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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos os principais conflitos e pontos de tensão na geopolítica mundial. Nesta edição contamos com a análise de Pedro Braga de Carvalho, professor de Direito Internacional na Universidade Católica do Porto. Boa noite, Pedro. Depois da derrota do Partido Republicano nas eleições intercalares, o jornal "The Independent" avança que Marco Rubio pondera sair do Departamento de Estado para se distanciar de Donald Trump e preparar uma eventual candidatura presidencial para 2028. Se esta ruptura se confirmar, o que é que isto revela sobre o estado de divisão interna do Partido Republicano e também sobre a sustentabilidade da política externa de Washington nos próximos dois anos?

Muito boa noite, Laura. Obrigado pelo convite. De facto, se se confirmar, porque Marco Rubio ainda não confirmou essas notícias e as fontes do próprio Departamento de Estado, que é o departamento que ele lidera, também não confirmam essas notícias, mas se se confirmar, na verdade, temos o primeiro ato político relevante consequência da enorme derrota dos republicanos nestas eleições intercalares norte-americanas. E eu estava a rever os números precisamente antes da nossa conversa, e repare, independentemente de olharmos para os lugares de senadores da Câmara dos Representantes e mesmo dos governadores que foram conquistados pelos democratas, se olharmos para o voto popular, para números totais, e os números são muito impressionantes, os democratas ganham com mais de 11% em voto popular total aos republicanos, e isso é uma diferença, Laura, de quase 13 milhões de votos. Isto para as pessoas terem uma perceção mais de largo espectro. E o que todos os analistas têm dito, mas não só os analistas, por exemplo, o próprio vice-presidente de Donald Trump, J.D. Vance, o que todos têm dito é que a principal razão que fez com que os republicanos tivessem tido esta enorme derrota nas eleições, foi o aumento do custo de vida, resultado, sobretudo, da guerra no Irão. E essa é uma decisão que é totalmente imputável a Donald Trump. Portanto, até podemos fazer aqui uma interpretação, se calhar, um pouco distinta, quer dizer, mais do que os democratas a ganhar as eleições, foi sobretudo Donald Trump a perder as eleições. Portanto, o eleitor ou os eleitores norte-americanos quiseram, sobretudo, sancionar Donald Trump e a sua política. Ora, Marco Rubio, que é um homem com aspirações a ser presidente dos Estados Unidos, já foi candidato, não conseguiu ser eleito, mas mantém essas aspirações. Se quer ter algum tipo de caminho viável e olhando para estes resultados, pode chegar facilmente à seguinte conclusão, que é estar com Donald Trump é estar com um ativo tóxico e, portanto, é estar com alguém que vai prejudicar o seu caminho para eventualmente chegar à Casa Branca em 2028 e portanto aproveita este momento para se começar a distanciar. Isto por um lado. Por outro lado, um dos possíveis também candidatos republicanos à Casa Branca em 2028 é o próprio vice-presidente, J.D. Vance. Mas o vice-presidente, que também é eleito no sistema norte-americano quando o presidente é eleito, tem muito mais dificuldade de sair, precisamente porque os eleitores, na última eleição para a Casa Branca, também votaram em J.D. Vance. Portanto, ele está muito mais preso desse ponto de vista e a sua ação está mais limitada. Portanto, Marco Rubio, se vier realmente a sair da administração, também consegue ganhar esta vantagem relativamente a um outro adversário republicano. Último ponto, para olharmos para a política externa, conforme a Laura me pergunta. A política externa norte-americana, na verdade, nos dois pontos fundamentais, guerra na Ucrânia e guerra no Irão, ou pelo menos os dois pontos que mais têm consequências para nós, portugueses, nesses dois pontos, Marco Rubio foi relativamente afastado. Repare que não é Marco Rubio que aparece nas negociações, nem com os ucranianos, nem com os russos. São os dois enviados especiais de Donald Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner, portanto, respetivamente, um seu grande amigo e o seu genro. E a mesma coisa verificamos no Irão. Também sempre que houve conversações com os iranianos, mediadas por diferentes países, pelo Qatar, por Omã, pelo Paquistão, mas sempre que houve essas conversações, quem lá foi, foram os mesmos Steve Witkoff e Jared Kushner. Portanto, Marco Rubio foi relativamente afastado destes dois pontos fundamentais da política externa norte-americana, o que também me leva a presumir que não teve grande influência ou que a sua influência é pelo menos muito diminuta nestes dois dossiês. O único dossiê em que Marco Rubio desempenhou um papel importante e que aparentemente continua a desempenhar, é o dossiê Venezuela, o que na verdade também está relacionado com a sua própria história de vida. Marco Rubio é filho de imigrantes cubanos no estado da Flórida e olha para a América Latina com uma especial atenção e olha ainda com maior atenção para casos de países que são governados por sistemas partidários muito relacionados com a extrema-esquerda, até com o Partido Comunista, como era o caso da Venezuela. Agora a Venezuela é sim um animal híbrido, é uma quimera, não sabemos muito bem como é que podemos qualificar a Venezuela, mas tendo Marco Rubio esta preocupação com a América Latina, viu na Venezuela uma oportunidade de fazer uma alteração de regime, que efetivamente, aparentemente se está a produzir E criar um precedente para Cuba. Portanto, este é o único dossiê em que verdadeiramente, dos importantes, claro que haverá outros, mas dos importantes, é o único dossiê que temos Marco Rubio ativo. Nos outros dois, Marco Rubio foi afastado ou então teve a inteligência de se afastar.

