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Um balde de água fria para o primeiro-ministro de Israel. No momento em que as negociações para formar um governo estão em curso, os ultraortodoxos do partido Judaísmo Unido da Torá (UTJ, sigla em inglês) rejeitaram esta quinta-feira recomendar o nome de Benjamin Netanyahu para liderar o Governo. Já comunicaram a decisão ao Presidente israelita, Isaac Herzog, e oficializam a rutura com o Likud, de que tinham sido aliados na coligação que governa o país desde 2022. O caminho para o chefe do Executivo para se manter no poder está cada vez mais apertado — e Gadi Eisenkot, o principal rival, soma cada vez mais apoios.
Tido como representante dos judeus ultraortodoxos de matriz asquenaz (oriundos da Rússia e outros países do leste da Europa), o UTJ tem exigido que se mantenha a exceção de que sirvam nas Forças Armadas. Apesar de ter prometido isso durante a legislatura, Benjamin Netanyahu não conseguiu responder a essa preocupação de forma contundente. Ao mesmo tempo, Gadi Eisenkot fez campanha a prometer que todos os israelitas se alistem. Isso entra em rota de colisão com os valores do Judaísmo Unido da Torá, o que deveria, em teoria, aproximá-lo do primeiro-ministro — mas o UTJ tem uma forma pragmática de se posicionar na arena política.
O UTJ esteve presente em vários governos de Netanyahu, como o de 2022: Yitzhak Goldknopf liderou a pasta da Habitação, enquanto Meir Porush esteve à frente da tutela dos Assuntos de Jerusalém e Tradição Judaica. Porém, por causa da falta de avanços na exceção de os ultraortodoxos servirem nas Forças de Defesa de Israel (IDF, sigla em inglês), o Judaísmo Unido da Torá rompeu, em 2025, com a coligação do primeiro-ministro — ainda que, na prática, continuasse a providenciar o apoio político que segurou o Executivo até 2026.
▲ Yitzhak Goldknopf, líder do UTJ
POOL/AFP via Getty Images
Para o UTJ e o Shas (outro partido idêntico, que representa os interesses dos ultraortodoxos sefarditas, com raízes na Península Ibérica e no Norte de África, ainda que tenha outros eleitores), a política é apenas uma forma de avançarem os interesses dos seus eleitores. Benjamin Netanyahu pareceu ser aquele que mais se alinhava com a mensagem. No entanto, pragmaticamente, a atual vantagem de Gadi Eisenkot pode levar a que seja cortejado por partidos que à partida pareciam ser contranatura com a mensagem do líder da oposição.
Aliás, o Judaísmo Unido da Torá (que elegeu sete deputados para o Parlamento israelita) até se mostrou disposto a negociar com Gadi Eisenkot, que também já conta com o apoio implícito dos partidos árabes — que desejam afastar Benjamin Netanyahu do poder. Nesta conjunção de forças, o rival do primeiro-ministro está cada vez mais bem posicionado para se tornar primeiro-ministro, mesmo que, no poder, possa ter de contentar fações bem distintas.
Os ultraortodoxos que se preocupam em estudar a Torá e que olham para a política com desinteresse
A conceção da política para os ultraortodoxos não é a mesma do que para os seculares. Correspondentes a cerca de 14% da população, dedicam a vida à religião. Conhecidos como haredi, toda a sua vida é regulada pela Torá (o livro sagrado dos judeus) e pelos seus princípios. Aliás, a sua missão de vida consiste em estudar textos religiosos, sendo o quotidiano regido por normas sociais bem rígidas. Também são facilmente reconhecidos, usando roupas modestas (fatos pretos e chapéus) e cabelos longos.
▲ Judeus ultraortodoxos usam roupas e penteados típicos
Getty Images
Aquando da formação de Israel, em 1948, o país acolheu diferentes populações, ou, como explicou o antigo Presidente Reuven Rivlin, “quatro tribos”: os seculares, os religiosos nacionalistas, os haredim (outro termo para ultraortodoxo) e os árabes. Oriundos de vários países, todos estes conviveram nos mesmos territórios, apesar de professarem diferentes formas do judaísmo e terem diferentes valores. Neste contexto, a política acabou por ser um espaço em que competem ou se entendem.
