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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a noite em que Donald Trump foi derrotado.
I mean, at the moment, this is the collapse of the president's party, on live television.
Isto é o colapso do partido do presidente em direto na televisão. Era assim que a dada altura o jornalista John King, da CNN, descrevia a noite das eleições intercalares. O Partido Democrata conseguiu não só recuperar a Câmara dos Representantes como virar o Senado e por margens muito maiores do que se imaginava. Uma onda azul que Donald Trump viu chegar e rebentar-lhe em cima a partir da Casa Branca. Agora vai passar os dois anos que lhe restam com o Congresso liderado pelos democratas e isso vai ter implicações na presidência de Trump. É sobre isso que vou falar hoje com o Bruno Cardoso Reis, historiador e especialista em segurança internacional. Vamos ler os sinais que saíram desta noite, vamos elencar as principais surpresas, perceber de que forma Donald Trump ficou mais condicionado e que impacto pode ter este resultado deste lado do Atlântico. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quarta-feira, 4 de novembro. Olá, Bruno, bom dia.
Olá, bom dia.
Estou aqui com esta voz difícil de quem passou a noite acordado a ver as eleições. E para quem não teve esse prazer, Bruno, se calhar vamos começar por olhar para aquilo que se passou esta noite de uma forma mais geral. Qual é que foi a dimensão desta derrota para Donald Trump?
É realmente uma dimensão enorme. Haver uma derrota pro presidente não é propriamente uma surpresa. É um pouco a regra nestas eleições intercalares. É assim, até quase eu diria deliberadamente, os pais fundadores criaram um sistema em que há eleições muito frequentes, dois em dois anos, em que deliberadamente, por exemplo, o Senado nunca vai todo a votos, portanto, é muito mais difícil haver uma maioria nas duas Câmaras que exatamente alinhe com o presidente. E tudo isso está pensado para criar este sistema de pesos e contrapesos e algum contrapeso, nomeadamente ao poder do presidente por via do Congresso. E realmente, os americanos com muita frequência expressam insatisfação com a atuação do presidente. Nos últimos 100 anos, há talvez três exceções a esta regra. A questão realmente era a dimensão dessa derrota. Ora, estamos a falar de uma derrota numa escala que não se via provavelmente desde 1986. É realmente uma maré viva, mais do que propriamente uma onda, não sei se um tsunami, mas é realmente uma derrota muito significativa, sobretudo no caso do Senado, porque há esta questão de só um terço é que vai a votos. À volta de dois terços dos lugares que estavam em disputa eram em estados bastante conservadores, em estados onde Trump ganhou com 10, 15, 20 pontos de diferença nas eleições presidenciais.
Onde não se imaginaria que um democrata conseguisse eleger.
Exatamente. E é aí que realmente surgem também as grandes surpresas. Por exemplo, no caso do Texas, temos um senador democrata, não se via isso desde 1988, desde o Lloyd Bentsen, e temos talvez uma surpresa ainda maior, uma governadora democrata, porque no caso de James Talarico, o candidato que se opunha a ele por pressão de Donald Trump, diga-se, o Ken Paxton era um candidato muito impopular, um candidato que tinha sido afastado das suas funções como procurador pela Câmara dos Representantes do Texas, que era dominado pelos republicanos, por abuso de poder, fraudes, etc. Aí podia ser que era uma eleição mais fácil.
O adversário não era tão forte assim.
Não era grande coisa, mas muita gente esperava: as pessoas vão dividir o voto, vão votar no democrata pra o Senado, mas vão votar no governador, um governador que já estava lá há mais de 10 anos, que era o campeão dos governadores em termos de reeleições em todos os Estados Unidos, o Greg Abbott, também acaba por perder. No Kansas, temos um senador eleito do Partido Democrata pela primeira vez desde 1932, desde a eleição do Franklin Roosevelt, em plena Grande Depressão, que o Kansas, um estado do Midwest bastante conservador, não elegia um democrata para o Senado.
Portanto, isso não sendo, do ponto de vista formal, uma derrota fora do habitual para um presidente que está em exercício, esta teve este tipo de pormenores que mostram até que ponto é que o eleitorado estava insatisfeito com Donald Trump. Uma das leituras que se fez durante a noite foi precisamente por causa disso e pelo fato dele agora ter dois anos em que vai ter de enfrentar um Congresso que não lhe é totalmente hostil, mas que lhe vai fazer frente como até aqui isso não acontecia. Há quem diga que ele vai ter aquela figura que em inglês se chama lame duck, que em português seria uma espécie de pato coxo, mas que quer dizer que ficaria ali quase como em fim de mandato, ou seja, já com poderes limitados. Isso é uma leitura correta, Bruno, ou ele vai continuar a ter muito poder nas mãos?
