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Este é o dia 148 da invasão russa na Ucrânia. Temos mais um gabinete de guerra reunido com o Bruno Cardoso Reis, a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz, que vão hoje olhar para os desenvolvimentos e declarações das últimas horas. Moscovo, por exemplo, já falou sobre a reativação do gasoduto Nord Stream 1 e também sobre as inexistentes negociações de paz com Kiev.

Como as negociações não têm existido e parece que tão cedo não vão existir, vamos primeiro a essa questão do gás. Bruno Cardoso Reis, boa tarde. Apesar dos receios da União Europeia em sentido contrário, o gasoduto lá começou a funcionar, mas com menor capacidade. O porta-voz do governo russo chuta responsabilidades para a Europa no que toca aos problemas de fornecimento e frisa que a Rússia tem um papel muito importante na segurança energética europeia. Está a dizer, no fundo, que tem a faca e o queijo na mão? E qual é a estratégia de Vladimir Putin?

Olá, boa tarde. Sim, eu acho que é um pouco isso. Realmente nós pusemos-nos nessa situação. Eu percebo que é uma questão de resposta difícil, porque realmente a opção de os europeus cortarem a compra de gás à Rússia, portanto sancionarem a Rússia a esse nível, que teria um enorme custo para o Kremlin, mas também teria um enorme custo na economia europeia. As estimativas do FMI que discutimos ontem apontam para números que vão até aos 6% em algumas economias europeias, negativos, portanto, de quebra no PIB. Agora, de facto, o resultado de não se ter feito essa opção significa que quem toma aqui as opções é Putin. Há muitos problemas na Rússia, desde logo um regime cada vez mais autocrático, mas a verdade é que a equipa de Putin, em termos económicos, tem pessoas de bastante qualidade e muitas vezes são elogiados até pelos seus críticos. Por exemplo, é muito falada a questão da governadora do Banco Central. No campo da energia também é evidente que a Rússia tem alguma capacidade de gestão dos recursos e, portanto, aquilo que parece estar a ser a opção, e que é a continuidade de uma política que já vem pelo menos há um ano, tem sido continuar a abastecer a Europa, mas em quantidades cada vez menores para impedir os países europeus, em particular a Alemanha, de constituir reservas. Neste momento, elas estarão à volta dos 60%, mas deviam chegar aos 90% no inverno e, portanto, durante o verão geralmente é o período em que essas reservas vão sendo reforçadas. A Alemanha cometeu, a par de outros erros, ainda um erro tremendo que foi entregar uma parte da gestão dessas reservas estratégicas. Portanto, não é só o abastecimento, as próprias reservas estratégicas na Alemanha eram da Gazprom, eram da empresa estatal russa de gás, e portanto percebeu-se, entretanto, que estavam muito longe do grau de abastecimento em que deviam estar. Isto abriu um espaço adicional para a Rússia fazer esta gestão, que ainda por cima com a inflação dos preços, permite, vendendo menos quantidades, receber mais ou menos o mesmo dinheiro. Aquilo que foi anunciado é que esse abastecimento de gás irá regressar, portanto, o corte não é completo. A Rússia continua, de facto, a precisar de dinheiro ocidental, mas a quantidade de gás será ainda menor do que aquela que existia antes desta interrupção. Já se falava que estaria à volta dos 60%, agora diz que não irá acima dos 30%. Tudo isso vai tornar mais difícil a gestão para já dos preços e eventualmente a prazo e, sobretudo no inverno, até da própria quantidade, ou seja, haver gás suficiente e eventualmente ter-se-á recorrer à questão do racionamento, que já está, aliás, a ser preparado e estudado até pela União Europeia.

Bruno, já vamos continuar a falar sobre essas questões diplomáticas, também no terreno da guerra, mas deixa-me aproveitar que estás conosco, até porque é uma notícia que pode ter implicações também nesta guerra. É uma notícia de última hora, está dissolvido o Parlamento italiano e o presidente Sérgio Mattarella já convocou eleições para o dia 25 de setembro. Tivemos aqui um primeiro anúncio de demissão de Mário Draghi, depois o presidente acabou por segurá-lo, uma moção de confiança, agora acaba mesmo por pedir a demissão, está dissolvido o Parlamento. Que implicação é que isto vai ter para a guerra, mas também para a Europa no geral, politicamente, e na subida dos juros da dívida?