Contudo, os haredim sempre beneficiaram de várias exceções. A principal? Num país que teve de lutar pela sobrevivência, rodeado de inimigos ao longo da sua História, os ultraortodoxos puderam ficar isentos do alistamento nas IDF para se dedicarem aos estudos religiosos. Mantêm ainda a sua própria rede escolar, não integram o mercado de trabalho e muitos ainda vivem numa minissociedade, em que se tentam afastar do secularismo.
Se quando chegaram a Israel correspondiam a apenas cerca de 5% da população, a comunidade tem vindo a expandir-se rapidamente, porque se opõem ao uso de contracetivos e promovem as famílias numerosas. Por conseguinte, tornaram-se uma minoria com peso determinante — representando já cerca de 14% da população. Essa minoria tem força nas urnas e tem exigido cada vez mais dos sucessivos governos, mostrando uma forte resistência à mudança e à perda de direitos.
▲ Ultraortodoxos ganharam peso nas eleições
dpa/picture alliance via Getty I
Antes do início da guerra em Gaza, já existia algum descontentamento entre os seculares (que são a maioria da população) com algumas exceções que regulam a vida dos haredim. Mas eram mais ou menos toleradas. Desde o 7 de Outubro de 2023, muitos revoltaram-se contra as exceções e cansaram-se de carregar o fardo da guerra sozinhos. Ainda assim, os ultraortodoxos não abdicaram das suas posições e exigiram não se juntar às IDF. Os rabinos ultraortodoxos, que são figuras bastante influentes, mantêm as linhas vermelhas.
A mensagem dos conselhos rabínicos, as autoridades que coordenam os ultraortodoxos, é simples: mais vale “ir para a prisão do que para o Exército”. Existe ainda uma divergência de fundo: muitos haredim não são sionistas. Para eles, apenas Deus governa e não há espaço para nacionalismos religiosos — algo que é defendido por outros partidos de extrema-direita israelita. Muitos aceitam viver em Israel pela proximidade a locais de culto, como o Muro das Lamentações, em Jerusalém, que consideram a terra sagrada.
Mesmo que não sejam sionistas, apenas uma minoria se recusa totalmente a aceitar o Estado, tendo havido uma certa moderação ao longo das décadas. Sempre com uma contrapartida: que esse Estado proteja o seu estilo de vida. Assim, em termos filosóficos e religiosos, o conceito de respeitar as entidades estatais não faz sentido para os ultraortodoxos. O Reino de Deus não é material e não se corporiza na bandeira israelita — é espiritual e baseia-se no cumprimento dos mandamentos da Torá.
▲ Ultraortodoxos com um cartaz: "Israel é um país antissemita"
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Em virtude desta perspetiva, o poder político em si não os atrai. A entrada no Parlamento serve um propósito funcional: defender os interesses prioritários da comunidade, ou seja, assegurar a isenção militar das IDF, obter financiamento para a habitação e para as suas escolas e manter a total autonomia do seu sistema de ensino. O patriotismo, uma marca deste Governo de Benjamin Netanyahu e do próprio Likud, é uma noção que passa totalmente ao lado dos haredim.
Existem também especificidades e interpretações dentro da própria comunidade ultraortodoxa. O Judaísmo Unido da Torá defende os interesses da vertente asquenaz, integrando a corrente lituana e diversas fações do movimento hassídico, originárias de outros países da Europa de Leste. Por sua vez, o Shas nasceu para dar representação social e política aos judeus sefarditas e aos mizrahim, oriundos do Médio Oriente (como os judeus do Iémen, Iraque ou Síria).
Por conta da falta de interesse na política e desalinhamento da própria noção de sionismo, o UTJ e o Shas são flexíveis com as coligações que montam para o Governo. Apoiam Benjamin Netanyahu desde 2009; no entanto, nos anos 90, viabilizaram Executivos trabalhistas de esquerda. Para os ultraortodoxos, as noções convencionais de esquerda e direita são irrelevantes, recusando envolver-se nas disputas ideológicas que dizem fazer parte do mundo secular.
