado para tal, não é?
Não foi mandatado para tal. A Dinamarca não estava presente, portanto, até podia ter aqui uma função de facilitador. Além do mais, as decisões da NATO não são tomadas pelo secretário-geral, são tomadas pelos Estados membros da NATO, por cada um dos 38 Estados membros, inclusive Portugal e a Dinamarca. E portanto, todos os termos em que isto tem sido discutido se prestam a enormes equívocos. Desde logo, também este equívoco, que me parece que pode ser potencialmente perigoso, que é a ideia que mais uma vez foi o nível estratosférico de bajulação a que Mark Rutte se dedica sistematicamente em relação a Donald Trump levou a que algum tipo de mudança na posição do presidente Trump. Ora, esse nível de bajulação não mudou, tem sido bastante consistente da parte de Mark Rutte. O que mudou nos últimos dias foi que não só a Dinamarca deixou claro que não ia ceder, e que não ia ceder ao ponto de enviar tropas para lá. Também tenho ouvido dizer que são poucas tropas, mas já agora convém voltar a sublinhar que há mais tropas dinamarquesas do que norte-americanas na Gronelândia, portanto esta tese que os Estados Unidos é que defendem a Gronelândia tem, desde logo, essa pequena falha. Mas o que mudou foi, sobretudo, também o apoio dos países europeus à Gronelândia a esse respeito, a respeito de que de fato havia aqui uma linha vermelha que era obviamente impossível de aceitar ou ultrapassar, que é o respeito pela integridade territorial dos países membros da NATO, da União Europeia, enfim, dos estados europeus. E portanto, foi isso que terá levado Donald Trump a recuar, a par de essas ameaças europeias terem provocado um certo pânico nos mercados norte-americanos e terem levado também à suspensão do acordo comercial, bastante benéfico aos Estados Unidos, que supostamente teria comprado a vontade de Donald Trump. Mas em relação àquilo que já sabemos, aparentemente, o que se trata é de reforçar a presença da NATO, haver um exercício regular, uma operação regular da NATO, como por exemplo, existe patrulhamento do Mediterrâneo nesta zona. Isso parece-me ótimo e parece-me algo que pode ser uma iniciativa do secretário-geral, desde que tenha depois apoio de outros países. Outra ideia que já me parece que não é toda aceitável e que no fundo voltamos ao mesmo, é esta ideia de que os Estados Unidos teriam uma espécie de bases soberanas, portanto, que o território das bases americanas seria uma espécie de território americano na Gronelândia, e portanto aí a Gronelândia e a Dinamarca têm deixado muito claro, ainda ontem voltaram a deixar claro em Davos, que isso é uma linha vermelha que não vai ser negociada. E portanto, espero que eles não recuem, e espero que os estados europeus também não recuem no apoio a isso, porque realmente é bastante evidente que em relação a alguém como Donald Trump, é absolutamente crucial mostrar força e mostrar que há linhas vermelhas que têm de ser respeitadas. E portanto, se não é suficiente o bom senso para os Estados Unidos perceberem que não podem simplesmente insultar, coagir, tentar ameaçar aliados para conseguir concessões inaceitáveis, então tem de haver outros métodos para deixar isso claro. E portanto, espero que realmente isso seja uma viragem e que isso possa permitir, eventualmente, estabilizar um pouco a relação em termos de um pouco mais de respeito mútuo, porque realmente basta comparar, só para terminar, basta comparar a forma como Donald Trump se refere aos seus aliados europeus e como se refere a Putin ou a Xi, ou até aquela figura entre o patético e o grotesco do monarca comunista da Coreia do Norte, deste membro da dinastia Kim, para perceber que realmente Donald Trump só percebe e só respeita a força.
O posicionamento da União Europeia e de alguns líderes europeus serve de referência para aquilo que deve ser a relação da União Europeia com os Estados Unidos?