Eu acho que é, de facto, uma péssima notícia. Acho que Mário Draghi, de facto, não sendo um político profissional ou pelo menos um político partidário profissional, tem muita experiência política e portanto percebeu bem que estava numa situação de fragilidade crescente. Aquilo que ele disse foi: "Eu não vou continuar a aceitar ser uma espécie de fachada respeitável", mas com cada vez mais pressões da parte dos vários partidos para fazer concessões, fazer cedências, para não avançar com reformas que são indispensáveis à medida que se aproximava, as eleições estavam previstas mais ou menos para daqui a um ano, o prazo das eleições. É, de facto, uma má notícia. A Itália é a terceira economia europeia, tem muitos problemas, mas é uma economia muito importante. Mário Draghi, nestas instituições internacionais que temos ouvido falar muito, não só a União Europeia, mas a NATO e sobretudo o G7, era uma figura altamente respeitada por causa, nomeadamente, da sua experiência também como responsável do Banco Central Europeu. Foi muito importante no desenhar das sanções, nomeadamente as sanções financeiras contra a Rússia. Depois ainda temos esta questão adicional, que enquanto, por exemplo, na Grã-Bretanha De facto, há uma mudança, mas é uma mudança dentro do mesmo partido. O Partido Conservador continua a ter a maioria absoluta, continuará a governar. Mesmo os trabalhistas, que são o principal partido da oposição, estão muito comprometidos com esta linha de apoio à Ucrânia. Na Itália, de facto, não é assim. Vários partidos nesta coligação que apoiava Draghi eram críticos da sua postura e portanto eram mais pró-russos, eram mais críticos desta guerra económica e das sanções e do seu custo para a economia italiana. E de facto, ainda por cima, as sondagens que nós temos são no sentido de que provavelmente haverá aqui uma mudança em termos dos equilíbrios políticos, nomeadamente reforço de partidos mais críticos da postura Draghi e até do apoio à Ucrânia e mais pró-russos. Portanto, obviamente teremos de ver como é que se enrola a campanha e as eleições, mas à partida eu diria que é uma má notícia do ponto de vista da gestão ao nível europeu e ao nível do Ocidente desta frente unida contra a Rússia e de apoio à Ucrânia. É uma brecha importante que se abre aqui na Itália.

Bruno, a Rússia acusa os Estados Unidos de proibirem a Ucrânia de continuar com as negociações de paz. Existe alguma informação fidedigna que possa indiciar que é isso que está a acontecer ou estamos perante mais um caso de propaganda de Moscovo?

Sim, isso é uma linha constante na narrativa do Kremlin, que é todos os problemas na guerra, na diplomacia, nas negociações, não são por causa da Ucrânia, porque a Ucrânia nem sequer existe, segundo a narrativa do Kremlin. Na verdade, todos os ucranianos querem ser russos, de acordo com essa narrativa também. Portanto, a única explicação para essas dificuldades russas é sempre o Ocidente. Ainda por cima, isso corresponde a uma narrativa também que valoriza o estatuto da Rússia como grande potência. Isto não é sinal de incompetência, de ineficácia das Forças Armadas ou de dificuldades de diplomacia russa. É, sim, o sinal de que a Rússia está aqui a enfrentar a grande potência que são os Estados Unidos. Portanto, corresponde muito a essa narrativa. De facto, todos os sinais que nós temos em público e em privado é que se há alguma coisa, até as potências ocidentais, mais as potências europeias, mas mesmo os Estados Unidos, até seriam favoráveis a que houvesse aqui algum avanço nas negociações. Agora, com condições, ou seja, nomeadamente esta ideia de que isso tem de ser de acordo com os objetivos ucranianos, nos termos que a Ucrânia considera aceitáveis. E a Ucrânia já deixou muito claro que não aceitará fazer cedências territoriais significativas, que não vai aceitar a ocupação destes territórios desde pelo menos 24 de fevereiro, portanto, nestes últimos meses. E isso é incompatível com aquilo que são os objetivos mínimos também anunciados por Moscovo e até expandidos agora nestas declarações mais recentes, no sentido de dizer que não só se trata de anexar o Donbass, mas eventualmente outras regiões, como aliás nós já suspeitávamos há vários meses, ou seja, por exemplo, toda esta zona do sul da Ucrânia, do litoral do mar de Azov e do Mar Negro, que são estrategicamente e economicamente muito importantes para a Rússia.