▲ Benjamin Netanyahu aliou-se várias vezes aos judeus ultraortodoxos
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Sob a liderança de Benjamin Netanyahu, o Likud, de direita nacionalista, procurou cultivar uma boa relação com o bloco ultraortodoxo. Em sentido contrário, o centro político (que representa em especial a maioria secular concentrada nos grandes centros urbanos como Telavive ou Haifa) manteve-se historicamente afastado, com várias vozes a criticarem os subsídios estatais concedidos à comunidade e a isenção de alistamento nas IDF.
Eisenkot é a favor do alistamento de todos nas IDF. Porque estão os ultraortodoxos dispostos a apoiá-lo?
Durante a campanha para as legislativas, Gadi Eisenkot manteve-se muitas vezes ambíguo sobre o que faria se chegasse a líder do Executivo. O pai que perdeu o filho em Gaza tinha duas bandeiras: terminar com a exceção dos ultraortodoxos nas IDF e abrir uma comissão de inquérito para investigar as razões que levaram ao 7 de Outubro. Tendo em conta a primeira premissa, teoricamente o UTJ deveria afastar-se dele e tentar de tudo para Benjamin Netanyahu ser reeleito primeiro-ministro — mas não é isso que está a acontecer.
Na coligação entre ultraortodoxos da corrente lituana e hassídica que compõe o UTJ, os rabinos e líderes espirituais vieram declarar que o partido não deveria apoiar ou formar governo nem com Benjamin Netanyahu, nem com Gadi Eisenkot. Se para o líder da oposição isso já era expectável, para o primeiro-ministro representou um duro golpe. Como refere o Times of Israel, os ultraortodoxos frustraram-se com a incapacidade do chefe do Executivo em garantir a aprovação da lei que consagra a isenção de servir nas IDF, sentindo que a legislação não avança e que Netanyahu os está a instrumentalizar para preservar a sua maioria no Parlamento.
▲ Rabinos declararam que não iam apoiar nem Eisenkot, nem Netanyahu
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O Supremo Tribunal israelita recusou as propostas de lei do Executivo para prolongar a isenção do serviço militar e ordenou o corte de subsídios estatais às famílias dos jovens em idade de recruta, em agosto de 2026. O congelamento de fundos foi um duro golpe para os haredim, que enfureceu os rabinos e deixou-os bastante irritados com Benjamin Netanyahu. Encurralado pelo poder judicial e pela pressão secular, o primeiro-ministro ainda tentou chegar a acordo, mas sem qualquer sucesso.
Ainda assim, durante as eleições legislativas, os ultraortodoxos integravam o bloco liderado por Netanyahu, juntamente com o Likud e a extrema-direita nacionalista. No entanto, após serem conhecidos os resultados, o UTJ decidiu romper com a aliança. Se antes os aliados do primeiro-ministro somavam 53 lugares — sendo a estratégia tentar angariar deputados noutras listas para atingir a maioria —, a saída do Judaísmo Unido da Torá e dos seus sete parlamentares deixa agora o bloco de Netanyahu reduzido a 46 deputados, um valor cada vez mais distante da fasquia da maioria, de 61 deputados.
O atual primeiro-ministro está, por isso, cada vez mais isolado. Embora continue a contar com o apoio do Likud e dos ministros da extrema-direita nacionalista, a perda destes ultraortodoxos representa um golpe quase fatal na sua capacidade de formar maioria. Os tempos políticos parecem estar a mudar em Israel — e os ultraortodoxos talvez pressintam que, para salvaguardar o seu estilo de vida, terão de negociar com Gadi Eisenkot.
▲ Sem apoio do UTJ, Benjamin Netanyahu fica numa posição bastante difícil para liderar Israel
DEBBIE HILL / POOL/EPA
Em sentido inverso, a posição do rival de Benjamin Netanyahu está cada vez mais fortalecida. As duas principais coligações de partidos árabes — a Lista Unificada e o Ra’am — declararam, em consultas com o Presidente Isaac Herzog, vontade de viabilizar um novo Executivo liderado por Gadi Eisenkot, desde que o atual chefe de Governo seja afastado do poder. O general consegue assim somar os 19 deputados representados pelas forças árabes, alcançando uma maioria de 66 mandatos que lhe abre as portas para a chefia do Governo.