Vamos agora olhar para a guerra na Ucrânia. Volodymyr Zelensky e António José Seguro estiveram hoje reunidos em Madrid. O Presidente da República disse, já depois deste encontro, que abordou com o chefe de Estado ucraniano a possibilidade da construção conjunta em Portugal de uma fábrica para a produção de drones. Até agora, Portugal tem focado a ajuda à Ucrânia, sobretudo no apoio diplomático, financeiro ou em material já existente. Dar o salto agora para a coprodução de armamento em território nacional colocaria o país num patamar diferente de desempenho na defesa europeia ou, por outro lado, poderia acarretar novos desafios de segurança que a defesa portuguesa teria de acautelar?

Na verdade, colocará Portugal, se se vier a confirmar, num patamar diferente e, por isso, poder-se-á ter que ter atenção a novas realidades de segurança no país, porque muitas das ameaças híbridas que vêm da Rússia visam precisamente unidades de produção de material que, ou direta ou indiretamente, é depois canalizado para o esforço defensivo dos ucranianos na sua guerra de defesa contra a agressão russa. Repare, Laura, Portugal, apesar de estar a muitos milhares de quilómetros de distância da Ucrânia, é um dos países na União Europeia e na NATO que, de forma consistente, desde 2022, tem apoiado o esforço de defesa ucraniano. E mesmo nos estudos de opinião que se fazem, a opinião pública portuguesa é maioritariamente, e de forma também consistente e sólida, favorável à continuação do apoio português ou europeu, se quiser, de uma forma mais alargada, ao esforço de defesa e de guerra ucraniano. Portanto, desse ponto de vista, penso que o presidente António José Seguro está a interpretar de forma correta aquilo que é um posicionamento maioritário do povo português que ele representa. Quanto aos apoios que Portugal dá, eles são apoios também relevantes, mas nós não podemos deixar de esquecer que estamos a falar, no caso português, de um país relativamente pequeno, com uma capacidade quer militar, quer financeira, que tem os seus limites e, portanto, dentro dos seus limites, Portugal faz um esforço que é relevante, mas que em termos absolutos não é comparável ao esforço de outras grandes potências europeias, porque estamos a falar objetivamente de países com dimensões muito diferentes. Mas do ponto de vista relativo, esta ajuda portuguesa ao esforço de guerra ucraniano é, como já disse, consistente e, portanto, é sólida. Quanto, especificamente, à possibilidade de produção de drones. Nós sabemos, por notícias que já foram saindo na imprensa, que há empresas portuguesas que efetivamente têm desenvolvido drones que depois são adquiridos ou doados através do sistema de doação europeia às Forças Armadas ucranianas e que são usados no seu esforço de guerra. Tivemos, aliás, penso que há dois, talvez três meses, a notícia de que um desses drones tinha mesmo sido capturado pelas Forças Armadas russas e que estava a ser estudado porque o seu sistema apresentava um nível de inovação que as Forças Armadas russas consideraram pelo menos relevante e interessante. Claro que se saltarmos para este novo passo que a Laura se está a referir, isso vai obrigar o país a ter novas preocupações de segurança e defesa, mas estou confiante que as autoridades portuguesas são capazes de acautelar esses mesmos riscos, são capazes de os mitigar. E finalmente, nós não nos podemos esquecer que no caso ucraniano, estamos a falar da Ucrânia ser o país agredido, é vítima nesta ação de guerra russa, e o apoio europeu à Ucrânia não é um apoio dado apenas por razões que se relacionam com os princípios e com os valores que os europeus devem defender, mas é também uma forma de evitar que aquele conflito se alastre eventualmente e se chegue a outros Estados europeus. Portanto, desse ponto de vista, é também um investimento na nossa própria segurança e defesa.