Bruno, o Reino Unido anunciou que vai enviar mais armas para a Ucrânia, é mais um anúncio. Estamos a falar de drones e sistemas antitanque. Podem fazer diferença no terreno?

Sim, de facto, a Grã-Bretanha tem sido, entre os países europeus, daqueles que tem mais cedo e em maior quantidade apoiado militarmente em termos de armamento a Ucrânia. A Grã-Bretanha tem uma indústria no campo da defesa bastante significativa e avançada, portanto, tem uma maior capacidade de resposta que a maior parte dos outros países europeus, com poucas exceções. Apesar de tudo, a França tem também uma indústria significativa, mesmo a Espanha, a Itália e a Alemanha também, um pouco a Suécia, mas a maior parte dos outros países têm, no essencial, de recorrer a importações ou eventualmente associar-se a projetos mais amplos. Esse é o armamento que é realmente bastante importante, que tem sido muito pedido pela Ucrânia. Um dos problemas que a Ucrânia tem são os ataques por mísseis russos aos centros populacionais, mesmo a uma grande distância da linha da frente. São eles que muitas vezes nos surgem nas notícias associados àquelas mortes trágicas de civis em grandes quantidades. E portanto, tudo o que seja melhorar o sistema de defesa antiaéreo e também antimíssil seria importante, embora com esta limitação, a Ucrânia é um país enorme, portanto, nunca será possível ter esses sistemas espalhados pelo país todo, ou estão a proteger unidades e centros de comando na linha da frente, ou estão a proteger algumas cidades mais importantes ou mais populosas, mas esse seria um avanço importante. Outra questão que é de facto bastante importante é tudo o que seja permitir alguma mobilidade protegida, por exemplo, às tropas ucranianas e desse ponto de vista também o fornecimento, até por Portugal, mas por muitos outros países, de veículos blindados de transporte de tropas, estes M113, por exemplo, que já são um pouco antiquados, mas continuam a ser bastante úteis desse ponto de vista, que são as necessidades ucranianas neste momento.

Bruno, em 30 segundinhos, há aqui também uma clara falta de avanços na linha da frente do Donbass.

Sim, de facto, foi anunciado o fim da pausa operacional, mas parece que, eu diria que nomeadamente como resultado destes novos sistemas de armamento, em particular as HIMARS, das notícias que temos tido de ataques a paióis, a centros de comando, a nós logísticos, por toda a linha da frente, enfim, em zonas muito importantes para o apoio do avanço russo. Isso provavelmente reflete-se numa dificuldade ainda maior da logística russa, que sempre foi relativamente problemática. Aqui no Donbass isso parecia estar mais controlado, até porque era uma frente muito mais pequena, a distância da linha da frente era muito mais curta, mas com estes sistemas mais avançados e com alcance maior, de repente, todo esse sistema logístico mais próximo da linha da frente tornou-se bastante vulnerável. Portanto, eu acho que a par do desgaste em termos de número de baixas, etc, e das dificuldades de recrutamento também por parte da Rússia que temos falado, este será aqui um aspecto novo que ajudará a explicar estas dificuldades do avanço russo. Basta dizer que eles não conseguiram ainda ocupar Siversk, que fica a poucos quilómetros de Lysychansk e de Severodonetsk, portanto mesmo a ponta desta parte do território que a Ucrânia ainda ocupa nesta zona do Donbass.

Obrigada, Bruno Catas Reis, e obrigada também por esta análise e essa dissolução do Parlamento italiano. E amanhã voltamos a estar no Gabinete de Guerra. Obrigada.

Até amanhã.

Rádio Observador