Neste cenário, os partidos ultraortodoxos não querem ficar na oposição. Um Governo centrista e secular suportado pelos árabes transformar-se-ia num pesadelo para a comunidade. Gadi Eisenkot pode mesmo impor o fim das exceções para servir nas IDF. Fiéis à sua postura pragmática e sem amarras ideológicas, o UTJ pode sentir-se tentado a abrir negociações diretas com o rival de Benjamin Netanyahu, na tentativa de assegurar, no mínimo, um acordo de compromisso que proteja o seu estilo de vida.
O Shas adota uma postura distinta, preferindo manter-se sob a alçada do bloco de Netanyahu. Ainda que represente a comunidade ultraortodoxa sefardita, o partido consegue alargar a sua base eleitoral a muitos outros eleitores conservadores dessa mesma ascendência. Nas últimas eleições, contudo, sofreu um duro golpe ao perder cinco deputados, fixando-se nos 5,26% dos votos. Para isso, terá contribuído o facto de Gadi Eisenkot ser filho de pais marroquinos e ser de origem mizrahim.
Para o Shas, Gadi Eisenkot representa um rival político direto com capacidade para captar o seu eleitorado: um judeu com origens marroquinas pode identificar-se facilmente com ele. O potencial desta ameaça justifica a decisão de permanecer ao lado de Benjamin Netanyahu, mesmo estando o primeiro-ministro cada vez mais fragilizado. Já o UTJ não enfrenta esse dilema: enquanto força ultraortodoxa asquenaz, está mais livre para encetar negociações com o líder centrista.
O calculismo ambivalente de Eisenkot e do UTJ
De qualquer forma, Gadi Eisenkot não necessita do apoio dos ultraortodoxos para governar, se se confirmar o apoio dos partidos árabes. Aliás, a integração dos partidos haredim poderia até inviabilizar uma coligação: Avigdor Lieberman, líder do Yisrael Beiteinu (força política que defende os interesses dos asquenazes seculares, em particular os originários da União Soviética), já declarou que se recusa a integrar um Executivo que esteja dependente do bloco religioso.
O dilema também é para o UTJ: são pragmáticos ao ponto de colaborar com alguém que defende abolir algo que tanto valorizam? Por um lado, se estiverem do lado do Governo, podem tentar influenciar uma lei de recrutamento. Fora, não conseguem. Porém, como nota o Jerusalem Post, Gadi Eisenkot, pese toda a hostilidade na campanha, pode oferecer outras regalias, no que diz respeito, por exemplo, aos fundos para as suas comunidades.
▲ Gadi Eisenkot tem-se mantido ambíguo sobre o futuro das coligações
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
De ambos os lados, há ambiguidade calculada. Caso o UTJ inicie negociações com Gadi Eisenkot, como reitera o Jerusalem Post, “resta saber se voltarão a insistir em receber o que pretendem de imediato, ou se concordam em oferecer o seu apoio primeiro”. O eventual primeiro-ministro também sabe que uma coligação com os ultraortodoxos pode ser prejudicial e gerar problemas numa futura coligação. Assim, ambas as partes mantêm-se ambíguas; ainda assim, a decisão de abandonar o bloco de Netanyahu carrega um valor simbólico — é um sinal dos ultraortodoxos asquenazes para ser lido por Gadi Eisenkot.
Direita, esquerda, centro ou radicais. Para o UTJ, todas estas são categorias com pouco significado. Os ultraortodoxos de matriz asquenaz governam para salvaguardar os interesses e o modo de vida das suas comunidades. Durante anos, Benjamin Netanyahu foi a figura que melhor garantiu essas condições, mas está agora mais frágil. Gadi Eisenkot aparenta ser o homem mais bem colocado para liderar Israel. Nestes termos, mesmo para quem dedica muito do seu tempo à vida espiritual e ao judaísmo, quem tem o poder continua a ser o mais importante.
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