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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise do antigo professor catedrático de História na Academia Militar, António José Telo. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por abordar a situação no Médio Oriente. Quarta ronda de negociações entre Israel e o Líbano, que já terá começado em Washington, é o que garante a agência de notícias estatal do Líbano. António José Telo, o que é que podemos esperar destas negociações, tendo também em conta os desenvolvimentos no terreno, com ataques claros de Israel ao Líbano, alegando estar a atacar forças do Hezbollah?
Boa tarde. Israel está a atacar forças do Hezbollah. Israel tenta justamente estabelecer uma aliança com o Líbano, ou seja, com o que representa o Líbano, na legitimidade que tem, que é o governo do Líbano. E há um entendimento entre Israel e o governo do Líbano pra tentar controlar o Hezbollah. E Israel, o que pretende é, de facto, acabar com a força armada do Hezbollah enquanto força terrorista contra a população de Israel. Portanto, não se pode dizer que Israel esteja em guerra com o Líbano, está em guerra com o Hezbollah, que é uma questão diferente. O que se pode esperar? Essa é a parte mais duvidosa de todas, porque, ao contrário do Hamas, o Hezbollah tem bastante mais força, tem um arsenal bastante maior, tem uma força armada mais significativa e embora esteja numa posição enfraquecida hoje em dia, é uma força armada muito mais difícil de controlar do que o Hamas. Por que está numa posição difícil hoje em dia? Porque, entretanto, a situação evoluiu bastante e a principal ligação do Hezbollah ao Irão, e o Irão é quem o abastece em tudo, a começar no armamento e a começar nos foguetes e nos drones. Essa principal ligação em larga medida está cortada. Talvez não completamente cortada, mas em larga medida cortada, porque passa através da Síria. E outra das grandes vantagens de Israel neste momento é que existe o entendimento com o governo sírio, por um lado, e por outro lado, talvez ainda mais importante, a população da zona sul da Síria, que justamente é vizinha do Líbano, é uma população que tem um entendimento e uma cooperação com Israel. Portanto, a situação hoje no Médio Oriente é bastante diferente do que era há muito pouco tempo, nesse aspecto. No entanto, o Hezbollah continua a ser o principal dos proxies do Irão. E a maneira como o Irão lançou a mão justamente nesta fase é disso um bom exemplo. Israel tem conseguido, dentro do seu programa, resultados notáveis e fora do normal. Um deles, talvez o mais significativo, é que já reduziu o Hamas, enquanto força armada terrorista, a uma pequena sombra daquilo que era, em termos da Faixa de Gaza. O Irão já nem sequer fala em Gaza, quando coloca os termos internacionais, Gaza caiu, está esquecido, pura e simplesmente. Mas o Hamas não está ainda completamente derrotado enquanto força militar terrorista. Portanto, temos que entender as coisas nesse contexto, muito em particular na perspectiva de umas eleições em Israel que se desenham, que irão concretizar-se dentro dos próximos meses. E, na minha opinião, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não se irá traduzir por um regresso do antigo governo de Israel, mas provavelmente vai se traduzir por um aumento da força, senão a conquista do poder, por parte dos ortodoxos, ou seja, de uma força que é muito difícil classificá-la em termos políticos tradicionais, mas é ainda mais à direita do que o atual governo de Israel.
António José Telo, ainda sobre a situação no Médio Oriente. Israel diz ter autorização dos Estados Unidos para retaliar perante ataques do Hezbollah. A minha primeira questão é se podemos esperar em breve ataques em Beirute e como é que se justifica ataques a um país soberano, como é o Líbano, para atingir membros de uma organização.