Eu diria que muito vai depender, desde logo, de como é que o Partido Republicano vai reagir a isto. Ou seja, o Partido Republicano transformou-se no partido de Donald Trump. Isso não era de todo assim em 2016. Em 2016, o Donald Trump derrotou o Partido Republicano para se conseguir impor como candidato.
Agora, na campanha houve alguns que tentaram distanciar-se, incluindo a dizerem que não o conheciam pessoalmente, sequer.
Sim, há alguns sinais disso. Vamos ver se isso é realmente assim, porque Mais uma vez, também em termos do que seria normal na política norte-americana, um presidente em fim de mandato, depois de sair da presidência, não se mantém politicamente ativo ou na medida em que se mantém, mantém-se como um aposto estadista pra dar uma ajuda ao partido quando é preciso. Vimos agora o Obama fazer isso um pouco, mas não tem a pretensão, no fundo, de continuar a condicionar a agenda, a liderança do partido. Mas com Donald Trump eu não estou nada seguro que isso seja exatamente assim. Portanto, eu acho que vamos ter de perceber se realmente Donald Trump consegue manter, e quer manter provavelmente, algum controle sobre o Partido Republicano. Porque a verdade é que em termos dos poderes do Congresso, aquilo que é expectável em termos de política interna, é uma espécie de bloqueio completo, ou seja, a questão do veto do lado do Donald Trump. É possível ultrapassar o veto, mas é preciso ter uma supermaioria no Senado, que os democratas não têm.
Isso, pra dar contexto, Donald Trump já tinha, quase fazendo uma antevisão desta derrota, anunciado que se o Congresso passasse a ser democrata, ele passava a ser o senhor veto, ou seja, vetar tudo que viesse dali.
Sendo que isso tem alguns riscos nesse sentido, que é: há políticas claramente muito impopulares na questão da saúde, por exemplo, onde os republicanos retiraram subsídios e os custos quase que duplicaram em muitos casos. Em questões como as tarifas, por exemplo, aplicadas a um país como o Canadá, em que Trump, aliás, já recuou em algumas dessas tarifas durante o próprio período eleitoral, já nas últimas semanas da campanha eleitoral. Os democratas podem, e provavelmente vão fazer isso, vão propor aí coisas e portanto, no fundo, vão desafiar Donald Trump a vetar e vão desafiar depois os republicanos a votar contra aquilo, na perspectiva de que daqui a dois anos, mais uma vez voltamos a ter eleições e que podem fazer pagar um preço por isso. Mas realmente eu diria: o normal seria aqui uma viragem de página e realmente um presidente muito enfraquecido, e eu acho que realmente enfraquecido estará, mas não quer dizer que Donald Trump se vá comportar como um ator político normal. Acho que isso provavelmente é difícil, tendo em conta que ele tem 80 anos, não o estou muito a ver mudar radicalmente de personalidade nesta altura.
Seria uma grande surpresa. A política tem sempre surpresas, mas essa seria uma delas. Na verdade, Donald Trump até no meio de tudo isto, foi dando entrevistas a dizer que iria trabalhar com os democratas agora e que poderiam trabalhar em conjunto e negociar, mas ele disse a mesma coisa da primeira vez que foi presidente e que também teve umas midterms que não lhe correram particularmente bem naquela lógica que também já falamos, e depois a coisa não aconteceu dessa forma. Portanto, vai ser interessante ver isso. Agora, há aqui uma questão que também se levanta e que tem a ver com o Congresso passar a ter agora uma maioria que lhe permite avançar, de fato, com uma série de investigações e uma série até de comissões que vão fiscalizar com mais pormenor o governo americano, no caso, a presidência de Donald Trump. Isso é um risco que Donald Trump pode correr. Pode haver, imaginemos, um processo de impeachment, por exemplo.
Sim, embora voltamos à mesma questão, que já aconteceu, aliás, duas ou três vezes. Donald Trump é o campeão dos impeachments como presidente, mas é preciso não só uma maioria na Câmara dos Representantes para avançar com esse processo de impugnação de posição do presidente, mas é preciso depois que o Senado, que funciona como uma espécie de tribunal, vote essa impugnação também com uma supermaioria. Portanto, não é de todo provável que isso aconteça.
Pode haver ali algum desgaste, alguma coisa a acontecer, mas não tem consequências.