A mim parece-me que é evidente que tem de se continuar a negociar com os Estados Unidos. A mim parece-me que há imensos interesses convergentes com os Estados Unidos. Tenho muitas dúvidas que haja grandes valores convergentes com a atual administração americana, que pelos vistos partilha mais valores, tem uma visão do mundo mais próxima de Putin ou de Xi, inclusive nesta questão, de aparentemente achar normal as grandes potências tomarem conta de territórios de outros contra a sua vontade. Mas há aqui um interesse pragmático em continuar a negociar. Parece-me evidente que esta ideia de que a forma de lidar com Donald Trump é a bajulação constante, os elogios constantes e as cedências constantes, é uma receita para o desastre. Ou seja, só vai levar, como levou. Foi exatamente a análise que eu fiz em relação ao mau acordo comercial que foi assinado em má hora, que é: isso não vai levar Donald Trump a estabilizar as relações, a respeitar as relações, a valorizar as relações com os aliados, vai levar Donald Trump a concluir "a Europa é fraca, cede sempre" e portanto, ele vai voltar a pressionar mais a Europa em relação a temas mais complicados, em momentos mais complicados. E portanto, parece-me que é crucial que realmente, de uma vez, os líderes europeus percebam isso e tomem, de facto, as atitudes conformes. As atitudes conformes não é procurar o conflito a toda a hora ou responder a todos os dislates que a toda hora Donald Trump diz, mas é realmente em relação a questões cruciais, deixar claro que não vai haver recuo e que se for necessário, vai haver retaliação. A Europa vai fazer pagar um preço aos Estados Unidos por este comportamento absolutamente inaceitável, em muitos casos em relação a países aliados. Portanto, eu espero que realmente seja aqui uma viragem em termos da atitude certa para lidar com o tipo de líder que é Donald Trump, e para tentar preservar aquilo que é possível preservar das relações transatlânticas, das relações com os Estados Unidos.
E qual deve ser a posição conforme dos países europeus, Portugal incluído, a este novo conselho de paz que ontem foi formalmente criado numa cerimónia presidida por Donald Trump?
Foi uma cerimónia penosa, entre o penoso e o patético, com Donald Trump a dizer que estavam ali os líderes mais poderosos do mundo, quer dizer, de países que ele mais uma vez nem consegue pronunciar o nome, países tão poderosos e importantes como Azerbaijão, a Bielorrússia. Aliás, ele aí de facto foi rigoroso quando disse: "Bem, aqui realmente só estão líderes que eu gosto." Portanto, basicamente é isso, é uma coleção de migalhaços de Donald Trump. A questão é: este conselho foi supostamente criado com o amparo das Nações Unidas para gerir, para ter algum papel de supervisão sobre o processo de paz e de reconstrução de Gaza. Aparentemente, Donald Trump decidiu transformar isto numa espécie de projeto vaidade pessoal, que passa por coisas como ele ser, não como presidente dos Estados Unidos, mas a título pessoal e até o entender, portanto, à partida vitaliciamente o presidente com direito a veto e a convidar e a desconvidar quem entender deste Conselho da Paz, mas aparentemente com a ideia de que é uma coisa para lidar com a paz no mundo. Ora, nós já temos um Conselho de Segurança das Nações Unidas e portanto, é evidente que isso não faz sentido. É por isso que Estados como a China ou a Rússia não se fizeram representar, não disseram desde já também se vão estar ou não estar. E portanto, parece-me que os Estados europeus fizeram bem em, desde logo, não correr a dizer que sim. Portanto, acho que é mais um sintoma, mais um sinal positivo de que realmente a Europa percebeu que a forma de lidar com Donald Trump não é tentar estar sempre a dizer que sim a tudo, mesmo as ideias mais disparatadas. E portanto, acho que a posição para já é a correta, quer dizer, vamos esperar pra ver. Se for pra gerir Gaza, reconstruir Gaza, muito bem. Se é suposto ser uma espécie de concorrente do Conselho de Segurança, não faz sentido, não vamos estar. E portanto, parece-me que realmente é a posição correta. Portugal também foi convidado e também tomou aqui a posição correta neste caso. Às vezes há um certo excesso de seguidismo no caso da diplomacia portuguesa, na minha opinião, ou seja, estamos sempre à espera de ver o que é que o resto da Europa decide pra depois ir atrás. Mas neste caso acho que a ideia não de esperar e de ir atrás, mas de falar com os outros países europeus e procurar ter uma posição concertada, realmente era a posição mais acertada neste caso.
E já se percebeu exatamente qual é que será o âmbito de atuação deste Conselho de Paz?
À partida, como eu digo, se tivermos em conta a resolução das Nações Unidas que autoriza a sua criação, é pra lidar com Gaza. Se tivermos em conta esta espécie de carta, que até no nome é uma espécie de concorrente, parece ter a pretensão de concorrer com a Carta das Nações Unidas. O que mais uma vez é uma coisa absolutamente absurda, patética, até em termos dos próprios Estados Unidos, porque não é por Donald Trump assinar uma carta que passa a haver algo equivalente à Carta das Nações Unidas. A Carta das Nações Unidas, apesar de ter esse nome, é um tratado internacional e obviamente foi ratificado por quem tem de o ratificar nos Estados Unidos, que é o Senado. E portanto, isto desde logo também em termos dos Estados Unidos, só compromete pra já Donald Trump, a administração Trump, não compromete o Estado americano. Mas se formos por essa tal carta, esse tal papel que Donald Trump assinou, aparentemente, no fundo a ideia é resolver os problemas da paz e da guerra no mundo todo. E portanto, realmente há aí desde logo um choque com o documento, com a resolução das Nações Unidas que autoriza a sua criação. E realmente há este risco de estarmos aqui a duplicar papéis, ainda por cima num formato que não faz nenhum tipo de sentido. No fundo, é um organismo que seria uma espécie de governo global, mas subordinado a Donald Trump. E portanto, acho que nenhum país que se preze irá subscrever isso, tirando aqueles que realmente a sua grande prioridade é estarem sempre ao lado e do lado de Donald Trump. Mas à partida, como eu digo, qualquer país soberano, livre e independente, que preza o seu papel a nível da política internacional, não me parece que faça sentido que aceite isto. Agora, se for reformulado nos termos originais, aí já se pode voltar a pensar outra vez qual será o papel dos países europeus.