Eu adoraria dizer que, na minha opinião, Israel não está a atacar o Líbano. Israel, pelo contrário, tem um entendimento com o Líbano e com o governo do Líbano, que é um governo extremamente frágil, fragilizado. Por exemplo, o governo ordenou às Forças Armadas do Líbano que desarmasse o Hezbollah. Elas disseram: "É uma missão impossível, não podemos". E têm toda a razão, não podem. O Hezbollah tem uma força armada bastante superior às Forças Armadas oficiais do Líbano. Aliás, diga-se, quando aqui há uns tempos houve uma força da ONU que foi projetada para o Líbano, era pra cooperar no desarmamento do Hezbollah. Conseguiu fazê-lo? Não. Nessa altura, aconteceu justamente o contrário. O Hezbollah tinha uma autoestrada na sua ligação com o Irão através da Síria e armou-se muito mais em pouco tempo, com a presença da ONU no terreno e com a presença de forças da ONU, devia dizer, inclusive com a presença de forças portuguesas nessas missões da ONU, armou-se bastante mais do que anteriormente. Portanto, como se explica? De uma maneira muito simples. Eu acho difícil é como é que há pessoas que não entendem istoHá uma força terrorista que está há décadas, não é há anos, a lançar foguetes, drones, morteiros e artilharia sobre a população de Israel. E o que Israel faz? Cruza os braços e diz: "Continue, faz favor, estejam à vontade, está um bar aberto, ataquem-nos quando quiserem. Nós ficamos a ver, não fazemos nada."
António Zetél, Israel não fez exatamente o mesmo?
Israel o quê? Desculpe.
Não fez exatamente o mesmo também? Não tem vindo a atacar também há largas décadas, como dizia?
Eu vou perguntar o que faria qualquer país europeu, o que faria Portugal, se estivesse a ser atacado permanentemente na sua fronteira por foguetes e por drones que são enviados. E repare, não é enviado um ou dois, são enviados dezenas, centenas por mês, dezenas por semana, com baixas e com destruição em Israel. Até há relativamente pouco tempo, eram enviados para uma zona que não era muito vasta, porque eram enviados morteiros e foguetes de pequenos alcances. Portanto, era uma zona de cerca de 20 km. Atualmente, não. Atualmente, os drones que estão a ser utilizados, que são os drones FPV, têm um alcance superior, de qualquer modo, têm um alcance que chega aos 30, 40 km e como são muito baratos e fáceis de encontrar, mesmo em termos comerciais, podem ser lançados não centenas, mas milhares. Portanto, há uma situação que é intolerável para Israel por razões compreensíveis. A sua população está a ser atacada. Está a ser atacada por uma organização que foi classificada oficialmente como uma organização terrorista, que ataca a população civil. O que normalmente se considera uma organização terrorista? É uma organização que ataca indiscriminadamente a população civil, independentemente da sua ideologia, independentemente dos seus objetivos, independentemente do que diz querer fazer. Faz isso, ataca a população civil. E neste caso, no caso em particular do Hezbollah, é uma organização que se insere dentro de uma estratégia que foi durante décadas a estratégia do Irão e continua a ser, que é a estratégia de através dos proxies lançar a instabilidade na zona, em particular atacar Israel, que de acordo com a Constituição do Estado Islâmico do Irão, deve ser varrido da face da Terra e mortos todos os judeus, e que está a ser praticada há décadas.
António Zetél.
Custa-me compreender como é que não sentem que há um direito de legítima defesa de Israel.
António Zetél, vamos avançar, até porque há notícias que nos chegam de Teerão de que imagens de satélite mostram que o Irão terá conseguido recuperar já 50 dos 69 acessos a bases subterrâneas que foram atingidas pelos Estados Unidos e por Israel, ou seja, acaba por ter acesso ao armamento que está armazenado em bases subterrâneas. Podemos esperar por isto a escalada do conflito em breve?