A maior parte dos responsáveis democratas o que têm estado a dizer é: "Não nos vamos concentrar nisso, temos de nos concentrar nestas questões que interessam aos americanos." A questão do custo de vida, a questão da saúde, a questão das tarifas, e a parte da corrupção. Donald Trump, de acordo com as próprias declarações dele, ganhou no seu primeiro ano como presidente, neste segundo mandato, mil milhões de dólares, isso dá à volta de um milhão de dólares por hora. Ele ganhou mais numa hora do que ganhou num ano com o salário de presidente, que é à volta de $ 400 mil.
A presidência é um negócio rentável, o que é uma coisa estranha.
Com toda uma série de negócios, enfim, coisas como, por exemplo, estes enviados especiais, o Jared Kushner, o Steve Witkoff, ao mesmo tempo estão a fazer negócios com os países do Golfo. Especula-se que estão a fazer negócios com a Rússia. Portanto, isso tudo são áreas que realmente há sinais de que, com o controle, nomeadamente no caso da Câmara Baixa, com o lugar de presidente da Câmara Baixa, speaker, o presidente passa a ter um poder muito importante em termos de controlar a agenda legislativa, mas também, por exemplo, em todas as comissões passa a ser um democrata, a partir de agora, a liderar essas comissões e, portanto, pode mais uma vez definir a agenda, inclusive definir isso. Vai haver aqui um inquérito sobre estas questões. Portanto, eu acho que nesse aspecto há sinais de que realmente os democratas vão apostar nisso, porque estão convencidos que vão conseguir encontrar muita coisa bastante suspeita ou eventualmente ilegal, muito comprometedora para o presidente, pras pessoas próximas do presidente. Portanto, eu diria que talvez mais por aí do que propriamente sobre o presidente voltar a tentar por uma terceira vez a impugnação. Onde se fala disso, na verdade, é no caso do Pete Hegseth, do secretário de Defesa, que é bastante impopular, que teve muitas críticas mesmo de republicanos, que tem afastado dezenas e dezenas de generais bastante prestigiados, que é visto como bastante incompetente. Portanto, pode ser que apostem em algum processo de impugnação.
Se ele não sair antes, também corre o rumor que poderá ser substituído em breve.
O próprio Donald Trump pode usá-lo como bode expiatório pra guerra do Irão.
Ô Bruno, e só pra terminarmos, temos aqui um minuto. Em termos de política externa, desde logo a guerra do Irão, isto vai ter implicações nessa guerra, vai ter implicações, por exemplo, na postura dos Estados Unidos relativamente à guerra da Ucrânia, na relação com os aliados, na NATO. Há alguma coisa que vai mudar nessa lógica?
O presidente tem um enorme poder discricionário na política de defesa e na política externa. Ainda assim, sobretudo com o Senado na mão dos democratas, há alguns poderes adicionais importantes que têm a ver com a questão do Supremo Tribunal, a eventual nomeação de alguns juízes, mas também nomeações para cargos, por exemplo, chefes militares, todos os principais comandos militares têm que passar por confirmação do Senado. Há a questão do orçamento, obviamente, nomeadamente também da defesa. O Senado pode tentar impedir acordos com a Rússia, pode tentar também reverter as tarifas, os impostos alfandegários. Portanto, há aí uma série de áreas onde o Congresso pode ter algum papel. Agora, há sempre esta questão, que é a possibilidade de eventualmente Trump vetar essas decisões. Portanto, realmente há alguma possibilidade maior de controle, mas eu diria que temos que ter aí bastante prudência sobre pensar que vai haver aqui uma mudança fundamental. Até se diz, há esta possibilidade de Donald Trump, no fundo, tentar ter um papel maior para compensar estar muito mais limitado na política interna e eventualmente ter um papel maior vingando-se dos seus inimigos, seja o Irão, seja, por exemplo, alguns governos europeus que ele vê como tradicionalmente aliados dos democratas. Isso não seria completamente de excluir.
Portanto, é estarmos atentos que o mundo não mudou numa noite.
Sim, e os Estados Unidos não mudaram de presidente.
É isso mesmo. Bruno, obrigado.
Obrigado.
Eu conversei hoje com o historiador e especialista em segurança internacional Bruno Cardoso Reis sobre o resultado surpreendente das eleições intercalares nos Estados Unidos. Enquanto tudo isto se passava, Donald Trump dava entrevistas a reconhecer o resultado eleitoral e a prometer trabalhar de perto com os democratas. E ao mesmo tempo, escrevia vários posts na rede social que ele próprio fundou. Nuns queixava-se das escolhas editoriais da Fox News, noutros prometia ser o senhor veto a partir de agora e noutros ainda justificava a derrota com o facto de o nome dele não constar do boletim de voto. Caso contrário, escrevia Trump, teria ganho estas eleições com larga vantagem. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Lourdes Oswald, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.