Sendo que este processo fica também marcado pelo convite e desconvite de Donald Trump ao Canadá
Sim, aparentemente Donald Trump deve ter sido das poucas pessoas em Davos que não gostou do discurso de Mark Carney, do primeiro-ministro do Canadá, que deixou muito claro, já comentamos isso várias vezes, que realmente houve aqui uma ruptura por vontade dos Estados Unidos, da atual administração, com os seus aliados tradicionais, e os seus aliados tradicionais têm de perder as ilusões e a nostalgia e lidar com o mundo tal como ele é. Porque os próprios Estados Unidos decidiram por essa ruptura, não há nenhuma alternativa lógica e racional que não seja diversificar relações. Diversificar relações não quer dizer, como eu também já ouvi, que o Mark Carney agora vai entregar o Canadá à China. Isso é um absoluto disparate. O que o Mark Carney foi fazer na primeira visita do primeiro-ministro canadiano à China desde 2017, há poucos dias, foi normalizar relações que tinham sido extremamente danificadas precisamente pelo Canadá ser um bom aliado dos Estados Unidos e ter respondido a um apelo dos Estados Unidos para prender uma das responsáveis da Huawei. Isso criou umas tensões brutais com a China e uma espécie de guerra comercial. O que Mark Carney foi fazer foi normalizar as coisas e tirar as consequências deste tipo de atitude em relação aos Estados Unidos. Não devemos, obviamente, pensar um país como Portugal ou como o Canadá em substituir os Estados Unidos pela China, isso não faz nenhum sentido em termos económicos, geoestratégicos ou até de princípios da natureza dos regimes, etc. Agora é evidente que não podemos andar colados aos Estados Unidos, por exemplo, nas suas guerras com a China, quando os Estados Unidos deixam muito claro que não se sentem obrigados a nenhum tipo de solidariedade com os aliados. Francamente, e para terminar, eu acho que provavelmente o Mark Carney até agradece. Tanto quanto eu percebo, o Canadá não aceitou esse convite, como a generalidade dos países que prezam o seu papel e a seriedade do seu papel e da sua diplomacia, não aceitou esse convite. Provavelmente até é um alívio pro Mark Carney ficar dispensado de ter que dizer que afinal não vai fazer parte daquilo que pra já parece ser aqui mais uma espécie de teatro da vaidade do Donald Trump.
Anticipa-se alguma consequência direta para o Canadá desta decisão e desta intervenção de Mark Carney no Fórum Econômico Mundial, na relação com os Estados Unidos?
Vamos ver. O Canadá já sofreu algumas consequências e está a lidar com elas e como deixou claro Mark Carney, está disposto a pagar esse preço. Desde logo, porque não acredita que seja possível chegar a bons acordos simplesmente por cedência atrás cedência ao Donald Trump. A opinião pública canadiana, aparentemente, também está disposta a pagar este preço, não está disposta a ser transformada numa espécie de colônia dos Estados Unidos. Mas a verdade também é que se não há medidas mais pesadas em relação ao Canadá, é porque isso também tem custos econômicos para os Estados Unidos. Por exemplo, Donald Trump chegou a falar na grande fonte do déficit comercial com o Canadá em bens, que é a exportação de petróleo canadiano a preço de desconto para os Estados Unidos, e depois recuou porque percebeu que se fizesse isso, o preço da gasolina e do gasóleo nos Estados Unidos ia subir muito substancialmente. Se ele não retalia mais já, parece-me que é sobretudo por isso e tenho algumas dúvidas que ele consiga retaliar muito para além destes gestos simbólicos.
Bruno Cardoso Reis, obrigado pela tua presença neste Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Historiador Bruno Cardoso Reis, aqui a ajudar-nos a analisar alguns temas da atualidade internacional que vão estando na ordem do dia, muito em particular a questão da Gronelândia, a criação do Conselho de Paz e esta decisão de Donald Trump de retirar o convite que havia feito ao Canadá precisamente para integrar este Conselho de Paz.