Não, Glória. A situação não é tão simples. Não é por o Irão ter recuperado 10%, 15%, 20%, 50%, ou quantos porcento sejam de um determinado tipo de arma, que há uma escalada. Neste momento, na minha opinião, embora seja possível um regresso a campanhas de alta intensidade no Irão, que foram interrompidas já há muitas semanas, mas embora isto seja possível, não é provável. E não é provável porque penso que quer o Irão, quer os Estados Unidos, não estão interessados em que isso aconteça de momento. Estão interessados em que haja um compasso de espera. Agora, um compasso de espera não é uma paz. É isso que é necessário entender. Uma paz é muito difícil existir enquanto estiver aquele regime no poder no Irão, porque aquele regime tem por princípio básico expresso na Constituição, controlar o Médio Oriente através de uma política de dezenas, centenas de organizações proxies que foram promovidas e que conseguiram resultados muito significativos na Iémen, no Iraque, na Síria, agora na Síria sofreu uma importante derrota, no Líbano, em Gaza, e a partir daí, fazendo isso, a destabilizar a zona à sua volta, à volta de um regime que é um regime teocrático e que é um regime que tem como inimigos praticamente todos os outros Estados do Médio Oriente, com a eventual exceção das zonas que os seus própria proxies controlam. E pior que isso ainda, talvez, têm acesso a duas outras coisas que são básicas para a economia mundial e para o Ocidente em particular, que é o Estreito de Ormuz e que é o programa nuclear. E o programa nuclear é uma realidade. Não interessa muito saber se é daqui a três meses, seis meses ou um ano que podem ter armamento nuclear, mas podem ter armamento nuclear. O Irão é o primeiro a reconhecer que tem 400 e tal quilos de urânio enriquecido a 60% ou mais, que só se justifica para a obtenção de armamento nuclear. Portanto, o programa nuclear é uma realidade. E se não é detido agora, eu só faço uma pergunta muito simples: o que acontece amanhã? Se o mesmo Irão, este regime iraniano que não hesitou em matar 40 mil iranianos, e repare que não foi no século passado, nem foi no ano passado, foi em janeiro deste anoMatou 40 mil iranianos que protestavam nas ruas. 35 mil a 50 mil, eu estou a dizer 40 mil, porque é um número intermédio. Portanto, se este regime tem armas nucleares, o que acontece futuramente? Quando ele, por exemplo, imagine que quer lançar um golpe final em Israel e diz: "Olha, a partir de agora, todos os países que mantiverem comércio com Israel, os seus navios não passam no Estreito de Ormuz e o seu comércio com eles não passa no Estreito de Ormuz", e fecha o Estreito de Ormuz. E quem é que vai lá abrir o Estreito de Ormuz quando o Irão tiver um armamento nuclear? Quem é que lá vai? Europa? É porque a Europa é que é afetada, vai ser afetada em larga escala. Não é, de certeza. Então quem é? Estados Unidos? A Europa é a primeira a não concordar com isso e a levantar obstáculos a isso. Então o que acontece? Israel desaparece da face da Terra e depois o que acontece ao Médio Oriente, vizinho, por acaso, da Europa, diretamente vizinho da Europa? E o que acontece aos múltiplos estados do Médio Oriente que neste momento, de facto, são inimigos, podemos dizer, do Irão, que são atacados pelo Irão, estados como a Arábia Saudita, o Kuwait, os Emirados, o Qatar, Omã, enfim, todos, inclusive alguns estados europeus, como é o caso de Chipre. O que acontece nessa circunstância? Se o Irão não for contido agora e se não for contido agora no que é claramente o seu programa maximalista para o Médio Oriente e para a Europa, ele é contido quando? E é contido por quem? É a única pergunta que eu faço. As pessoas parecem volta e meia esquecer o que é fundamental, esquecer o que é básico, esquecer o que são os seus interesses, não de agora, mas desde há décadas, desde há gerações.
Para concluir, António José Tello?
Eu acho que a conclusão já foi tirada. Enquanto o desnorte europeu prevalecer, enquanto a Europa esquecer aquilo que desde 1917, pelo menos, é o pilar central do seu posicionamento no mundo, que é a relação atlântica, e a relação atlântica não depende de qual é o presidente que lá está, é uma relação que excede e muito a questão fulanista de quem é o dirigente, este ou aquele. Mas enquanto a Europa fizer isso, enquanto a Europa esquecer os seus interesses, se deixar desnortear por conjunturas e por utopias, enquanto isso acontecer, a Europa está-se a condenar a si própria, está a dar um tiro na cabeça, que é o que acontece atualmente. Está a dar um tiro na cabeça ajudando a criar uma situação no Médio Oriente que vai ser insustentável, que vai ser impossível de gerir e que vai matar a Europa, pura e simplesmente.
E é com essa ideia do António José Tello que fechamos a edição de hoje do Gabinete de Guerra.