Vamos olhar ainda para uma das notícias que marcaram o dia de hoje. Dezoito aviões comerciais foram alvo de ameaça de bomba. O aeroporto de Roma e as autoridades búlgaras dizem ter recebido ameaças vindas de um grupo de extrema-direita russo, mas o comissário europeu dos transportes diz que ainda é cedo para tirar conclusões. Perante o volume e a coordenação aparente deste evento, estamos perante uma vaga de perturbação pontual ou acha que podemos estar perante uma tática de guerra híbrida?

Eu percebo perfeitamente que as autoridades, por enquanto, não queiram assumir qualquer tipo de autoria, porque certamente estão a recolher provas e as provas que têm não são suficientemente robustas, mas os indícios apontam para uma ação que é coordenada. É muito estranho que, como a Laura explicava, nós no mesmo dia tenhamos tido tantas notícias de tantas ameaças de bomba. Felizmente, nenhuma delas até agora se confirmou, ou seja, foram sempre ameaças que não tiveram uma correspondência com os factos, isso é muito importante, mas não deixam de criar uma disrupção no sistema de transporte aéreo da União Europeia e da Europa de uma forma mais alargada, porque muitos voos tiveram que, de forma coerciva, enfim, coerciva não é o termo correto, mas tiveram que obrigatoriamente pousar para que fossem inspecionados e, portanto, muitas das suas viagens foram interrompidas, outras até nem foram depois terminadas, outras foram terminadas, portanto, isso causou evidentemente uma disrupção. E acho que a circunstância De nós assistirmos a tantas ameaças num curtíssimo espaço de tempo, mesmo que nós não tenhamos a certeza absoluta de quem é a sua autoria, a verdade é que são eventos que ficam de forma perfeitamente coerente dentro da estratégia das tais ameaças híbridas da Rússia. Ou seja, de um conjunto de ações sobre as quais é muito difícil estabelecer autoria, porque são feitas de forma propositadamente encoberta. Não são ações suficientemente, para já, violentas para causar eventual perda de vidas humanas ou danos patrimoniais muito relevantes, mas mantêm sempre as sociedades europeias num estado de ansiedade, de dúvida, de receio, e este é precisamente o objetivo dessas ameaças híbridas. É criar um ambiente político que seja propício a que movimentos, normalmente de extrema-direita, mas também acontece em alguns casos de extrema-esquerda, possam cavalgar esta onda do receio, do medo, para destabilizar politicamente as sociedades europeias, que são aquelas que afinal vão mantendo e sustentando, e bem, como já disse, o esforço de guerra ucraniano na sua defesa contra a Rússia.

Chegamos ao final do nosso tempo. Hoje contamos com a análise de Pedro Braga de Carvalho, professor de Direito Internacional na Universidade Católica do Porto. Pedro, muito obrigada pela sua análise.

Muito obrigado, Laura. Resta um bom dia.

O "Gabinete de Guerra" fica por aqui e está de regresso amanhã.